João Gomes na Premier League
Por Cahê Mota — ge
Um pitbull que late mais alto do que nunca desde que chegou à Inglaterra - dentro e fora de campo. Dá para definir assim a relevância de João Gomes na Premier League. Prestes a estrear em sua terceira temporada na liga mais badalada do planeta, diante do poderoso Manchester City, neste sábado, o volante brasileiro assume um papel que vai além do meio de campo do Wolverhampton e cativou o carinho e respeito de torcedores pela luta contra a gagueira.
O problema na dicção que já o fez fugir de entrevistas nos tempos de Flamengo não é encarado mais como um trauma. Por mais que a disfluência siga ali presente, João Gomes encara os microfones com a mesma coragem que mede força com os adversários e quer servir de exemplo para outras pessoas que enfrentam a mesma limitação. A própria Premier League reconheceu isso, e já convidou o brasileiro para dar palestras e fazer gravações sobre o tema:
- Foi uma atitude bem bacana da Premier League. Porque eles falaram de diversidade. Era eu e mais três pessoas, cada um tinha uma dificuldade. E foi muito específico para separar uma por uma e realmente foi algo bom. Eu tive a oportunidade de falar algo mais profundo, sobre como foi na escola e muitos assuntos que outras pessoas com essa dificuldade vão se identificar. É algo muito bom. Você passa pelo que muitas pessoas passam e ninguém ver. Então, é meio que pioneiro.
O tema ganhou relevância pública na Inglaterra há um ano, quando o Wolverhampton lançou o documentário "O Pitbull" em seu canal no YouTube. O filme tratava do carisma e da afinidade do brasileiro com o torcedor local após a primeira temporada, e a coragem para se expor causou ainda mais empatia até mesmo em torcedores rivais:
Acho que é muito mais de você aceitar quem você é, do que ficar preocupado com o que os outros vão achar. Eu estou bem e hoje sou muito mais seguro, depois que eu coloquei minha cara a tapa. Estou muito mais relaxado com quem eu sou realmente. Então, está de boa para mim.
O engajamento é tanto que João Gomes está em processo de criação de um instituto para ajudar pessoas com problemas de comunicação das mais diversas naturezas. O espaço ficará em Ramos, na Zona Norte do Rio de Janeiro, terra natal do volante, e terá como ponto central o acesso à informação.
Gago desde a infância, João Gomes admite que por muitos anos o problema o travou. Evitar diálogos, exposição em público ou até mesmo comunicação dentro de campo eram refúgios para quem temia o julgamento alheio. A libertação juntamente com a necessidade de se comunicar em inglês abriu portas não somente no Wolves, mas despertou o desejo de ajudar pessoas que sofrem com a mesma limitação:
- Eu quis falar mais sobre isso não somente por mim, mas por outras pessoas que têm essa mesma dificuldade e não têm toda essa exposição. Hoje, graças a Deus, eu sou grande jogador de futebol e tenho mais visibilidade. Acho que é muito importante darmos ênfase a todas as dificuldades de comunicação, não só a minha, como a de outros. Há muitas pessoas que têm problemas com a timidez e isso não é menos importante do que eu. Acho que isso precisa ser mais falado, ser mais abordado. Por isso, daqui a um ou dois meses, eu vou abrir o meu instituto, que dá ênfase nisso com todas as pessoas que têm qualquer dificuldade na comunicação. Eles vão ter todas as ferramentas para que possam passar por isso sem precisar se esconder. Eu fiz isso durante muito anos - disse João.
Eu preferia não falar do que eu falar e não saber como os outros iriam reagir. Muita das vezes, eu não falava por ter medo do que as pessoas iam achar. Então, o instituto é meio que para dar ênfase a todas as essas pessoas com dificuldades, para que eles possam superar. Isso mais do que tudo é uma realização pessoal. Estou muito feliz.
Apaixonado por leitura, o "Pitbull" entende que este é o ponto de partida para segurança no momento de comunicar.
- São temas que eu quero abordar muito no meu instituto. A partir do momento que você tem mais conhecimento, parece que abre mais a sua cabeça. E você vê através da perspectiva de outras pessoas. Você passa a se preocupar não somente com você, mas com todos ao seu redor. Falo isso porque li muitos livros da autoajuda e você passa a querer ver uma sociedade mais evoluída, com mais respeito, com mais oportunidades e, principalmente, com mais empatia. A partir do momento que você tem esse hábito, você está abrindo sua cabeça para ter lutas por você e também pelas pessoas ao seu redor.
Com a voz cada vez mais ativa e o fôlego em dia de sempre, João Gomes estará em campo neste sábado, às 13h30 (de Brasília), no estádio Molineux, para a estreia do Wolverhampton na Premier League diante do Manchester City, de Pep Guardiola. Em dois anos e meio no clube, o brasileiro já disputou 89 partidas, marcou sete gols e deu três assistências.
Confira outros trechos da entrevista
Trabalho com fonoaudióloga
- Eu faço fono, mas é muito diferente quando eu tenho uma conversa com ela e quando eu tenho uma conversa na vida real. Parece que são vários outros fatores que fazem eu ter mais dificuldade. Acho que é muito mais de estar confortável com outra pessoa do que outros fatores. Com os anos aqui (na Inglaterra), tive essa bagagem para me sentir bem e me deu confiança para eu ser quem eu sou. Com isso, eu vou cada dia mais ficando mais fluente. Vai de pessoa para pessoa. Até hoje, quando eu vou ter uma conversa com o Diego Ribas, eu fico muito mais preso, porque ele é um ídolo. Só depois de dez minutos que eu vou ficando mais fluente. Isso é muito de pessoa para pessoa.
Planos para temporada
- Os objetivos são os maiores possíveis. Saíram jogadores muito importantes, sim, mas quem está aqui pode dar conta do recado. Vamos receber ainda mais jogadores e estou muito confiante no que podemos fazer na temporada.
Saída de Matheus Cunha
- É muito difícil encontrar um jogador que possa suprir tudo o que o Matheus fazia. Para mim, é um dos melhores jogadores do mundo e perder esse tipo de jogador é muito difícil. Óbvio que eu fico muito feliz e tão realizado quanto ele, mas é ruim pelo lado profissional. Só que fico feliz pelo amigo, por estar dando essa passo na carreira.
Ano de Copa do Mundo
- A Copa do Mundo é um sonho para todo jogador. Eu tenho que estar mais preocupado com o que estou fazendo aqui no Wolves. Isso é o que vai me capacitar para ter outras oportunidades com a camisa da Seleção e me firmar. Estou mais preocupado com o que está no meu controle. Obviamente, eu quero muito estar na Copa, mas preciso estar mais preocupado com o que eu posso fazer aqui para me dar uma vaga na Seleção.
Experiência na Seleção
- Antes de eu ir pela primeira vez, era tipo uma obsessão para ver como que era estar lá entre os melhores jogadores do meu país. Eu vi e realizei um sonho. Acho que agora, daqui para frente, eu só tenho que levantar as mãos para o céu e agradecer. Eu já fui, já realizei o meu sonho e tenho outros para realizar. Um deles é estar em uma Copa do Mundo.
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