Empreendedora Dona Linda evita desperdício de frutas e transforma em fonte de renda
Por Ângela Karina – Jornal de Fato
Receita de família e a tradição de mulheres do clã na feitura de doces artesanais. Com essa pitada de força e memória afetiva surgiu na economia solidária, em 2010, os doces feitos pela empreendedora Maria José Joventino da Silva ou "Dona Linda", como é carinhosamente conhecida no Assentamento Paulo Freire III, na zona rural de Pureza, cidade situada na região Leste potiguar, distante cerca de 65 km da capital Natal.
Dona Linda aprendeu o ofício observando e ajudando a mãe, Dona Terezinha Silva que, por sua vez, também aprendeu com a matriarca Maria do Nascimento; ou seja, um dote culinário que atravessa gerações e adoça o paladar nos cantos e recantos do Brasil.
Aos 55 anos, a trajetória da doceira é marcada pela constante busca pelo sustento da família, sobretudo depois do nascimento da filha Jucelândia. Natural de Baraúna/RN, Dona Linda saiu do interior há mais de 30 anos com a filha pequena e foi em busca de melhor sorte na capital, onde lá encontrou emprego como faxineira, permanecendo até 2007.

Dona Linda na cidade de Pureza
De turista a residente
A exuberância das águas cristalinas atraiu Dona Linda à cidade de Pureza. E foi nessa excursão turística ao Olheiro de Pureza que ela conheceu e se interessou pelo Movimento da Reforma Agrária no qual culminou na desapropriação pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) da Fazenda Caravelos alguns anos depois.
A possibilidade de ter um título de terra atraiu parte da família de Dona Linda, sendo a irmã mais velha a primeira a se mudar com a família para o acampamento. Em seguida, foi a vez de Dona Linda. Pouco tempo depois, mais três irmãs também se mudaram para o acampamento onde, no início, contava com apenas sete famílias antes de se consolidar como assentamento.
Por meio do projeto de Reforma Agrária, coordenado pelo Incra, o Assentamento Paulo Freire III foi contemplado com recursos do Governo Federal para a construção das casas para as famílias assentadas, bem como com programas de Apoio à Mulher e Brasil Sem Miséria, dentre outros incentivos para a viabilidade dos quintais produtivos.
A comunidade assentada também passou a ser assistida com políticas públicas, além de outras oportunidades que chegaram por lá. Cursos pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR), assistência técnica pelo Serviço de Apoio às Micro e Pequenas empresas (SEBRAE), e crédito pela Agência Desenvolve RN e pelo Banco do Nordeste do Brasil (BNB) foram algumas das melhorias que contribuíram para o desenvolvimento da área desapropriada.
Atualmente, são 61 famílias tituladas. Nas terras cultivam frutas, hortaliças e outras culturas, além de criações diversificadas, tornando-se modelo bem-sucedido de distribuição de terra.
De posse do título de domínio definitivo, entregue em setembro de 2022 pelo Incra/RN, cada família tem à disposição o acesso a crédito rural por meio de uma rede de instituições que compõem o Sistema Nacional de Fomento (SNF), representado pela Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE), para melhorias no plantio, aquisição de maquinário, ampliação e comercialização da produção, contribuições significativas para o desenvolvimento regional sustentável.

O início como doceira
Logo que se mudou de Natal para Pureza, em meados de 2007, Dona Linda ficou sem renda fixa e não demorou muito para as dificuldades começarem a surgir, já que a família passou a contar apenas com o ganho do esposo Cícero à época, proveniente de bicos
Com a safra das frutas e não conseguindo comercializá-la, o desperdício era enorme, o que incomodava Dona Linda. Doceira de mão cheia, ela uniu o útil ao necessário: evitar o desperdício de frutas e fazer disso uma fonte de renda aliada à sustentabilidade, como revela a seguir:
— Quando eu cheguei ao assentamento, eu não tinha renda e também aqui tinha muito desperdício de frutas. Aí tive a ideia de fazer doce com a banana e a tomate e passei a vender. No início, vendia num pote normal, sem rótulo, sem nada.
Ela revela ainda as mudanças de nome ocorridas no início, passando de Vovó Bebezinha, Maria José, Vovó Tetê, Paulo Freire III até chegar à marca “Dona Linda”, no mercado há 13 anos e em franca expansão com geleias, molhos de pimenta, e mel no catálogo de produtos, fortalecendo a economia solidária.
Com a variedade de frutas cultivadas no quintal produtivo da família, a produção é orgânica, sem uso de agrotóxicos, conferindo maior qualidade e aceitação aos produtos da Agricultura Familiar.
Além disso, Dona Linda viaja o Brasil como artesã, participando de feiras, como a Brasil Mostra Brasil, Fiart e Festa do Boi, mostrando a sua arte culinária.

De doceira a empreendedora
8 de março de 2010. Data celebrativa para Dona Linda não só por ser dedicada ao dia Internacional da Mulher, mas por ser um marco na vida dela enquanto empreendedora, pois foi nesse dia que ela e outras mulheres do assentamento estiveram na Câmara Municipal a convite do Sebrae.
Na ocasião, elas participaram de uma reunião na qual foram apresentados os serviços e benefícios ofertados pelo agente de capacitação e de promoção do desenvolvimento, com pauta especial voltada às mulheres.
Perspicaz, Dona Linda viu no encontro a oportunidade de comercializar seus doces artesanais e não hesitou em levar o que havia produzido. Ela vendeu todos os 17 potes de doce, mas o seu ganho não foi com o apurado; foi muito além disso. O encontro lhe rendeu orientações técnicas sobre embalagem, rótulo, técnica de vendas e muito mais, como ela atesta:
— Depois do contato com o Sebrae, eles me orientaram a colocar rótulo, a fazer o porta a porta e melhorias nos produtos. O Sebrae é uma porta maravilhosa de incentivo para quem quer empreender, descreve a doceira.
De imediato, Dona Linda colocou em prática parte das orientações recebidas; algumas dependiam de capital de giro, porém ela não dispunha. Com a renda dos doces, ela reinvestiu na produção e na ida a Natal para vender de porta em porta. A ação foi um sucesso, passando a ser feita periodicamente.
Aos poucos, ela foi ampliando a produção e investindo nas melhorias do produto, embora o lucro não fosse grande em virtude de comprar em pequenas quantidades de rótulos, potes de vidro e ingredientes para a produção. Ela conta que os cursos a ensinaram a majorar a margem de lucro ao otimizar as receitas com a redução da proporção de açúcar adicionado no preparo, mas sem abrir mão do manejo e ponto do doce ensinado pela mãe.

Acesso a linhas de crédito
Com o aperfeiçoamento em cursos, a participação em feiras e a experiência adquirida, Dona Linda viu que empreender é diferente de apenas vender. Ela se deu conta que precisava ampliar a produção para baratear os custos.
Com isso, em uma dessas idas à capital para ações de venda, ela procurou a Agência de Fomento do Rio Grande do Norte para acessar alguma linha de crédito. Contudo, a primeira tentativa foi negada. Resiliente, a doceira não se deu por vencida e pouco tempo depois tentou novamente acessar o crédito, obtendo êxito dessa vez.
De lá para cá, a empreendedora já acessou cinco operações de crédito, nas quais a primeira delas começou com um financiamento de pouco mais de R$ 3.000,00. Com a frequência e regularidade no pagamento das parcelas, a Desenvolve RN, antiga AGN, ampliou o crédito e o prazo concedido à empreendedora, chegando a R$ 12.000,00 a última operação, parcelada em 18 meses, com o recurso aplicado de acordo com o descrito pela tomadora de crédito:

— A operação em curso foi para o plantio do maracujá e da pimenta, mas com as operações anteriores e o lucro da produção adquiri carro, três fogões industriais, cozinha inox e outros equipamentos, e estou finalizando um espaço mais amplo onde será a cozinha.
Com o apoio da Desenvolve RN, Dona Linda faz planos com os recursos a serem liberados em operações futuras para fazer crescer ainda mais o negócio.
Com os aportes financeiros junto ao SNF, Dona Linda adquiriu maquinário, ampliou o estoque de embalagens de vidro e rótulos, bem como realizou benfeitorias na casa, com ampliação e montagem da cozinha inox, de onde sai toda a produção de doces caseiros.
Com mais crédito e profissionalização, a demanda aumentou e a produção já ultrapassa mil unidades, realizando entrega em mais de dez cidades; apenas em Natal conta com 30 pontos de venda.
— Muito do que tenho hoje é graças aos financiamentos da AGN que me ajudaram a crescer a minha produção, profissionalizar e conseguir atender mais pessoas. Sou muito grata por esse apoio e por acreditarem em mim, afirma Dona Linda.
Antes, todo o processo produtivo era feito apenas por Dona Linda, mas com a crescente demanda, ela conta com a força de trabalho do atual esposo Percilho, das sobrinhas Marta, Tatiane e Zeilde. E, mesmo residindo no Ceará, a filha Jucelândia ajuda na
A tendência é de mais crescimento. Isso porque Dona Linda, mulher de fibra e incansável na busca de melhorias para o seu negócio, tem no acesso a crédito um grande aliado.
Prova disso é que para otimizar o processo e reduzir os custos de produção do doce de leite e derivados, a empreendedora financiou há cerca de dois meses o montante de R$ 52.000,00 pelo Banco do Nordeste, via Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), para aquisição de cinco vacas leiteiras.
O prazo de carência de três anos para começar a pagar e taxas de juros menores foram decisivos para Dona Linda acessar o crédito rural sustentável. Para o Plano Safra 2025/2026 da agricultura familiar, o BNB dispõe de R$ 10,2 bilhões, sendo o volume de R$ 505 milhões para o Rio Grande do Norte.
A interiorização do crédito é uma das pautas defendidas pela ABDE. Com isso, a entidade busca reverter o ciclo de concentração de recursos do SNF para regiões mais desenvolvidas, apontada no InfoABDE de 2023, divulgado na última edição do SNF em números Municípios.
Da carteira total de crédito via SNF para os municípios, o Sudeste abocanhou 42,4%; mais do que o dobro destinado ao Nordeste (21,7%) e quase oito vezes mais do que foi destinado ao Norte (5,1%) e ao Centro-Oeste (7,1%).

ABDE fortalece Sistema Nacional de Fomento e mira desenvolvimento sustentável
Criada em 1969, a Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE) articula e fortalece o Sistema Nacional de Fomento (SNF), que reúne 35 instituições, entre bancos de desenvolvimento, agências de fomento e cooperativas de crédito, das quais o Banco do Nordeste, a Desenvolve RN e o Sebrae fazem parte.
Na vanguarda da interiorização do crédito, a ABDE representa o setor junto a governos e empresas, além de promover estudos e capacitações, os quais tornam o financiamento ao desenvolvimento mais acessível e eficiente.
O SNF foi criado em 1995 com o intuito de exercer papel estratégico na redução das desigualdades regionais e na promoção do crescimento econômico, social e ambientalmente sustentável. Responsável por 46% da carteira nacional de crédito, com forte presença no financiamento de longo prazo e infraestrutura, o sistema é essencial para modernizar o setor público, apoiar a inovação e impulsionar a transição verde no país e o empreendedorismo feminino. Sobre este último, a diretora da ABDE e diretora-presidente da Desenvolve RN, Márcia Maia, esclarece:
— O Sistema Nacional de Fomento vem atuando para ampliar o financiamento às mulheres. Os valores financiados diretamente às mulheres ainda estão em estudo, mas temos um levantamento realizado pela ABDE que mostra que, em 23 instituições financeiras analisadas, há 29 linhas de crédito específicas para incentivar o empreendedorismo feminino. Isso demonstra o esforço das nossas instituições em garantir o acesso das mulheres ao financiamento.

Doces Dona Linda
Sobre a Desenvolve RN
Criada em 2000 pelo Governo do Estado, a Desenvolve RN chega aos 25 anos consolidada como um dos principais instrumentos de fomento econômico e social do estado. O jubileu de prata marca a mudança de nome de AGN para Desenvolve RN, mas a missão da instituição permanece: apoiar micro e pequenos empreendedores, empresas e municípios, oferecendo crédito orientado, com condições acessíveis e taxas competitivas.
Ao longo de sua trajetória, a Desenvolve RN já investiu quase R$ 300 milhões e atendeu mais de 57 mil empreendedores, com 70% desse volume concentrado nos últimos seis anos. Para Márcia Maia, diretora-presidente da Desenvolve RN, os resultados refletem a modernização da agência, ao ampliar produtos, parcerias e tecnologias.
Com um olhar voltado ao empreendedorismo feminino, a diretora-presidente celebra a ampliação do crédito às mulheres empreendedoras:
— Só em 2024, a Desenvolve RN investiu cerca de R$ 25 milhões em cerca de 3 mil contratos com mulheres empreendedoras, mais da metade do que foi realizado pela instituição no ano.
Já a governadora Fátima Bezerra destacou o impacto social da instituição, que leva crédito a mulheres, jovens, agricultores familiares e pescadores artesanais. Além do empreendedorismo, a Desenvolve RN também investe em inovação, infraestrutura, energias renováveis e economia criativa, fortalecendo o desenvolvimento sustentável e inclusivo do estado.
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