Jogadores do São Bernardo comemoram gol contra a Ponte Preta
Redação do ge
O São Bernardo vive uma realidade estrutural e logística bem diferente da maioria dos clubes da Série B do Campeonato Brasileiro. Treinos a mais de 70 quilômetros do estádio, falta de categorias de base e a menor média de público do torneio são elementos que fazem parte do ecossistema do líder e grande surpresa da competição até aqui.
Com quase 22 anos de história, nasceu clube-empresa. O time foi fundado por um grupo de políticos, liderados por Edinho Montemor, ex-secretário de esportes da cidade, e seguiu com administração independente, com custos de elenco e estruturais pagos por patrocinadores, até virar SAF.
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Edinho Montemor, fundador do São Bernardo, ao lado de Marcelo Lima, atual prefeito da cidade — Foto: Reprodução/Instagram
Tudo mudou em 2020, quando o clube foi comprado pelo grupo Magnum, encabeçado por Roberto Graziano, empresário com atuação no meio de relógios, no mundo fitness e no futebol, onde também é dono do estádio Brinco de Ouro, do Guarani, em Campinas. Ele passou a controlar a SAF.
Nesse período, o clube saiu da Série A2 do Paulistão para disputar regularmente a elite estadual e subir para a segunda divisão nacional.
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Roberto Graziano, CEO do Grupo Magnum e dono do São Bernardo — Foto: ge
"Surpresa" da Série B
Apesar de estar em seu ano de estreia na competição, o São Bernardo briga na parte de cima da tabela. Uma surpresa para quem não conhecia o clube, mas não para a torcida.
Victor Nadal, autor dos livros “15 anos do Tigre! O almanaque do SBFC” e "São Bernardo, duas décadas em Campo!", afirma, porém, que é necessário conter a empolgação.
— Talvez seja surpresa para o resto do país que não acompanha. Para nós, não. Faz cinco anos que todo campeonato jogamos bem. Mas é uma estreia de Série B. Por isso, o foco é se manter. Sabemos que a gente não é um clube de Série A — opinou.
O ge também conversou com pessoas do clube sobre o momento do time na Série B.
— Não é fácil, mas acho que o São Bernardo tem um projeto sólido, atletas conscientes e espero que a gente continue no pelotão de cima, para que o tão sonhado acesso possa vir já em 2026 — disse Marco Gama, executivo de futebol.
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Marco Gama, diretor de futebol do São Bernardo — Foto: Divulgação / São Bernardo FC
Os atletas também reconhecem o bom momento da equipe, mas entendem que o foco não deve estar no acesso neste momento.
— A primeira colocação nos mostra que estamos no caminho certo. Mesmo assim, pés no chão, humildade, disputar jogo a jogo. É um campeonato muito difícil, grandes equipes, mas estamos no caminho certo — analisou o goleiro Alex Alves.
— Acho que o São Bernardo é uma equipe pequena para quem não conhece. Cresceu bastante nos últimos anos, e a prova disso é que a gente está disputando a nossa primeira Série B, e já somos líderes do campeonato — declarou o meia Dudu Miraíma.
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Alex Alves em entrevista ao ge — Foto: Foto: Gabriel Flores/ge
Elenco e categorias de base
A montagem de elenco costuma ser um desafio. O clube não tem time sub-20, e as demais categorias, do sub-11 até o sub-17, são administradas por um time localizado em Itatiba, no interior paulista, que tem concessão para usar o nome do São Bernardo.
Sem utilizar os garotos da base, a equipe é formada no mercado, o que representa um aumento considerável de gasto para o departamento de futebol.
— Acho essencial que a categoria sub-20 seja concebida com a maior antecedência possível. Além de ser um ponto interessante comercialmente, também é um fator que pode diminuir o investimento que é feito na folha de pagamento. Hoje, necessariamente, você precisa contratar uma quantidade maior de atletas, por falta dessa categoria. Para se precaver das lesões, quando a janela de transferências estiver fechada, é preciso ter um elenco mais robusto — afirmou Marco Gama.
Apesar de não contar com uma categoria sub-20, o elenco conta com jogadores nessa faixa etária, que foram contratados diretamente para o profissional. Um deles é o atacante Daniel Davi, que já marcou um gol nesta Série B, no empate contra o América-MG, em casa - ele entrou no segundo tempo e igualou o placar nos últimos minutos de jogo.
— É um sonho chegar no profissional logo na Série B, ainda mais marcando um gol nos meus primeiros minutos na competição. Sou muito novo, estou aqui para aprender — contou o jogador.
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Daniel Davi em entrevista ao ge — Foto: Foto: Gabriel Flores/ge
Centro de treinamento
Um dos pontos de maior debate no clube é a localização do centro de treinamento. O espaço fica em Atibaia, a cerca de 70 quilômetros de distância do estádio Primeiro de Maio, em São Bernardo do Campo.
O lugar onde o time treina se chama Atibaia Seven Resort, espaço que pertence ao ex-jogador Marcelinho Carioca. Devido a localização, os jogadores residem em sua maioria na cidade de Bragança Paulista.
Quando joga em casa, o grupo se hospeda em um hotel em Santo André e retorna para Atibaia depois das partidas.
Quando o grupo Magnum assumiu o clube, o time precisou buscar alternativas para treinar e jogar já que a prefeitura de São Bernardo do Campo passou a cobrar um valor maior para ceder a estrutura.
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Centro de treinamento do São Bernardo, em Atibaia — Foto: Foto: Reprodução
Por esse motivo, os novos gestores decidiram ir para Atibaia, onde havia um espaço capaz de abrigar o elenco. Depois, clube e prefeitura entraram em acordo para a realização das partidas no estádio, mas o centro de treinamento se manteve distante de São Bernardo.
— No primeiro e no segundo ano eu entendi, mas a partir de então não ter o clube aqui não faz sentido. Esse é o maior ponto de desgaste com a torcida. A gente pergunta: por que o clube está tão longe? São Bernardo é uma cidade gigantesca, onde você consegue fazer o que você quiser — relatou Victor Nadal, que citou um projeto antigo de comprar um terreno na cidade, mas que nunca saiu do papel.
— O que a gente sabe é que o terreno já está à venda de novo, porque não conseguiram fazer o que queriam. É uma área manancial, e o dono não se posiciona sobre isso — comentou.
O clube também entende como prioridade máxima estar localizado em São Bernardo do Campo.
— A mudança precisa acontecer. A distância esfria a comunicação, a relação, e faz com que no dia do jogo, as pessoas às vezes nem conseguem entender o porquê de algumas decisões. O clube já está há seis anos aqui em Atibaia, então não é da noite para o dia que isso vai acontecer, mas o passo de interesse na mudança foi feito através da aquisição do terreno. Tenho certeza que com essa distância encurtada a relação com o torcedor vai ser muito mais estreita — explicou Marco Gama.
Alex Alves, que está desde 2022 no clube, também entende que a distância atrapalha, mas vê a relação com a torcida de forma positiva.
— Se estivéssemos em São Bernardo essa proximidade seria muito maior, mas a gente tenta minimizar isso tratando bem o torcedor — disse.
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Centro de treinamento do São Bernardo, em Atibaia — Foto: Foto: Reprodução
Falta de público nos jogos
Segundo levantamento publicado pelo ge, o São Bernardo é o clube com menor média de público da Série B.
— O clube é novo, querendo ou não, vai fazer 22 anos. Você não tem uma mídia local especializada para cobrir os clubes daqui, falta visibilidade. Além disso, é muito próximo da capital, onde quase todo mundo estuda ou trabalha, então acabam escolhendo os clubes de lá — analisou Victor Nadal.
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Estádio Primeiro de Maio — Foto: Anderson Romão/AGIF
Próximo passo
Com a gestão do grupo Magnum, o São Bernardo conquistou seu espaço no mundo esportivo, tanto no âmbito estadual como no nacional, de maneira muito rápida.
Mas, o que é preciso para dar o próximo passo? Como acompanhar a evolução de dentro de campo fora dele?
— Do ponto de vista desportivo, o São Bernardo é um sucesso. Apesar disso, todo projeto carece dos seus ajustes. Temos que diminuir a distância geográfica, investir na estrutura e nas categorias de formação. São os pontos a serem atacados para que a gente tenha um São Bernardo cada vez mais forte — afirmou Marco Gama.
Sonho com a Série A
Apesar do discurso cauteloso com o bom momento do clube, tanto da diretoria quanto dos jogadores, Marco Gama revelou que o grande sonho do dono, Roberto Graziano, é colocar o São Bernardo na primeira divisão do Campeonato Brasileiro.
— Não consigo dizer que isso vai acontecer este ano, mas nós esperamos que sim. Nosso início na competição permite esse pensamento, e o trabalho, a dedicação diária também faz com que a gente viva por esse sonho da Série A — finalizou o executivo.
*Colaborou sob supervisão de Felipe Zito.
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Náutico x São Bernardo, Aflitos, Série B — Foto: Marlon Costa/Agif
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