Professor Marcos Paulo com alunos e alunas da Escola Estadual 30 de Setembro
Por Ângela Karina – Jornal de Fato
Agosto começou com gosto de vitória para a Escola Estadual 30 de Setembro, em Mossoró, com a premiação do projeto Pomar Escolar e Espaço de Plantas Nativas no CAIC – Abolição IV, elaborado – e inscrito no edital #Entre no Clima: Educação baseada na natureza – pelo professor de Matemática da referida instituição de ensino, Marcos Paulo Medeiros da Cunha, para ser executado junto a uma turma do Ensino Fundamental (Anos Finais).
Localizada em sede provisória em prédio anexo ao CAIC do bairro Abolição IV, a escola centenária é uma das três escolas públicas do Rio Grande do Norte, ao lado da Escola Estadual Professor Severino Bezerra de Melo (Natal) e da Escola Municipal Professor Bartolomeu Fagundes (Macaíba) entre as 12 iniciativas premiadas no edital de mobilização por escolas mais sustentáveis, resilientes e conectadas à natureza, cuja iniciativa é do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) em parceria com a Neoenergia e apoio institucional do Instituto Alana.

Além do projeto Pomar Escolar e Espaço de Plantas Nativas, os projetos Solo Forte Mãe Segura, desenvolvido pela professora Maria Naíre de Santana Melo, de Natal, e Mapa do Lixo - Rua da palha, do professor Erinaldo Bezerra da Silva, de Macaíba, foram as iniciativas premiadas no Rio Grande do Norte, nas quais a valorização da biodiversidade local, o cuidado com os recursos naturais e a mobilização da comunidade escolar para enfrentar desafios socioambientais presentes nos territórios foram destaque; outros seis projetos aqui no estado foram finalistas, sendo um de Apodi, um de Portalegre, um de Macaíba e três de Mossoró (Veja abaixo).
Ao todo, 169 inscrições de escolas públicas da Educação Infantil e do Ensino Fundamental dos territórios participantes do projeto Educação Baseada na Natureza foram avaliadas por uma comissão de especialistas, porém apenas 149 delas foram consideradas iniciativas elegíveis após a etapa de validação e assim distribuídas: 44 do Rio Grande do Norte (RN), 32 do Distrito Federal (DF), 28 de Salvador (BA), e 45 de Recife (PE). O prazo para inscrições foi de 20 de março a 6 de maio de 2026.

Para Hilderlan Aclebson dos Santos, diretor da Escola 30 de Setembro, participar do edital da Campanha #ENTRE NO CLIMA foi, para a escola, uma oportunidade de transformar os desafios do cotidiano em ações concretas de aprendizagem e cuidado com o meio ambiente:
— O projeto desenvolvido pelos estudantes do 6º ano nasceu a partir da escuta e da observação da própria realidade escolar. Durante as primeiras rodas de conversa, uma fala chamou nossa atenção e passou a representar uma necessidade vivenciada diariamente pelos estudantes: “Aqui é muito quente, quase não tem sombra pra gente ficar.” A partir dessa percepção, começamos a olhar para nossa escola de uma maneira diferente. Identificamos áreas ociosas, degradadas, além da necessidade de ampliar o conhecimento dos estudantes sobre a Caatinga, suas espécies nativas e a importância da preservação desse bioma tão presente em nosso território e, para isso, tivemos o poio da 12ª Diretoria Regional de Educação e Cultura - DIREC — relembra.
Para ele, esse processo de escuta alinhado à inquietação dos estudantes foi a semente plantada para uma educação ambiental e consciência cidadã:
— O que começou como uma inquietação dos estudantes transformou-se em investigação, aprendizagem e protagonismo juvenil. Receber esse reconhecimento nos enche de satisfação e orgulho. Para toda a equipe gestora, professores, estudantes e comunidade escolar, estar entre os 12 finalistas que receberiam a premiação dos painéis solares demonstra a força, a criatividade e o compromisso que existem dentro da nossa escola — celebra o diretor.
A cerimônia de premiação ocorreu no último dia 5, em Brasília (DF) e o professor Marcos Paulo, idealizador do projeto, fez-se presente:
—Tivemos a felicidade de estar entre os 12 projetos premiados e fomos a Brasília para a cerimônia de premiação, onde fizemos a apresentação do nosso projeto. Os projetos receberam o Selo UNICEF de Qualidade, o que nos dá credibilidade para avançar ao próximo passo, que é também o maior desafio: colocar o projeto em prática em sua tot, já que a escola não dispõe de recursos para sua implantação — revela.
A premiação foi celebrada por toda comunidade escolar, e mais ainda pelo diretor da escola, que entende que, mais do que o plantio, o objetivo é valorizar o meio ambiente e fazer com que os alunos se envolvam e sejam protagonistas desse processo:
— Para mim, como diretor, essa conquista representa muito mais do que um prêmio. Ela é o reconhecimento de que quando a escola escuta seus estudantes, valoriza suas ideias e cria oportunidades para que eles sejam protagonistas, conseguimos produzir experiências capazes de transformar a realidade; essa conquista terá um significado enorme para toda a comunidade escolar e servirá de estímulo para muitos outros estudantes acreditarem em seu potencial criativo na escola — comemora o diretor, ele que ao mesmo tempo reforça a satisfação com a premiação, aponta os desafios seguintes:
— Como gestor, sinto uma enorme satisfação em ver uma ideia que nasceu de uma simples conversa com os estudantes ganhar essa dimensão e retornar para nossa escola em forma de uma conquista concreta. Isso nos motiva a continuar acreditando na educação, valorizando nossos estudantes e buscando novas oportunidades que possam transformar nossa escola e nossa comunidade. Essa premiação e reconhecimento é de todos nós. Parabenizo os estudantes e toda equipe envolvida e em especial o professor Marcos Paulo Medeiros da Cunha pela iniciativa. Temos ainda um longo caminho pela frente no tocante à finalização do plantio das mudas e à finalização dos espaços, mas foi dado o primeiro passo com o plantio das primeiras mudas. E para termos uma área realmente sombreada, acredito que serão necessários pelo menos três ou quatro anos, porque as mudas ainda são pequenas. Esperamos a médio e longo prazo concretizar toda a proposta do projeto — pontua.
Como parte da premiação, as três escolas vão ganhar sistemas de energia solar fotovoltaica doados pela Neoenergia, ampliando as oportunidades para o desenvolvimento de práticas educativas voltadas à sustentabilidade, à eficiência energética e à ação climática.
Para a Neoenergia, a iniciativa busca não apenas fortalecer a infraestrutura escolar, mas também incentivar o uso pedagógico da tecnologia como ferramenta de aprendizagem e conscientização ambiental para bebês, crianças e adolescentes:
— Acreditamos que transformar a realidade passa pela educação. Ao levar energia solar para essas escolas, queremos contribuir para ambientes de aprendizagem mais sustentáveis e inspiradores, onde crianças e adolescentes possam vivenciar, na prática, conceitos como eficiência energética, preservação ambiental e enfrentamento das mudanças climáticas — afirma Solange Ribeiro, vice-presidente da Neoenergia.
“Essa ação reforça o compromisso da Neoenergia com a formação das novas gerações e com a construção de um futuro mais sustentável para todos”, completou.

O PROJETO
Pomar Escolar e Espaço de Plantas Nativas no CAIC – Abolição IV foi o primeiro projeto elaborado – e já premiado – pelo professor Marcos Paulo Medeiros da Cunha para ser executado, inicialmente, junto à turma do 6º Ano do Ensino Fundamental (Anos Finais), turno Matutino, composta de 33 alunos e, posteriormente, junto à comunidade escolar.
Licenciado em Matemática (UERN, 2002) e Especialista em Educação Matemática (Faculdade Latino-Americana), Marcos Paulo é professor efetivo da Rede Pública Estadual de Ensino do Rio Grande do Norte lotado na Escola Estadual 30 de Setembro há 17 anos, mas desde os primeiros passos na profissão decidiu que seu método de ensino ultrapassaria as paredes da sala de aula para ensinar uma matemática que se aplicasse ao cotidiano, na qual despertasse maior interesse de seus alunos. Essa fórmula tem dado certo.
Com a divulgação nas escolas do edital #Entre no Clima: Educação baseada na natureza, o docente viu na iniciativa a oportunidade de transformar o ambiente escolar em um ecossistema de aprendizagem ativa por meio de uma abordagem interdisciplinar envolvendo a educação ambiental, tema contemporâneo transversal da Base Nacional Comum Curricular – BNCC, que na prática diária despertasse nos alunos não só o pensamento científico, mas a criticidade e a responsabilidade cidadã.
Com esse propósito, Marcos Paulo teve a primeira conversa com a turma do 6º Ano Matutino sobre a ideia do projeto:
– Esse projeto começou efetivamente este ano, no fim de fevereiro, no início do ano letivo. No ano passado, quando o UNICEF, o Instituto Alana e a Neoenergia passaram pelas escolas incentivando a criação de projetos de educação ambiental, eu já tinha essa ideia em mente: aproveitar melhor os espaços das escolas públicas, que geralmente têm áreas grandes e ociosas. Conversei com os alunos sobre a possibilidade de transformar parte desse espaço em um pomar, fui mostrando a proposta e discutindo a importância de aproveitar melhor o terreno da escola, e eles se interessaram. Foi a partir desse envolvimento que decidi desenvolver o projeto com eles e fazer a inscrição na seleção do UNICEF – relembra.
A aceitação foi imediata. Logo, havia vários fatores que convergiam para que o projeto fosse bem-sucedido. O primeiro deles era transformar uma enorme área ociosa em torno do CAIC em área produtiva e em laboratório de Matemática Aplicada; depois, a necessidade de sombreamento ao redor da escola como forma de amenizar a temperatura; por fim, e não menos importante, preservar o bioma Caatinga e desfrutar de um pomar com as frutas selecionadas pelos próprios alunos.

Para Marcos Paulo, o desafio é grande, principalmente porque trabalhar educação ambiental exige envolver os alunos de forma prática. Nesse sentido, para aprofundar o conhecimento sobre as técnicas de manejo e do plantio das mudas, o docente levou os alunos para visitar o canteiro de mudas da Universidade Federal Rural do Semi-Árido - UFERSA. Depois, deu aula por meio de slides para que eles conhecessem as plantas nativas e frutíferas da Caatinga como forma de entender a proposta de criarem juntos uma microfloresta e um pomar ecológico em sistema agroflorestal. Ele também apresentou aos alunos as abelhas nativas sem ferrão, com a proposta de futuramente instalar um meliponário na escola.
Na sequência, o docente detalha o que já foi executado até aqui:
– Estamos fazendo o projeto por etapas, porque ele é de médio e longo prazo. Neste primeiro momento, plantamos algumas mudas em parte da área destinada ao pomar que foi desmatada, como ipê-roxo, ipê-amarelo e craibeira, que são árvores nativas da região, além de cajarana, limão, abacate e manga. Ao todo, foram plantadas 33 mudas, o mesmo número de alunos da turma envolvida, para que cada estudante tenha uma muda para acompanhar até o fim do ano.
Ele revela também quais serão os próximos passos:
– Depois, a ideia é utilizar outro espaço para envolver uma segunda turma, também com uma muda por aluno. No futuro, podemos até trabalhar com duas turmas no mesmo espaço, em dias diferentes, para não sobrecarregar os alunos nem os retirar excessivamente da sala de aula. Essa primeira etapa já integra a proposta do pomar em sistema agroflorestal. Mas a parte que considero de extrema importância, que é a implantação de uma área com árvores e frutas nativas da Caatinga, ainda não foi iniciada porque o terreno continua tomado pelo mato. A limpeza dessa área deve ser feita esta semana e, a partir daí, poderemos iniciar essa etapa do projeto. A proposta é avançar gradualmente, plantando e ampliando o projeto conforme as condições permitirem. É um trabalho que será construído aos poucos, pensando no médio e no longo prazo.
Se o projeto se resumisse ao que já foi apresentado já seria incrível, mas vai além e será implementado em etapas. A primeira delas, que foi o plantio de mudas frutíferas e plantas da Caatinga, já ocorreu, e os primeiros desafios já surgiram: parte do plantio não vingou. Mas aqui nada se perde; tudo vira aprendizado.
– Nosso próximo passo, a partir dessa premiação e do Selo UNICEF de Qualidade, é buscar parcerias para conseguir as mudas e recursos para implantar o sistema de irrigação por gotejamento, acionado automaticamente por sensores de umidade, que impeçam o funcionamento quando houver chuva. Isso porque para uma área desse tamanho é inviável fazer a irrigação manualmente, com baldes. Esse é o nosso grande desafio agora: encontrar parceiros que possam viabilizar os recursos necessários à implantação do projeto exatamente como foi pensado. Enquanto isso, vamos avançando devagar, sem pressa, porque a ideia é que seja um projeto com ações permanentes. Espero que consigamos mantê-lo e fortalecer, cada vez mais, a consciência sobre a importância da preservação da natureza – almeja.
De acordo com Marcos Paulo, o projeto tem ainda como meta de engajamento a integração e interdisciplinaridade de conteúdos de Ciências, Geografia e História, sempre relacionando a aprendizagem à questão ambiental e à importância das árvores para a formação de um microclima. E também como meta de expansão o envolvimento progressivo das demais turmas da comunidade escolar.

ÁREAS SE TRANSFORMAM EM LABORATÓRIO DE MATEMÁTICA APLICADA
Com a aceitação da turma e objetivo definido em se inscrever no edital, o professor fez a medição da área ociosa que se transformará em pomar no sistema agroflorestal e espaço de plantas nativas. Com área total aproximada de 3.489 m², a ideia inicial é utilizar 1.922 m² para o plantio do pomar no sistema agroflorestal e 1.567 m² para o plantio de árvores e frutíferas nativas da Caatinga. Com esses dados, era chegada a hora do professor introduzir conteúdos como Geometria e Medidas, Razão e Proporção e Grandezas e Volumes de forma leve e descontraída, fazendo com que os alunos aprendessem Matemática aplicada às etapas de desenvolvimento do projeto:
– Começamos mapeando as áreas ociosas da escola e, em atividade em sala de aula, os alunos calcularam a área disponível para o projeto. Iniciamos ainda o plantio de algumas mudas e os próprios alunos fizeram as medições para definir o espaçamento adequado entre elas; a ideia é acompanhar mensalmente o crescimento das mudas e construir gráficos com esses dados. Também vamos calcular, por exemplo, o percentual de mudas que sobreviveram, as que precisam ser repostas e outros indicadores. Assim, conseguimos tirar a matemática da sala de aula e mostrar aos alunos como ela está presente no cotidiano.
A ESCOLA
Criada pelo Decreto nº 180 de 15 de novembro de 1908 como Grupo Escolar 30 de Setembro, pelo então governador Dr. Alberto Maranhão, a instituição de ensino só foi oficialmente instalada em 12 de maio de 1909, em sessão solene na Intendência Municipal, presidida pelo Intendente Sr. Luiz Colombo Ferreira Pinto, passando posteriormente a ser denominada Escola Estadual 30 de Setembro.
Com 317 alunos e nota 3,9 no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), em 2025, a escola conta em seus quadros com 40 colaboradores, sendo 24 docentes, dois gestores, três coordenadores pedagógicos e 11 colaboradores na equipe de apoio. A instituição funciona na modalidade de ensino regular e oferta o Ensino Fundamental (Anos Finais) nos turnos matutino e vespertino, com sala de Atendimento Educacional Especializado (AEE), composta por cinco professores da Educação Especial, para um universo de 30 alunos com diagnóstico. O sr. Hilderlan Aclebson dos Santos é o diretor.
Em seus primeiros anos, o Grupo Escolar 30 de Setembro teve como primeiro diretor o bacharelando Francisco Gurgel do Amaral e iniciou suas atividades com quatro professores responsáveis pelos quatro anos do curso primário. O ensino era misto e funcionava em dois turnos. A escola também adotou, ainda nos primeiros anos, uma farda escolar para as alunas e mantinha a tradição de realizar, todos os anos, no dia 30 de setembro, uma comemoração na Praça da Redenção, ao pé da Estátua da Liberdade, onde era cantado o Hino da Libertadora Mossoroense.
EDUCAÇÃO BASEADA NA NATUREZA
O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) em parceria com a Neoenergia, por meio dos Programas de Eficiência Energética das distribuidoras Neoenergia Brasília, Neoenergia Coelba, Neoenergia Pernambuco e Neoenergia Cosern, regulados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), e o apoio institucional do Instituto Alana criou o edital #EntreNoClima: Educação Baseada na Natureza e tem como objetivo formar gestores, coordenadores pedagógicos e professores para ampliar o repertório da comunidade escolar e fortalecer práticas pedagógicas voltadas para temas como mudanças climáticas, eficiência energética, gestão sustentável de resíduos e água.
A iniciativa contempla o desenvolvimento de materiais pedagógicos para crianças e adolescentes, além de cursos e trilhas formativas destinados a educadores da Educação Infantil, dos Anos Iniciais e dos Anos Finais do Ensino Fundamental. Toda a produção foi construída a partir de escutas realizadas nos territórios participantes.
As práticas reconhecidas no edital evidenciam que é possível transformar o cotidiano escolar por meio de experiências pedagógicas que integram natureza, território, ensino e aprendizagem, fortalecendo vínculos, ampliando repertórios e promovendo a escuta e o protagonismo de crianças e adolescentes.
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