..:: JORNAL DE FATO ::.. JORNALISMO DE VERDADE
MOSSORÓ (RN), DOMINGO, 05/02/2012 (ATUALIZADO: 23:49hs)
 
Untitled Document





» Mulher luta para evitar morte de cão

» Juiz afirma que sua decisão foi pautada em direito coletivo
» Empreendedores que movem o comércio da periferia
» Uso de tecnologia ampliado em escolas


BRANQUINHO
Mulher luta para evitar morte de cão
NARA ANDRADE
Da Redação

"Como se fosse um filho". É assim que a dona de casa, Ana Valda do Monte, de 48 anos, define o seu cachorro chamado de Branquinho. Ela conta que há cinco anos, ganhou o cachorro de seu esposo, o técnico em eletrônica, Amadeu Augusto dos Santos, de 48 anos, com quem convive há 19 anos. "Ele chegou tão sujo, cheio de carrapatos. Desde então nós cuidamos dele como se fosse uma criança", explica.
No entanto, a dona de casa há um ano e cinco meses, enfrenta uma batalha judicial para evitar o sacrifício de Branquinho, que foi diagnosticado com Leishmaniose visceral, popularmente conhecida como calazar, em setembro de 2010.
A dona de casa tem apenas uma filha, que já é casada, e além de Branquinho, possui uma cadela chamada Belinha. Ana Valda frisa que apesar de morar com o esposo e os dois cachorros em uma casa humilde, os animais sempre foram bem tratados.
Uma vizinha do casal, que pediu para ter sua identidade preservada, diz que todo mundo sabe do amor que eles têm pelos dois cachorros.
"Ela diz a todo mundo que tem certeza que o Branquinho vai voltar. Que vai provar para todo mundo que ele não está doente. Mas, eu fico preocupada dele voltar, porque se estiver mesmo doente pode prejudicar todo mundo", comenta.
Quando recebeu o primeiro resultado do exame que atesta a positividade do calazar, Ana Valda do Monte se negou a entregar o animal e realizar a contraprova, que é um direito dos proprietários em casos dessa natureza.
A veterinária Edinaidy Menezes, do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), explica que como ela se recusou a entregar o animal, o caso foi encaminhado para o Ministério Público, que iniciou uma Ação Civil Pública, e o Poder Judiciário do Rio Grande do Norte, expediu uma liminar no dia 18 de abril de 2011, autorizando a equipe do CCZ a recolher o animal mesmo sem o consentimento dos proprietários. Desde então, Branquinho está sob guarda do Centro de Zoonoses.
A justiça também expediu uma ordem judicial para realização de mais dois exames, que foram feitos nos meses de junho e outubro do ano passado, em um laboratório de Minas Gerais, referência no país.
Amadeu Augusto, diz que não acredita nos resultados dos exames realizados até o momento. Para ele, isso tudo começou de um problema com uma de suas vizinhas, que estava incomodada com o animal, e teria feito uma denuncia ao CCZ.
"Essa vizinha quis me prejudicar, e o único jeito que arrumou foi falsificar o resultado do exame com a ajuda de conhecidos que trabalham na prefeitura", acusa.
A dona de casa diz que só entregou o animal porque os técnicos do CCZ foram até a sua residência, que fica na Rua Major Altemberg de Melo, no bairro Santo Antônio, junto com vários policiais, que ameaçaram algemá-la.
"Vou lutar até conseguir trazê-lo de volta para casa. Ele é um cachorro bem cuidado, aqui ele comia tudo do melhor. E desde que ele está lá no Centro de Zoonoses, eu vou duas vezes por semana, dou banho e fico lá com ele. No início levava a comida dele, mas disseram que tem ração para os animais que ficam lá", comenta.

Juiz afirma que sua decisão foi pautada em direito coletivo
O juiz, José Herval Sampaio Júnior, do Poder Judiciário do Rio Grande do Norte, diz que com base dos direitos assegurados pela Constituição Federal, as pessoas podem contestar quando acham que tiveram seus direitos violados. Esse é o caso da dona de casa Ana Valda do Monte, que se sentiu violada pelo Ministério Público, que moveu uma ação pedindo o sacrifício do animal diagnosticado com calazar.
Segundo o juiz, a decisão foi tomada, com base no direito coletivo, em nome da saúde pública, já que Mossoró é uma cidade com um número alto de casos de calazar, inclusive em humanos, registrando cerca de 50% dos casos do estado em 2011.
"Entendo que é muito difícil sacrificar um animal, principalmente, nesse caso que o cachorro não apresenta nenhum sintoma da doença. Mas infelizmente isso é preciso. A sentença já foi feita e o Centro de Zoonoses já pode realizar o procedimento de eutanásia do cachorro, que representa um risco iminente para os funcionários do local", enfatiza.
Segundo o juiz, a dona de casa apresentou o resultado de um exame que nega a presença do protozoário causador do calazar no animal, mas que esse exame foi feito em um laboratório que não é credenciado no Ministério da Saúde e, por isso, não é reconhecido.

Irmã Ellen defende casal e questiona ação do MP
O casal, que tenta salvar o seu cachorro, conta com o apoio da freira franciscana, Liselotte Elfriede Scherzinger, a Irmã Ellen, fundadora e diretora do Lar da Criança Pobre. Irmã Ellen, afirma que Ana Valda a procurou chorando, muito nervosa, e contou o que estava acontecendo.
"Ela é uma pessoa pobre, desamparada e está sofrendo muito com essa situação. Além do problema do cachorro, tenho me preocupado com a saúde de Ana Valda e do seu esposo, que estão adoecendo em decorrência do problema", explica.
A freira comenta que todo o processo envolve muitas contradições e não é confiável. Segundo relata a Irmã Ellen, além de ter havido uma confusão de endereços, na hora de recolher o cachorro de uma vizinha da família, ainda teve uma troca de datas, já que no processo tem uma data e o exame foi realizado em uma data diferente, e não consta o nome do agente responsável pelo procedimento.
"Esse exame deu positivo, mas não é confiável, porque pode ter sido feito em qualquer outro cachorro. O branquinho não apresenta nenhum sintoma de cachorro doente e está sendo perseguido como se fosse um criminoso", frisa.
Para a irmã Ellen, o exame realizado pelo Centro de Zoonoses tem 40% de chance de erro. Ela também explica que em muitos países os animais com calazar não são sacrificados, passam por tratamento.
"Aqui no país se mata qualquer cachorro. Isso deve acontecer por motivos econômicos, por ser mais prático diminuir a população de cães, do que tratá-los. Se esse cachorro representasse tanto perigo, já teria transmitido essa doença para os funcionários do Centro de Zoonoses", conclui.

Empreendedores que movem o comércio da periferia
Higo Lima
Da Redação

Espalhados pelos bairros mais afastados do centro comercial da cidade, uma gama de pequenos empreendedores abriram mão de cumprir as ordens do patrão para investir no seu próprio negócio. Uma empreitada que exige coragem e muita disciplina. Pelo menos foi essa a combinação adotada pelas irmãs do comércio Barbosa Variedade, que há 22 anos se desdobram para pagar as contas no final do mês e ainda conseguir clientes para o pequeno armazém.
No começo era um bar. Mas, cansada de perder noites e noites de sono e ainda ter que se submeter às indelicadezas dos bêbados, Vanda Barbosa fechou o negócio que mantinha na Praça da Igreja São José, localizada no Bairro Bom Jardim (Zona Norte), para se associar à irmã Francisca das Chagas e, juntas, investirem em uma lojinha com foco na venda de artigos para presentes.
O primeiro passo foi aplicar os lucros que restaram do antigo negócio no aluguel de um pequeno prédio ao lado de casa e começar a surti-lo com a mercadoria. Antes de abrir as portas para o primeiro dia de venda, as duas se multiplicaram em outras tantas com a finalidade de divulgar a nova empreitada junto aos vizinhos e amigos, uma vez que esses dois seria o público alvo.
"Deu tão certo que já faz duas décadas que a gente está aqui", comemora das Chagas, depois de apontar todas as pelejas enfrentadas para fechar as contas no final do mês. Assim como no grande comércio, as festas do final de ano são generosas com as irmãs, que só não supera as vendas para o Dia dos Namorados (12 de junho). Em contrapartida, meses como janeiro e fevereiro o marasmo toma de conta e a solução é apostar nos fiados empenhados na caderneta recheada com o nome de amigos.
"O nosso fiado é somente para os mais próximos. Alguns dão trabalho em pagar, mas no final, a inadimplência não é tão grande", diz Vanda. Para aquecer a economia nos meses mais fracos, a estratégia é intensificar a oferta de produtos de franquias de perfumes, como Natura e Boticário, além da venda de produtos sazonais: a loja já está repleta de artigos para Carnaval. "A gente tem que atirar pra todos os lados porque tem mês bom, mês ruim e, independente disso, há os compromissos pra gente pagar todos os meses".
E é por se desdobrarem em várias atividades que elas fazem da Páscoa e Junho uma das épocas mais movimentadas. Isso porque as irmãs também enveredaram na fabricação de chocolate caseiro e "tem ano que a gente quase não dá conta com tanto pedido", ilustra Vanda.
Mesmo com a instabilidade de um pequeno comércio, ambas são categóricas ao afirmarem que não tem coragem de fechar o negócio para assinar a carteira. "Aqui a gente faz o nosso horário, trabalha perto de casa e se vira de todas as formas, só não deixa as vendas cair", diz das Chagas, que tem a fala complementada pela irmã: "em qual empresa eu poderia começar o carnaval na quinta-feira?", questiona ela ao comemorar a independência de comandar o próprio empreendimento, ainda que modesto.

Insegurança freia os sonhos dos comerciantes independentes
Se o segredo é ter criatividade para perceber as carências do mercado, os irmãos da família de Gyscard Fidelis foram bastante perspicazes quando há oito anos observaram que as casas do recém inaugurado conjunto Vingt Rosado (Zona Leste) começavam a ser reformadas, porém o material utilizado só podia ser comprado no centro da cidade, distante aproximadamente seis quilômetros do conjunto.
Investiram em lojas de material de construção e hoje já são três espalhadas em diversas etapas do conjunto. Porém, cresceu o comércio, cresceu o bairro, cresceu a cidade e cresceu também os olhos de vândalos que já assaltaram uma das lojas duas vezes só no final do ano passado. "E foi assim com as outras lojas também. Eles abordam sempre aos sábados, devido à maior movimentação", diz uma das irmãs que ajuda na loja.
O distanciamento do centro e as pequenas estruturas, muitas vezes sem nenhum instrumento de segurança, são potencializadores para a ação dos marginais. "Também tenho uma lojinha no outro lado da cidade e a situação é crítica porque também já fomos assaltados mais de uma vez", ilustrou uma das clientes enquanto fazíamos a visita.

Uso de tecnologia ampliado em escolas
Depois de prefeituras e governos estaduais receberem ou adquirirem cerca de 574 mil laptops por meio do Programa Um Computador por Aluno (UCA), o Ministério da Educação (MEC) acena com a possibilidade de inserir os tablets nas salas de aulas das escolas públicas brasileiras. Especialistas concordam que o sucesso do uso das tecnologias em educação não depende apenas da plataforma utilizada, mas sim da forma como a escola irá inserir essas ferramentas no aprendizado e também dos conteúdos digitais disponíveis.
A diretora da Fundação Pensamento Digital, Marta Voeclker, aponta que a escola pode “mudar de paradigma” a partir da tecnologia. Ela ressalta que o uso das máquinas – seja um computador, laptop ou tablet – pode transformar a lógica do aprendizado. Alunos deixam de ser meros “recebedores” de conteúdo e podem evoluir para autores. “A tecnologia nos ajuda a sair de uma educação por instrução e memorização para uma educação de construção e colaboração. Uma tecnologia que a criança use a imagem, escreva e formalize ali seu entendimento. Se tenta mudar a escola há 100 anos e a tecnologia vem ajudar nisso”, explica.
Sob esse ponto de vista, Marta defende que o “hardware” não importa tanto. O essencial é ter à disposição ferramentas que possibilitem um uso educacional de laptops e tablets para que as máquinas não sejam meros reprodutores dos conteúdos que já estão nos livros didáticos. “A escola vai aos poucos se tornando digital, os professores estão fazendo blogs, a gente se apropria das redes sociais, mas não há algo pensado para a escola que precisa de uma transição para a época digital”, aponta.
A especialista no uso das tecnologias da educação ressalta, entretanto, que essa transição da escola analógica para a digital precisar ser feita aos poucos. Leva tempo e exige uma reflexão da sociedade a respeito do que se espera da escola. “Quando o educador começa a trabalhar esses projetos chega um momento que o sistema não reconhece o que ele está fazendo. Isso está acontecendo em todo o mundo. No Brasil nós temos um ambiente mais propício à mudança, até do ponto de vista da legislação. Mas é uma mudança grande porque aí chegam as avaliações que hoje ainda se baseiam muito na memorização”, diz Marta. “O que precisava é de um pensamento estratégico dentro do governo para pensar esse assunto a longo prazo”, completa.
Para Ilona Becskeházy, diretora da Fundação Lemann, a primeira e principal estratégia é buscar conteúdos pedagógicos que possam ser acessados por meio dos equipamentos. “Se você não selecionar conteúdo de alto padrão, tanto faz se é papel, lousa, ou tablet. E isso a gente não faz no Brasil. A lógica deveria ser: primeiro você busca o conteúdo e depois você procura como é a melhor maneira de distribui-lo. Se ele for bom pode ser até um mimeógrafo”, critica.
Em 2012, pela primeira vez, o edital publicado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) para a compra dos livros didáticos que são distribuídos às escolas públicas do país inclui os chamados “objetos educacionais complementares aos livros didáticos”. Isso significa que as editoras poderão apresentar conteúdos em formato digital que, se aprovados, poderão ser adquiridos pelo governo para uso na rede pública.

 



       
 
 


Todos os direitos reservados à Santos Editora de Jornais Ltda.
É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo deste site para fins comerciais sem prévia autorização.