

TAMBÉM NÃO É O MEU PAÍS
"Pode
ser o pais de quem quiser, Só não é com certeza
o meu país." Esses dois decassílabos perfeitos
constituem o mote da cantiga que ouvi tocar o rádio, no outro
dia. Desligado, confesso, do que se canta hoje em dia, não
sei dizer quem é o cantor. Somente, pois logo me lembrei,
e sem esforço de memória, que se trata de letra de
autoria do escritor e poeta paraibano autor do livro "Zé
Limeira, poeta do absurdo". Lembram?
Esqueço-lhe o nome, agora que escrevo, apesar de já
ter-lhe recebido em tempos a honrosa visita em minha casa, em Areia
Branca. (A memória está sempre me traindo, muitas
vezes sem poupar-me ao vexame.) Já era ele, então,
um homem aparentemente nos fins da maturidade, ali pelos cinquenta
e tantos, morador de Brasília. Era (já morreu) um
intelectual de lúcida formação socialista.
Mas a composição a que me refiro. Posso dizer, sem
dúvida nenhuma, é a melhor crítica musical
à realidade brasileira que já terei ouvido durante
os meus anos. A realidade nua de um país que a política
profissional, desnuda de qualquer mentalidade de ordem, ainda menos
de responsabilidade, edificou sobre os fundamentos do privilégio
de classes - esbulhando, em seus direitos, as maiorias.
E fiquei-me a pensar na grande mensagem social e política
contida nos decassílabos do poeta paraibano, em décimas
bem ao estilo dos nossos poetas cantadores. Outra coisa não
quer dizer que esse Brasil de mais de quarenta milhões de
analfabetos, destroçando-se por todos os lados, pode ser,
e é, o pais da elite dominante, atrasada e desumana, que
não o país dos que o amam - e querem noutro rumo.
Gostei muito do verso em que diz o poeta ser o Brasil um país
dominado por uma elite sem Deus, mas que, em nome de um Deus fabricado
à sua (horrenda) semelhança, querem convencer, e conseguem,
de que a miséria é obra divina Uma forma, nada teológica,
de acomodar milhões de abandonados à sorte, de modo
a conter a indignação coletiva, donde procedem as
inquietações sociais. A revolta.
Na verdade, não é este o país dos brasileiros
que, indignados, querem uma nação em que seja menor
a distância entre ricos e pobres, a ordem e a responsabilidade
como fundamentos do sistema de governo e do modelo de sociedade.
Estes é que, realmente, são brasileiros, em toda a
extensão do termo. Não se debite, pois, nossa desorganização
ao sangue racial ou ao tipo antropológico, como querem alguns,
senão que à vontade cínica dessa elite sem
Deus, a cruel elite dominante.
ANO
27 do janeiro que passou fez um ano da morte da minha professora
Francisca Amélia do Carmo Nepomuceno, por outro nome Dona
Chiquita.
LAPSO
Por um lapso de memória, deixei de dar essa informação,
neste espaço. Perdão.
EDUCADORA
Foi a educadora mais lúcida e dedicada que terei conhecido,
até hoje. Se mais não aprendi, a culpa é minha.
LINGUAGEM
Leitor do Jornal de Fato quer saber se não valem esses livros
de receita gramatical que andam por aí. Valem, sim. Mas é
preciso aplicar a inteligência no que ensinam, separando o
joio e o trigo, como se diz. A razão disso é porque
muitas regras, se não a grande maioria, não passam
de invencionices, que, em vez, de educar, prejudicam a formação
linguística. Mas o melhor, mesmo, não há como
contestar, é aprender a língua culta com os mestres
da palavra, isto é, com os que sabem escrever. Adquire-se,
aí, um conhecimento autorizado. E fecundo.
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