O grupo criminoso que atuava no desvio de recursos da saúde de Mossoró, desbaratado pela operação da Polícia Federal e CGU, estaria planejando acumular valores de propina para financiar futuras campanhas eleitorais do prefeito Allyson Bezerra
Prefeito Allyson Bezerra e o vice-prefeito Marcos Bezerra
Da Redação do Jornal de Fato
O grupo criminoso que atuava no desvio de recursos da saúde de Mossoró, desbaratado pela Operação Mederi, planejava acumular valores de propina para financiar futuras campanhas eleitorais do prefeito Allyson Bezerra (União Brasil) e do vice-prefeito Marcos Bezerra (PSD).
A conclusão consta na decisão do desembargador federal Rogério Fialho Moreira, do Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5), que autorizou a operação da Polícia Federal detonada na terça-feira, 27.
Como se sabe, Allyson Bezerra se projeta a disputar o cargo de governador do Rio Grande do Norte nas eleições de 4 de outubro deste ano. Para isso, ele precisa renunciar ao cargo até 4 de abril e, a partir daí, o vice-prefeito Marcos Bezerra assumirá a Prefeitura. Por consequência natural, Marcos disputaria a sucessão municipal em 2028.
Os diálogos interceptados pela Polícia Federal e citados na decisão do desembargador Rogério Fialho mostram os investigados Moabe Soares e Oseas Monthalggan, sócios da investigada DisMed Distribuidora, sugerindo a estratégia de “ir tirando aos pouquinhos” (o dinheiro desviado da saúde) e guardá-lo, em vez de realizar pagamentos imediatos. A intenção seria acumular o montante para ser entregue posteriormente como financiamento de campanha eleitoral.
Um dos sócios da DisMed propõe: “Vai tirando esse dinheiro e guardando. Quando for no final, quando for pra começar tá aqui MARCOS, aqui é um extra pra você”.
A decisão judicial destaca que os envolvidos discutem abertamente que parte da propina devida (mencionando o valor de cem mil reais) deveria ser reservada para a campanha eleitoral. O objetivo dessa manobra seria “criar moral com o HOMEM” (referência atribuída ao prefeito Allyson) visando projetos políticos futuros, incluindo a disputa pelo Governo do Estado.
Em outro trecho, quando Monthalggan discute explicitamente a estratégia de pagamento de propina a Marcos Bezerra vinculada ao financiamento de futura campanha eleitoral, Moabe Soares afirma: “Eu tenho que dar aqui a você duzentos mil de PROPINA hoje. Aí eu pago cem (R$ 100.000,00) você está entendendo e cem...você guardando pra sua CAMPANHA.”
O magistrado federal escreve em sua decisão: “Essa fala não deixa muita margem a outras interpretações: os interlocutores discutem abertamente o pagamento de propina e sua destinação para campanha política.”
Para a Justiça, essas conversas demonstram que os supostos envolvidos no esquema estão cientes da dinâmica sucessória local e planeiam as suas ações ilícitas considerando este cenário político-eleitoral. A acumulação de recursos desviados da saúde pública teria, portanto, o fim específico de perpetuar o grupo no poder por meio do financiamento irregular de campanhas.

Decisão diz que secretária de Saúde, Morgana Dantas, faz parte da “engrenagem”
As investigações da Polícia Federal alcançam a secretária municipal de Saúde, Morgana Dantas, que também foi alvo da Operação Mederi. Segundo a decisão do desembargador federal Rogério Fialho, as evidências contra a titular da Saúde são de natureza indiciária e decorrem da posição funcional que ocupava.
A decisão cita que Morgana era a ordenadora de despesas do Fundo Municipal de Saúde, função que lhe conferia responsabilidade pela homologação de licitações e autorização de pagamentos. Durante sua gestão, que abrange parte significativa do período investigado (2021- 2024), a empresa DisMed Distribuidora recebeu volumes crescentes de recursos, culminando no pico de R$ 5.864 milhões em 2024.
O documento em análise demonstra que, em licitação homologada pela secretária da Saúde, a DisMed foi vencedora de lotes significativos no valor total de R$ 3.937 milhões. A Drogaria Mais Saúde, também investigada, venceu lotes no valor de R$ 2.163.323 milhões.
“Considerando que os diálogos captados descrevem sistemática de entrega parcial de medicamentos e superfaturamento, a homologação destas licitações por Jacquline Morgana Dantas Montenegro ganha relevância. O documento reconhece explicitamente que "embora não expressamente mencionados em diálogos captados, o modus operandi até então constatado inserem tais figuras como parte das engrenagens que viabilizam o sucesso da empreitada criminosa”, diz o documento.
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