Postado em  23/01/2016 - 15:39

Missa em ação de graças

Era uma dessas feias que a galhofa vulgar compara a um chute na canela. Cara de purgante de óleo de rícino, ombros largos de macho, peituda feito uma vaca, sem quadris, sem bunda. As pernas, uns langanhos indecorosos. Mas, vestindo-se nas lojas de altos preços, achava-se muito bonita e gostosa – era o que queria dar a entender, sem se aperceber do ridículo. Curso superior, entretanto era imbecil à medula. .
O marido, um sujeito bem aparentado, e de boas condições, por uma dessas razões inexplicáveis, ou pelos menos de explicação só com grande esforço de vontade, era no entanto louco por ela, a ponto de só fazer o que ela queria e lhe determinava Diziam as más línguas que era porque ela lhe pagara os estudos superiores, até a formatura, pois tinha um bom emprego público. Golpe de sorte. De logo, era a explicação que se achava  pra esse amor  dito idiota.
 Mais ou menos – acreditava-se – o sentimento de gratidão sendo obrigado ao fingimento, sem resguardar-se do exagero, que dava o que falar, até de forma repugnante. .
O que é fato é que ninguém podia acreditar que aquele homem, de boa aparência, ainda moço,  e ainda mais de condições, pudesse amar de verdade uma mulher que, “encarnando”, segundo  dizia um tipo engraçado, “uma impiedosa maldição anatômica”,  chamava a atenção da rua, com risos, às vezes discretos, outras vezes irreverentes,  em todos os olhos e lábios.  
E como se achasse muito bonita e elegante, certo dia, ao saber que o marido tinha um caso com uma certa “dona”, não hesitou em vingar-se, e enfeitou-lhe a cabeça com um baita par de chifres. A notícia correu logo a cidade, e um gaiato, ante a admiração geral de que ela tivesse conseguido encontrar quem a quisesse, mesmo pra sair dum “aperreio” – “É isto mesmo, pra fazer o mal, tem até quem coma o sabão do vizinho”.  
Mais do que envergonhado, ferido no mais fundo do seu coração, o marido passou uns dias, dois ou três, confinado em casa, chorando – não sabia viver sem ela. Era o grande amor da sua vida. Nunca foi de beber, mas de repente veio-lhe aquele impulso de encher a cara, e saiu na direção do bar do Português, o mais famoso da cidade.
Pediu uma dose de uísque, bem reforçada, e o velho portuga, espantado com essa atitude do fulano, a quem ele conhecia de perto e de comportamento, foi logo lhe perguntando, pela intimidade – “Do que se trata?” E ele, o marido traído, contou-lhe a história, mas só depois da terceira dose. O portuga fingindo que não sabia, mas a disfarçar um riso maroto.
– Meu amigo, se me permite a maneira franca de encarar as coisas, dou-lhe um bom conselho: mande dizer missa em ação de graças. Você é um sujeito de muita sorte, ora, ora.

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