Quinta-Feira, 12 de março de 2026

Postado às 10h30 | 13 Dez 2025 | Padre Antoniel: : 'A nossa esperança tem uma face que se chama Jesus'

Crédito da foto: Jornal de Fato Padre Antoniel Alves, pároco da Catedral de Santa Luzia

Por César Santos / Jornal de Fato

Um padre jovem, com pouco mais de cinco anos de ordenação presbiteral, mas pronto e preparado para a sua primeira grande missão na vida religiosa. É assim que Antoniel Alves da Silva lidera a Paróquia de Santa Luzia desde fevereiro deste ano, nomeado pelo bispo dom Francisco de Sales para suceder o padre Flávio Augusto Forte Melo, que ocupou o cargo por nove anos.

Quando foi apresentado oficialmente à comunidade católica da Diocese de Mossoró, Padre Antoniel estendeu as mãos ao Povo de Deus e foi recepcionado da mesma forma. “Os anos vividos em Encanto e Dr. Severiano fizeram com que eu compreendesse a riqueza do caminhar juntos. Chego à Catedral com as mãos estendidas e com um único desejo: encontrar mãos estendidas”, disse naquele momento.

Agora, quase 10 meses depois, Padre Antoniel enfrenta o desafio de conduzir a Festa de Santa Luzia no palco da padroeira dos olhos, um dos maiores eventos da Igreja Católica do Rio Grande do Norte. A festa se encerra neste sábado, 13, com a tradicional procissão, com mudança para valorizar 100% a evangelização, e criar novos conceitos em torno da celebração da padroeira dos mossoroenses.

O padre Antoniel Alves da Silva nasceu na comunidade Trincheira, zona rural de Antônio Martins, município do Alto Oeste potiguar. Filho primogênito do casal de agricultores Antônio Monteiro da Silva e Janeide Alves Rocha Silva. Tem apenas uma irmã e dois sobrinhos.

A sua formação e atuação do clérigo começa com licenciatura em Filosofia na Universidade do Estado do RN (UERN), segue com bacharelado em Teologia pela Faculdade Católica do RN; especialista em Teologia Bíblica pela Faculdade Católica do RN; e mestre em Teologia Bíblica pela UNICAP. É padre incardinado na Diocese de Mossoró, tendo atuado na paróquia de São Sebastião de Encanto/RN e Dr. Severiano, cidades do Alto Oeste, desde 2019.

Padre Antoniel também é professor da UniCatólica do RN; membro do Colégio de Consultores e do Conselho Presbiteral desde 2021; e foi animador diocesano do Sínodo convocado pelo Papa Francisco.

A esperança não decepciona. Qual a mensagem a Festa de Santa 2025 passa à comunidade católica?

Nós, enquanto Festa de Santa Luzia, estamos inseridos naquilo que a Igreja no mundo inteiro está vivenciando em 2025 que é o Ano Jubilar. A cada 25 anos a Igreja celebra o seu Jubileu e este ano o Papa Francisco, em memória, determinou que fosse o ano Jubilar da Esperança. Toda a nossa Diocese refletiu sobre esse tema e a Paróquia da Catedral de Santa Luzia, para concluir o ano, celebrará esse tema que é tirado da carta de São Paulo aos Romanos, na qual diz que a esperança não decepciona. Quando contemplamos o mundo, às vezes tão desesperado, tão caótico, nós enquanto comunidade de fé precisamos nadar contra essa maré e esperar contra toda humana desesperança. A esperança cristã não é uma ideia, ela tem um nome, tem uma face: chama-se Jesus de Nazaré, o filho amado de Deus que veio à nossa humanidade para dizer que nem tudo está perdido, mas aqueles que seguem os seus preceitos, os seus mandamentos, encontrarão a felicidade que tanto o coração almeja.

 

Santa Luzia se insere nesse tema a partir da sua própria história de vida?

Quando dizemos que a esperança não decepciona, estamos nos reportando diante de tantas realidades sofridas, dolorosas, muitas vezes até desanimadoras, mas que precisamos contemplar tudo isso com os olhos da esperança. Luzia contemplou aquele momento doloroso de sua vida e o contexto cristão em que viveu, de perseguição, inclusive, do cristianismo, ela viu para além daquele sofrimento. Então, a mensagem da Festa de Santa Luzia para toda a sociedade mossoroense, para todos os cristãos, as devotas e os devotos, é que a nossa esperança tem nome, tem uma face que se chama Jesus e nós não podemos desanimar. Luzia é um grande exemplo disso.

O mundo vive um momento caótico, de conflito, guerra e de pouca empatia, inclusive, entre nações, em que as consequências afetam o tecido social cada vez mais sofrido. É possível, diante desse cenário, falar de esperança como caminho a uma vida melhor?

São Paulo quando escreve as suas cartas, ele percebe exatamente isso no contexto ao qual ele está escrevendo. O que é que o povo vê naquele contexto? Às vezes, quando a gente ler a Sagrada Escritura, a gente não vai no contexto e aí esquece o que está por trás daquilo que leva a escrever. Todos os cristãos estavam sendo perseguidos, quem não era cristão também estava sendo perseguido por causa das injustiças do império, então, você tinha injustiça, tinha guerra, tinha conflito e tinha massacre, naquele contexto e nesse contexto. E aí Paulo dizia assim: ‘olhe, não se preocupe, porque o sofrimento do tempo presente não se compara com a glória que há de se realizar em nós.’ Então, nós enquanto cristãos falamos de esperança, mas não falamos de uma esperança na qual nós veremos um mundo totalmente transformado, enquanto mundo material que nós estamos vendo. Nós falamos de esperança, inclusive, escatológica, e aí o que nós entendemos de escatologia é o mundo que há de vir, que há de se plenificar.

 

Como assim?

Nós vivemos essa realidade terrena, material, esperando e nos preparando para uma realidade eterna. A esperança cristã é isso. É viver, lutar, caminhar nessa vida em busca da vida eterna. Nós contemplamos e esperamos a vida eterna. Por isso, a mensagem de esperança que nós queremos deixar no coração das pessoas, principalmente aquelas pessoas que questionam: adianta a gente lutar? adianta a gente ser uma pessoa correta se acontece tanta corrupção? adianta a gente ser verdadeiro se a gente vê tanta mentira... não seria melhor ceder? Não, não é melhor ceder. É melhor ter a consciência tranquila, está fazendo o que é certo e exercendo a natureza do ser humano, que é uma natureza boa. Nós fomos criados pelo divino amor para fazer o bem e também para amar. Então, é importante que nós continuemos a falar, mesmo que o mundo aparentemente esteja se sobressaindo, mas, no final, o projeto de Deus prevalecerá.

A dimensão missionária é prioridade da Festa de Luzia 2025. Como a Igreja potencializa esse sentido?

A Festa de Santa Luzia é cada vez mais o ponto alto da evangelização do ano, o fechamento do ano enquanto evangelização. Aproveitamos tudo que envolve a Festa de Santa Luzia para destacar aquilo que deve ser o centro, que é o Evangelho. É bom ressaltar que o centro de toda festa de padroeiro não é arrecadação, é a evangelização. A arrecadação é secundária, importante porque depois mantém toda a estrutura da evangelização durante o ano. Durante toda a preparação da Festa de Santa Luzia priorizamos essa dimensão, desde a formação de todas as equipes, com mais de mil voluntários. Trabalhamos as espiritualidades, sempre com a Catedral lotada de fiéis, vivendo o momento de espiritualidade, preparando o coração e espírito daqueles que desejam servir. Eles são os primeiros evangelizadores e também serão evangelizados pelos devotos que vêm para a Festa. Fizemos isso em todos os eventos esportivos e culturais, com um momento de oração com a presença da Imagem de Santa Luzia, justamente para dizer que esse evento é diferente de outros eventos, porque é marcado pela evangelização. A Igreja promove a vida, o esporte é vida, então, precisamos estar nesses ambientes, mas demarcando espaço com a oração. A natureza da Igreja é evangelização.

 

Por isso, a Festa de Santa Luzia colocou a programação social em outro plano, menor em relação às edições passadas?

Sim. Entendemos que a parte social da festa da padroeira é a sociedade que oferece. Nós, enquanto Igreja, priorizamos a evangelização e a promoção da vida. O esporte, por exemplo, é a promoção da vida. Você tem o evento dos caminhoneiros, que reúne profissionais que movimentam a economia do nosso país. Temos a Cavalgada de Santa Luzia, que valoriza o resgate da cultura dos cavaleiros em nossa região. Temos os eventos esportivos que promovem a vida. Então, a gente fomenta a cultura e o esporte e traz a evangelização para esses espaços. Dessa forma, a parte de cunho mais social deixamos que a sociedade promova, inclusive, este ano nós não tivemos o palco de shows com bandas e artistas da terra na avenida Dix-sept Rosado. Decidimos dessa forma exatamente para que a Igreja se dedicasse mais à parte de evangelização e à parte cultural, que é marcada pelo Oratório de Santa Luzia.

Qual a importância maior da celebração de Santa Luzia no Ano Jubilar? O que representa em algo mais para a comunidade católica?

O Ano Jubilar, que traz a cor verde como predominante, é um diferencial importante, inclusive, a arte da Festa de Santa Luzia traz características do Ano Jubilar, mas também procura resgatar a dimensão cultural nordestina. A arte da festa traz a imagem de Santa Luzia, o sol refletindo no verde do cactos, que representa justamente a esperança do povo nordestino. Somos um povo que consegue sobreviver diante de tanta dificuldade, de tanta hostilidade, de tanta injustiça, mas sem perder a esperança. Somos, de fato, homens e mulheres da esperança, que vamos renovar a nossa fé em Deus, por intercessão de Santa Luzia.

 

Qual é a importância do Ano Santo na relação da Igreja com a comunidade religiosa?

O Ano Jubilar tem como objetivo uma parada ordinária num extraordinário. A cada 25 anos, nós, como Igreja, paremos e reflitamos como anda a nossa vida, como é que estamos vivendo, como anda a nossa dimensão da fé. Esse ano vamos refletir sobre esperança. Vamos questionar como anda a nossa esperança. Nós estamos esperançosos e esperamos com fé e acreditando que o Nosso Senhor está conduzindo tudo? Ou nós estamos desesperados, cedendo ao caos? o tempo Jubilar é um tempo de parada, um tempo ordinário numa parada extraordinária, para refletimos sobre a vida e a partir de então se projetar para os próximos 25 anos. Em 2050, estaremos celebrando o próximo Jubileu, se Deus quiser.

 

Por quase nove anos, a comunidade de fé de Santa Luzia foi conduzida pelo padre Flávio Augusto Forte Melo, que comandou as últimas nove edições da festa da padroeira. Diante de um cenário de mudança, como o senhor se preparou para, pelo primeiro ano, apresentar-se como condutor da Festa de Santa Luzia?

A preparação ela se dá a partir de uma caminhada muito serena, conhecendo e contemplando aquilo que vem sendo feito até então. Quando cheguei em 2 de fevereiro de 2025, procurei contemplar tudo aquilo que foi feito por Monsenhor Américo (Vespúcio Simonetti), padre Walter (Collini) e o grande impulso que o padre Flávio deu com todo o seu dinamismo; ele foi sempre um padre muito dinâmico na nossa Diocese. Contemplamos tudo isso, de todas as pessoas que trabalharam ao longo de todos esses anos na Festa de Santa Luzia. Nesse período de preparação, ouvimos as pessoas, perguntamos a elas: como vocês fazem?, então, eu me preparei caminhando com aqueles que há tempo já vêm trabalhando na Festa da nossa padroeira. E o mais importante: deixamos que Deus fosse falando, fosse orientando a partir daquilo que Ele quer, sem uma preocupação de fazer tudo novo. Não tenho que fazer tudo novo, eu tenho que dar continuidade a um trabalho que o Espírito Santo vem conduzindo há mais de 200 anos aqui em Mossoró. A devoção o povo já tem, pessoas que trabalham já temos, Deus que envia o seu Espírito para conduzir o trabalho nós também temos; a minha única iniciativa deve ser apreciar essa realidade e caminhar. É isso que procuro fazer e digo com muita sinceridade: a Festa de Santa Luzia vem acontecendo de forma muito serena porque quem conduz a festa não é o padre, quem conduz a festa é o Espírito Santo de Deus; a gente é apenas o instrumento nesse meio.

A comunidade católica vive um momento de mudança na Diocese de Mossoró, com a chegada do nosso bispo, dom Francisco de Sales, e do comando da Paróquia de Santa Luzia, com o senhor assumindo no lugar do padre Flávio Augusto. Como o senhor se preparou para esse momento?

Toda a mudança gera um estranhamento no primeiro momento. Até numa mudança de seu quarto você estranha e até pergunta por que que está mudando a sua cômoda de um lugar para outro, mas depois você se acostuma e entende que no futuro vai ter que mudar novamente. A mudança na Igreja também gera estranhamento para a comunidade e também para o padre. Quando dom Francisco chegou à Diocese, há praticamente um ano, ele foi dialogando de forma muito aberta com todos os padres. Diálogo muito sincero, muito paterno, como é próprio de dom Francisco. Esse estranhamento acontece de forma natural e, de certa forma, esse impacto é importante porque mexe com as estruturas e, ao mexer com as estruturas, aumenta o dinamismo. Nós somos quase como tentados a cair numa rotina e quando isso acontece algumas coisas se cristalizam e quando se cristalizam a tendência é parar. Quando você muda, entra o dinamismo, a engrenagem da Igreja, que deve estar sempre em movimento, ela vai dando continuidade. Eu creio que as significativas mudanças na nossa Diocese, ocorridas entre 2024 e 2025, elas foram benéficas e que de fato deu uma levantada na dimensão de evangelização da própria Igreja. Nós passamos um ano elaborando o plano diocesano de pastoral, é a semente que vai dar muitos frutos. Eu costumo dizer que se a gente não mexer com terra para plantar a semente, nada nascerá. Então, foi preciso mexer na terra da Diocese para que a nova semente caísse e também germinasse.

 

O padre Flávio Augusto, de perfil muito popular, conquistou a comunidade de Santa Luzia. E o senhor, que está praticamente chegando, qual o perfil que caracteriza a sua atuação na Igreja Católica?

Padre Flávio sempre foi muito dinâmico e para nós padres, sobretudo os mais jovens, uma referência dentro da Igreja. Nós temos na Diocese de Santa Luzia um clero muito jovem. Dom Mariano Manzana (bispo de Mossoró entre os anos 2004 a 2023) ordenou quase 50 padres no seu período de episcopado. Boa parte do Clero entrou no seminário, cresceu e foi ordenado vendo a atuação de padre Flávio como sendo realmente uma pessoa que conseguia conjugar muito bem esse dinamismo da evangelização e do diálogo com a sociedade. Ele sempre fez isso muito bem em todos os lugares por onde passou. Padre Flávio nos ajudou, inclusive, na nossa formação sacerdotal. Agora, é do perfil do padre Antoniel o diálogo. Eu passei quase sete anos na Paróquia de São Sebastião da cidade de Dr. Severiano (Alto Oeste do RN) e ali eu tentei viver de forma muito serena com todos os ambientes da sociedade. Dialogamos de forma muito sincera com a comunidade eclesial, que não está em Marte, mas está numa comunidade social, no município, que ali vemos a força política, econômica, cultural e de outros segmentos, onde precisamos sempre manter o bom diálogo. A Igreja, como instituição, ela precisa ter diálogo franco em todos os âmbitos da sociedade. Costumo dizer: sem subserviência, eu não interfiro nos ambientes da sociedade e certos ambientes da sociedade não interferem na dimensão eclesial. Ambos devem sentar para dialogar, inclusive, quando cheguei a Mossoró, uma das primeiras coisas que fizemos foi visitar as instituições, numa visita institucional para dizer: nós estamos aqui para dialogar. Então, o padre Antoniel tem o perfil do diálogo, entendendo que nessa dimensão a Igreja é uma instituição que conversa, que dialoga com outras instituições. O que nós temos de convergente, concordamos; o que nós temos de divergente, nós sentamos, dialogamos, em busca do denominador comum. 

Tags:

Padre Antoniel
pároco
vigário
Mossoró
Santa Luzia

voltar