Postado em  16/01/2016 - 16:00

Ali vem o maldito!

Grossos era naquele tempo um arruado de poucas casas, a grandes intervalos uma da outra. A comunicação com Mossoró se fazia em lombo de burro, às vezes a pé. Uma estreita vereda aberta a facão na mata alta e fechada.
Nascidos e criados ali naquelas brenhas, Cícero, reduzido pra Ciço, e Joana, compadres de fogueira de São João, nunca tinham arredado o pé pra fora daquele mundinho rodeado de terras de salina, salvo pra então vila de Areia Branca, ainda nascente. Pouquinhas ruas, espaçadas.  
Desde meninos ouviam eles  falar da festa de Santa Luzia em Mossoró, e era-lhes o grande sonho de matuto um dia ir à cidade da Santa acompanhar a procissão, e igualmente ver os prédios bonitos. Ciço tinha um tio morando em Mossoró desde rapazinho, dono de uma pequena bodega no Alto da Conceição, onde ficava sua casa de morada, e que sempre ia a Grossos, com uma tropa de burros, trazer sal grosso pra seu negócio. Em caixões de querosene.
Numa dessas vezes, primeiros dias de dezembro, mês da festa, dia 13, o tio fez questão de trazer Ciço, tranqüilizando-o quanto ao medo (dele, Ciço) de perder-se em Mossoró. Não sabia andar em cidade grande – fora de Grossos, só conhecia a vila de Areia Branca, e mesmo assim só ali pelas ruas mais próximas do trapiche.
Mas Ciço acabou por ceder à insistia do tio (Amaro, o seu nome), também na condição de  que fosse com ele a comadre Joana, que tinha o mesmo sonho de ver as festas de Santa Luzia, e bem assim de conhecer a cidade grande.  
E saíram de Grossos ali pelas três horas da tarde, e chegaram a Mossoró com escuro. Ciço e Joana não cabiam em si de tanta felicidade. Nunca acabavam de acreditar que estavam em Mossoró, a cidade grande, tão falada.
Eis senão quando, lá vem descendo o Alto da Conceição, barulhento e com os grandes faróis acesos tochas de fogo, um Ford velho carregado de lenha, das bandas do sertão. A zoada do motor como se despedaçando estremecia os ares – era como se fosse um bicho sem tamanho fuçando as entranhas da noite, morto de fome. Nunca tinham visto coisa sequer parecida, em toda a sua vida.  Só podia ser coisa do inferno, Ciço pensou, benzendo-se três vezes seguidas, todo arrepiado, os olhos como saltando da caixa.
– Vamos embora daqui, comadre Joana, que ali vem o Maldito! – gritou Ciço pra comadre, e tocaram os burros pelo caminho de volta, apavorados.

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