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Mossoró
perde Vingt-un Rosado
Cascudo
influenciou amor pelos livros

Ufersa
representa maior conquista A
vitória do capim sobre o touro Criador
da maior coleção do País R
EPERCUSSÃO
Mossoró
perde Vingt-un Rosado
Aos 21 dias do último mês de 2005, o criador da editora que
mais publicou livros no Brasil morreu vítima de parada cardíaca
em Natal.
CLARISSA
PAIVA
Da Redação
Um cidadão mossoroense, reconhecido no Brasil, e conhecido
em várias partes do mundo. A descrição sobre
o historiador e ícone da cultura mossoroense Jerônimo Vingt-un
Rosado Maia, feita por um de seus filhos, retrata bem a importância
do professor e historiador mossoroense, falecido ontem.
O criador da Coleção Mossoroense a maior coleção
de livros do País, com mais de quatro mil títulos - morreu
na tarde de ontem, vítima de parada cardíaca.
Vint-un, o último filho vivo de Jerônimo Rosado Maia, foi,
da família, aquele que mais se dedicou à cultura.
Mesmo doente, o coração do professor e historiador não
esqueceu a sua paixão: trabalhou até os últimos momentos
de consciência e até no internamento ainda se preocupava
com a sua Fundação, maior editora de livros do País.
O historiador faleceu com 85 anos, após sucessivas paradas cardíacas,
e um quadro cardíaco instável.
Os problemas de saúde já lhe acompanhavam há mais
de quinze anos e já tinham lhe submetido a diversas cirurgias.
Ele tinha uma cardiopatia muito grave; tão grave que um médico
de São Paulo chegou a ter que improvisar uma técnica diferente
para conseguir realizar a cirurgia, disse Dix-sept Rosado Sobrinho,
sobre uma operação feita por seu pai há 13 anos.
Vingt-un foi submetido a quatro pontes de safena, e havia passado por
um procedimento de hemodinâmica, mas nada que pudesse solucionar
a sua cardiopatia, que era crônica.
Recentemente, por não ser mais recomendado pelos médicos
a fazer cirurgias por causa da sua idade, Vingt-un passou também
mais de uma vez, por um procedimento chamado artereoplastia, que se trata
de uma reconstrução das artérias.
Tudo foi tentado pelos médicos tanto de Mossoró, como
de Natal, mas o caso dele era realmente muito grave, disse o filho
Dix-sept Sobrinho, que também é médico.
No último sábado, 17, após sentir fortes dores no
peito provocadas pela angina, e que o acompanharam por cerca de oito dias,
Vingt-un foi internado em Mossoró, no Hospital Wilson Rosado. Ficou
na Unidade Intensiva de Tratamento (UTI) por quatro dias e, com o quadro
clínico já agravado, foi transferido para a capital. Ainda
em Mossoró, Vingt-un sofreu dois enfartes.
Em Natal, o historiador foi levado para o Hospital Pro Mater, onde passou
suas últimas horas com a ajuda de aparelhos, quando sofreu paradas
cardíacas e faleceu no início da tarde.
Apesar dos problemas com o coração, Vingt-un dedicou-se,
até mesmo no hospital, aos projetos da Fundação que
leva o seu nome, recebendo assessores e auxiliares nos poucos momentos
diários de visitas.
Durante o ano de 2005, o professor e historiador Vingt-un, que preferia
ser chamado não de historiador, mas de amigo de velhos papéis,
e que completou 85 anos de idade no dia 25 de setembro, foi internado
várias vezes, mas nada o impediu de participar ativamente
da vida cultural da cidade, disse o seu filho, ressaltando que ele
mesmo, o pai, fazia questão de participar dos eventos da cultura
mossoroense.
O corpo de Vingt-un foi trazido de Natal ainda na tarde de ontem, acompanhado
pelos amigos e familiares. O corpo está sendo velado no prédio
central da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA), antiga
Escola Superior de Agricultura de Mossoró (ESAM), que foi fundada
por ele. Quando o corpo chegou em Mossoró, a sobrinha Sandra Rosado
entregou à viúva a última homenagem concedida pela
câmara federal ao professor. O enterro está marcado para
acontecer, às 16h, da tarde de hoje, no cemitério novo.
A prefeita de Mossoró, Fafá Rosado, assinou ontem o decreto
número 264/2005, determinando o luto oficial na cidade de três
dias, contados a partir de ontem, em respeito à morte do professor
e historiador.
A prefeita, que é sobrinha de Vingt-un, destacou sua atuação
na cultura do estado e sua dedicação para dotar Mossoró
de uma biblioteca pública.
Foi por sua sugestão e incentivo, que o irmão, o então
prefeito Dix-sept Rosado, deu ao município a Biblioteca Municipal
Ney Pontes Duarte.
Cascudo
influenciou amor pelos livros
Myrna
Barreto
Da Redação
Por volta das 21h do dia 25 de setembro de 1920, nascia em Mossoró
Jerônimo Vingt-un Rosado Maia, que vivenciou toda a sua infância
e início da adolescência na sua terra natal.
Vingt-un teria se interes-sado por livros durante uma conferência
em que participou e assistiu à apresentação de Luís
da Câmara Cascudo Quando.
Em 1940, o jovem partiu para a cidade de Lavras (MG), para estudar agronomia,
e quatro anos mais tarde conheceu América Fernandes, com quem se
casou no ano de 1947 por procuração, após ter concluído
o curso, quando resolveu retornar para Mossoró.
Sobre o seu romance com a mineira América, ele descreveu da seguinte
forma: Incorporei a mineira à história de Mossoró.
Moramos em uma casa de taipa no interior de São Sebastião,
e bebíamos água do rio... A namorada se chamava América.
Na verdade, a volta de Vingt-un a Mossoró acabou coincidindo com
o período em que seu irmão Dix-sept assumia a Prefeitura
de Mossoró, no ano de 1948. Quando Vingt-un passou a trabalhar
com projetos, naquele momento era criada a Biblioteca Municipal, e um
ano mais tarde criado o Museu Municipal.
Esse foi também o ano em que Vingt-un começou a dar os primeiros
passos daquela que seria sua maior criação: a Coleção
Mossoroense. A idéia foi ensaiada um ano antes, quando começava
a circular o Boletim Bibliográfico
Sonhador e fundador da Escola Superior de Agricultor de Mossoró
(ESAM), na qual foi professor de Matemática I e II. Foi também
coordenador de Estudos de Problemas Brasileiros e diretor por dois mandatos
(1974-1978 e 1988-1991). No final da década de sessenta, assumiu
a direção da Escola Superior de Agricultura de Mossoró,
hoje a Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA).
No ano de 1968, arriscou na política, candidatando-se a prefeito
de Mossoró, porém foi derrotado. Mas, no ano de 1973, foi
eleito vereador.
No dia 21 de dezembro de 2005, morria Vingt-un Rosado. Ele era o último
dos 21 filhos de Jerônimo que ainda estava vivo. A família
recebia nomes de números em francês, devido a uma simples
brincadeira da primeira esposa, Maria Rosado Maia.
Homenagens
no Congresso Nacional
Além de ter sido o membro que ocupava a cadeira 38 da Academia
Norte-rio-grandense de Letras, Vingt-un Rosado recebeu homenagens de reconhecimento
do seu trabalho. Uma delas ocorreu no ano de 2002, quando a Comissão
de Educação, Cultura e Desporto dedicou a esse mossoroense
o Prêmio Darcy Ribeiro, ao receber a terceira maior votação.
Os vencedores receberam um troféu, e foi entregue aos agraciados
na 3.ª Conferência Nacional de Educação, em Brasília
(DF).
Para esse prêmio, Vingt-un foi indicado pelos seus feitos como participação
na fundação da Biblioteca Pública e do Museu de Mossoró,
e também responsável pela edição da coleção
O Mossoroense, quando aborda ampla bibliografia sobre a seca
do Nordeste.
A última homenagem foi oferecida pela Câmara dos Deputados,
através da Medalha Mérito Legislativo, mas Vingt-un não
pôde ir receber a homenagem, pois já estava apresentando
problemas de saúde.
Essa homenagem indicou 32 nomes de personalidades que tenham prestado
serviços relevantes ao Poder Legislativo ou ao Brasil. Todos os
nomes foram indicados por parlamentares.
Além da medalha, os homenageados receberam um diploma e uma roseta
(distintivo no formato de uma rosa). Entre o nome de Vingt-un Rosado foram
citados juntamente os nomes do presidente da República, Luiz Inácio
Lula da Silva, e do vice-presidente José de Alencar, além
do escritor Ariano Suassuna. (MB)
A
descoberta do petróleo
Durante o contato com estudos geológicos, na década de quarenta,
Vingt-un Rosado tomou conhecimento da possibilidade de existência
de petróleo no Rio Grande do Norte.
Um dos trabalhos que ele tomou conhecimento foi o de autoria de John Casper
Branner, publicado em fevereiro de 1922, que tratava da possibilidade
de petróleo no Brasil. O cientista norte-americano admitia a existência
de petróleo em Mossoró, e também na Bahia.
Vingt-un Rosado também descobriu correspondências do padre
Florêncio Gomes de Oliveira a Brunet, nas quais informava-lhe sobre
prováveis ocorrências minerais na região Oeste potiguar.
Essas correspondências teriam sido remetidas da Vila do Apodi ao
naturalista francês, no dia 22 de fevereiro de 1854. Essa informação
era dada na tentativa de trazer Brunet para estudar as potencialidades
minerais potiguares.
Em 1979, o geólogo Francisco de Assis Melo estava perfurando um
poço no Hotel Thermas, a fim de encontrar água para abastecimento.
Mas, na hora de encher as piscinas com a água retirada dos poços,
ao invés de água surgiu petróleo. Foi, então,
revelado que na verdade o solo mossoroense estava rico do ouro negro.
Vingt-un Rosado enfatizou que Francisco de Assis Melo teria sido o responsável
pela descoberta do petróleo no Hotel Thermas. (MB)
Ufersa
representa maior conquista
Esdras
Marchezan
Da Redação
Nas salas de aula da Escola Superior de Agricultura de Lavras (ESAL),
em Minas Gerais, o jovem Vingt-un Rosado Maia mantinha o sonho de erguer
em sua terra natal uma instituição de ensino superior capaz
de promover ao povo mossoroense serviços tão importantes
quanto os que eram produzidos na escola onde ele estudava. O ano era 1941.
O sonho parecia delírio como ele mesmo afirmou , mas,
após mais de 60 anos, o projeto idealizado pelo então estudante
de agronomia seria transformado em realidade, dotando a cidade de Mossoró
da primeira escola superior de agronomia que depois seria transformada
em universidade federal.
Desde a criação da Escola Superior de Agricultura de Mossoró
(ESAM) - em 18 de abril de 1967 - até a sua transformação
em Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA), a história
da instituição esteve sempre ligada à vida do homem
que lutou para transformar um ideal em obra concreta. Sonhava e
pensava se um dia eu teria forças para fundar em Mossoró
uma escola à imagem e semelhança da gloriosa Esal. O pensamento
voava por cima do edifício Odilon Braga, varava as montanhas mineiras
e pousava no chão sagrado de Mossoró, confessava ele
no discurso da solenidade de transformação da Esam em Ufersa,
em 12 de agosto deste ano.
O ideal do professor Vingt-un Rosado Maia seria somado à persistência
do irmão e prefeito de Mossoró Dix-huit Rosado, que buscou
junto ao presidente Costa e Silva apoio para a federalização
da escola. Sem a parceria de Dix-huit a Esam continuaria um sonho
vantaneano, sem a teimosia e a persistência de Vingt-un, a Esam
não existiria, lembrava o professor.
Na construção do primeiro edifício da escola a devoção
do idealizador do projeto se mostrava pela forma como acompanhou as obras,
passando 172 noites assistindo ao trabalho dos operários.
O reitor da Ufersa, Josivan Barbosa, destacou a importância do trabalho
de Vingt-un para a concretização da Ufersa, afirmando que
até os últimos dias o professor contribuiu com o desenvolvimento
da instituição. Ele sempre me procurava para discutirmos
projetos relacionados à escola. Isso aqui (Ufersa) era a maior
paixão dele. No dia em que dei a notícia da transformação
da Esam em universidade, o professor Vingt-un confessou ter passado a
noite em claro, enxugando as lágrimas de emoção,
explicou o reitor.
Na tarde de ontem, foi decretado luto oficial de três dias na instituição.
Nesta quinta-feira, o professor volta ao lugar onde permaneceu durante
172 noites, mas desta vez são os admiradores que param para prestar
uma última homenagem no velório do seu corpo, que acontece
até às 16h no pórtico dos fósseis da Ufersa.
Na entrada do local, uma placa escrita pelo próprio professor anuncia
o desejo de descansar em um pedaço de chão dentro da instituição
que ele ajudou a construir. Pedi aos meus filhos e netos que plantassem
aqui o meu coração e o meu cérebro. O cérebro
que sonhou e criou esta escola, fundada e federalizada por Dix-huit. Esquecerei
as canseiras... para só lembrar o privilégio e alegria de
ter servido ao meu querido país de Mossoró, deixou
escrito na entrada do pórtico dos fósseis da Ufersa.
Um
golpe nos corredores da Esam
No início de 1992, o professor Vingt-un Rosado seria pivô
de uma crise que ficou marcada na história política da então
Esam. Como diretor da escola, o professor acabava de instituir eleições
diretas, e acreditava na eleição do candidato a diretor
apoiado por ele na chapa Ema. Após a campanha, a chapa
adversária Alternativa - venceria as eleições,
mas não chegaria a tomar posse, devido a uma manobra comandada
pelo professor para manter uma pessoa de sua confiança no comando
da escola que ele ajudou a criar. Era o Golpe Branco.
Vingt-un queria se despedir da comunidade esamiana com o reconhecimento
de sua luta a favor da Esam, e a vitória do seu candidato representaria
exatamente isso. Mas, professores e alunos, principalmente, negaram a
Vingt-un esse reconhecimento, relembra o jornalista César
Santos, que na época cobriu o episódio numa série
de quase 60 reportagens.
O fracasso nas eleições causou decepção, a
ponto de o professor não aceitar o resultado. Em seguida, reuniu
o Conselho Técnico Administrativo (CTA) para não reconhecer
a consulta e elaborar a lista tríplice, sem o nome do candidato
vencedor. Enviada ao Ministério da Educação (MEC),
a lista foi aprovada e Vingt-un fez diretor o professor Joaquim Amaro.
Funcionários com mais tempo na instituição lembram
da época em que o professor dirigiu a escola. Ele era um
homem muito exigente no trabalho, mas tudo era feito por amor ao projeto
da Esam, e ele fazia questão de acompanhar de perto o desenvolvimento
da escola, explica o ex-funcionário da Esam Raimundo Barra,
31. (EM)
A
vitória do capim sobre o touro
Julierme
Torres
Da Redação
Vingt-un Rosado não seguiu a tradição da família
de estar na linha de frente dos embates políticos. Em 85 anos de
vida, fez apenas duas tentativas. Perdeu uma e ganhou outra. Foi tudo.
Apesar de rápida, sua passagem pela vida pública é
recheada de fatos pitorescos.
A primeira tentativa de ocupar um cargo público foi ousada. Vingt-un
se candidatou a prefeito de Mossoró, numa composição
apoiada pelo senador Duarte Filho e pelo deputado federal Vingt Rosado,
seu irmão. Enfrentou o então deputado estadual Antônio
Rodrigues de Carvalho na campanha que ficou conhecida como o capim
contra o touro.
O capim era Antônio Rodrigues. Esse apelido veio da primeira vez
que foi candidato a prefeito de Mossoró, em 1958. Na ocasião,
com o apoio de Vingt Rosado e do próprio Vingt-un, elegeu-se, derrotando
Duarte Filho, que dez anos depois seria apoiador da candidatura de Vingt-un.
A identificação de Vingt-un como touro veio
do jogo do bicho. Vingt-un é uma palavra francesa que,
traduzida para o português, quer dizer vinte e um. Número
que corresponde ao touro.
Foi uma das campanhas mais acirradas da história política
de Mossoró. Antônio Rodrigues, com o apoio do ex-ministro
Aluízio Alves, ganhou a eleição por uma diferença
de apenas 98 votos. Vingt-un foi um candidato difícil de
derrotar. Principalmente porque ele era um homem de bem e muito preparado,
admitiu o ex-prefeito, que, apesar do reconhecimento, guarda a vitória
como se fosse um troféu. Era muito capim para um touro só,
brincou.
De acordo com Antônio Rodrigues, era impossível apontar quem
iria ganhar a eleição. Ele considera que o fator decisivo
para a sua vitória foi a participação de Aluízio
Alves em uma maratona de comícios de 72 horas ininterruptas. Foram
três dias e três noites percorrendo Mossoró.
Em um artigo intitulado Um Candidato Pede Votos, Vingt-un
Rosado também admitiu a dificuldade da campanha. Ele confessou
que gostaria de ter sido eleito para continuar o trabalho iniciado pelo
patriarca Jerônimo Rosado e pelo irmão Dix-sept Rosado. Havia
uma metade vermelha e uma metade verde. Para a decisão final bastava
um sopro, disse Vingt-un no artigo. Ele finalizou a redação
afirmando que a derrota não me desobrigou do amor por Mossoró.
Conta-se que, passada a eleição, durante as comemorações
os militantes da campanha de Antônio Rodrigues ficaram em frente
à casa de Vingt-un. Apesar do fervor e da rivalidade, o touro
teria saído para cumprimentar o prefeito eleito.
Depois da derrota na disputa pela Prefeitura de Mossoró, Vingt-un
se candidatou a vereador na eleição seguinte, em 1972. Vestia
a camisa da Aliança Renovadora Nacional (ARENA). Dessa vez, obteve
êxito. Recebeu 3.087 votos. Foi o melhor resultado, proporcionalmente,
de um candidato à Câmara Municipal em toda a história.
Na época, o município tinha pouco mais de 20 mil votantes.
Passados dois anos como vereador, Vingt-un se afastou do mandato. No dia
5 de abril de 1974, o professor Olismar Lima, que era o primeiro-suplente
da Arena, assumiu a vaga. Foi um intervalo de apenas 60 dias. Período
em que o titular viajou a Brasília (DF) para tratar de sua posse
como diretor da Esam.
Naquela época, era possível acumular as duas funções,
explicou Olismar, acrescentando que, na substituição de
Vingt-un, tornou-se o líder da Arena na Câmara. Quando o
titular reassumiu o mandato, cumpriu até o final. Foi um
privilégio ter substituído o professor Vingt-un. Ele era
um homem sincero, e já como vereador se destacou pela defesa da
educação e cultura, informou.
Criador
da maior coleção do País
JANAÍNA
HOLANDA
Da Redação
Pela sua identificação com a literatura e com os costumes
de sua terra, Vingt-un tornou-se um ícone da cultura potiguar.
Uma das suas maiores paixões e realizações foi, sem
dúvida, a Coleção Mossoroense, considerada a maior
coleção do País, com mais de quatro mil publicações.
Para conseguir um feito tão grande, só mesmo com muita dedicação
e esforço. Seu trabalho foi referenciado não só pelo
povo potiguar, mas também por intelectuais admiráveis, como
Edson Nery da Fonseca, Manoel Correia de Melo, um dos maiores geógrafos
do Brasil, Azis AbSaber, entre outros.
Criada em 1949, a coleção tem um vasto acervo, com publicação
de livros, teses, folhetos, cordéis, documentários, séries,
etc., que falam dos mais variáveis temas, com destaque especial
para os assuntos regionais.
Dentre os títulos da coleção, mais de mil são
livros e mais de 700 dedicados à seca. A coleção
é responsável pela maior bibliografia do País sobre
a grande praga do Nordeste. Um dos destaques é O Livro das Secas,
que reúne estudos antigos e os mais recentes sobre o tema.
O agrônomo que decidiu se dedicar às letras acabou se transformando
no maior pesquisador de assuntos do semi-árido nordestino, do cangaço
e também do mossoroísmo, como ele mesmo gostava de chamar
os assuntos ligados à terra onde fixou moradia.
Segundo o pesquisador Geraldo Maia, o interesse de Vingt-un pela literatura
era tanta que ele chegou a bancar do próprio salário de
aposentado várias publicações.
Todo mundo sabe que ele chegou a pedir dinheiro emprestado para
publicar algumas obras, comentou, explicando que quando começou,
em 1949, a Coleção Mossoroense era patrocinada pela Prefeitura.
Em 1974, passou a ser vinculada à Escola de Agronomia, até
1994, quando passou para a Fundação Vingt-un Rosado, dirigida
por um dos cinco filhos dele.
Hoje, as obras são distribuídas, mas também vendidas,
sendo perfeitamente possível encontrar em estantes das livrarias
obras como a reedição de Os Dias de Domingo, de Dorian Jorge
Freire, ao lado de títulos de Paulo Coelho ou alguma produção
de Raimundo Soares de Brito junto a Fernando Veríssimo; ou mesmo
um livro de Vingt-un ao lado de Raduan Nassar.
Nos últimos cinco anos, a Coleção Mossoroense tem
editado, em média, 205 títulos por ano. Como toda paixão
precisa de cuidado, Vingt-un mantinha o acervo de publicações
numa sala da Fundação que leva o nome do seu patrono e em
sua própria casa, na Avenida Jorge Coelho de Andrada.
Como reconhecimento de seu trabalho, uma vez por ano, em 25 de setembro,
data de seu aniversário, Mossoró se transforma na Noite
da Cultura, em que os exemplares são lançados e postos à
venda na Loja Maçônica Jerônimo Rosado, batizada em
homenagem a seu pai.
O HOMEM DOS LIVROS
Para muitas pessoas, Vingt-un Rosado era, na realidade, o homem dos livros.
Não somente por serem escritos, mas por editar tantas publicações.
Aos 20 anos de idade, Vingt-un escreveu seu primeiro livro. O título
da obra já preconizava o objeto principal dos seus estudos: Mossoró.
E tanto foi o esforço, e tantas foram as batalhas, que já
não se fala em Mossoró sem lembrar Vingt-un, ou vice-versa.
O grande incentivador de sua carreira literária foi o folclorista
Câmara Cascudo. Foi depois de assistir a uma palestra dele, no Colégio
Diocesano Santa Luzia, que resolveu escrever o seu Mossoró.
Ele nunca mais parou de escrever e de incentivar outros a fazer o mesmo.
Depois de graduar-se em Agronomia, Vingt-un convenceu o irmão Dix-sept,
candidato a prefeito, a incluir em seu programa a construção
de uma biblioteca. Com cinco dias de empossado, o projeto de construção
foi assinado.
A obra foi batizada em homenagem a um sargento da Aeronáutica,
Nei Pontes Duarte, que não morava em Mossoró, mas todo mês,
assim que recebia a aposentadoria, comprava um livro e mandava para a
biblioteca. Ele doou mais de quatro mil.
Seguindo a tradição da família, que já se
havia empenhado pela instalação de escolas no município,
Vingt-un fundava a Escola Superior de Agronomia de Mossoró (ESAM)
- hoje Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA) - em 1967.
OS TÍTULOS
A coleção alcançou a marca dos três mil títulos
com Viagem às Raízes, obra de Almino Affonso. Além
da reedição de obras importantes, como os estudos de botânica
de Philipp Von Luetzelburg, Vingt-un orgulhava-se de ter dado oportunidade
a autores regionais que dificilmente teriam conseguido publicar um livro
nas grandes editoras brasileiras.
Um exemplo claro são as obras Raimundo Nonato da Silva, que chegou
a Mossoró como retirante em 1919. Analfabeto, começou como
engraxate. Terminou a vida como juiz. Escreveu 30 títulos na série
Minhas Memórias do Oeste Potiguar. Entre os favoritos de Rosado
está Memórias de um Retirante, em que Silva conta sua história.
Ele era criticado porque não selecionava o que era publicado,
mas na verdade o que ele fazia era dar oportunidade para talentos,
comentou Cid Augusto da Escóssia Rosado, 28, sobrinho-neto de Vingt-un
Rosado e considerado por ele um dos expoentes da nova geração
de escritores de Mossoró.
A morte de Vingt-un não deve ameaçar a vitalidade da Coleção
Mossoroense. Foi um pedido do meu pai que não deixasse a
Coleção morrer, e isso será respeitado, comentou
o filho Dix-sept, que atualmente é diretor executivo da Coleção
Mossoroense.
R
EPERCUSSÃO
Vingt-un viveu para propagar seu amor a Mossoró e para construir
uma história na cultura do nosso Estado.
Wilma de Faria, governadora do Rio
Grande do Norte.
Mossoró
está de luto por perder o esforço, a inteligência
e o conhecimento de Vingt-un.
Fafá Rosado, sobrinha e prefeita de Mossoró
Com a morte de Vingt-un, morreu um pedaço da cultura de Mossoró
e do Rio Grande do Norte.
Betinho Rosado, sobrinho
e deputado federal
Ele era considerado o pai da cultura potiguar porque dedicou sua vida
à literatura.
Sandra Rosado, sobrinha
e deputada federal
Vingt-un foi
a figura mais expressiva da cultura do Rio Grande do Norte.
Antônio Capistrano, professor da Uern
Tenho por
Vingt-un um amor ancestral, a admiração do aprendiz pelo
mestre, a amizade de resistir a embates políticos.
Cid Augusto, sobrinho-neto
Chamo ele
de mestre, pois
soube ensinar
a vida inteira.
Caio César, poeta mossoroense
É inegável a contribuição de Vingt-un para
a preservação da história do Rio Grande do Norte.
Raimundo Soares de
Brito, historiador
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