Postado em  22/08/2015 - 17:39

Um símbolo de felicidade

Maricota era a moça mais bonita da pequena comunidade de pescadores, lá onde terminava o arruamento da cidade. Era pescadora de siris, e juntava o dinheirinho do apurado da semana para o vestido das valsas do sábado e domingo, chamadas de “valsas do Mouco”, que era o apelido do dono da casa, por ser portador dessa deficiência física. Era o Mouco.
Moça e bonita, no entanto não se envergonhava de sair vendendo os seus siris, já cozidos, bem vermelhinhos e, pelas portas da cidade, o que talvez se devesse à cultura da sua comunidade humilde. Com a peculiaridade de fazê-lo cantando, a meia voz, o que lhe anunciava a passagem pelas ruas, às primeiras horas da tarde. Voz afinada.  
Havia-lhe nos olhos esverdeados e no jeito displicente de ser, um ar de natural felicidade. E era feliz na sua visão  do mundo.  
Tinha o gosto de cantar, e tinha bom ritmo, do mesmo passo sabendo colocar as inflexões da música, a jeito de quem tivera aulas de canto. Assim, levava a vida a cantar, como os passarinhos e os ventos do mar.
E a vida de Maricota se resumia à pesca e venda de siris, e às valsas do Mouco, e à natural alegria de cantar. Era sempre alegre, e com ela não havia momentos de frontes baixas diante da vida. Uma tendência nativa da sua compleição interior. Parecia amar a vida sem pedir-lhe qualquer compromisso. Era feliz.
Aparentemente não havia sonhos de grandes ambições mundanas na alma ingênua e arejada de Maricota, além do vestido novo para as valsas do Mouco. Sua única vaidade de moça bonita, apesar dos maus-tratos da vida. Era a cantora daquelas funções da comunidade pobre, e parecia que só isso lhe bastava na vida, como satisfação do espírito. E assim vivia a cantar.  
A visão dos seus olhos marinhos não iam além dos limites do seu mundo cheirando a maresia, um mundo ausente das ambições inquietas do mundo além dele. E Maricota era, pela alegria de viver, pela graça que lhe irradiava da beleza selvagem, sem sonhos distantes, o que se pode dizer o mais perfeito símbolo da felicidade plena.  
Levava a vida a cantar, como as graúnas dos coqueiros do seu mundo pobre, cheiro de peixe assado nos ares do entardecer.

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