Sexta-Feira, 06 de março de 2026

Postado às 10h15 | 02 Set 2025 | redação Morre o jornalista Mino Carta, fundador da Carta Capital

Crédito da foto: Reprodução Mino Carta fundou o jornal CartaCapital em 1994

O jornalista Mino Carta morreu, nesta terça-feira (2/9), aos 91 anos. Ele estava internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Sírio-Libanês tratando uma série de problemas de saúde. As informações foram divulgadas pelo jornal CartaCapital, empresa de comunicação fundada por Mino em 1994.

Mino Carta era italiano, nascido em Gênova, e integrou a terceira geração de jornalistas da família, que enfrentou os desafios do fascismo de Mussolini. O avô, Luigi Becherucci foi diretor do jornal genovês Caffaro, mas perdeu o cargo durante a perseguição fascista; já o pai de Mino, Giannino foi preso em 1944 por fazer oposição a Benito Mussolini. Ele conseguiu fugir meses depois. Com o fim da Segunda-Guerra, a família de Mino veio para o Brasil.

A história de Mino no jornalismo começa aos 16 anos, após o pai dele ser demando para um trabalho que não queria realizar. Giannino deveria escrever sobre os preparativos do Brasil para a Copa do Mundo de 1950. Como ele não gostava de futebol, oferece a empreita ao filho que questionou qual seria o pagamento. Ao saber o valor pensou "posso comprar um terno azul com esse dinheiro" e a partir dali não deixou de escrever mais. Mino também era artista plástico e ilustrador.

Mino começou cursar direito, mas o abandonou na metade por entender que era um curso "primitivo". Em 1956, a família retornou para Itália onde Mino começou a trabalhar como jornalista e correspondente. Anos depois, o pai de Mino volta ao Brasil para assumir o comando da editoria de internacional do Estado de São Paulo e o irmão de Mino, Luiz, assume a editora Abril. Por insistência da família, Mino aceitou o desafio de comandar a revista Quatro Rodas no Brasil. A publicação que já era um sucesso na Itália, teve grande destaque também no Brasil. Depois, Mino assumiu a editora de esportes do Estadão. Mino Carta também atuou na criação do Jornal da Tarde das revistas Veja e IstoÉ. Naquela época, em 1968, ele começou a ter problemas com a ditadura militar que se irritava com as capas elaboradas e autorizadas por Mino Carta. 

Em 1994, Mino Carta criou a CartaCapital e dizia se orgulhar do produto final sendo "a melhor revista que criou". Inicialmente a publicação era mensal, mas em seguida, passou a ser quinzenal. Em circulação até os tempos atuais, a CartaCapital acabou de completar 31 anos e segue com as publicações impressas, além do conteúdo online. 

Em 2024, Mino Carta foi destaque no livro eletrônico "Mino Carta Sem fé nem medo, Memória do Jornalismo Brasileiro Contemporâneo", escrito por Lira Neto. A entrevista aborda aspectos da vida pessoal e profissional de Mino, que na verdade recebeu outro nome no batismo. "Meu nome é Demétrio, o mesmo de meu avô paterno. Mas não gosto dele. Acho horrível. Sobretudo porque evoca a memória de um “avô-patrão”, algo típico dos varões sardos (naturais dailha da Sardenha), sempre dispostos a manter o comando da família de maneira abrupta, às vezes violenta. [...] Tão logo pude, me livrei desse nome, do qual poucos têm conhecimento, o que, na verdade, me deixa contente. Recebi o apelido Mino de meu pai, Giannino Carta, grande jornalista."

Em 2014, a Câmara dos Deputados produziu um documentário que conta a trajetória de Mino Carta no Brasil e destaca como ele se tornou referência no jornalismo brasileiro. 

 

 

NOTA DE PESAR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva emitiu nota de pesar pela morte de Mino Carta. Leia:

Recebi com muita tristeza a notícia da morte de meu amigo Mino Carta, ocorrida na madrugada deste 2 de setembro. Ele fez história no jornalismo brasileiro: criou e dirigiu algumas de nossas principais revistas (Veja, Isto é, Quatro Rodas, Carta Capital, Jornal da Tarde, Jornal da República) e formou gerações de profissionais e, sobretudo, mostrou que a imprensa livre e a democracia andam de mãos dadas. Em meio ao autoritarismo do regime militar, as publicações que dirigia denunciavam o abuso dos poderosos e traziam a voz daqueles que clamavam pela liberdade.

Conheci Mino há quase cinquenta anos, quando ele, pela primeira vez, deu destaque nas revistas semanais para as lutas que nós, trabalhadores reunidos no movimento sindical, estávamos fazendo por melhores condições de vida, por justiça social e democracia. Foi ele quem abriu espaço para minha primeira capa de revista, na Istoé, em 1978. Desde então, nossas trajetórias seguiram se cruzando. Eu, como liderança política, ele, como um jornalista que, sem abdicar de sua independência, soube registrar as mudanças do Brasil. Vivemos juntos a redemocratização, as Diretas Já, as eleições presidenciais e as grandes transformações sociais das últimas décadas.

Estas décadas de convivência me dão a certeza de que Mino foi – e sempre será – uma referência para o jornalismo brasileiro por sua coragem, espírito crítico e compromisso com um país justo e igualitário para todos os brasileiros e brasileiras. Se hoje vivemos em uma democracia sólida, se hoje nossas instituições conseguem vencer as ameaças autoritárias, muito disso se deve ao trabalho deste verdadeiro humanista, das publicações que dirigiu e dos profissionais que ele formou.

Em sua memória, estou declarando três dias de luto oficial em todo o país.

À sua filha Manuela e a todos os seus familiares e os inúmeros amigos que construiu ao longo de sua vida, deixo um forte e carinhoso abraço.

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA

Presidente da República

 

Tags:

Mino Carta
Carta Capital
jornalista
luto

voltar