Em entrevista ao “Cafezinho com César Santos”, Kelps disse que os atuais deputados estão pensando em si mesmo e só utilizam as emendas parlamentares que lhes garantem votos e permanência no poder. Ele defende mudanças a partir das eleições deste ano
Ex-depuotado Kels Lima no Cafezinho com César Santos
Por César Santos / Jornal de Fato
O Rio Grande do Norte não tem deputados federais relevantes.
A crítica parte do ex-deputado estadual Kelps Lima ao apontar, segundo ele, a incapacidade da bancada federal potiguar de lutar por interesses coletivos do estado e a falta de representatividade nacional.
Em entrevista ao “Cafezinho com César Santos”, Kelps disse que os atuais deputados estão pensando em si mesmo e só utilizam as emendas parlamentares que lhes garantem votos e permanência no poder. Ele defende mudanças.
Sem mandato desde janeiro de 2023, quando concluiu o terceiro mandato na Assembleia Legislativa, Kelps Lima lançou o seu nome à Câmara dos Deputados, cargo que ele concorreu em 2022, sem sucesso.
Com atuação política e base nos quatro maiores colégios eleitorais do RN, ele acredita que será um dos oito eleitos em 4 de outubro, inclusive, garante que vai desbancar um dos deputados da federação União Progressista, pela qual concorrerá às eleições deste ano. Kelps Lima é advogado e político, cumpriu mandato de deputado estadual entre 13 de dezembro de 2010 a janeiro de 2023.
Kelps passou 15 anos no Solidariedade e, neste ano, transferiu-se para a federação União Progressista, justamente para ter maior possibilidade de conquistar um mandato de deputado federal.
Confira a entrevista:

Kelps, lá em janeiro de 2023, quando o senhor concluiu o mandato, afirmou que não pretendia mais ser candidato. O senhor disse: “agora vou ser pitaqueiro nos bastidores”. O que o fez mudar de ideia e colocar novamente seu nome à Câmara dos Deputados?
Naquele momento, eu tinha certeza de que não seria candidato. E esse sentimento não ficou restrito a janeiro de 2023; ele se prolongou. Hoje mesmo, tomando café com uma amiga, comentei que, se alguém me perguntasse em 2023 ou 2024 se eu seria candidato, eu apostaria que não. Achei que tinha cumprido meu ciclo, que precisava de um tempo para a família. Minha vida estava organizada, tranquila, e eu acreditava que havia cumprido minha missão. Além disso, era muito difícil voltar ao cenário com uma candidatura a deputado federal. Basta ver que Garibaldi Alves, Beto Rosado e Rafael Motta, que já foram deputados federais, não conseguiram fazer essa reconstrução. Por outro lado, o nosso grupo político permaneceu unido, o que é raro. Cristiane Dantas e Luís Eduardo seguiram até o fim no Solidariedade e na oposição, sem aderir ao governo, e são meus parceiros nesta eleição. Também vencemos a eleição em Parnamirim, o que teve um peso significativo. Quando começou essa movimentação após a eleição de Nilda, liguei para todo o nosso time, e 90% disse que topava. Diante desse cenário, pedi um tempo em dezembro de 2024 para avaliar pessoalmente, conversar com minha esposa e meu sócio (escritório de advocatício). Voltei ao escritório, reorganizei a vida e, à medida que 2025 foi avançando, percebi que havia um ambiente favorável, um apelo e, no fundo, também aquele desejo que todo político tem de voltar. Mas havia uma condição básica: ter chance de vitória. Eu não podia colocar novamente essas pessoas no sacrifício de uma candidatura sem perspectiva, deixando-as sem representação federal no próximo quadriênio. Se não houvesse chance real, era melhor não disputar.
O senhor fala em condição de vitória e se filiou a um partido da Federação União Progressista, que já conta com três deputados federais. É improvável que a chapa eleja quatro. Ou seja, sua disputa é interna. De onde vem a confiança de que o senhor será um dos eleitos?
Na eleição passada, dentro do nosso grupo político, eu já teria superado os três, porque tive 80 mil votos, enquanto João Maia foi o segundo, com 104 mil — uma diferença de 24 mil votos. Mas na nossa estratégia, Allyson apoiou Lawrence, e minhas bases no Oeste foram direcionadas a ele. Lançamos candidatos que votariam em mim, como o presidente da Câmara de Assú e Bárbara Dantas, em Carnaúba dos Dantas; quase toda a chapa votava em mim, mas houve divisão. Com isso, eu teria ultrapassado facilmente os 110 ou 115 mil votos. Agora, com a recomposição do grupo, praticamente completo, houve ampliação dos apoios. Tive um prefeito me apoiando na eleição passada; agora serão onze, um número inédito para nós. Tenho apoio claro da terceira maior cidade do estado (Parnamirim) com a prefeita Nilda. Em São Gonçalo do Amarante, há uma parceria forte com o prefeito Jaime Calado. Em Natal, existe um espaço a ser ocupado, diante da redução de candidaturas locais. E, em Mossoró, devo crescer muito, já que praticamente não atuei aqui na eleição passada. Portanto, estamos mais fortes do que antes. Claro que eleição se decide nas urnas, e não existe vitória antecipada, mas, numa análise objetiva, estamos em melhor posição do que na eleição anterior.

O senhor tem reiterado críticas à atual bancada federal do Rio Grande do Norte, afirmando que o estado não tem hoje um deputado que represente seus interesses. No entanto, três dos oito parlamentares atuais estão na federação à qual o senhor se filiou, e sua votação pode contribuir para a reeleição de alguns deles. Não há incoerência nesse discurso?
Há algo de que nunca abri mão na política: criticar aquilo com que não concordo. Talvez por isso eu tenha sido oposição a três governadores e a três prefeitos de Natal. E não se trata de crítica pessoal — alguns desses deputados são meus amigos —, mas sou um agente político e não posso me omitir. Caso contrário, aí, sim, seria incoerente com toda a minha trajetória. Hoje, a bancada federal do Rio Grande do Norte é irrelevante. Nenhum deputado preside comissão importante, nenhum é chamado a opinar sobre grandes temas nacionais em veículos de alcance nacional. Não há notícia de projetos de grande repercussão, nem atuação em iniciativas estruturantes para o estado. Nenhum ocupa cargo na Mesa Diretora, nem foi cogitado para ministério, algo que o Rio Grande do Norte historicamente teve. Como cidadão, e também como agente político, tenho o dever de dizer que a bancada vive um momento ruim. A representação atual não é boa. E me sinto à vontade para afirmar isso, inclusive dentro do partido ao qual me filiei. Em nenhum momento me foi pedido para silenciar críticas, e, se fosse, eu também não aceitaria.
Outra observação recorrente é a falta de uma liderança interna capaz de conduzir pautas de interesse do estado. O líder da bancada é o deputado Robson Faria, também da sua federação. Essa crítica reflete algum descontentamento interno?
Que eu saiba, não. Robson, João Maia e Benes Leocádio são políticos experientes e sabem que a crítica faz parte do processo democrático. Quem não quer ser criticado não deve atuar na vida pública. Toda figura pública está sujeita a críticas, e elas ajudam. Ao levantar esse debate, será que não provocamos uma reação positiva? Dou um exemplo: quando assumi como deputado estadual, em 13 de dezembro de 2012, na última sessão do ano, já no início de 2013 apresentei um pacote de projetos. Um deles propunha o fim da residência oficial do governador. A proposta foi rejeitada, mas o debate foi suficiente para que, desde então, nenhum governador voltasse a utilizá-la. Ou seja, nem sempre é preciso aprovar uma lei; o debate, por si só, já transforma práticas. Hoje, a bancada federal não atua como antes. Antigamente, uma parte significativa das emendas era destinada a projetos estruturantes, com participação de universidades, prefeituras e entidades como a Fiern. Hoje, as emendas são fragmentadas para atender interesses eleitorais. Defendo que voltem a ser direcionadas a projetos estruturantes, independentemente de quem esteja à frente das prefeituras.

Até que ponto o estado é prejudicado por esse uso das emendas com foco eleitoral?
As emendas têm dois efeitos. Um positivo: muitos municípios, especialmente no Nordeste, não têm capacidade de investimento, e os recursos federais não são distribuídos de forma justa historicamente. Nesse sentido, as emendas ajudam. Por outro lado, perde-se a oportunidade de investir em projetos estruturantes. Isso gera um prejuízo enorme. Há setores econômicos que dependem de boas estradas para reduzir custos, atrair investimentos e gerar emprego. O Rio Grande do Norte tem força na produção de sal, petróleo e frutas, especialmente no Oeste e no Vale do Açu. Se a bancada direcionasse emendas para melhorar a infraestrutura dessas regiões, beneficiaria diversas cidades e dinamizaria a economia. Ao não fazer isso, o prejuízo é grande: afeta a economia, a segurança e a qualidade de vida. Falta uma visão estratégica de desenvolvimento.
A Federação União Progressista ainda não tem a nominata completa para deputado federal. Há dificuldades para fechar a chapa. O senhor tem participado dessas articulações?
Eu me afastei da função de dirigente partidário para me concentrar na minha eleição, na de Allyson e na de Zenaide. Não estou participando dessas articulações. Já fiz isso em 2018 e 2022. Tanto o PP quanto o União Brasil são partidos grandes, com presença em várias cidades, e há tempo até julho para concluir essa construção. A base da chapa já está formada: João Maia, Benes, Robson, eu, Leila Maia e Mateus Faustino. Existem outros nomes sendo discutidos, mas não participo dessas conversas.
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