

Ajustando
o debate universidade-empresa
RENATO DAGNINO
No artigo "Recursos privados favorecem universidade" (28/7),
Meneghini se opõe ao expresso em "Universidade, mecenato
e mercado", de Antunes e Correia (2/7), ambos publicados neste
espaço. Embora, ao contrário do que ele escreve, o
debate seja eminentemente "ideológico", vou mostrar
evidências empíricas (a-ideológicas?) para ajustar
seu foco.
Elas tratam da importância dos recursos alocados pela empresa
à realização de atividades universitárias
que Meneghini chama de "pesquisa de interesse recíproco"
-da universidade e da empresa-, visando "criar tecnologia de
ponta".
Como ele se refere à realidade estadunidense, tomo-a também
para embasar dois argumentos. O primeiro é que lá,
ao contrário do que se divulga, a empresa não vê
essas atividades como interessantes.
De fato, do total gasto em P&D (pesquisa e desenvolvimento)
empresarial, somente 1,3% é alocado para elas, e o que é
captado por essa via custeia apenas 1% do recurso envolvido com
o funcionamento da universidade. Não há informação
sobre quanto a empresa "brasileira" (estatal, privada,
multinacional) aloca para essas atividades. Há informação
para a Unicamp, que, como se sabe, se destaca pela sua competência
em conhecimento de interesse da empresa e pela vocação
para dela se aproximar. Nela, essa proporção é
semelhante à média estadunidense: 1,4%.
Essas evidências já permitem ajustar o foco. Primeiro,
porque a meta de aproveitar o que faz a universidade para o desenvolvimento
do país dificilmente se dará pela via da "pesquisa
de interesse recíproco". Portanto, nossa política
de ciência e tecnologia (C&T) tem que ser urgentemente
revisada, inclusive quanto a arranjos institucionais inócuos,
como incubadoras, parques e polos tecnológicos.
Há que orientá-la para atender a "interesses
recíprocos" mais abrangentes do que os do seu ator até
agora hegemônico: a comunidade de pesquisa das ciências
duras.
Segundo, porque há que se entender o que leva os pragmáticos
governantes dos EUA a apoiar maciçamente a pesquisa universitária
se seus resultados não são apropriados diretamente
pela empresa.
Sua resposta, bastante simples, permite introduzir meu segundo argumento:
no Brasil, a política de C&T não afeta a empresa.
Para fazer P&D e ser competitiva nos mercados de alta tecnologia,
a empresa dos EUA precisa de pesquisadores. E, até que se
descubra meio mais eficaz, eles continuarão a aprender a
fazer pesquisa nos caros laboratórios universitários.
É por isso que, lá, a empresa contrata para P&D
cerca de 70% dos mestres e doutores que se formam a cada ano. E
no Brasil? Em 2011, formaremos quase 30 mil mestres e doutores em
ciências duras.
Nas empresas, onde a regra é a importação de
tecnologia (principalmente a incorporada em equipamentos), cerca
de 3.000 se dedicam a P&D. Supondo um aumento de 10%, haverá
demanda de 300 no ano que vem. Ou seja, cerca de 1% dos que estarão
disponíveis (!), como ocorre nos EUA, para fazer P&D.
Essa disfuncionalidade levou os formuladores de políticas
a incorporar bolsas ao já generoso pacote de subsídios
às empresas, para que mestres e doutores nelas trabalhem.
Lá, pagos pelo Estado, usam os conhecimentos adquiridos com
as atividades de ensino e pesquisa da universidade pública
(cópias, aliás, das estadunidenses).
Adicionalmente, como uma canhestra "compensação"
que agrava o produtivismo-cientificista, subsidiam a universidade
para que produza patentes.
É claro que essa disfuncionalidade da política de
C&T não invalida o que Antunes e Correia levantam a respeito
da "possibilidade de comprometimento da missão"
da universidade, do fato de sua agenda de docência e pesquisa
estar "a serviço do mercado", e não dos
"rumos que (o país) pretende, estrategicamente, pesquisar".
RENATO
DAGNINO,
mestre em economia do desenvolvimento e doutor em ciências
humanas, é professor titular de política científica
e tecnológica da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).
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