Doutoranda Janieli Melo e, ao fundo, as professoras Silvana Zucolotto e Waldenice Lima observam o pr
Por Sophia Araújo / Especial – UFRN
O Líquen Plano Oral (LPO) é uma doença inflamatória crônica que afeta a cavidade bucal, de causa exata ainda não identificada. Trata-se de uma condição sem cura definitiva, cujo tratamento é baseado no uso de corticoides tópicos ou sistêmicos.
A utilização prolongada desses medicamentos pode gerar efeitos adversos e redução progressiva da eficácia terapêutica, situação que compromete o tratamento e impõe a necessidade do uso de alternativas. Nesse contexto, pesquisadoras da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) desenvolveram um gel fitoterápico a partir da casca do cajueiro para o tratamento do LPO.
A invenção se refere a uma formulação fitoterápica na forma de gel, de uso odontológico, obtida a partir do extrato da casca do cajueiro, espécie vegetal da biodiversidade brasileira com ampla presença no Nordeste do país.
O cajueiro é popularmente conhecido por suas propriedades antimicrobianas, antioxidantes, anti-inflamatórias e cicatrizantes, características que contribuem para a regeneração tecidual e o controle da inflamação, configurando-se como uma nova alternativa para o tratamento de lesões orais.
Medicina popular
Docente do Departamento de Farmácia, Waldenice de Alencar Morais Lima explica que a fórmula foi elaborada em etapas, a partir de um produto natural até a obtenção de um gel de tratamento, baseando-se na medicina popular da região Nordeste e em comprovações científicas das atividades terapêuticas de espécies vegetais. “Pensamos em uma formulação em gel, com aplicação clínica oral tópica, que reunisse características de estabilidade, segurança e eficácia”.
O produto criado pelas cientistas da UFRN promove uma abordagem menos invasiva no tratamento do LPO e, portanto, representa uma alternativa terapêutica natural, segura e eficaz, contribuindo para minimizar os efeitos adversos associados à terapia convencional.
Nesse caso, a aplicação da formulação fitoterápica odontológica é feita diretamente sobre as lesões da cavidade oral do paciente, favorecendo a cicatrização das áreas afetadas de forma localizada, resultando em um impacto positivo na qualidade de vida dos pacientes e garantindo segurança farmacológica.
“Essa formulação fitoterápica inova em diferentes aspectos científicos, tecnológicos e sociais. Trata-se de uma inovação que integra o conhecimento tradicional sobre as propriedades medicinais da casca do cajueiro a evidências científicas contemporâneas, resultando em um produto capaz de oferecer benefícios clínicos concretos aos pacientes. A formulação proposta minimiza os efeitos adversos associados aos tratamentos convencionais, ao mesmo tempo em que explora as atividades anti-inflamatórias, cicatrizantes e antioxidantes de uma espécie vegetal nativa brasileir”, comenta a pesquisadora Anna Clara de Araújo Gomes.
Colaboração interdisciplinar
A formulação foi desenvolvida entre 2023 e 2024, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Odontológicas (PPGCO/UFRN), na área de concentração em Estomatologia e Patologia Oral, a partir de uma parceria estabelecida entre os Laboratórios de Farmacognosia e Farmacotécnica do Departamento de Farmácia da UFRN. Em 2024, foi utilizada em um estudo clínico no Departamento de Odontologia, como parte do projeto de mestrado da pesquisadora Anna Clara Gomes de Araújo.
“A iniciativa só foi alcançada com êxito em virtude de uma colaboração interdisciplinar entre o Departamento de Odontologia e o Departamento de Farmácia da UFRN”, frisa a cientista Waldenice Lima. Ela acrescenta que o gel contém de 3% a 5% de extrato seco da casca do cajueiro, liofilizado. Além disso, o processo de fabricação da inovação utiliza métodos específicos para estabilizar o extrato bioativo em uma formulação tópica odontológica, diferenciando-se de técnicas convencionais.
Genuinamente brasileiro
Legenda: Doutoranda Janieli Melo e, ao fundo, as professoras Silvana Zucolotto e Waldenice Lima observam o processo de fabricação
A pesquisa resultou no pedido de depósito de patente intitulado ‘Produto a partir de formulações à base de extrato da casca do Anacardium occidentale Linn. (cajueiro) para o tratamento do líquen oral e outras inflamações da cavidade oral e seu processo de obtenção’, cujos autores são Janieli de Oliveira Melo, Brenda Kadja Dantas do Santos Rodrigues, Ruth Fernandes Borges, Ericka Janine Dantas da Silveira, Silvana Maria Zucolotto Langassner e Waldenice de Alencar Morais Lima.
“Do ponto de vista acadêmico, o patenteamento fortalece a produção de conhecimento original e aplicável, incentivando a pesquisa translacional, que conecta os achados laboratoriais e clínicos ao desenvolvimento de formulações terapêuticas viáveis. Além disso, ratifica a importância de um processo de pesquisa colaborativo, interdisciplinar e multiprofissional, no qual diferentes áreas do saber, da odontologia à farmácia, convergem para a obtenção de um produto inovador”, conclui Ericka Janine Dantas da Silveira, professora do Departamento de Odontologia da UFRN.
Além da aplicação terapêutica da tecnologia, cabe destacar que toda a cadeia produtiva poderá ser desenvolvida em território nacional, desde o cultivo até o produto acabado, diminuindo a dependência internacional do Brasil em insumos e promovendo a geração de renda local, por meio do estabelecimento de cultivos e/ou do extrativismo sustentável, destaca a pesquisadora Silvana Zucolotto. Atualmente, o gel encontra-se em estágio de avaliação para ampliação do uso em outras lesões orais, por meio de novos estudos clínicos que estão em andamento no Departamento de Odontologia da UFRN.
Tags: