Em entrevista ao “Cafezinho com César Santos”, a deputada estadual Isolda Dantas afirma que a governadora Fátima Bezerra será candidata ao Senado nas eleições deste ano, independentemente de o vice-governador Walter Alves assumir o governo ou não.
Deputada estadual Isolda Dantas no Cafezinho com César Santos
Por César Santos / Jornal de Fato
No “Cafezinho com César Santos”, a deputada estadual Isolda Dantas afirma que a governadora Fátima Bezerra será candidata ao Senado nas eleições deste ano, independentemente de o vice-governador Walter Alves assumir o governo ou não.
Aliás, a parlamentar deixa claro que o PT respeitará o projeto político que foi eleito em 2022 e, em caso de ruptura da aliança com MDB, caberá a Walter explicar ao povo do Rio Grande do Norte.
“Se o vice-governador não quiser assumir o papel que o povo lhe delegou — que é assumir o governo na ausência da governadora —, quem precisa se explicar é ele, não o PT”, afirma entre um cafezinho e outro na sede do Jornal de Fato.
Confira:
Deputada Isolda Dantas, o projeto do PT no Rio Grande do Norte está alinhado ao projeto nacional do partido, que envolve a reeleição do presidente Lula, a ida da governadora Fátima Bezerra para o Senado e a renovação do Governo do Estado com Cadu Xavier. Esse plano depende do humor político do vice-governador Walter Alves?
Não. O PT não faz política a depender de humor. Nós temos um projeto político. Um projeto para o Brasil que começou a ser forjado ainda em 1980, quando o Partido dos Trabalhadores surgiu. O PT nasce da compreensão de que a classe trabalhadora brasileira precisava de um partido político próprio, como instrumento de disputa de poder. Já existiam partidos de esquerda, mas o PT surge de forma diferente: como uma convergência de ideias e experiências. Vieram grupos de jovens, setores da igreja, marxistas, feministas, diversas concepções de esquerda que tinham, sim, uma perspectiva socialista. Se você olhar o estatuto do PT da década de 1980, não verá a palavra “socialismo” explicitamente, porque aquilo era um processo em amadurecimento. O que estava muito claro era a construção de um programa democrático-popular.

Para chegar ao poder, não houve um redirecionamento das linhas ideológicas do PT a partir do alinhamento com outros partidos que pensavam diferente?
Nós disputamos quatro vezes a Presidência da República, sempre fazendo um debate profundo sobre o Brasil. Em 1989, inclusive, houve muitas controvérsias sobre o processo eleitoral — todos lembramos do papel da Rede Globo no último debate. Só chegamos à Presidência em 2002. E, quando chegamos, mudamos a cara do Brasil. Isso é inquestionável. Mudamos o país sem fechar igrejas, sem perseguir opositores, sem a elite fugir para os Estados Unidos, como diziam que aconteceria. Nada disso aconteceu. O governo Lula foi liderado por alguém com uma extraordinária capacidade de diálogo e de confiança nas riquezas do Brasil, na indústria, na economia nacional. O grande diferencial do governo Lula foi justamente esse: fortalecer a indústria brasileira, sem fazer grandes rupturas. Não houve ruptura com o sistema financeiro, nem com o empresariado, nem com o agronegócio. Ainda assim, os indicadores sociais e econômicos do Brasil mudaram profundamente — e isso incomodou muita gente. Houve mudanças importantes na legislação, na garantia de direitos, no padrão de vida da população. Tiramos o Brasil do mapa da fome, expandimos as universidades. Mossoró, por exemplo, ganhou uma universidade federal nesse processo — e não é qualquer universidade.
Quanto a nossa pergunta, deputada, o projeto do PT depende do posicionamento do vice-governador Walter Alves?
Apesar de termos elegido Lula duas vezes, Dilma duas vezes, durante muito tempo o PT não conseguiu avançar eleitoralmente no estado. Tivemos no máximo dois deputados estaduais em alguns períodos. Só mais recentemente conseguimos ampliar nossa representação, com deputada estadual, deputada federal, senador e, finalmente, chegar ao Governo do Estado. E é importante dizer: nós não chegamos ao governo sozinhos. Chegamos por meio de alianças políticas. Houve divergências internas no PT — eu mesma tive posições críticas —, mas construímos alianças. O primeiro governo da professora Fátima foi mais restrito, com PT e PCdoB. Já a eleição de 2022 contamos com uma aliança mais ampla, inclusive com o MDB. Isso não mudou. Nós temos um projeto para o Rio Grande do Norte. Se o vice-governador não quiser assumir o papel que o povo lhe delegou — que é assumir o governo na ausência da governadora —, quem precisa se explicar é ele, não o PT.
A senhora está colocando toda a responsabilidade nas mãos de Walter Alves?
Estou dizendo que nós apresentamos um projeto ao Rio Grande do Norte e governamos juntos. E eu desafio: compare o Rio Grande do Norte de dezembro de 2018 com o de dezembro de 2025. Qualquer pessoa pode vir fazer esse debate comigo. Estou pronta, preparada e querendo debater, porque sei o que foi feito. Não há nenhuma razão plausível para alguém não querer assumir o Governo do Estado hoje. Se governar fosse algo inviável, por que existem três candidatos ao governo?

O vice-governador Walter Alves argumenta que recuou de assumir o governo, numa eventual desincompatibilização da governadora Fátima Bezerra, por causa da situação financeira do Estado. Esse argumento é legítimo?
Não é legítimo, nem adequado. Está provado que o Estado era ingovernável em 2018. Havia quatro folhas salariais em atraso, mais de um bilhão de reais em dívidas e outro bilhão de reais de déficit na Previdência. Naquele momento, qualquer pessoa poderia dizer que não queria assumir. Mas hoje a situação é completamente diferente. Mesmo quem não entende de contas públicas consegue perceber isso. Um Estado que paga em dia não está colapsado. Ninguém paga sem dinheiro. Não se paga com discurso, paga-se com recurso em caixa. Hoje a gestão pública é altamente transparente. Não se movimenta dinheiro público sem controle. Portanto, esse argumento não se sustenta. Não há sustentação técnica nem política. Quem precisa se explicar é quem se recusa a assumir responsabilidades. O PT fez, sim, o melhor governo que o Rio Grande do Norte teve nos últimos tempos — e nós temos como provar isso.
Deputada, alguns avaliam que a postura do vice-governador soa mais como discurso de oposição do que de aliado. Como a senhora vê isso?
Eu acho que quem precisa responder isso é ele. Nós governamos o Rio Grande do Norte em parceria, inclusive com o vice-governador. Foi ele quem comunicou que não seria candidato (a governador). Havia um consenso absoluto dentro do nosso campo de que ele deveria ser o candidato à sucessão da governadora Fátima. O nome de Cadu Xavier (atual secretário da Fazenda) surgiu justamente porque houve essa vacância. O PT tem muita responsabilidade com o Rio Grande do Norte e não vai abrir mão de continuar governando o estado. O que foi eleito em 2018 foi um projeto político, do qual o vice-governador também fez parte. Não foi nada separado. Nós temos um compromisso com o povo potiguar e queremos renovar esse compromisso em 2026. Até lá, se houver qualquer recuo ou declínio de responsabilidade por parte de quem ocupa cargos majoritários, o PT não vai se furtar. Nós não vamos abandonar o Rio Grande do Norte. Não há motivo para isso. Nosso compromisso foi firmado com o povo potiguar, em aliança com outros partidos, e será honrado.

A governadora Fátima Bezerra será candidata ao Senado independentemente de o vice-governador assumir ou não o Governo do Estado?
Sim. Fátima Bezerra será a nossa senadora. O PT do Rio Grande do Norte vive um momento histórico, inclusive com duas mulheres na condução do partido. Samanda Alves (vereadora em Natal) fica dois anos e eu fico outros dois. Nós seguiremos com nosso projeto político: a pré-candidatura de Cadu ao Governo do Estado e a candidatura de Fátima Bezerra ao Senado. Onde o PT passou, cumpriu aquilo que apresentou. Foi assim no Governo Federal, transformando o Brasil, e é assim no Rio Grande do Norte.
Caso o vice-governador não assuma e o presidente da Assembleia Legislativa, Ezequiel Ferreira, também não queira assumir o governo, teremos uma eleição indireta para governador. Já existe articulação nesse sentido?
Isso envolve atos formais. Nada acontece antes que o vice-governador se posicione oficialmente. O povo do Rio Grande do Norte delegou a ele essa responsabilidade. Cabe a ele dizer se assume ou não, assim como cabe ao presidente da Assembleia Legislativa decidir. O que posso afirmar é que, se isso ocorrer, o PT apresentará um nome. Nós não vamos nos furtar a continuar governando o Rio Grande do Norte até 2026, conforme foi delegado pelo povo potiguar.
Em nota conjunta, Fátima Bezerra e Walter Alves transferiram a decisão para a executiva nacional do PT e MDB. Há uma data para a definição entre os dois partidos sobre a aliança no RN?
É importante lembrar que essa aliança foi construída dentro de um contexto nacional. Não há, até o momento, um calendário definido de reunião entre PT e MDB em Brasília para tratar do tema. Essas conversas acontecem, mas sem data formal ainda. A política exige maturação. Quem faz política precisa pensar como no xadrez: um, dois, três movimentos à frente. Quando se atropela o processo, os erros aparecem, como estamos vendo agora em algumas articulações que se enfraqueceram. As coisas estão decantando e, em breve, as decisões serão tomadas com mais clareza.

A senadora Zenaide Maia, eleita no mesmo campo político da governadora, hoje aparece ao lado de adversários do PT no estado. Essa postura decepciona?
Eu não faço política com o fígado. A senadora Zenaide não combina com o campo da direita. Quem a elegeu foi o campo democrático e progressista: a militância do PT, os movimentos sociais, esse campo político. Ela vota em pautas progressistas no Senado, pautas que o eleitorado do outro lado não defende. Portanto, quem ela decepciona são os eleitores de lá, não os daqui. As pautas que Zenaide defende são de esquerda, são progressistas. Ela não combina com o outro campo. Tenho respeito pela senadora, reconheço sua atuação e acho que essa contradição vai aparecer nas urnas, porque ela se encaixa no campo democrático-popular.
Sobre a federação PT, PCdoB e PV, há expectativa de uma nominata forte para a Câmara Federal. Houve resistência à filiação de alguns nomes, como o deputado Bernardo Amorim que está se filiando ao PV para disputar mandato de deputado federal?
Os partidos da federação têm autonomia para filiar. A federação funciona como um partido maior, com regras comuns, mas preserva a autonomia interna. Só haveria intervenção em casos muito extremos, o que não é o caso. Cada partido tem um número definido de vagas: o PT tem cinco; o PV, duas; e o PcdoB, duas. As regras exigem diversidade de gênero, não podem ser duas candidaturas do mesmo sexo. O PV, por exemplo, anunciou a indicação do deputado Bernardo. Para o PT, ampliar a bancada federal é estratégico. Teremos uma chapa muito forte, com nomes como Samanda Alves, Alexandre Lima (atual titular da Sedraf), vereadora Brisa (Natal), Odon Júnior (ex-prefeito de Currais Novos), Marleide Cunha (vereadora em Mossoró), entre outros. Inclusive, há mais interessados do que vagas, o que é positivo. É melhor estimular candidaturas do que improvisar de última hora.

E o projeto pessoal da senhora? A deputada buscará a reeleição ou pensa em outros caminhos, como a presidência da Assembleia?
Minha prioridade é a reeleição. Dentro do PT, cada candidatura cumpre um papel estratégico. Assim como a deputada Natália Bonavides tem uma responsabilidade na chapa federal, eu tenho na chapa estadual. Fui a mais votada do partido nas duas eleições e minha candidatura é fundamental para fortalecer a bancada do PT na Assembleia. A ampliação da bancada estadual passa pela manutenção dos mandatos que já têm força. Quanto a outros projetos, eu penso, sim, em outras possibilidades, mas hoje meu foco é contribuir ainda mais. Mossoró precisa de gente que pense o presente e o futuro da cidade. Ela está sempre nos meus tabuleiros de xadrez político. Esse é um debate que continua — talvez no próximo Cafezinho com César Santos.
Tags: