|


BRANQUINHO
Mulher
luta para evitar morte de cão
NARA
ANDRADE
Da Redação
"Como se fosse um filho". É assim que a dona de
casa, Ana Valda do Monte, de 48 anos, define o seu cachorro chamado
de Branquinho. Ela conta que há cinco anos, ganhou o cachorro
de seu esposo, o técnico em eletrônica, Amadeu Augusto
dos Santos, de 48 anos, com quem convive há 19 anos. "Ele
chegou tão sujo, cheio de carrapatos. Desde então
nós cuidamos dele como se fosse uma criança",
explica.
No entanto, a dona de casa há um ano e cinco meses, enfrenta
uma batalha judicial para evitar o sacrifício de Branquinho,
que foi diagnosticado com Leishmaniose visceral, popularmente conhecida
como calazar, em setembro de 2010.
A dona de casa tem apenas uma filha, que já é casada,
e além de Branquinho, possui uma cadela chamada Belinha.
Ana Valda frisa que apesar de morar com o esposo e os dois cachorros
em uma casa humilde, os animais sempre foram bem tratados.
Uma vizinha do casal, que pediu para ter sua identidade preservada,
diz que todo mundo sabe do amor que eles têm pelos dois cachorros.
"Ela diz a todo mundo que tem certeza que o Branquinho vai
voltar. Que vai provar para todo mundo que ele não está
doente. Mas, eu fico preocupada dele voltar, porque se estiver mesmo
doente pode prejudicar todo mundo", comenta.
Quando recebeu o primeiro resultado do exame que atesta a positividade
do calazar, Ana Valda do Monte se negou a entregar o animal e realizar
a contraprova, que é um direito dos proprietários
em casos dessa natureza.
A veterinária Edinaidy Menezes, do Centro de Controle de
Zoonoses (CCZ), explica que como ela se recusou a entregar o animal,
o caso foi encaminhado para o Ministério Público,
que iniciou uma Ação Civil Pública, e o Poder
Judiciário do Rio Grande do Norte, expediu uma liminar no
dia 18 de abril de 2011, autorizando a equipe do CCZ a recolher
o animal mesmo sem o consentimento dos proprietários. Desde
então, Branquinho está sob guarda do Centro de Zoonoses.
A justiça também expediu uma ordem judicial para realização
de mais dois exames, que foram feitos nos meses de junho e outubro
do ano passado, em um laboratório de Minas Gerais, referência
no país.
Amadeu Augusto, diz que não acredita nos resultados dos exames
realizados até o momento. Para ele, isso tudo começou
de um problema com uma de suas vizinhas, que estava incomodada com
o animal, e teria feito uma denuncia ao CCZ.
"Essa vizinha quis me prejudicar, e o único jeito que
arrumou foi falsificar o resultado do exame com a ajuda de conhecidos
que trabalham na prefeitura", acusa.
A dona de casa diz que só entregou o animal porque os técnicos
do CCZ foram até a sua residência, que fica na Rua
Major Altemberg de Melo, no bairro Santo Antônio, junto com
vários policiais, que ameaçaram algemá-la.
"Vou lutar até conseguir trazê-lo de volta para
casa. Ele é um cachorro bem cuidado, aqui ele comia tudo
do melhor. E desde que ele está lá no Centro de Zoonoses,
eu vou duas vezes por semana, dou banho e fico lá com ele.
No início levava a comida dele, mas disseram que tem ração
para os animais que ficam lá", comenta.
Juiz
afirma que sua decisão foi pautada em direito coletivo
O juiz, José Herval Sampaio Júnior,
do Poder Judiciário do Rio Grande do Norte, diz que com base
dos direitos assegurados pela Constituição Federal,
as pessoas podem contestar quando acham que tiveram seus direitos
violados. Esse é o caso da dona de casa Ana Valda do Monte,
que se sentiu violada pelo Ministério Público, que
moveu uma ação pedindo o sacrifício do animal
diagnosticado com calazar.
Segundo o juiz, a decisão foi tomada, com base no direito
coletivo, em nome da saúde pública, já que
Mossoró é uma cidade com um número alto de
casos de calazar, inclusive em humanos, registrando cerca de 50%
dos casos do estado em 2011.
"Entendo que é muito difícil sacrificar um animal,
principalmente, nesse caso que o cachorro não apresenta nenhum
sintoma da doença. Mas infelizmente isso é preciso.
A sentença já foi feita e o Centro de Zoonoses já
pode realizar o procedimento de eutanásia do cachorro, que
representa um risco iminente para os funcionários do local",
enfatiza.
Segundo o juiz, a dona de casa apresentou o resultado de um exame
que nega a presença do protozoário causador do calazar
no animal, mas que esse exame foi feito em um laboratório
que não é credenciado no Ministério da Saúde
e, por isso, não é reconhecido.
Irmã
Ellen defende casal e questiona ação do MP
O casal, que tenta salvar o seu cachorro, conta com o apoio da freira
franciscana, Liselotte Elfriede Scherzinger, a Irmã Ellen,
fundadora e diretora do Lar da Criança Pobre. Irmã
Ellen, afirma que Ana Valda a procurou chorando, muito nervosa,
e contou o que estava acontecendo.
"Ela é uma pessoa pobre, desamparada e está sofrendo
muito com essa situação. Além do problema do
cachorro, tenho me preocupado com a saúde de Ana Valda e
do seu esposo, que estão adoecendo em decorrência do
problema", explica.
A freira comenta que todo o processo envolve muitas contradições
e não é confiável. Segundo relata a Irmã
Ellen, além de ter havido uma confusão de endereços,
na hora de recolher o cachorro de uma vizinha da família,
ainda teve uma troca de datas, já que no processo tem uma
data e o exame foi realizado em uma data diferente, e não
consta o nome do agente responsável pelo procedimento.
"Esse exame deu positivo, mas não é confiável,
porque pode ter sido feito em qualquer outro cachorro. O branquinho
não apresenta nenhum sintoma de cachorro doente e está
sendo perseguido como se fosse um criminoso", frisa.
Para a irmã Ellen, o exame realizado pelo Centro de Zoonoses
tem 40% de chance de erro. Ela também explica que em muitos
países os animais com calazar não são sacrificados,
passam por tratamento.
"Aqui no país se mata qualquer cachorro. Isso deve acontecer
por motivos econômicos, por ser mais prático diminuir
a população de cães, do que tratá-los.
Se esse cachorro representasse tanto perigo, já teria transmitido
essa doença para os funcionários do Centro de Zoonoses",
conclui.
Empreendedores
que movem o comércio da periferia
Higo
Lima
Da Redação
Espalhados pelos bairros mais afastados do centro comercial da cidade,
uma gama de pequenos empreendedores abriram mão de cumprir
as ordens do patrão para investir no seu próprio negócio.
Uma empreitada que exige coragem e muita disciplina. Pelo menos
foi essa a combinação adotada pelas irmãs do
comércio Barbosa Variedade, que há 22 anos se desdobram
para pagar as contas no final do mês e ainda conseguir clientes
para o pequeno armazém.
No começo era um bar. Mas, cansada de perder noites e noites
de sono e ainda ter que se submeter às indelicadezas dos
bêbados, Vanda Barbosa fechou o negócio que mantinha
na Praça da Igreja São José, localizada no
Bairro Bom Jardim (Zona Norte), para se associar à irmã
Francisca das Chagas e, juntas, investirem em uma lojinha com foco
na venda de artigos para presentes.
O primeiro passo foi aplicar os lucros que restaram do antigo negócio
no aluguel de um pequeno prédio ao lado de casa e começar
a surti-lo com a mercadoria. Antes de abrir as portas para o primeiro
dia de venda, as duas se multiplicaram em outras tantas com a finalidade
de divulgar a nova empreitada junto aos vizinhos e amigos, uma vez
que esses dois seria o público alvo.
"Deu tão certo que já faz duas décadas
que a gente está aqui", comemora das Chagas, depois
de apontar todas as pelejas enfrentadas para fechar as contas no
final do mês. Assim como no grande comércio, as festas
do final de ano são generosas com as irmãs, que só
não supera as vendas para o Dia dos Namorados (12 de junho).
Em contrapartida, meses como janeiro e fevereiro o marasmo toma
de conta e a solução é apostar nos fiados empenhados
na caderneta recheada com o nome de amigos.
"O nosso fiado é somente para os mais próximos.
Alguns dão trabalho em pagar, mas no final, a inadimplência
não é tão grande", diz Vanda. Para aquecer
a economia nos meses mais fracos, a estratégia é intensificar
a oferta de produtos de franquias de perfumes, como Natura e Boticário,
além da venda de produtos sazonais: a loja já está
repleta de artigos para Carnaval. "A gente tem que atirar pra
todos os lados porque tem mês bom, mês ruim e, independente
disso, há os compromissos pra gente pagar todos os meses".
E é por se desdobrarem em várias atividades que elas
fazem da Páscoa e Junho uma das épocas mais movimentadas.
Isso porque as irmãs também enveredaram na fabricação
de chocolate caseiro e "tem ano que a gente quase não
dá conta com tanto pedido", ilustra Vanda.
Mesmo com a instabilidade de um pequeno comércio, ambas são
categóricas ao afirmarem que não tem coragem de fechar
o negócio para assinar a carteira. "Aqui a gente faz
o nosso horário, trabalha perto de casa e se vira de todas
as formas, só não deixa as vendas cair", diz
das Chagas, que tem a fala complementada pela irmã: "em
qual empresa eu poderia começar o carnaval na quinta-feira?",
questiona ela ao comemorar a independência de comandar o próprio
empreendimento, ainda que modesto.
Insegurança
freia os sonhos dos comerciantes independentes
Se o segredo é ter criatividade para perceber as carências
do mercado, os irmãos da família de Gyscard Fidelis
foram bastante perspicazes quando há oito anos observaram
que as casas do recém inaugurado conjunto Vingt Rosado (Zona
Leste) começavam a ser reformadas, porém o material
utilizado só podia ser comprado no centro da cidade, distante
aproximadamente seis quilômetros do conjunto.
Investiram em lojas de material de construção e hoje
já são três espalhadas em diversas etapas do
conjunto. Porém, cresceu o comércio, cresceu o bairro,
cresceu a cidade e cresceu também os olhos de vândalos
que já assaltaram uma das lojas duas vezes só no final
do ano passado. "E foi assim com as outras lojas também.
Eles abordam sempre aos sábados, devido à maior movimentação",
diz uma das irmãs que ajuda na loja.
O distanciamento do centro e as pequenas estruturas, muitas vezes
sem nenhum instrumento de segurança, são potencializadores
para a ação dos marginais. "Também tenho
uma lojinha no outro lado da cidade e a situação é
crítica porque também já fomos assaltados mais
de uma vez", ilustrou uma das clientes enquanto fazíamos
a visita.
Uso
de tecnologia ampliado em escolas
Depois
de prefeituras e governos estaduais receberem ou adquirirem cerca
de 574 mil laptops por meio do Programa Um Computador por Aluno
(UCA), o Ministério da Educação (MEC) acena
com a possibilidade de inserir os tablets nas salas de aulas das
escolas públicas brasileiras. Especialistas concordam que
o sucesso do uso das tecnologias em educação não
depende apenas da plataforma utilizada, mas sim da forma como a
escola irá inserir essas ferramentas no aprendizado e também
dos conteúdos digitais disponíveis.
A diretora da Fundação Pensamento Digital, Marta Voeclker,
aponta que a escola pode mudar de paradigma a partir
da tecnologia. Ela ressalta que o uso das máquinas
seja um computador, laptop ou tablet pode transformar a lógica
do aprendizado. Alunos deixam de ser meros recebedores
de conteúdo e podem evoluir para autores. A tecnologia
nos ajuda a sair de uma educação por instrução
e memorização para uma educação de construção
e colaboração. Uma tecnologia que a criança
use a imagem, escreva e formalize ali seu entendimento. Se tenta
mudar a escola há 100 anos e a tecnologia vem ajudar nisso,
explica.
Sob esse ponto de vista, Marta defende que o hardware
não importa tanto. O essencial é ter à disposição
ferramentas que possibilitem um uso educacional de laptops e tablets
para que as máquinas não sejam meros reprodutores
dos conteúdos que já estão nos livros didáticos.
A escola vai aos poucos se tornando digital, os professores
estão fazendo blogs, a gente se apropria das redes sociais,
mas não há algo pensado para a escola que precisa
de uma transição para a época digital,
aponta.
A especialista no uso das tecnologias da educação
ressalta, entretanto, que essa transição da escola
analógica para a digital precisar ser feita aos poucos. Leva
tempo e exige uma reflexão da sociedade a respeito do que
se espera da escola. Quando o educador começa a trabalhar
esses projetos chega um momento que o sistema não reconhece
o que ele está fazendo. Isso está acontecendo em todo
o mundo. No Brasil nós temos um ambiente mais propício
à mudança, até do ponto de vista da legislação.
Mas é uma mudança grande porque aí chegam as
avaliações que hoje ainda se baseiam muito na memorização,
diz Marta. O que precisava é de um pensamento estratégico
dentro do governo para pensar esse assunto a longo prazo,
completa.
Para Ilona Becskeházy, diretora da Fundação
Lemann, a primeira e principal estratégia é buscar
conteúdos pedagógicos que possam ser acessados por
meio dos equipamentos. Se você não selecionar
conteúdo de alto padrão, tanto faz se é papel,
lousa, ou tablet. E isso a gente não faz no Brasil. A lógica
deveria ser: primeiro você busca o conteúdo e depois
você procura como é a melhor maneira de distribui-lo.
Se ele for bom pode ser até um mimeógrafo, critica.
Em 2012, pela primeira vez, o edital publicado pelo Fundo Nacional
de Desenvolvimento da Educação (FNDE) para a compra
dos livros didáticos que são distribuídos às
escolas públicas do país inclui os chamados objetos
educacionais complementares aos livros didáticos. Isso
significa que as editoras poderão apresentar conteúdos
em formato digital que, se aprovados, poderão ser adquiridos
pelo governo para uso na rede pública.
|