Sexta-Feira, 08 de May de 2026

Postado às 14h30 | 08 May 2026 | redação Isolda, Plúvia e Brisa reúne mais de 300 pessoas em Movimento Feminista

Crédito da foto: Divulgação Debate foi promovido pelos mandatos da deputada Isolda Dantas e das vereadoras Brisa Bracchi (Natal)

Batizado de “Feminismo Urgente", evento contou com a participação das sociólogas Bruna Camilo e Tica Moreno, que defendem mais educação e maior fiscalização às big techs como forma de combater a violência contra mulheres. Debate foi promovido pelos mandatos da deputada Isolda Dantas e das vereadoras Brisa Bracchi (Natal) e Plúvia Oliveira (Mossoró) e pelo Movimento Feminista

“A gente tá pensando muito na criminalização da misoginia, mas só prender não vai adiantar. Se a prisão apenas funcionasse, a gente não tava como a gente tá. Criminalizar a misoginia é para além da punição com o agressor. A gente tem que pensar em educação e, principalmente, nas big techs. É suspensão, é multa, coisas pesadas, porque é a big tech que está entrando nas nossas casas". A avaliação é de Bruna Camilo, socióloga, cientista política e doutora em Ciências Sociais pela PUC Minas, pesquisadora em gênero e misoginia, que está participando em Natal e Mossoró do seminário “Feminismo Urgente”. Em Natal, o debate foi promovido na quarta-feira (6), no início da noite; e em Mossoró ocorreu na manhã desta quinta-feira (7).

Junto com Bruna Camilo também veio para o evento Tica Moreno, que é doutora em Sociologia pela USP e integrante da coordenação nacional da Marcha Mundial das Mulheres (MMM) e da Sempreviva Organização Feminista (SOF).

O seminário feminismo Urgente é uma iniciativa é organizada pelo grupo Corpopolítica (UFRN), pela Marcha Mundial das Mulheres, pela DIAAD/UERN, em parceria com a Faculdade de Serviço Social, PROEC/UFERSA, pelo Centro Feminista 8 de Março e pelos mandatos da deputada estadual Isolda Dantas e das vereadoras Brisa Bracchi e Plúvia Oliveira.

A discussão chega ao RN no momento uma das principais notícias sobre o assunto é que o Brasil registrou alta de 7,5% no número de vítimas de feminicídios no primeiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período de 2025.” Ao todo, foram 399 vítimas entre janeiro e março de 2026, ante 371 no mesmo intervalo do ano passado. No RN foram 10 vítimas.

No Brasil, esse é o maior número para um primeiro trimestre em toda a série histórica dos últimos 11 anos, de acordo com o Ministério da Justiça e Segurança Pública. Isso equivale a uma média de quatro mulheres assassinadas por dia em contextos de violência doméstica, familiar ou envolvendo desprezo ou discriminação à condição feminina.

Na quarta-feira, em Natal, o auditório do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) ficou lotado, com mais de 100 participantes. Na quinta-feira, em Mossoró, no auditório da FAFIC – UERN (Campus Central), estima-se que mais de 200 pessoas acompanharam o debate. A organização acredita que a discussão envolveu mais de 300 pessoas.

Bruna Camilo ficou conhecida nacionalmente por investigar as redes de “red pills”, termo usado para identificar membros de uma subcultura misógina e machista que atua principalmente na internet e promovendo o ódio contra mulheres. Segundo ela, desde o início dos anos 2000, esse tipo de comportamento.

“Então, assim, a questão não é a internet, mas quem manipula a própria internet. Por que que essas big techs, a Meta, o YouTube, o Elon Musk, empresas permitem isso. Essa é a questão: que esses conteúdos sejam produzidos e sejam entregues para as pessoas", ressaltou.

A socióloga explica que essa defesa da punição às big techs é feita porque são essas plataformas que acabam permitindo a existência desses conteúdos. E isso ocorre porque esse tipo de material gera lucro para essas empresas. “A gente já sabe que a misoginia é lucrativa, que os homens estão vendendo cursos de coach para serem bem-sucedidos, para serem ricos, para conquistar a mulher que quer”, explicou, observando que isso é feito exatamente na internet.

Tica Moreno complementa que o trabalho se dá exatamente nesse contexto, de lutar “para mudar a correlação de forças na sociedade" e conseguir mais representatividade, com mais mulheres nos parlamentos municipais, estaduais e federal, visando aprovar mudanças como essa, que promovam mais proteção às mulheres. “Quando começou o feminismo, a gente não tinha nem direito ao trabalho, ao voto, educação. E a gente só conseguiu tudo isso porque se organizou, criou estratégia e foi para cima", lembrou, comentando sobre como essa luta é trabalhosa.

Elas explicam ainda que a forma da extrema direita de fazer política atualmente é disseminar o ódio usando a internet. E é exatamente isso que conecta o combate à violência contra as mulheres com a questão das big techs. Segundo elas, esse tipo de prática não seria possível sem a conivência dessas plataformas controladas por essas empresas. “A questão da luta das mulheres hoje, enfrentando a misoginia na internet, é também uma questão da disputa da sociedade brasileira por democracia, contra a volta da extrema direita", afirmou Tica Moreno. E acrescentou: “Não é uma luta separada. É uma luta central para a gente conseguir continuar tendo condições de avançar como sociedade nos direitos em geral".

 

Parlamentares do RN defendem mais debate sobre o assunto

Em Natal, a vereadora Brisa Bracchi é um exemplo de como uma mulher pode ser alvo de misoginia. Durante todo seu mandato ela vem sendo atacada por integrantes da extrema direita e chegou inclusive a receber ameaças, caso investigado pelo Ministérios da Justiça. A deputada Isolda Dantas, na Assembleia Legislativa, também já foi atacada por outros parlamentares. “Enquanto feminista, espero que internet não seja uma rua escura, abandonada pelo Estado e arena de violência. Que consigamos, nos espaços virtuais e reais, construir alternativas para que as estatísticas que nos permeiam fiquem cada vez mais no passado", afirmou Brisa Bracchi.

A deputada Isolda Dantas lembrou que o discurso misógino no Brasil ganhou espaço nos últimos anos. “Nós tivemos um presidente da República que disse que nós éramos uma fraquejada, que disse que mulher tem que ser submissa ao marido. Esses elementos do ódio vão ganhando força", observou. “Para nós nunca foi padrão ser o homem que determine; para nós nunca foi padrão nos considerar como cidadão de segunda classe ou como cidadã que não pensa. Isso sempre esteve presente no cotidiano das nossas vidas, mas isso aparece nesse momento com o avanço da extrema direita, aparece com esse tema do ódio, da raiva, do querer aniquilar esse inimigo, essa inimiga que somos nós, as mulheres", disse.

A vereadora Plúvia Oliveira defendeu que esse debate sobre o feminismo precisa envolver a questão racial. “Eu perguntei para a Bruna (Camilo): ‘Como é que esses caras se movimentam com as mulheres?’ E ela disse: 'elas não chegam nem a ser gente'. Porque é muito mais cruel essa face do racismo também nesses grupos de ódio. E a gente precisa também, quando for debater sobre isso, entrelaçar o debate racial", defendeu.

A militante feminista Estefane Maria, da Marcha Mundial das Mulheres, explicou o seminário “Feminismo Urgente” faz parte de um trabalho mais amplo. “Envolver a Universidade com o movimento Feminista é fundamental e precisa seguir, especialmente para fortalecer o feminismo entre a juventude. Essa é a primeira parte de um ciclo de atividades que vamos realizar nacionalmente, casando com mobilização e ocupação, também, das redes. Faz parte da nossa luta pela derrubada desse sistema capitalista, patriarcal e racista", afirmou.

Tags:

Seminário feminista
polítia
Mossoró
Natal

voltar