Abraão Lincoln saiu preso da sessão de depoimento à CPMI do INN
Da Redação do Jornal de Fato
O político potiguar Abraão Lincoln Ferreira da Cruz falou pouco ou quase nada à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, mas o seu envolvimento no rumoroso caso de fraudes que lesaram aposentados do Instituto Nacional de Seguro Social pode alcançar outros políticos do Rio Grande do Norte. No depoimento de segunda-feira, 3, o relator deputado Alfredo Gaspar (União-AL) levantou a possibilidade de Lincoln ter colaborado financeiramente com campanhas eleitorais em municípios do RN em 2024.
Alfredo Gaspar perguntou a Abraão Lincoln se ele conhecia o município de Porto do Mangue e se tinha ligação com o prefeito eleito (Francisco Antônio Faustino, o Dino), deixando a entender que existe ligação entre ambos envolvendo recursos da Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura (CBPA), supostamente desviados de aposentados do INSS. O prefeito Dino, inclusive, é filiado ao Republicanos, partido liderado no RN por Lincoln.
Sobre a ligação com Porto do Mangue, o depoente disse apenas que se trata de uma cidade pesqueira, mas se valeu do direito de ficar calado, garantido pelo Supremo Tribunal Federal (STF), para não responder sobre a ligação com o prefeito Dino. A relação política, no entanto, é fato comprovado. Fotos com os dois políticos podem ser vistas nas redes sociais, inclusive, em solenidades públicas.
Exibindo um gráfico em que mostra o escoamento de recursos da CBPA, entidade presidida por Abraão Lincoln, o relator afirmou que recebeu documentos que comprovam a ligação do investigado com políticos do Rio Grande do Norte. Alfredo Gaspar não detalhou a acusação, nem citou outros nomes, para afirmou que a Polícia Federal está investigando.
Abraão Lincoln, que se declara pré-candidato a deputado federal, tem ligação com grupos políticos no estado, inclusive, ele é citado em uma possível nominata à Câmara para as eleições 2026, juntamente com o ex-deputado Kelps Lima (Solidariedade) e o ex-prefeito de Natal Carlos Eduardo Alves (PSD).
É esse envolvimento com a classe política que tem mantido Abraão Lincoln em atividades suspeitas. Em 2015, ele foi preso pela Polícia Federal em consequência da Operação Enredados, que investigou a venda de licenças de pesca artesanal falsas. Ele ficou preso na unidade da PF em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul.
À época, Abraão exibia influencia com Marcelo Crivela, então presidente nacional do Partido Republicanos. Tempos depois, ele foi solto e se livrou do uso de tornozeleira. O processo ainda não teve julgamento final, mesmo uma década depois do escândalo.
Mais recentemente, antes da operação que desmantelou o esquema fraudulento no INSS, Abraão Lincoln publicou foto ao lado do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), enaltecendo a amizade entre ambos.
Agora, sob investigação da Polícia Federal e alvo da CPMI do INSS, Abraão Lincoln vai precisar de “padrinhos” influentes para escapar das consequências do escândalo que lesou os aposentados de todo o país.
Abraão Lincoln foi solto mediante pagamento de fiança
Abraão Lincoln Ferreira da Cruz foi detido durante sessão da CPMI do INSS e liberado horas depois, na madrugada desta terça-feira, 4, mediante pagamento de fiança. A ordem de prisão foi decretada pelo presidente da comissão, senador Carlos Viana (Podemos-MG), sob acusação de falso testemunho.
A sessão da CPMI, que começou ainda na segunda-feira, 3, discutia supostas fraudes em entidades que descontam mensalidades diretamente de benefícios previdenciários. Ao encerrar os trabalhos, Viana declarou que determinou a prisão em flagrante de Abraão Lincoln “pelo crime impróprio de falso testemunho”, previsto na Lei nº 1.579/52, que regulamenta comissões parlamentares de inquérito.
Segundo parlamentares, o político potiguar teria mentido sobre sua relação com Gabriel Negreiros, tesoureiro da CBPA e padrinho de um dos netos de Abraão. Deputados exibiram uma foto do batizado da criança e citaram ainda depósitos que somariam R$ 5 milhões em uma conta ligada a Negreiros.
O deputado Duarte Jr. (PSB-MA) rebateu a versão do depoente, que inicialmente negou conhecer o tesoureiro para além de laços profissionais. “Ele ser padrinho do seu neto é relação institucional?”, ironizou o parlamentar.
Pressionado, Abraão Lincoln recuou e disse ter se confundido na resposta ao relator da CPMI, deputado Alfredo Gaspar: “Quero pedir perdão, porque, na minha ignorância, não disse, mas ele é meu compadre”, afirmou, sem convencer à comissão.
O relator apontou ainda outros quatro momentos em que o presidente da confederação teria mentido durante o depoimento.
No depoimento, as perguntas de Gaspar deixaram Abraão Lincoln constrangido. O relator destacou o principal ponto da investigação atual: o número alarmante de mortos incluídos nas listas de descontos associativos vinculados à CBPA. “Há cerca de 40 mil mortos incluídos como filiados ativos”, revelou o relator.
Gaspar lembrou a prisão de Abraão em 2015: “O senhor já foi preso alguma vez?”, iniciou o relator. Diante do silêncio, prosseguiu: “Em 2015, Vossa Senhoria passou alguns meses guardado na penitenciária central de Porto Alegre. Pode me dizer o motivo da prisão? Essa prisão foi decorrente da cobrança de propina? Propina relacionada a licenças de pesca artesanal falsas?”. Abraão se limitou a dizer que o caso “ainda está sob investigação” e que “não há condenação”.
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