Mossoró perde Vingt-un Rosado
Cascudo influenciou amor pelos livros

Ufersa representa maior conquistaA vitória do capim sobre o touroCriador da maior coleção do PaísR EPERCUSSÃO

Mossoró perde Vingt-un Rosado
Aos 21 dias do último mês de 2005, o criador da editora que mais publicou livros no Brasil morreu vítima de parada cardíaca em Natal.

CLARISSA PAIVA
Da Redação

“Um cidadão mossoroense, reconhecido no Brasil, e conhecido em várias partes do mundo”. A descrição sobre o historiador e ícone da cultura mossoroense Jerônimo Vingt-un Rosado Maia, feita por um de seus filhos, retrata bem a importância do professor e historiador mossoroense, falecido ontem.
O criador da Coleção Mossoroense – a maior coleção de livros do País, com mais de quatro mil títulos - morreu na tarde de ontem, vítima de parada cardíaca.
Vint-un, o último filho vivo de Jerônimo Rosado Maia, foi, da família, aquele que mais se dedicou à cultura.
Mesmo doente, o coração do professor e historiador não esqueceu a sua paixão: trabalhou até os últimos momentos de consciência e até no internamento ainda se preocupava com a sua Fundação, maior editora de livros do País.
O historiador faleceu com 85 anos, após sucessivas paradas cardíacas, e um quadro cardíaco instável.
Os problemas de saúde já lhe acompanhavam há mais de quinze anos e já tinham lhe submetido a diversas cirurgias. “Ele tinha uma cardiopatia muito grave; tão grave que um médico de São Paulo chegou a ter que improvisar uma técnica diferente para conseguir realizar a cirurgia”, disse Dix-sept Rosado Sobrinho, sobre uma operação feita por seu pai há 13 anos.
Vingt-un foi submetido a quatro pontes de safena, e havia passado por um procedimento de hemodinâmica, mas nada que pudesse solucionar a sua cardiopatia, que era crônica.
Recentemente, por não ser mais recomendado pelos médicos a fazer cirurgias por causa da sua idade, Vingt-un passou também mais de uma vez, por um procedimento chamado artereoplastia, que se trata de uma reconstrução das artérias.
“Tudo foi tentado pelos médicos tanto de Mossoró, como de Natal, mas o caso dele era realmente muito grave”, disse o filho Dix-sept Sobrinho, que também é médico.
No último sábado, 17, após sentir fortes dores no peito provocadas pela angina, e que o acompanharam por cerca de oito dias, Vingt-un foi internado em Mossoró, no Hospital Wilson Rosado. Ficou na Unidade Intensiva de Tratamento (UTI) por quatro dias e, com o quadro clínico já agravado, foi transferido para a capital. Ainda em Mossoró, Vingt-un sofreu dois enfartes.
Em Natal, o historiador foi levado para o Hospital Pro Mater, onde passou suas últimas horas com a ajuda de aparelhos, quando sofreu paradas cardíacas e faleceu no início da tarde.
Apesar dos problemas com o coração, Vingt-un dedicou-se, até mesmo no hospital, aos projetos da Fundação que leva o seu nome, recebendo assessores e auxiliares nos poucos momentos diários de visitas.
Durante o ano de 2005, o professor e historiador Vingt-un, que preferia ser chamado não de historiador, mas de “amigo de velhos papéis”, e que completou 85 anos de idade no dia 25 de setembro, foi internado várias vezes, “mas nada o impediu de participar ativamente da vida cultural da cidade”, disse o seu filho, ressaltando que ele mesmo, o pai, fazia questão de participar dos eventos da cultura mossoroense.
O corpo de Vingt-un foi trazido de Natal ainda na tarde de ontem, acompanhado pelos amigos e familiares. O corpo está sendo velado no prédio central da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA), antiga Escola Superior de Agricultura de Mossoró (ESAM), que foi fundada por ele. Quando o corpo chegou em Mossoró, a sobrinha Sandra Rosado entregou à viúva a última homenagem concedida pela câmara federal ao professor. O enterro está marcado para acontecer, às 16h, da tarde de hoje, no cemitério novo.
A prefeita de Mossoró, Fafá Rosado, assinou ontem o decreto número 264/2005, determinando o luto oficial na cidade de três dias, contados a partir de ontem, em respeito à morte do professor e historiador.
A prefeita, que é sobrinha de Vingt-un, destacou sua atuação na cultura do estado e sua dedicação para dotar Mossoró de uma biblioteca pública.
Foi por sua sugestão e incentivo, que o irmão, o então prefeito Dix-sept Rosado, deu ao município a Biblioteca Municipal Ney Pontes Duarte.

Cascudo influenciou amor pelos livros
Myrna Barreto
Da Redação

Por volta das 21h do dia 25 de setembro de 1920, nascia em Mossoró Jerônimo Vingt-un Rosado Maia, que vivenciou toda a sua infância e início da adolescência na sua terra natal.
Vingt-un teria se interes-sado por livros durante uma conferência em que participou e assistiu à apresentação de Luís da Câmara Cascudo Quando.
Em 1940, o jovem partiu para a cidade de Lavras (MG), para estudar agronomia, e quatro anos mais tarde conheceu América Fernandes, com quem se casou no ano de 1947 por procuração, após ter concluído o curso, quando resolveu retornar para Mossoró.
Sobre o seu romance com a mineira América, ele descreveu da seguinte forma: “Incorporei a mineira à história de Mossoró. Moramos em uma casa de taipa no interior de São Sebastião, e bebíamos água do rio... A namorada se chamava América”.
Na verdade, a volta de Vingt-un a Mossoró acabou coincidindo com o período em que seu irmão Dix-sept assumia a Prefeitura de Mossoró, no ano de 1948. Quando Vingt-un passou a trabalhar com projetos, naquele momento era criada a Biblioteca Municipal, e um ano mais tarde criado o Museu Municipal.
Esse foi também o ano em que Vingt-un começou a dar os primeiros passos daquela que seria sua maior criação: a Coleção Mossoroense. A idéia foi ensaiada um ano antes, quando começava a circular o Boletim Bibliográfico
Sonhador e fundador da Escola Superior de Agricultor de Mossoró (ESAM), na qual foi professor de Matemática I e II. Foi também coordenador de Estudos de Problemas Brasileiros e diretor por dois mandatos (1974-1978 e 1988-1991). No final da década de sessenta, assumiu a direção da Escola Superior de Agricultura de Mossoró, hoje a Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA).
No ano de 1968, arriscou na política, candidatando-se a prefeito de Mossoró, porém foi derrotado. Mas, no ano de 1973, foi eleito vereador.
No dia 21 de dezembro de 2005, morria Vingt-un Rosado. Ele era o último dos 21 filhos de Jerônimo que ainda estava vivo. A família recebia nomes de números em francês, devido a uma simples brincadeira da primeira esposa, Maria Rosado Maia.

Homenagens no Congresso Nacional
Além de ter sido o membro que ocupava a cadeira 38 da Academia Norte-rio-grandense de Letras, Vingt-un Rosado recebeu homenagens de reconhecimento do seu trabalho. Uma delas ocorreu no ano de 2002, quando a Comissão de Educação, Cultura e Desporto dedicou a esse mossoroense o Prêmio Darcy Ribeiro, ao receber a terceira maior votação. Os vencedores receberam um troféu, e foi entregue aos agraciados na 3.ª Conferência Nacional de Educação, em Brasília (DF).
Para esse prêmio, Vingt-un foi indicado pelos seus feitos como participação na fundação da Biblioteca Pública e do Museu de Mossoró, e também responsável pela edição da coleção “O Mossoroense”, quando aborda ampla bibliografia sobre a seca do Nordeste.
A última homenagem foi oferecida pela Câmara dos Deputados, através da Medalha Mérito Legislativo, mas Vingt-un não pôde ir receber a homenagem, pois já estava apresentando problemas de saúde.
Essa homenagem indicou 32 nomes de personalidades que tenham prestado serviços relevantes ao Poder Legislativo ou ao Brasil. Todos os nomes foram indicados por parlamentares.
Além da medalha, os homenageados receberam um diploma e uma roseta (distintivo no formato de uma rosa). Entre o nome de Vingt-un Rosado foram citados juntamente os nomes do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e do vice-presidente José de Alencar, além do escritor Ariano Suassuna. (MB)

A descoberta do petróleo
Durante o contato com estudos geológicos, na década de quarenta, Vingt-un Rosado tomou conhecimento da possibilidade de existência de petróleo no Rio Grande do Norte.
Um dos trabalhos que ele tomou conhecimento foi o de autoria de John Casper Branner, publicado em fevereiro de 1922, que tratava da possibilidade de petróleo no Brasil. O cientista norte-americano admitia a existência de petróleo em Mossoró, e também na Bahia.
Vingt-un Rosado também descobriu correspondências do padre Florêncio Gomes de Oliveira a Brunet, nas quais informava-lhe sobre prováveis ocorrências minerais na região Oeste potiguar. Essas correspondências teriam sido remetidas da Vila do Apodi ao naturalista francês, no dia 22 de fevereiro de 1854. Essa informação era dada na tentativa de trazer Brunet para estudar as potencialidades minerais potiguares.
Em 1979, o geólogo Francisco de Assis Melo estava perfurando um poço no Hotel Thermas, a fim de encontrar água para abastecimento. Mas, na hora de encher as piscinas com a água retirada dos poços, ao invés de água surgiu petróleo. Foi, então, revelado que na verdade o solo mossoroense estava rico do “ouro negro”.
Vingt-un Rosado enfatizou que Francisco de Assis Melo teria sido o responsável pela descoberta do petróleo no Hotel Thermas. (MB)

Ufersa representa maior conquista
Esdras Marchezan
Da Redação

Nas salas de aula da Escola Superior de Agricultura de Lavras (ESAL), em Minas Gerais, o jovem Vingt-un Rosado Maia mantinha o sonho de erguer em sua terra natal uma instituição de ensino superior capaz de promover ao povo mossoroense serviços tão importantes quanto os que eram produzidos na escola onde ele estudava. O ano era 1941. O sonho parecia delírio – como ele mesmo afirmou –, mas, após mais de 60 anos, o projeto idealizado pelo então estudante de agronomia seria transformado em realidade, dotando a cidade de Mossoró da primeira escola superior de agronomia – que depois seria transformada em universidade federal.
Desde a criação da Escola Superior de Agricultura de Mossoró (ESAM) - em 18 de abril de 1967 - até a sua transformação em Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA), a história da instituição esteve sempre ligada à vida do homem que lutou para transformar um ideal em obra concreta. “Sonhava e pensava se um dia eu teria forças para fundar em Mossoró uma escola à imagem e semelhança da gloriosa Esal. O pensamento voava por cima do edifício Odilon Braga, varava as montanhas mineiras e pousava no chão sagrado de Mossoró”, confessava ele no discurso da solenidade de transformação da Esam em Ufersa, em 12 de agosto deste ano.
O ideal do professor Vingt-un Rosado Maia seria somado à persistência do irmão e prefeito de Mossoró Dix-huit Rosado, que buscou junto ao presidente Costa e Silva apoio para a federalização da escola. “Sem a parceria de Dix-huit a Esam continuaria um sonho vantaneano, sem a teimosia e a persistência de Vingt-un, a Esam não existiria”, lembrava o professor.
Na construção do primeiro edifício da escola a devoção do idealizador do projeto se mostrava pela forma como acompanhou as obras, passando 172 noites assistindo ao trabalho dos operários.
O reitor da Ufersa, Josivan Barbosa, destacou a importância do trabalho de Vingt-un para a concretização da Ufersa, afirmando que até os últimos dias o professor contribuiu com o desenvolvimento da instituição. “Ele sempre me procurava para discutirmos projetos relacionados à escola. Isso aqui (Ufersa) era a maior paixão dele. No dia em que dei a notícia da transformação da Esam em universidade, o professor Vingt-un confessou ter passado a noite em claro, enxugando as lágrimas de emoção”, explicou o reitor.
Na tarde de ontem, foi decretado luto oficial de três dias na instituição.
Nesta quinta-feira, o professor volta ao lugar onde permaneceu durante 172 noites, mas desta vez são os admiradores que param para prestar uma última homenagem no velório do seu corpo, que acontece até às 16h no pórtico dos fósseis da Ufersa.
Na entrada do local, uma placa escrita pelo próprio professor anuncia o desejo de descansar em um pedaço de chão dentro da instituição que ele ajudou a construir. “Pedi aos meus filhos e netos que plantassem aqui o meu coração e o meu cérebro. O cérebro que sonhou e criou esta escola, fundada e federalizada por Dix-huit. Esquecerei as canseiras... para só lembrar o privilégio e alegria de ter servido ao meu querido país de Mossoró”, deixou escrito na entrada do pórtico dos fósseis da Ufersa.

Um golpe nos corredores da Esam
No início de 1992, o professor Vingt-un Rosado seria pivô de uma crise que ficou marcada na história política da então Esam. Como diretor da escola, o professor acabava de instituir eleições diretas, e acreditava na eleição do candidato a diretor apoiado por ele na chapa “Ema”. Após a campanha, a chapa adversária – “Alternativa” - venceria as eleições, mas não chegaria a tomar posse, devido a uma manobra comandada pelo professor para manter uma pessoa de sua confiança no comando da escola que ele ajudou a criar. Era o “Golpe Branco”.
“Vingt-un queria se despedir da comunidade esamiana com o reconhecimento de sua luta a favor da Esam, e a vitória do seu candidato representaria exatamente isso. Mas, professores e alunos, principalmente, negaram a Vingt-un esse reconhecimento”, relembra o jornalista César Santos, que na época cobriu o episódio numa série de quase 60 reportagens.
O fracasso nas eleições causou decepção, a ponto de o professor não aceitar o resultado. Em seguida, reuniu o Conselho Técnico Administrativo (CTA) para não reconhecer a consulta e elaborar a lista tríplice, sem o nome do candidato vencedor. Enviada ao Ministério da Educação (MEC), a lista foi aprovada e Vingt-un fez diretor o professor Joaquim Amaro.
Funcionários com mais tempo na instituição lembram da época em que o professor dirigiu a escola. “Ele era um homem muito exigente no trabalho, mas tudo era feito por amor ao projeto da Esam, e ele fazia questão de acompanhar de perto o desenvolvimento da escola”, explica o ex-funcionário da Esam Raimundo Barra, 31. (EM)

A vitória do capim sobre o touro
O presidente Bush: promoção de mudanças importantesJulierme Torres
Da Redação

Vingt-un Rosado não seguiu a tradição da família de estar na linha de frente dos embates políticos. Em 85 anos de vida, fez apenas duas tentativas. Perdeu uma e ganhou outra. Foi tudo. Apesar de rápida, sua passagem pela vida pública é recheada de fatos pitorescos.
A primeira tentativa de ocupar um cargo público foi ousada. Vingt-un se candidatou a prefeito de Mossoró, numa composição apoiada pelo senador Duarte Filho e pelo deputado federal Vingt Rosado, seu irmão. Enfrentou o então deputado estadual Antônio Rodrigues de Carvalho na campanha que ficou conhecida como “o capim contra o touro”.
O capim era Antônio Rodrigues. Esse apelido veio da primeira vez que foi candidato a prefeito de Mossoró, em 1958. Na ocasião, com o apoio de Vingt Rosado e do próprio Vingt-un, elegeu-se, derrotando Duarte Filho, que dez anos depois seria apoiador da candidatura de Vingt-un.
A identificação de Vingt-un como “touro” veio do jogo do bicho. “Vingt-un” é uma palavra francesa que, traduzida para o português, quer dizer “vinte e um”. Número que corresponde ao touro.
Foi uma das campanhas mais acirradas da história política de Mossoró. Antônio Rodrigues, com o apoio do ex-ministro Aluízio Alves, ganhou a eleição por uma diferença de apenas 98 votos. “Vingt-un foi um candidato difícil de derrotar. Principalmente porque ele era um homem de bem e muito preparado”, admitiu o ex-prefeito, que, apesar do reconhecimento, guarda a vitória como se fosse um troféu. “Era muito capim para um touro só”, brincou.
De acordo com Antônio Rodrigues, era impossível apontar quem iria ganhar a eleição. Ele considera que o fator decisivo para a sua vitória foi a participação de Aluízio Alves em uma maratona de comícios de 72 horas ininterruptas. Foram três dias e três noites percorrendo Mossoró.
Em um artigo intitulado “Um Candidato Pede Votos”, Vingt-un Rosado também admitiu a dificuldade da campanha. Ele confessou que gostaria de ter sido eleito para continuar o trabalho iniciado pelo patriarca Jerônimo Rosado e pelo irmão Dix-sept Rosado. “Havia uma metade vermelha e uma metade verde. Para a decisão final bastava um sopro”, disse Vingt-un no artigo. Ele finalizou a redação afirmando que “a derrota não me desobrigou do amor por Mossoró”.
Conta-se que, passada a eleição, durante as comemorações os militantes da campanha de Antônio Rodrigues ficaram em frente à casa de Vingt-un. Apesar do fervor e da rivalidade, o “touro” teria saído para cumprimentar o prefeito eleito.
Depois da derrota na disputa pela Prefeitura de Mossoró, Vingt-un se candidatou a vereador na eleição seguinte, em 1972. Vestia a camisa da Aliança Renovadora Nacional (ARENA). Dessa vez, obteve êxito. Recebeu 3.087 votos. Foi o melhor resultado, proporcionalmente, de um candidato à Câmara Municipal em toda a história. Na época, o município tinha pouco mais de 20 mil votantes.
Passados dois anos como vereador, Vingt-un se afastou do mandato. No dia 5 de abril de 1974, o professor Olismar Lima, que era o primeiro-suplente da Arena, assumiu a vaga. Foi um intervalo de apenas 60 dias. Período em que o titular viajou a Brasília (DF) para tratar de sua posse como diretor da Esam.
“Naquela época, era possível acumular as duas funções”, explicou Olismar, acrescentando que, na substituição de Vingt-un, tornou-se o líder da Arena na Câmara. Quando o titular reassumiu o mandato, cumpriu até o final. “Foi um privilégio ter substituído o professor Vingt-un. Ele era um homem sincero, e já como vereador se destacou pela defesa da educação e cultura”, informou.

Criador da maior coleção do País
JANAÍNA HOLANDA
Da Redação

Pela sua identificação com a literatura e com os costumes de sua terra, Vingt-un tornou-se um ícone da cultura potiguar. Uma das suas maiores paixões e realizações foi, sem dúvida, a Coleção Mossoroense, considerada a maior coleção do País, com mais de quatro mil publicações.
Para conseguir um feito tão grande, só mesmo com muita dedicação e esforço. Seu trabalho foi referenciado não só pelo povo potiguar, mas também por intelectuais admiráveis, como Edson Nery da Fonseca, Manoel Correia de Melo, um dos maiores geógrafos do Brasil, Azis Ab’Saber, entre outros.
Criada em 1949, a coleção tem um vasto acervo, com publicação de livros, teses, folhetos, cordéis, documentários, séries, etc., que falam dos mais variáveis temas, com destaque especial para os assuntos regionais.
Dentre os títulos da coleção, mais de mil são livros e mais de 700 dedicados à seca. A coleção é responsável pela maior bibliografia do País sobre a grande praga do Nordeste. Um dos destaques é O Livro das Secas, que reúne estudos antigos e os mais recentes sobre o tema.
O agrônomo que decidiu se dedicar às letras acabou se transformando no maior pesquisador de assuntos do semi-árido nordestino, do cangaço e também do mossoroísmo, como ele mesmo gostava de chamar os assuntos ligados à terra onde fixou moradia.
Segundo o pesquisador Geraldo Maia, o interesse de Vingt-un pela literatura era tanta que ele chegou a bancar do próprio salário de aposentado várias publicações.
“Todo mundo sabe que ele chegou a pedir dinheiro emprestado para publicar algumas obras”, comentou, explicando que quando começou, em 1949, a Coleção Mossoroense era patrocinada pela Prefeitura. Em 1974, passou a ser vinculada à Escola de Agronomia, até 1994, quando passou para a Fundação Vingt-un Rosado, dirigida por um dos cinco filhos dele.
Hoje, as obras são distribuídas, mas também vendidas, sendo perfeitamente possível encontrar em estantes das livrarias obras como a reedição de Os Dias de Domingo, de Dorian Jorge Freire, ao lado de títulos de Paulo Coelho ou alguma produção de Raimundo Soares de Brito junto a Fernando Veríssimo; ou mesmo um livro de Vingt-un ao lado de Raduan Nassar.
Nos últimos cinco anos, a Coleção Mossoroense tem editado, em média, 205 títulos por ano. Como toda paixão precisa de cuidado, Vingt-un mantinha o acervo de publicações numa sala da Fundação que leva o nome do seu patrono e em sua própria casa, na Avenida Jorge Coelho de Andrada.
Como reconhecimento de seu trabalho, uma vez por ano, em 25 de setembro, data de seu aniversário, Mossoró se transforma na Noite da Cultura, em que os exemplares são lançados e postos à venda na Loja Maçônica Jerônimo Rosado, batizada em homenagem a seu pai.

O HOMEM DOS LIVROS
Para muitas pessoas, Vingt-un Rosado era, na realidade, o homem dos livros. Não somente por serem escritos, mas por editar tantas publicações.
Aos 20 anos de idade, Vingt-un escreveu seu primeiro livro. O título da obra já preconizava o objeto principal dos seus estudos: Mossoró. E tanto foi o esforço, e tantas foram as batalhas, que já não se fala em Mossoró sem lembrar Vingt-un, ou vice-versa.
O grande incentivador de sua carreira literária foi o folclorista Câmara Cascudo. Foi depois de assistir a uma palestra dele, no Colégio Diocesano Santa Luzia, que resolveu escrever o seu “Mossoró”. Ele nunca mais parou de escrever e de incentivar outros a fazer o mesmo.
Depois de graduar-se em Agronomia, Vingt-un convenceu o irmão Dix-sept, candidato a prefeito, a incluir em seu programa a construção de uma biblioteca. Com cinco dias de empossado, o projeto de construção foi assinado.
A obra foi batizada em homenagem a um sargento da Aeronáutica, Nei Pontes Duarte, que não morava em Mossoró, mas todo mês, assim que recebia a aposentadoria, comprava um livro e mandava para a biblioteca. Ele doou mais de quatro mil.
Seguindo a tradição da família, que já se havia empenhado pela instalação de escolas no município, Vingt-un fundava a Escola Superior de Agronomia de Mossoró (ESAM) - hoje Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA) - em 1967.

OS TÍTULOS
A coleção alcançou a marca dos três mil títulos com Viagem às Raízes, obra de Almino Affonso. Além da reedição de obras importantes, como os estudos de botânica de Philipp Von Luetzelburg, Vingt-un orgulhava-se de ter dado oportunidade a autores regionais que dificilmente teriam conseguido publicar um livro nas grandes editoras brasileiras.
Um exemplo claro são as obras Raimundo Nonato da Silva, que chegou a Mossoró como retirante em 1919. Analfabeto, começou como engraxate. Terminou a vida como juiz. Escreveu 30 títulos na série Minhas Memórias do Oeste Potiguar. Entre os favoritos de Rosado está Memórias de um Retirante, em que Silva conta sua história.
“Ele era criticado porque não selecionava o que era publicado, mas na verdade o que ele fazia era dar oportunidade para talentos”, comentou Cid Augusto da Escóssia Rosado, 28, sobrinho-neto de Vingt-un Rosado e considerado por ele um dos expoentes da nova geração de escritores de Mossoró.
A morte de Vingt-un não deve ameaçar a vitalidade da Coleção Mossoroense. “Foi um pedido do meu pai que não deixasse a Coleção morrer, e isso será respeitado”, comentou o filho Dix-sept, que atualmente é diretor executivo da Coleção Mossoroense.

R EPERCUSSÃO
Vingt-un viveu para propagar seu amor a Mossoró e para construir uma história na cultura do nosso Estado.”
Wilma de Faria, governadora do Rio
Grande do Norte.

Mossoró
está de luto por perder o esforço, a inteligência e o conhecimento de Vingt-un.”
Fafá Rosado, sobrinha e prefeita de Mossoró

Com a morte de Vingt-un, morreu um pedaço da cultura de Mossoró e do Rio Grande do Norte.”
Betinho Rosado, sobrinho
e deputado federal

Ele era considerado o pai da cultura potiguar porque dedicou sua vida à literatura.”
Sandra Rosado, sobrinha
e deputada federal

Vingt-un foi
a figura mais expressiva da cultura do Rio Grande do Norte.”
Antônio Capistrano, professor da Uern

Tenho por
Vingt-un um amor ancestral, a admiração do aprendiz pelo mestre, a amizade de resistir a embates políticos.”
Cid Augusto, sobrinho-neto

Chamo ele
de mestre, pois
soube ensinar
a vida inteira.”
Caio César, poeta mossoroense

É inegável a contribuição de Vingt-un para a preservação da história do Rio Grande do Norte.”
Raimundo Soares de
Brito, historiador



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