Médico Nilson Mendes lidera pesquisa sobre a relação entre dor crônica e depressão
Da Redação
Uma pesquisa liderada pelo médico potiguar Nilson Mendes sobre a relação entre dor crônica e depressão ganhou repercussão internacional após ser publicada na revista científica Nature Mental Health. O estudo da Universidade Potiguar (UnP) tem chamado a atenção da comunidade médica ao propor uma mudança na forma como profissionais de saúde avaliam pacientes com suspeita de depressão resistente ao tratamento.
Os resultados indicam que, antes de concluir que os antidepressivos não estão surtindo o efeito esperado, é fundamental investigar uma condição frequentemente negligenciada: a presença de dor crônica, que pode estar contribuindo para a persistência dos sintomas.
Nilson Mendes é pesquisador e professor de Medicina da UnP/Inspirali. O trabalho reúne evidências de que a dor crônica e a depressão compartilham mecanismos biológicos e podem influenciar mutuamente a evolução clínica, o que reforça a necessidade de uma avaliação mais abrangente desses pacientes.
Atualmente, pessoas que continuam apresentando sintomas depressivos mesmo após o uso adequado de diferentes medicamentos podem receber o diagnóstico de depressão resistente ao tratamento. Para o pesquisador, que também é egresso da UnP, parte desses casos pode ter relação com a presença de dor crônica não identificada ou subavaliada.
“O principal ponto do nosso trabalho é mostrar que a dor crônica pode ser uma variável importante na avaliação de pacientes que não apresentam a resposta esperada ao tratamento antidepressivo. Antes de concluir que estamos diante de uma depressão resistente, precisamos ter certeza de que estamos avaliando o paciente de forma completa. A proposta não é substituir nem questionar o uso dos antidepressivos, mas ampliar a investigação clínica para identificar fatores que possam estar contribuindo para a persistência dos sintomas”, explica.
RETRANCA
Título: Muito além da dor física
A pesquisa também ajuda a entender os impactos da dor persistente na vida de quem convive com essa condição. Pessoas que sofrem com dor crônica costumam dormir pior, reduzir a prática de atividades físicas, perder autonomia, diminuir a produtividade no trabalho, restringir o convívio social e abandonar atividades que antes proporcionavam prazer. Esse conjunto de fatores pode dificultar a recuperação da saúde mental.
Além dos impactos na rotina, existem circuitos cerebrais envolvidos tanto no processamento da dor quanto em funções relacionadas ao humor, à motivação, ao estresse e aos mecanismos de recompensa, o que favorece a compreensão da relação entre as duas condições. “Mesmo que o antidepressivo esteja atuando sobre parte dos sintomas depressivos, o paciente pode continuar exposto diariamente a uma condição dolorosa que interfere diretamente no seu funcionamento e na sua qualidade de vida”, comenta o docente da UnP/Inspirali.
Uma avaliação mais completa
O estudo propõe que perguntas sobre a presença de dor passem a integrar a rotina de avaliação de pacientes com suspeita de depressão resistente ao tratamento. Questões como onde a dor está localizada, há quanto tempo ela existe, se interfere no sono, limita as atividades do dia a dia ou se o humor piora nos períodos de maior intensidade podem fornecer informações relevantes para o planejamento terapêutico. “Antes de apenas trocar ou intensificar o tratamento antidepressivo, precisamos entender melhor por que aquele paciente continua apresentando sintomas”, frisa o pesquisador.
Entre as condições frequentemente associadas à dor persistente estão lombalgia crônica, fibromialgia, enxaqueca, dores neuropáticas, osteoartrite e outras doenças que comprometem a funcionalidade do paciente. “Mais importante do que o diagnóstico em si é compreender o impacto dessa dor na vida da pessoa. Quando ela compromete o sono, limita a mobilidade, impede o trabalho ou faz o paciente abandonar atividades importantes, pode exercer uma influência significativa sobre a saúde mental”, afirma.
Tratamento
Outro ponto reforçado no material é a importância de uma abordagem multidisciplinar, envolvendo especialidades como psiquiatria, medicina da dor, neurologia, reumatologia, fisioterapia, psicologia e atenção primária. “O objetivo final não é tratar apenas uma doença. É devolver funcionalidade, autonomia e qualidade de vida ao paciente”, resume Nilson Mendes.
Segundo ele, a resposta ao tratamento deve ser avaliada não apenas pela redução dos sintomas depressivos ou da intensidade da dor, mas também pela capacidade de o paciente retomar sua rotina, voltar ao trabalho, conviver com familiares e amigos e recuperar autonomia.
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