Vereador fala com preocupação sobre o comprometimento das finanças municipais que o empréstimo de R$ 200 milhões, pedido pelo prefeito Allyson Bezerra, podá provocar. Pablo Aires responde sobre vários temas em entrevista ao Cafezinho com César Santos
Vereador Pablo Aires está no Cafezinho com César Santos
Por César Santos / Jornal de Fato
O vereador Pablo Ares (PSB) desponta como um nome viável para disputar a Prefeitura de Mossoró em 2024. A sua atuação na Câmara Municipal em defesa de pautas que, historicamente, não são visitadas pela política tradicional, o colocou em posição de destaque.
Pablo tem sido a voz mais forte em defesa da causa animal, do público LGBTQIA+, das famílias que estão em situação de rua e de pessoas que sofrem sem ter acesso às politicas públicas. Essa posição de destaque, porém, ainda não o convenceu de disputar a Prefeitura de Mossoró nas próximas eleições.
“Hoje, eu não me sinto candidato a prefeito”, afirma, nesta entrevista ao Cafezinho com César Santos. Pablo fala com preocupação sobre o pedido de empréstimo feito pela gestão municipal, que pode comprometer as contas públicas; da luta para levar água de beber às pessoas em situação de rua; e de como a oposição atua para enfrentar o poderio governista. Leia:

A Prefeitura de Mossoró pediu empréstimo de R$ 200 milhões à Caixa Econômica com juros de 135,27%, o que fará o município pagar mais de R$ 185 milhões só de juros. Como o seu mandato observa essa operação de crédito?
Eu vejo com muita preocupação. Entendo que a cidade precisa de novos investimentos, mas o município ficará com um grande endividamento nos próximos anos, comprometendo boa parte do seu dinheiro para pagar esses empréstimos. Hoje, Mossoró já paga o empréstimo do Finisa que se somará a esse novo empréstimo da Caixa, que só de juros o município deve pagar R$ 185 milhões. A Prefeitura, que diz não ter condições de pagar o Piso dos Professores, segue fazendo dívidas com juros altíssimos nos bancos com os empréstimos. E vale lembrar que essa dívida aos bancos deve aumentar, já que a Prefeitura fará outras tomadas de empréstimo.
O valor global que o município terá que pagar é de mais de R$ 385 milhões, quase o dobro do dinheiro que receberá emprestado. Se a gestão do prefeito Allyson Bezerra assinar esse pedido de empréstimo, quais as consequências que o senhor espera acontecer?
A lei que autoriza o empréstimo no valor de R$ 500 milhões feito pela Prefeitura colocou como garantia os impostos do município e até transferências obrigatórias constitucionais, o que gera um grande risco. Isso quer dizer que se em algum momento a Prefeitura não conseguir pagar o empréstimo, o município deixará de ofertar serviços básicos, gerando atraso nos salários dos servidores, falta de medicamentos nas unidades de saúde, desfalque na alimentação escolar, além de outros problemas gerados à população. A cidade viverá nos próximos anos com o risco de instabilidade financeira pública.

O pedido de empréstimo bate de frente com o fato de a gestão municipal alegar que não implanta o novo piso salarial dos professores porque não tem orçamento suficiente para arcar com o impacto financeiro. Essa é uma questão de prioridade?
Sim, mais uma contradição. A Prefeitura não está dando prioridade à educação quando se nega a pagar o piso dos professores. Desde a criação do piso, todos os Prefeitos cumpriram essa lei e agora é a primeira vez em Mossoró que a Prefeitura se nega e ainda tenta criar uma narrativa dizendo que já paga e colocando a população contra os professores, sendo que não é uma verdade.
Aliados da gestão municipal criticam que o senhor não defende os educadores do estado, que estão em greve, como defende os grevistas do município. Como o mandato do senhor está atuando em relação à greve dos professores?
O pagamento do Piso é Lei. Tanto o Governo do Estado quanto a Prefeitura devem cumprir a lei e pagar o Piso da educação. Já falei sobre isso em entrevistas e nas minhas redes sociais, cobrei do Prefeito de Mossoró e cobrei da Governadora do Estado do RN. A educação parou, as escolas municipais e estaduais de Mossoró estão vazias novamente depois de 2 anos de pandemia, e a culpa não é dos professores. Agora a minha atuação enquanto vereador exige de mim uma fiscalização sobre a gestão municipal, mas reafirmo o meu posicionamento e a minha cobrança também ao governo do estado.

A greve dos professores, ao mesmo tempo em que o Ministério Público Estadual denuncia negligência da gestão municipal com a educação de alunos, desclassifica o programa Mossoró Cidade Educação?
Sim, como Mossoró é a Cidade Educação se os alunos não conseguem se matricular nas escolas e os professores estão em greve? Olha só, enquanto a gente era bombardeado por todos os canais de imprensa e redes sociais, com a publicidade feita pela gestão municipal sobre o programa Mossoró Cidade Educação, o nosso gabinete recebia diariamente pais e mães desesperados que não conseguiam matricular seus filhos, isso lá em janeiro durante o período de matrículas. Inclusive, na ação do Ministério Público está anexado um documento do nosso gabinete fazendo essa denúncia. Enquanto os professores buscavam diálogo com a Prefeitura sobre o cumprimento do Piso da Educação, todos foram surpreendidos com uma fake news onde a Prefeitura afirmava que já pagava acima do piso. Uma publicidade absurda financiada com o dinheiro público. Infelizmente até aqui, só vejo a Prefeitura tratando o programa Mossoró Cidade Educação como um produto que vende na mídia, mas que não chega para os alunos e professores.
O senhor apresentou projeto, com pedido de urgência, para levar água de beber para as pessoas em situação de rua. Como o projeto foi recebido na Câmara e de que forma ele deve ser desenvolvido?
O nosso projeto de lei prevê a instalação de bebedouros públicos com água potável em alguns pontos da cidade. Esse é um programa que já acontece em outros munícipios e é viável de acontecer aqui também. Porém, na Câmara Municipal, a sede de pessoas em situação de rua em Mossoró, infelizmente, não foi vista como um assunto urgente e o nosso requerimento foi rejeitado. Agora me responda: se água potável para matar a sede de pessoas vulneráveis não é urgência, o que mais será? O projeto nasceu em conversa com algumas pessoas que vivem nas ruas, ali na praça em frente à catedral. Elas falaram que são frequente as ações de pessoas com entrega de comida, principalmente à noite, porém a água para beber durante todo o resto do dia é o mais difícil. O meu compromisso é que não vamos desistir. E enquanto vereador e presidente da Frente Parlamentar de combate à fome e desigualdade social, iremos continuar o debate e buscar soluções rápidas para que o mínimo seja oferecido. Enquanto isso, o nosso projeto segue a tramitação pelas comissões temáticas da Câmara Municipal.

O senhor quer dizer que as políticas públicas da gestão municipal não estão chegando à ponta onde se encontram as pessoas mais necessitadas?
Infelizmente, as políticas públicas não estão chegando aos que mais precisam. A própria população pode ver o aumento de pessoas nos sinais e dormindo nas ruas pedindo o básico que é comida e água. Na educação também não é diferente, o relatório do Ministério Público sobre a denúncia de negligência da Prefeitura no ensino municipal, duramente fala sobre a “metodologia de exclusão” e aponta que os alunos que não conseguiram vagas nas escolas municipais são de famílias que vivem em situação de vulnerabilidade social.
A oposição na Câmara dá sinais de fadiga, com alguns membros visivelmente, digamos, acomodados. Qual avaliação o senhor faz da bancada? Há um enfraquecimento?
Olhe, as nossas fiscalizações e opiniões às vezes são engolidas por um marketing pensado para pintar uma cidade perfeita e isso pode parecer em alguns momentos enfraquecimento. Alguns amigos me falavam que era impossível lutar contra a máquina da Prefeitura e até hoje minha resposta para essa afirmação é a mesma. Enquanto vereador, continuarei realizando a minha função de fiscalizar a gestão municipal e mostrar no parlamento e nas redes sociais a verdade. Quero conversar com as pessoas que querem saber a verdade e construir uma cidade melhor para as próximas gerações, então se o meu trabalho chegar até essas pessoas eu estarei certo de que meu dever está sendo cumprido.

O senhor acredita que a oposição terá capacidade de construir uma chapa forte para disputar a Prefeitura de Mossoró em 2024?
Tem alguns nomes com um bom trabalho já realizado e que mostraram força nas eleições do ano passado, onde o Prefeito com toda a máquina não conseguiu êxito. Mas até 2024 muita coisa ainda pode acontecer, os partidos estão conversando sobre a formação de novas federações, então alguns nomes podem nascer ou saírem mais fortalecidos com essas mudanças.
O senhor pode colocar o seu nome à sucessão do prefeito Allyson Bezerra?
Olha, hoje eu não vejo o meu nome como candidato a Prefeito em 2024.
O senhor preside o PSB de Mossoró, mas o partido parece sem quadros para formação de nominata à Câmara Municipal. Como o senhor vai solucionar essa questão? Há possibilidade de mudança de partido?
O PSB é um dos partidos que está discutindo a formação de uma nova federação com outros partidos, então por enquanto estou aguardando o avanço desse diálogo para que possamos entender como será o cenário de 2024.
Tags: