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MOSSORÓ (RN), SÁBADO, 14/03/2009 (ATUALIZADO: 00:42hs)
 
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Protógenes revela mais sobre Satyagraha (I)
O delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz, o homem que efetuou a prisão de Paulo Maluf, do contrabandista Law Kin Chong, de Daniel Dantas (banqueiro), de Naji Nahas e do ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta, tem sido tão bombardeado por notícias que visam a anular o mérito do trabalho que realizou na operação que prendeu o banqueiro Daniel Dantas que a gente fica procurando onde encontrar informações neutras ou que mostrem o outro lado da moeda. Envolvido nessa procura, encontrei na revista “Caros Amigos” uma entrevista que preciso compartilhar imediatamente com o(a) leitor(a) da coluna. Pretendo fazer a veiculação em duas edições, começando hoje com a introdução feita pela revista e as perguntas e respostas que couberem neste espaço. Eis o texto:
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O delegado Protógenes Queiroz nos deu uma entrevista de seis horas, de 14h30 a 20h30, e saiu lamentando que faltou contar mais coisas, por exemplo a máfia russa e o magnata Boris Berezovsky. Por meia hora, ainda conversou conosco enquanto esperava o táxi. Discorreu que Daniel Dantas, o banqueiro, pode mandar muito, mas é apenas um "braço" de algo mais poderoso - quem sabe o Citigroup? Gravado mesmo, contou histórias arrepiantes. Algumas frases dele ao acaso colhidas dão ideia: "É muita picaretagem!", "A mentira perdura pouco, a verdade é eterna.", "Você vai investigando, vai dar nas construtoras, na concorrência pública, e nos políticos". E sobre um dos casos cabulosos que investigou ficou este diálogo bastante sugestivo:
PROTÓGENES: Querem essa história?
TODOS: Sim!
PROTÓGENES: Vocês não vão dormir direito.
MYLTON SEVERIANO - Vamos começar esquentando as turbinas. Onde nasceu, a infância, os pais.
PROTÓGENES: Sou filho de branco com preto. Nasci em 20 de maio de 1959, em Salvador. Meu pai era da Marinha de Guerra, ex-combatente da Primeira Guerra Mundial. Aos meus três meses, foi para o Rio, participar de uma intervenção. Era o almirante Protógenes Guimarães. Por isso meu nome. Minha mãe embarcou num avião da FAB, eu e meus outros nove irmãos. Primeiro fui morar num bairro de Niterói, Barreto, num sobrado de frente para a praia.
MYLTON SEVERIANO - Você estudou em Niterói?
PROTÓGENES: Isso. Tinha uma igreja do Barreto, a gente tinha que assistir a missa, participar das festas. Eu gostava, era criança, tem que estudar, ir para a igreja, brincadeira de rua.
MARCOS ZIBORDI - A família era como?
PROTÓGENES: Minha mãe era de descendência africana, escravos, meu pai de portugueses, espanhóis, branco de olhos azuis, uma semelhança com aquele artista, Paul Newman. Meu pai é abandonado pela esposa, e minha mãe contratada para cuidar dos filhos. Aí ele se apaixona. Ela estava com quinze anos, e era muito bonita. Meus irmãos por parte de pai chamavam minha mãe de mãe e a mãe deles pelo nome, devido à relação materna bem forte. A família do meu pai tinha fazenda no interior da Bahia. Meu bisavô era padre: Antônio Pinheiro de Queiroz. Fundou uma cidade, Conceição de Oliveira dos Campinhos.
MARCOS ZIBORDI - Estudou em escola particular?
PROTÓGENES: Não. Eu não gostava. Escola pública era melhor. No primário fui aluno razoável. No ginásio, você já começa a ser um pouco peralta. Sempre fui ativo. Meu pai era militar, lembremos, imaginava que o país poderia entrar em guerra e você teria que sobreviver sozinho. A gente tinha que plantar guandu, aipim, e colher. Eu adorava colher aipim, puxar a raiz, era divertidíssimo. Não gostava do guandu, aquela vagem machucava a mão. Minha mãe, semianalfabeta, mas de um coração muito forte, era ligada a ajudar as pessoas, e meu pai mandava até fazer roupa. Sei sentar numa máquina e fazer um short, uma camisa. Em casa a gente ajudava a mãe a cortar roupas, pregar botão, fazer bainha. Você chegava ralado, minha mãe: "vai pra máquina cerzir, essa roupa tá boa ainda". E também uma coisa peculiar de meu pai: ser bem informado. Antes do jantar, ele colocava o rádio sobre a mesa, tínhamos que ouvir a Ave Maria, a Voz do Brasil e depois o Repórter Esso. A voz do homem tá na minha memória até hoje.
MYLTON SEVERIANO - Heron Domingues.
PROTÓGENES: Exatamente, depois é que íamos fazer a ceia, e no dia seguinte tínhamos que ler os jornais. Para ter o hábito. Eu lembro, tinha sete, oito aninhos, ir no jornaleiro e trazer aquele saco de jornais. E se precisava de dinheiro para um cinema, tinha que vender saco, garrafa. Deliberadamente meu pai não dava mesada, não. E passa a infância, vou para um colégio público, em 1970. Tinha dez, onze aninhos. O que mais me despertou foi eletrônica e eletricidade.
MYLTON SEVERIANO - Você foi da UNE?
PROTÓGENES: Fui delegado da UNE, em 1980.
MYLTON SEVERIANO - E foi para o Direito deliberadamente?
PROTÓGENES: Sim.
MYLTON SEVERIANO - Mas tinha despertado para a política, esquerda, direita?
PROTÓGENES: Não, eu tinha consciência do que era certo, errado, meu pai era um crítico do regime.
CAMILA MARTINS - Estava na ditadura militar?
PROTÓGENES: Ele homem do regime, mas crítico. Dizia que depois de Castelo Branco [chefe do primeiro governo militar, 1964-1966] não existia um governo militar que prestasse, que estavam cometendo muito excesso.
MYLTON SEVERIANO - E você pendeu para que lado?
PROTÓGENES: No colégio, jogava futebol escondido, meu pai dizia que era coisa de vagabundo.
FERNANDO LAVIERI - Jogava bem?
PROTÓGENES: Bem. Meu apelido no Niteroiense era Ferretão: magro, comprido. Um meio-campo avançado. E no colégio Hélder Câmara me desperta a atenção um professor de geografia chamado Milton, usava bolsa de couro, barbichinha. Um contestador. Falei "o canal é esse, área humana". Montamos um minigrêmio. E, numa feira de ciências, a professora Marlene ficou orgulhosa, era a empreendedora, chamou autoridades, inauguração de novas salas, e destinou uma para o nosso trabalho. De madrugada, pichamos o muro: Terrorismo é ditadura que mata e tortura. Já causou um estrago danado. Aí tá lá o senador Saturnino Braga, o prefeito, comandante do Exército, da Polícia Militar, Marinha. E chega na nossa sala, trancada. Quando ela pediu para abrir, era uma sala de tortura. Tinha pau-de-arara com boneco, boneco com fio na cabeça. A professora "ah, meu Deus! Desculpe! Fecha tudo isso aí". E minha turma espalhando jornalzinho, o Alerta Geral.
MARCOS ZIBORDI - O que estava escrito?
PROTÓGENES: Pedíamos eleição direta, perguntávamos por que presidente general, pedíamos a melhoria do ensino, que tinha que ser público. E todo o mundo se mandou, a polícia atrás. Chegou a professora Marlene, meu pai falou "menino, você tá louco, os professores vão ser presos, cadê o jornal que você fez?". Deu quase expulsão.
MYLTON SEVERIANO - Você tinha 17 anos?
PROTÓGENES: É, 1976.
MARCOS ZIBORDI - É nessa idade que começam esses comunistas...
PROTÓGENES: Exatamente. Vou estudar na Faculdade Brasileira de Ciências Jurídicas, particular. Meu pai acreditando que tava fazendo engenharia. Tinha uma intervenção no diretório, comecei a contestar. Ouvi colegas dizer "você vai encontrar espaço para discutir no Centro Acadêmico da Nacional".
MYLTON SEVERIANO - O Cândido Oliveira?
PROTÓGENES: É, eu atravessava a Praça da República, ia conversar, comia no bandejão. E teve o congresso da UNE em Cabo Frio.
FERNANDO LAVIERI - Seu pai sabia?
PROTÓGENES: Meu pai, quando descobriu que eu tava fazendo Direito, corta a mensalidade. Tinha o crédito educativo, fui pra Caixa Econômica fazer, com minha mãe.
PROTÓGENES: MARCOS ZIBORDI - Por que ele não queria?
PROTÓGENES: Dizia que advogado não presta. É, igual Lênin. Advogado, nem do partido, e ele era advogado. (Continua amanhã).



       



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