Belchior para Caio César Muniz
Por Caio César Muniz / Fã-clube Alucinação - Mossoró/RN
Foi mais ou menos por volta das 10h que um amigo me ligou perguntando se eu “já estava sabendo”. Ninguém faz uma pergunta desta à toa e o coração já começa a pulsar de forma diferente. Imaginei alguém próximo, um amigo de cachaça, talvez o próprio bodegueiro que nos vende fiado.
- Não. Quem foi? Perguntei.
- Perdemos Bel! Disse-me ele.
Pensei, melhor que fosse o bodegueiro e nestes tempos de fake News, pedi a Deus que foi mais uma. A notícia vinha de uma nota de um jornal renomado do nosso Ceará, então a fonte, neste caso, infelizmente era segura. “Morre Belchior em Santa Cruz do Sul – Em breve mais informações.” Então era verdade, perdemos Bel.
Naquele 30 de abril, eu estava em um quarto de maternidade recepcionando o meu mais novo rebento, o quinto de uma prole que se encerrara e que me enchia de alegria. O misto então foi grande e foi impossível conter as lágrimas.
Com medo de levar uns carões da minha esposa, fui ao banheiro do quarto de hospital e desabei. No retorno, os olhos vermelhos denunciaram o choro e ela me perguntou a razão.
- Perdemos Bel! Lhe respondi com a voz embargada.
Ela, que não é muito afeita a demonstrações maiores de carinho, apenas me puxou para os seus braços e acalentou meu choro e por muito pouco, uma falha de comunicação nossa, mas por muito pouco mesmo, o nosso filho não fora registrado com o nome do grande Belchior.
Nos dias seguintes, tive que acolher a ela e a meu filho e assim, não pude ir ao último encontro de Belchior em Fortaleza e Sobral. Também não sei se gostaria de vê-lo inerte em um caixão e ficar com esta imagem como última recordação.
Prefiro lembrar dos chutes no ar em pleno palco, os gritos em meio a uma canção e outra, o riso farto e a voz profunda e vagarosa, como se estivesse sempre atento a cada vírgula para não ferir o bom português.
Passados nove anos de sua partida, Belchior nunca esteve tão presente. Seu “autoexílio” inspirou tantas histórias (e estórias) que nem ele teria imaginado tanto. Após o seu encantamento, “livros à mão cheia”, como bem o disse o poeta Castro Alves, brotaram de todos os recantos. Alguns sérios, outros nem tanto. Discos, shows, tributos, cordéis, documentários, telas, enfim... Belchior está mais vivo do que nunca!
Há quem me coloque numa posição de amigo de Belchior e eu sempre digo que não o fui, gostaria de ter sido. Fui um fã privilegiado, tive a oportunidade de bons momentos de conversa e mantivemos uma relação de afeto muito direta. Ela sabia quem eu era e eu sempre soube quem era ele.
No nosso último encontro, me pediu para reunir seus discos, pois nem ele mesmo tinha e quando sebistas descobriam que ele tinha interesse, jogavam os preços lá pro alto. Assim o fiz a partir daquele 2005. Sempre que encontrava algum álbum, adquiria na certeza de que em algum momento eu o entregaria, o que não veio a acontecer.
Sem a sua presença, fiquei meio perdido por um tempo e praticamente me desfiz dos discos repetidos que tinha em mãos. Hoje fazem falta. Quem tem dois, tem um. Quem tem um, não tem nenhum, diz o adágio popular.
Enfim, não consigo escrever “cartas de fã”. Não sei o que dizer a Belchior. A saudade é sempre presente, mas sua voz, seu respeito e sua história também são vivas em mim e busco mantê-la para todo o sempre. Viva Belchior, Belchior vive!
Tags: