Quarta-Feira, 18 de março de 2026

Postado às 14h45 | 17 Set 2025 | redação Após 113 anos, Irmãs Franciscanas compartilham gestão do 'Colégio das Freiras'

Crédito da foto: George Marques Padres Charles Lamartine e Flávio Augusto com a Irmã Zelândia e as Irmãs Franciscanas

Da Redação  do Jornal de Fato

A Diocese Santa Luzia de Mossoró vai assumir a administração do Colégio Sagrado Coração de Maria (CSCM). O anúncio foi feito nesta terça-feira, 16, no encontro dos padres Charles Lamartine, vigário Episcopal Educação e Cultura, e Flávio Augusto, vigário geral e pároco da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, de Pau dos Ferros, com as irmãs Franciscanas, tendo à frente a Irmã Zelândia, diretora do centenário Colégio das Irmãs ou Colégio das Freiras, como era chamado.

A decisão não surpreendeu aos pais de alunos, professores e funcionários do colégio. O processo estava em andamento há algum tempo, embora não fosse tratado de público. As informações de bastidores davam conta que era chegado o momento da mudança na administração do tradicional estabelecimento de ensino, principalmente por dificuldades enfrentadas e necessidade de acompanhar o avanço tecnológico, mas sem abrir mão dos valores que conduziram o colégio até aqui.

Com a decisão, a Diocese Santa Luzia amplia a sua atuação no segmento educacional de Mossoró, que conta com o centenário Colégio Diocesano e a UniCatólica, que é a primeira universidade católica do Rio Grande do Norte, com quase uma dezena de cursos de graduação.

A administração compartilhada com as Irmãs Franciscanas não vai mudar a forma de educar imprimida ao longo de 113 anos. A ideia é, principalmente, cuidar da saúde financeira da instituição no sentido de enfrentar os novos desafios de um segmento cada vez mais concorrido. Sobre isso, os envolvidos no processo de mudança falam pouco, mas é de conhecimento que o Colégio das Irmãs vem passando por dificuldades.

A nova direção do CSCM terá os padres Charles Lamartine e Flávio Augusto Forte Melo, compartilhada com a Irmã Zelândia. O corpo docente e de técnicos administrativos permanecerão os mesmos, embora alterações deverão ser feitas. Esse é um assunto interno que os novos diretores preservam para não criar dificuldade na implementação das mudanças.

 

Veja o comunicado emitido pela Diocese de Mossoró

“A Diocese de Santa Luzia de Mossoró, nas pessoas de Pe. Charles Lamartine, Vigário Episcopal Educação e Cultura, e Pe. Flávio Augusto, Vigário Geral e Pároco da Paróquia de Pau dos Ferros, passa a somar forças na gestão do centenário Colégio Sagrado Coração de Maria (CSCM).

Em uma parceria alicerçada na união de propósitos com as Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição, as quais marcam há mais de um século a educação das crianças e jovens mossoroenses e norte-rio-grandenses, nasce um desejo comum de fortalecer e garantir ainda mais a identidade cristã e humanista da Instituição. Uma educação que une conhecimentos acadêmicos, valores cristãos e princípios humanos na promoção da formação integral do ser em suas dimensões intelectual, ética, estética, espiritual e social.

Com mais de 100 anos de história em Mossoró, o Colégio Sagrado Coração de Maria (CSCM), fundado em 1912, construiu uma trajetória sólida em um itinerário marcado pelo compromisso e excelência na educação. Somos cônscios de que esse legado, reconhecido e valorizado por toda a sociedade mossoroense, é fruto do trabalho incansável das Irmãs que por aqui passaram, as que aqui estão e as que virão, juntamente com uma dedicada e competente equipe, técnica e de professores que, com zelo, sensibilidade, carisma, espírito de serviço e profundo comprometimento fazem do educar um ato de amor.

À luz do esperançar damos um importante passo em direção à colaboração fraterna e à convergência de esforços na gestão do consagrado CSCM. Nesse contexto, reafirmamos nosso compromisso com a continuidade do trabalho das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras, mantendo os seus valores, o carisma, a humildade no trato, a acolhida genuína e o empenho por um profícuo ambiente formativo. Um espaço onde o respeito mútuo, a solidariedade e a busca incessante pelo saber permanecem entrelaçados como pilares essenciais da vivência escolar."

 

CARTA ABERTA

Padre Charles Lamartine publicou em seus endereços uma Carta Aberta de gratidão, em forma de poesia, à Irmã Zelândia, demais Irmãs Franciscanas e todos que fazem o CSCM.

Carta na íntegra:

"À minha amada Irmã Zelândia, às queridas Irmãs Franciscanas Hospitaleiras e a todos do Colégio Sagrado Coração de Maria 

União de fé e saber

A Diocese de Santa Luzia

Como uma prova de plena gratidão

Une forças, saberes e alegrias

Tudo junto, em sinal de comunhão.

 

A educação é feita de instantes grandiosos

Gestos concretos que o tempo não cessará

E mesmo quando o destino é oneroso

A educação, de auroras, se vestirá.

 

Irmã Zelândia, guia forte e serena,

Tua voz é farol de paciência e perdão

Fez da educação uma forma mais que plena

de amor que transborda, de paz e união.

 

Como Padre, trago agora a minha prece:

Gratidão profunda por esta imensa confiança

Neste desafio que agora transparece

Mas que reluz como sinal de esperança.

 

Irmãs Franciscanas, herdeiras da luz consagrada

Que em mais de um século com o Sagrado Coração semeia

Ergue-se um pacto de fé e educação humanizada

De um conhecimento e de um amor que nos permeia.

Respeito vosso zelo e admiro vossa bondade

Em todos os teus gestos reconheço um grande dom

Que este desafio, em sinal de eterna coragem

Seja benção viva e que gere frutos bons.

 

Que nossos destinos, mas do que irmãos de fé,

se tornem agora um sinal de comunhão:

um só rebanho, um só Pastor que sempre é,

O Nosso Cristo, razão desta união."

 

 Refugiadas e expatriadas de Portugal pela perseguição religiosa de 1910

Em 2 de agosto de 1912 dava-se a inauguração do Colégio Sagrado Coração de Maria, com a presença de grande número de populares além de autoridades municipais, das quais podemos destacar o Tenente Coronel Cunha da Mota, que era vice-presidente do Conselho Municipal, em exercício, do padre André de Araújo, diretor do Colégio Diocesano Santa Luzia, do Coronel Bento Praxedes e de Tércio Rosado Maia.

A direção do referido estabelecimento de ensino destinado ao sexo feminino foi entregue às Irmãs Franciscanas Hospitaleiras Portuguesas, refugiadas e expatriadas de Portugal pela perseguição religiosa de 1910. A primeira diretora foi a Irmã Maria Leocádia do Menino Jesus, que teve como auxiliares as Irmãs Rosária de São Francisco, Maria do Divino Coração, Maria da Visitação, Helena da Cruz e Maria Ruth da Conceição.

Ao chegarem a Mossoró, essas religiosas foram acolhidas pela comunidade e apoiadas pelas autoridades, tendo sido hóspedes dos senhores Raimundo Fernandes, Miguel Faustino do Monte, Antônio Couto e do Padre Pedro Paulino, vigário da época. Mas logo em seguida as Irmãs passaram a morar no prédio onde estava sendo instalado o colégio.

Uma das dificuldades enfrentadas na época foi que o imóvel onde estavam se instalando não pertencia à Congregação, e sim à Diocese de Mossoró. Mas sob a proteção de dom Jaime de Barros Câmara, que viria a ser o primeiro bispo de Mossoró, o prédio foi cedido para que ali se instalasse o “Colégio das Irmãs”.

No início tinha apenas 57 alunas matriculadas. Mesmo assim, as atividades transcorreram de forma normal. Em 1913, com a ajuda da Prefeitura, o prédio foi ampliado, tendo se construído um espaço para dormitório das internas e uma cisterna, o que era de primeira necessidade. Houve melhorias também no ensino, com a introdução de novas disciplinas, como língua estrangeira e noções de contabilidade, além de atividades curriculares que permitiram um encerramento do ano letivo com encenações dramáticas, números de arte e exposições de trabalhos manuais. Ainda nesse ano se estabeleceu, no Colégio, a Pia União das Filhas de Maria, como uma ação missionária das irmãs. O regime escolar para as alunas externas era de semi-internato.

Em 1920, já sob a direção da Madre Maria do Rosário de São Francisco, uma acentuada crise financeira abalou a estrutura do Colégio, em consequência de uma considerável baixa de matrículas. Foi um ano de seca e flagelo para o Nordeste brasileiro. Em 1936 foi feita a primeira reforma da fechada do Colégio, foi inaugurado o Jardim da Infância e construído o seu auditório.

Nos anos 40 foi implantado o ciclo ginasial e com isso houve a mudança da denominação de Colégio para Ginásio. Na década de 50 foi implantado o curso pedagógico, com autorização governamental. A década de 60 foi marcada pela acentuada repressão à liberdade de pensamento e de muita efervescência cultural.

Na década de 80 o Ginásio Sagrado Coração de Maria, que originalmente era só para meninas, passou a aceitar também meninos, trabalhando com a educação mista, o que favoreceu a um grande aumento de matrícula.

Fonte: Geraldo Maia / Historiador

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