Técnico Davide Ancelotti em LDU x Botafogo
Por Bárbara Mendonça — ge
É possível analisar a eliminação do Botafogo na Libertadores, nas oitavas de final, por dois aspectos: o meramente esportivo e também o extracampo. Cada um tem sua peculiaridade, mas fato é que ambos foram repletos de falhas - estas escancaradas na derrota por 2 a 0 para a LDU, nesta quinta-feira, no estádio Rodrigo Paz Delgado. O adeus precoce para quem sonhava com o bicampeonato sul-americano é mais do que merecido.
Começando pelo fracasso dentro das quatro linhas. Era de conhecimento público que a altitude de Quito - a cerca de 2.850m do nível do mar - seria um fator de dificuldade extra para o Botafogo. Por isso, o jogo de ida ganhou ainda mais peso: com o duelo iminente contra a LDU e o ar rarefeito no Equador, era importante chegar com a vantagem mais elástica possível. A vitória por 1 a 0 com gol de Artur permitiu ao Alvinegro jogar por um empate, mas passou longe de resolver a eliminatória.
Para o jogo desta quinta-feira, no Casa Blanca, o técnico Davide Ancelotti escalou um time com três volantes para tentar travar o avanço dos donos da casa: Allan, Marlon Freitas e Danilo começaram jogando juntos. Sem um centroavante de ofício, visto que Arthur Cabral não tinha condição de atuar por 90 minutos, o ataque alvinegro teve Artur, Matheus Martins e Savarino. O resumo da ópera é que nada deu certo.
— A estratégia de hoje foi adaptar-se um pouco. Jogamos com linha de defesa mais baixa para tirar a profundidade deles e defender cruzamentos. Eles cruzam muito, então três volantes eram para bloquear os chutes. Não é a maneira que o Botafogo quer jogar, mas tínhamos que adaptar. Mas foi o plano de jogo. E é difícil seguir com o plano depois de levar um gol com seis minutos - explicou.
Os três volantes cometeram erros em profusão na saída de bola e acabaram sobrecarregando a defesa que deveriam proteger. Mal houve tempo para correções: aos seis minutos, Villamíl aproveitou pivô de Azulgaray na área e mandou no fundo das redes de John. A vantagem do Botafogo, que já não era tremenda, caiu por terra com menos de dez minutos.
Ao longo da primeira etapa, um outro cenário também se desenvolveu: John abria com Barboza ou Marçal na saída de bola, a LDU subia para pressionar e então aparecia o desespero alvinegro na área. Em um desses lances, John chutou em cima de Medina e quase fez uma lambança.
A solução do Botafogo diante da LDU era rifar bolas pouco efetivas e que raramente acharam o destino ideal. Prevaleceu, ainda, uma dificuldade muito grande do time em permanecer com a bola em Quito. Os destaques foram poucos: um chute forte demais de Savarino após passe de Danilo, e um lance em que Marlon Freitas cavou errado.
O domínio equatoriano prevaleceu no início da segunda etapa, como em cruzamento de Quintero salvo por Danilo. Davide demorou a esboçar substituições para tentar reagir, e acabou punido em definitivo - ainda que com o "auxílio" de um erro de arbitragem.
Facundo Tello marcou um escanteio em lance que deveria ser tiro de meta para John, Marlon Freitas abriu o braço em demasia e a bola bateu em seu braço. Pênalti para a LDU. Alzugaray bateu no canto oposto ao do goleiro do Botafogo e reverteu a vantagem da eliminatória em favor da LDU - com apenas 1 a 0 no placar, a decisão da vaga iria para os pênaltis.
As substituições só vieram quando a missão do Botafogo na altitude já era bem mais difícil. Com a expulsão de Richard Mina por dura falta em Jeffinho, o Alvinegro aproveitou a superioridade numérica para igualar as ações. Demorou, mas o clube conseguiu levar perigo à área da LDU e cresceu no jogo.
Mesmo assim, faltou tempo e/ou eficiência. Na melhor chance alvinegra no segundo tempo, Vitinho finalizou de primeira para fora após cruzamento de Barboza. Nada de muito perigoso surgiu nos acréscimos, e o Botafogo se despediu do torneio que tanto queria conquistar de novo.
Os lances descritos até aqui dão conta do fracasso do Botafogo dentro de campo. Mas não se pode esquecer, entretanto, de tudo que aconteceu no planejamento. John Textor foi otimista e acreditou que o raio de 2024 cairia pela segunda vez no mesmo lugar - e que poderia achar seu técnico no meio da temporada sem sofrer quaisquer problemas.
Não foram poucas as menções a uma temporada que "só começa em abril", enquanto os principais rivais se estruturavam e se organizavam para o que seria o ano de 2025. Foram 55 longos dias de transição após a saída de Artur Jorge, passando por fracassos e oscilações principalmente com Carlos Leiria, até que o Botafogo contratasse Renato Paiva.
Quatro meses depois da contratação, e apenas dez dias depois de uma histórica vitória sobre o Paris Saint-Germain na Copa do Mundo de Clubes - com direito a um acalorado beijo do americano no técnico -, Textor entendeu que não atingiria o "Botafogo Way" propositivo com Paiva. Fim da linha.
A contratação de Davide foi bem mais ligeira, mas isso não muda o fato de que o Botafogo teve que novamente trocar os pneus com o carro andando. E ainda há espaço para menção aos reforços de baixíssimo custo-benefício em um elenco que ainda tem lacunas - Rwan Cruz talvez seja o maior exemplo. Foram R$48,3 milhões gastos em um atacante de dois gols em 14 jogos, que acabou emprestado ao Real Salt Lake.
Agora, o inevitável é que o Botafogo vire o foco para a Copa do Brasil, já que o sonho do Brasileirão se distancia devido aos 14 pontos de diferença para o líder Flamengo. O primeiro jogo das quartas de final diante do rival Vasco será na próxima quarta-feira, 27 de agosto, em São Januário.
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