Domingo, 27 de setembro de 2026

Postado às 10h45 | 27 set 2026 | redação Pesquisa em Mossoró com maracujá silvestre desperta interesse nos EUA

Crédito da foto: Reprodução / Ufersa Equipes de pesquisadores da Ufersa e da Universidade da Flórida durante reunião para Acordo de Coope

Da Redação / Saiba Mais

Uma pesquisa desenvolvida em Mossoró usa um maracujá silvestre encontrado no Rio Grande do Norte para enfrentar uma doença capaz de matar o maracujazeiro e comprometer a produção. O trabalho da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa) despertou o interesse da Universidade da Flórida, nos Estados Unidos, onde produtores também enfrentam problemas provocados por fungos do gênero Fusarium.

As duas instituições iniciaram articulações para uma cooperação científica voltada à avaliação, em condições de cultivo na Flórida, do material desenvolvido no Brasil. O acordo ainda deverá ser formalizado e poderá incluir pesquisas conjuntas, intercâmbio de pesquisadores e formação de profissionais.

No centro da proposta está o UFERSA BRSRM 153, uma cultivar obtida a partir da espécie silvestre Passiflora foetida. Ela é utilizada como porta-enxerto: a planta que fornece as raízes e a base sobre a qual cresce a variedade escolhida para produzir os frutos comerciais.

O maracujá-amarelo, também conhecido como maracujá-azedo, pertence à espécie Passiflora edulis. É aquele usado no preparo de sucos, mousses e outras receitas, reconhecido pela polpa aromática e pelo sabor ácido. A pesquisa busca melhorar as condições de cultivo dessa fruta por meio da combinação com uma espécie silvestre.

A Passiflora foetida, conhecida como maracujá-de-estalo, ocorre naturalmente no Brasil, inclusive na Caatinga. Produz frutos pequenos e comestíveis e pertence ao mesmo gênero botânico do maracujá-amarelo. No caso da cultivar selecionada pelos pesquisadores, os frutos apresentam casca fina e amarelada e polpa esbranquiçada.

O interesse agrícola dessa planta está principalmente em sua utilização como base para a enxertia. Nessa técnica, os pesquisadores unem uma parte do maracujazeiro comercial ao porta-enxerto. Depois que as partes se integram, as raízes da planta silvestre selecionada sustentam a copa da variedade comercial, formada por ramos, folhas, flores e frutos.

Assim, o maracujá colhido corresponde à variedade usada na copa. A contribuição do UFERSA BRSRM 153 está na base da planta e em sua capacidade de suportar condições que prejudicam o cultivo. Essa divisão de funções permite associar características de interesse para a produção da fruta à resistência encontrada no material selecionado.

 

Pesquisa enfrenta doença que ataca as raízes

A fusariose é uma preocupação porque o fungo pode permanecer no solo e infectar o maracujazeiro pelas raízes. Ao se desenvolver dentro da planta, compromete os tecidos responsáveis pelo transporte de água. Entre as consequências estão o amarelecimento das folhas, a murcha e a morte do maracujazeiro, reduzindo sua vida produtiva.

O trabalho que deu origem ao UFERSA BRS Resistente de Mossoró 153, nome completo da cultivar, começou com ciclos de seleção em 2008. Os pesquisadores utilizaram populações de Passiflora foetida encontradas em áreas do Rio Grande do Norte com histórico de fusariose. O desenvolvimento envolveu a Ufersa e a Embrapa Cerrados.

Em avaliações realizadas em área com histórico da doença em Mossoró, o porta-enxerto foi classificado como resistente. Essa característica se refere ao material selecionado e avaliado pela pesquisa.

Os estudos também indicaram tolerância à salinidade da água de irrigação de até 6,0 decisiemens por metro, medida de condutividade elétrica usada para estimar a concentração de sais. A equipe identificou ainda potencial de produção em condições de estresse hídrico e salino, situações em que a falta de água ou o excesso de sais dificultam o desenvolvimento das plantas.

Para o semiárido potiguar, esses resultados têm relação direta com desafios do cultivo irrigado: a disponibilidade de água, sua qualidade e a manutenção das plantas em áreas afetadas por doenças do solo. A avaliação do desempenho em diferentes ambientes ajuda a definir as condições de uso do porta-enxerto.

O material está inscrito no Registro Nacional de Cultivares, do Ministério da Agricultura e Pecuária, desde 18 de julho de 2023, sob o número 54598, conforme a publicação técnica da Embrapa.

 

 

Experiência pode ampliar cooperação internacional da Ufersa

Os resultados foram apresentados pelo professor Eudes de Almeida Cardoso, responsável pela disciplina de Fruticultura na Ufersa, em reunião com o professor Ali Sarkhosh e pesquisadores de pós-doutorado da Universidade da Flórida. Também participaram o vice-reitor Nildo da Silva Dias e o professor Victor Azevedo, da Assessoria de Relações Internacionais da instituição potiguar.

A proposta é verificar como o porta-enxerto se adapta às condições locais, qual é sua resposta à doença e como se comporta no cultivo. Os testes deverão orientar a avaliação de seu potencial para a produção de maracujá na região americana.

Para Nildo Dias, a aproximação abre espaço para ampliar a cooperação internacional da universidade. “É uma oportunidade de levar uma tecnologia desenvolvida na UFERSA para validação em condições internacionais e, ao mesmo tempo, estabelecer uma cooperação que envolva pesquisa, inovação e formação de recursos humanos”, afirmou.

A convite de Ali Sarkhosh, Eudes Cardoso deverá realizar uma visita técnica à Universidade da Flórida para conhecer as áreas de produção e as condições de ocorrência da fusariose. O encontro também deverá servir à definição do protocolo experimental e das próximas etapas da pesquisa.

 

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