Postado em  11/09/2015 - 20:17

Contra a cantada de rua

Nathalia Rebouças
Da Re­da­ção
nathaliareboucas@gmail.com

Viralizou na internet um texto no qual uma jornalista expôs o “horror” de caminhar por duas horas nas ruas da cidade de Teresina (PI) e ter de ouvir toda tipo de assédio e, até, humilhação. Ela não é a primeira – nem será a última – que passa por situações constrangedoras ao fazer um simples passeio a pé por lugares movimentados. Em Teresina, Mossoró, São Paulo (SP), Salvador (BA) – não importa a localidade –, a maioria das mulheres se sente incomodada com olhares e insinuações desrespeitosas que vão desde observações bobas a frases com conotação sexual.               
Para Camila Paula, integrante do Centro Feminista 8 de Março e militante da Marcha Mundial das Mulheres, há uma cultura machista que faz que os homens invadam o espaço feminino com grosseria e assédio. “Essas e outras abordagens direcionadas a nós, mulheres, acontecem porque nossa sociedade patriarcal mantém toda uma estrutura de poder dos homens que se sentem privilegiados e com o direito de agir como agem. Para além da questão de gênero, machismo que enfrentamos no dia a dia, existem as condições sociais que aumentam ainda mais a desigualdade. Nas periferias, nas ruas esburacadas e com pouca iluminação, por exemplo, sentimos ainda mais medo de abordagens indesejadas, medo do estupro. Isso implica diretamente no nosso direito à cidade, à nossa liberdade de ir e vir”, argumenta.
Pesquisa divulgada em 2013 aponta que 83% das mulheres brasileiras não gostam das cantadas de rua. A pesquisa feita pelo site Olga aponta que quase oito mil mulheres responderam o questionário elaborado pela jornalista Karin Hueck e 99,6% relataram já terem sofrido assédio na rua.
Existe ainda uma teoria masculina de que as mulheres se vestem de forma provocativa e, assim, chamam a atenção dos homens de forma proposital. As feministas repudiam e defendem que a vítima nunca pode ser culpada pela agressão. “Acredito que tudo passa por uma questão de consentimento. O problema é que entendem consentimento junto às ‘regras sociais’ que usam para nos culpabilizar de que nós, mulheres, temos que nos dar o respeito, quando, na verdade, ele (o respeito) é nosso por direito. O assédio não se dá por causa da roupa ou do comportamento. O assédio é uma questão de privilégio e poder que os homens possuem na sociedade patriarcal”, mostra Camila Paula.

Assédio não é elogio
No Brasil, não existe uma lei específica para punir as mulheres alvos de cantadas nas ruas. Em alguns países, como a Argentina, existe uma discussão para que esse tipo de ação tenha a punição necessária. Três projetos de lei, um apresentado no Congresso argentino e dois na Legislatura de Buenos Aires, buscam punir – e, principalmente, prevenir – o assédio sexual verbal praticado nas ruas. Com algumas diferenças, as iniciativas argentinas coincidem na proposta de realizar campanhas de conscientização sobre o problema e preveem sanções que vão de multas a dez dias de prestação de serviços comunitários ou até mesmo prisão para os que praticarem o delito.
Em ambientes de trabalho, é preciso cuidado com a diferenciação entre cantada e assédio. Em artigo publicado no site Consultor Jurídico, o jurista Robson Zanetti define: “Uma simples cantada, elogio, e assim por diante, sem objetivo de natureza sexual, não caracterizam o assédio, pois se fosse assim, os adjetivos feio e bonito, quando ligados a pessoas, não poderiam mais ser utilizados. Ninguém poderia mais ser chamado de feio nem de bonito, sob pena de o autor pagar indenização”, conclui.
Camila Paula comenta que é no assédio que se inicia a abordagem para um estupro. “Nos casos de abuso e até mesmo de estupro, existe a culpabilização da vítima, a vergonha e o medo de se expor, de ser ainda mais agredida, o pensamento de que não adianta reclamar, a ‘naturalização’ de pensamentos como ‘ela estava pedindo’. As mulheres podem processar os agressores nas delegacias, porém acreditamos que, para além disso, precisamos de uma educação não sexista e de autonomia para as mulheres, para que tenhamos direito à igualdade e liberdade”, cita.

“Chega de fiu fiu”
CHEGA DE FIU FIU é uma campanha contra o assédio sexual em espaços públicos
Iniciada em 24 de julho 2013, a “Chega de Fiu Fiu” é uma campanha de combate ao assédio sexual em espaços públicos lançada pelo Think Olga. Inicialmente, foram publicadas ilustrações com mensagens de repúdio a esse tipo de violência. As imagens foram compartilhadas por milhares de pessoas nas redes sociais, gerando uma resposta tão positiva que acabou sendo o início de um grande movimento social contra o assédio em locais públicos.
Mas o que é esse assédio? Todos os dias, mulheres são obrigadas a lidar com comentários de teor obsceno, olhares, intimidações, toques indesejados e importunações de teor sexual afins que se apresentam de várias formas e são entendidas pelo senso comum como elogios, brincadeiras ou características imutáveis da vida em sociedade (o famoso “é assim mesmo...”), quando, na verdade, nada disso é normal ou aceitável.
O número de mulheres que apoiaram a campanha em seu início era um forte sinal disso, mas, para provar esse ponto de maneira ainda mais contundente, a jornalista Karin Hueck elaborou um estudo on-line, lançado pelo Think Olga, para averiguar de perto a opinião das mulheres em relação às cantadas de rua.
 


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