

Protógenes
revela mais sobre Satyagraha (I)
O delegado
da Polícia Federal Protógenes Queiroz, o homem que
efetuou a prisão de Paulo Maluf, do contrabandista Law Kin
Chong, de Daniel Dantas (banqueiro), de Naji Nahas e do ex-prefeito
de São Paulo Celso Pitta, tem sido tão bombardeado
por notícias que visam a anular o mérito do trabalho
que realizou na operação que prendeu o banqueiro Daniel
Dantas que a gente fica procurando onde encontrar informações
neutras ou que mostrem o outro lado da moeda. Envolvido nessa procura,
encontrei na revista Caros Amigos uma entrevista que
preciso compartilhar imediatamente com o(a) leitor(a) da coluna.
Pretendo fazer a veiculação em duas edições,
começando hoje com a introdução feita pela
revista e as perguntas e respostas que couberem neste espaço.
Eis o texto:
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O delegado Protógenes Queiroz nos deu uma entrevista de seis
horas, de 14h30 a 20h30, e saiu lamentando que faltou contar mais
coisas, por exemplo a máfia russa e o magnata Boris Berezovsky.
Por meia hora, ainda conversou conosco enquanto esperava o táxi.
Discorreu que Daniel Dantas, o banqueiro, pode mandar muito, mas
é apenas um "braço" de algo mais poderoso
- quem sabe o Citigroup? Gravado mesmo, contou histórias
arrepiantes. Algumas frases dele ao acaso colhidas dão ideia:
"É muita picaretagem!", "A mentira perdura
pouco, a verdade é eterna.", "Você vai investigando,
vai dar nas construtoras, na concorrência pública,
e nos políticos". E sobre um dos casos cabulosos que
investigou ficou este diálogo bastante sugestivo:
PROTÓGENES: Querem essa história?
TODOS: Sim!
PROTÓGENES: Vocês não vão dormir direito.
MYLTON SEVERIANO - Vamos começar esquentando as turbinas.
Onde nasceu, a infância, os pais.
PROTÓGENES: Sou filho de branco com preto. Nasci em 20 de
maio de 1959, em Salvador. Meu pai era da Marinha de Guerra, ex-combatente
da Primeira Guerra Mundial. Aos meus três meses, foi para
o Rio, participar de uma intervenção. Era o almirante
Protógenes Guimarães. Por isso meu nome. Minha mãe
embarcou num avião da FAB, eu e meus outros nove irmãos.
Primeiro fui morar num bairro de Niterói, Barreto, num sobrado
de frente para a praia.
MYLTON SEVERIANO - Você estudou em Niterói?
PROTÓGENES: Isso. Tinha uma igreja do Barreto, a gente tinha
que assistir a missa, participar das festas. Eu gostava, era criança,
tem que estudar, ir para a igreja, brincadeira de rua.
MARCOS ZIBORDI - A família era como?
PROTÓGENES: Minha mãe era de descendência africana,
escravos, meu pai de portugueses, espanhóis, branco de olhos
azuis, uma semelhança com aquele artista, Paul Newman. Meu
pai é abandonado pela esposa, e minha mãe contratada
para cuidar dos filhos. Aí ele se apaixona. Ela estava com
quinze anos, e era muito bonita. Meus irmãos por parte de
pai chamavam minha mãe de mãe e a mãe deles
pelo nome, devido à relação materna bem forte.
A família do meu pai tinha fazenda no interior da Bahia.
Meu bisavô era padre: Antônio Pinheiro de Queiroz. Fundou
uma cidade, Conceição de Oliveira dos Campinhos.
MARCOS ZIBORDI - Estudou em escola particular?
PROTÓGENES: Não. Eu não gostava. Escola pública
era melhor. No primário fui aluno razoável. No ginásio,
você já começa a ser um pouco peralta. Sempre
fui ativo. Meu pai era militar, lembremos, imaginava que o país
poderia entrar em guerra e você teria que sobreviver sozinho.
A gente tinha que plantar guandu, aipim, e colher. Eu adorava colher
aipim, puxar a raiz, era divertidíssimo. Não gostava
do guandu, aquela vagem machucava a mão. Minha mãe,
semianalfabeta, mas de um coração muito forte, era
ligada a ajudar as pessoas, e meu pai mandava até fazer roupa.
Sei sentar numa máquina e fazer um short, uma camisa. Em
casa a gente ajudava a mãe a cortar roupas, pregar botão,
fazer bainha. Você chegava ralado, minha mãe: "vai
pra máquina cerzir, essa roupa tá boa ainda".
E também uma coisa peculiar de meu pai: ser bem informado.
Antes do jantar, ele colocava o rádio sobre a mesa, tínhamos
que ouvir a Ave Maria, a Voz do Brasil e depois o Repórter
Esso. A voz do homem tá na minha memória até
hoje.
MYLTON SEVERIANO - Heron Domingues.
PROTÓGENES: Exatamente, depois é que íamos
fazer a ceia, e no dia seguinte tínhamos que ler os jornais.
Para ter o hábito. Eu lembro, tinha sete, oito aninhos, ir
no jornaleiro e trazer aquele saco de jornais. E se precisava de
dinheiro para um cinema, tinha que vender saco, garrafa. Deliberadamente
meu pai não dava mesada, não. E passa a infância,
vou para um colégio público, em 1970. Tinha dez, onze
aninhos. O que mais me despertou foi eletrônica e eletricidade.
MYLTON SEVERIANO - Você foi da UNE?
PROTÓGENES: Fui delegado da UNE, em 1980.
MYLTON SEVERIANO - E foi para o Direito deliberadamente?
PROTÓGENES: Sim.
MYLTON SEVERIANO - Mas tinha despertado para a política,
esquerda, direita?
PROTÓGENES: Não, eu tinha consciência do que
era certo, errado, meu pai era um crítico do regime.
CAMILA MARTINS - Estava na ditadura militar?
PROTÓGENES: Ele homem do regime, mas crítico. Dizia
que depois de Castelo Branco [chefe do primeiro governo militar,
1964-1966] não existia um governo militar que prestasse,
que estavam cometendo muito excesso.
MYLTON SEVERIANO - E você pendeu para que lado?
PROTÓGENES: No colégio, jogava futebol escondido,
meu pai dizia que era coisa de vagabundo.
FERNANDO LAVIERI - Jogava bem?
PROTÓGENES: Bem. Meu apelido no Niteroiense era Ferretão:
magro, comprido. Um meio-campo avançado. E no colégio
Hélder Câmara me desperta a atenção um
professor de geografia chamado Milton, usava bolsa de couro, barbichinha.
Um contestador. Falei "o canal é esse, área humana".
Montamos um minigrêmio. E, numa feira de ciências, a
professora Marlene ficou orgulhosa, era a empreendedora, chamou
autoridades, inauguração de novas salas, e destinou
uma para o nosso trabalho. De madrugada, pichamos o muro: Terrorismo
é ditadura que mata e tortura. Já causou um estrago
danado. Aí tá lá o senador Saturnino Braga,
o prefeito, comandante do Exército, da Polícia Militar,
Marinha. E chega na nossa sala, trancada. Quando ela pediu para
abrir, era uma sala de tortura. Tinha pau-de-arara com boneco, boneco
com fio na cabeça. A professora "ah, meu Deus! Desculpe!
Fecha tudo isso aí". E minha turma espalhando jornalzinho,
o Alerta Geral.
MARCOS ZIBORDI - O que estava escrito?
PROTÓGENES: Pedíamos eleição direta,
perguntávamos por que presidente general, pedíamos
a melhoria do ensino, que tinha que ser público. E todo o
mundo se mandou, a polícia atrás. Chegou a professora
Marlene, meu pai falou "menino, você tá louco,
os professores vão ser presos, cadê o jornal que você
fez?". Deu quase expulsão.
MYLTON SEVERIANO - Você tinha 17 anos?
PROTÓGENES: É, 1976.
MARCOS ZIBORDI - É nessa idade que começam esses comunistas...
PROTÓGENES: Exatamente. Vou estudar na Faculdade Brasileira
de Ciências Jurídicas, particular. Meu pai acreditando
que tava fazendo engenharia. Tinha uma intervenção
no diretório, comecei a contestar. Ouvi colegas dizer "você
vai encontrar espaço para discutir no Centro Acadêmico
da Nacional".
MYLTON SEVERIANO - O Cândido Oliveira?
PROTÓGENES: É, eu atravessava a Praça da República,
ia conversar, comia no bandejão. E teve o congresso da UNE
em Cabo Frio.
FERNANDO LAVIERI - Seu pai sabia?
PROTÓGENES: Meu pai, quando descobriu que eu tava fazendo
Direito, corta a mensalidade. Tinha o crédito educativo,
fui pra Caixa Econômica fazer, com minha mãe.
PROTÓGENES: MARCOS ZIBORDI - Por que ele não queria?
PROTÓGENES: Dizia que advogado não presta. É,
igual Lênin. Advogado, nem do partido, e ele era advogado.
(Continua amanhã).
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