Um esquema que tinha claro objetivo de desviar recursos da saúde para uma campanha eleitoral. Dessa maneira é que o escândalo em Mossoró, descoberto pela Polícia Federal, aponta caminhos que leva ao prefeito Marcos Bezerra, sucesso de Allyson
Allyson Bezerra e Marcos Bezerra na eleição de 2024
Edilson Damasceno / Jornal de Fato
Um esquema que tinha claro objetivo de desviar recursos da saúde para uma campanha eleitoral. Dessa maneira é que o escândalo em Mossoró, descoberto pela Polícia Federal, com a operação Mederi, está sendo visto, apontando caminhos que levam ao prefeito Marcos Medeiros e ao ex-prefeito Allyson Bezerra. O jornalista Dinarte Assunção, do Blog do Dina (www.blogdodina.com) publicou material indicando para esta constatação com o título “O sucessor de Allyson: como PF e MPF descrevem o papel do novo prefeito de Mossoró no esquema de propinas da saúde”.
“Saber o melhor caminho”. Esse é o sentido da palavra Mederi, traduzindo do latim. E, ao analisar os áudios captados pela Polícia Federal, o Blog do Dina aponta para uma direção: o prefeito Marcos Medeiros. Teria sido ele o pilar central das negociações envolvendo desvio de verba pública da saúde que era destinada à compra de medicamentos. O nome de Marcos Medeiros aparece em conversa com um dos envolvidos e investigados, na qual se sugere aumentar o total de verba desviada para que ambos lucrem mais.
É bom lembrar que Marcos Medeiros atuou na Secretaria Municipal de Saúde antes de ascender ao cargo eletivo de vice-prefeito. Até 2020, depois que Allyson Bezerra rompeu com seu então vice, Fernandinho das Padarias, Marcos Medeiros passou a ser cotado como nome mais provável à composição da chapa. E, antes de ser oficializado como tal, tinha tratativas com empresários da empresa Dismed, conforme investigação da Polícia Federal.
Feito esse preâmbulo, o Blog do Dina traz diálogos travados entre o empresário Oséas Monthalggan Fernandes Costa, sócio de José Moabe Zacarias Soares da empresa Dismed. Na conversa, o teor aponta para que o valor da propina deveria ser maior para aumentar a margem de lucro, como se percebe na transcrição abaixo, feita pela Polícia Federal:
“MARCOS, eu queria combinar com você duas coisas: do jeito que tá não tá ganhando eu nem você! Desse aqui eu fui em cima, fui abaixo, fui em cima, fui abaixo e deu pra arrumar cem conto pra vocês, tá certo? Tô tirando do meu lucro! Agora, MARCOS, eu queria que… tá aqui, um milhão e meio se fosse como a gente trabalhava antes você botava duzentos e tantos no bolso, meu filho!”. Essa é uma espécie de ensaio feito por Oseas, sobre o que diria a Marcos Medeiros.
A expressão “como a gente trabalhava antes” recebe o devido destaque da Polícia Federal. Na análise publicada pelo Blog do Dina, evidencia-se a existência de tratativas anteriores e que remetiam apenas ao primeiro nome do atual prefeito de Mossoró. Diante disso, a PF aprofundou a investigação e chegou à conclusão de que Marcos Antonio Bezerra de Medeiros deveria ter recebido valores quando estava lotado na Secretaria de Saúde.
Comprovação de envolvimento de Marcos Medeiros está em conversas telefônicas e mensagens
Os valores desviados ao longo do esquema de propina, conforme apurou a Polícia Federal, chegam a R$ 13,6 milhões entre 2021 a 2025 em várias prefeituras, dentre elas Mossoró. Para a PF, a figura do prefeito Marcos Medeiros, bem como outros envolvidos, é tida como ponto de contato envolvendo a Prefeitura de Mossoró e os sócios da Dismed. Isso, de acordo com a investigação, comprovou-se por meio de registros telefônicos e de mensagens no WhatsApp.
Na linha temporal da investigação, os procedimentos tomados pela Polícia Federal datam de 24 de novembro de 2023. Em 2024, Marcos Medeiros foi alçado à condição de candidato a vice-prefeito de Allyson Bezerra. Chapa eleita, mas o modus operandi relacionado ao esquema de desvio de recursos da saúde seguiu o curso.

Conversa entre sócios evidencia papel de Marcos Medeiros
Em 2025, conforme apuração da Polícia Federal, especificamente em 6 de maio daquele ano, os sócios da Dismed conversaram na cidade de Serra do Mel, onde a empresa também mantinha escritório, e falaram sobre contratos com a Prefeitura de Mossoró em torno de R$ 1 milhão. E é nesse momento que o nome de Marcos Medeiros aparece e fala-se em propina de R$ 200 mil, conforme se observa na transcrição abaixo:
“Ele vai cobrar o valor. Eu tenho que dar aqui a você duzentos mil de propina hoje. Aí eu pago cem (R$ 100.000,00) você está entendendo e cem… você guardando pra sua campanha.”
Com isso, fica evidente que um projeto eleitoral estava em gestação para longo prazo. Como Allyson Bezerra iria se afastar em 2026 (o que ocorreu em março), o nome de Marcos Medeiros iria estar diretamente em destaque no caminho da reeleição.
De acordo com o material publicado no Blog do Dina, Marcos Medeiros foi alvo de busca e apreensão pela Polícia Federal em 27 de janeiro deste ano. A ação ocorreu em dois endereços.
Prefeito teria facilitado acesso à Dismed
A atuação de Marcos Medeiros na Secretaria de Saúde e, em específico, no esquema de propina envolvendo dinheiro à compra de medicamentos, era a de servir como ponto de contato entre a estrutura municipal com o desvio propriamente dito, esta função a cargo da empresa Dismed.
É o que consta da conclusão feita pelo Ministério Público Federal (MPF) e que está no processo que tramita no Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TFR5). Para o órgão, o atual prefeito de Mossoró teria facilitado contratações e mantido o fluxo de pagamento. A atuação de Marcos Medeiros não parou, segundo o MPF, quando ele chegou à vice-prefeitura.
“Após assumir como vice-prefeito, teria continuado, conforme referido naqueles diálogos, como interlocutor relevante, o que sugere manutenção de sua influência sobre as decisões relacionadas aos contratos.”

Residência de Allyson Bezerra foi alvo de busca e apreensão
Allyson Bezerra e Marcos Medeiros, segundo a PF, integram esquema
A ligação do nome do atual prefeito e do ex-prefeito de Mossoró surge no decorrer do processo e das investigações. Como Marcos Medeiros, no primeiro mandato de Allyson Bezerra na Prefeitura de Mossoró, teve atuação centralizada na Secretaria Municipal de Saúde, entendeu-se que haveria elo entre um e outro. A investigação da Polícia Federal apontou que ambos ocupavam o topo do esquema de corrupção constatado em Mossoró.
Tanto que, no decorrer da investigação, o esquema de corrupção ficou conhecido como a “matemática de Mossoró”, na qual tanto Allyson Bezerra quanto Marcos Medeiros receberiam percentuais da empresa Dismed, conforme divulgou o blog do Dina.
A Polícia Federal constatou a existência de núcleos divididos em intermediário (formado por gestores administrativos), operacional (fiscais que atestavam falsamente o recebimento dos remédios) e o privado (empresários que executavam as fraudes externas).
Na investigação, e é o que consta do processo, constatou-se a existência de repasse de determinado percentual a alguém chamado de “homem”. A PF afirma que essa figura seria o então prefeito Allyson Bezerra, que ficaria com 15% do esquema. Allyson foi alvo de mandado de busca e apreensão e se recusou a fornecer senhas de celulares e demais equipamentos eletrônicos apreendidos pela Polícia Federal.

“Matemática de Mossoró” foi informada em investigação pela Polícia Federal
Comunicação da Prefeitura deixa DE FATO sem resposta
Diante da publicação do material que consta do processo que tramita no Tribunal Regional Federal 5 (TRF5) pelo blog do Dina, a reportagem do JORNAL DE FATO manteve contato com o secretário municipal de Comunicação Social, jornalista Wesley Duarte, e solicitou posicionamento do prefeito Marcos Medeiros, já que ele foi apontado como um dos principais interlocutores do esquema de propina na saúde de Mossoró.
O secretário de Comunicação passou, então, o contato da jornalista Valéria Persali, que acompanha diretamente o prefeito Marcos Medeiros. A reportagem manteve contato com ela e solicitou o posicionamento do prefeito. Mas até o fechamento desta edição nada foi enviado.
Com isso, a reportagem faz uso do que se publicou ontem no blog do Dina, acerca do que foi enviado pela Secretaria Municipal de Comunicação.
De acordo com o que foi enviado pela Comunicação, o prefeito Marcos Medeiros afirma que segue confiando na Justiça: “Marcos Medeiros, por sua defesa, reafirma que não praticou qualquer irregularidade no exercício de suas funções e confia que, ao final, os fatos serão devidamente esclarecidos pela Justiça”.
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