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• Fim da linha• Esconderijo não despertava suspeitas
Pedro Rocha lamenta morte de ‘Val’

Valdetário: de mecânico a criminoso

Fim da linha
Cezar Alves
Da Redação

Lucrécia – A polícia matou com treze tiros, anteontem, o mecânico José Valdetário Benevides, 44, durante tiroteio no interior da Fazenda Pau de Leite, localidade Serrota do Norte, município de Lucrécia, região do Alto Oeste Potiguar, distante 150 quilômetros de Mossoró.
Val Carneiro ou “o Guerreiro” , como era conhecido no submundo do crime, era considerado de alta periculosidade pela polícia de vários estados do Nordeste.
A quadrilha liderada por ele, ainda segundo a polícia, responde por diversos assaltos a bancos. Entre estes, o que aconteceu no município de Macau, onde foram roubadas de uma só vez as agências do Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Banco do Nordeste. Na ocasião, a polícia tentou intervir e a quadrilha terminou matando o delegado Robson Medeiros Lira e deixou baleado o delegado Antônio Teixeira e um sargento da Polícia Militar.
Antes disso, em 2001, Valdetário Carneiro também foi apontado na polícia pelos assaltantes Francisco Sales da Silva, o “Negão da Serra”, e Wilson Gomes, o “Coxinha”, como o mentor e executor da chacina que vitimou o prefeito de Caraúbas, Aguinaldo Pereira da Silva, sua mulher, Nieta Gurgel Pereira, o caseiro e dois policiais que faziam a segurança do casal. A família de Aguinaldo Pereira é inimiga ferrenha da família Carneiro em Caraúbas.
Também é atribuída aos membros da quadrilha que era liderada por Valdetário Carneiro, a morte do médico João Pereira da Silva e da enfermeira Walquíria Batista, em Caraúbas. Estes crimes aconteceram em 1999. Depois desse duplo homicídio, Valdetário terminou sendo preso pela Polícia Federal na Paraíba. Pouco tempo depois, foi resgatado do presídio de Alcaçuz, em Nízia Floresta.
Além de muito conhecido devido aos crimes no Rio Grande do Norte, Valdetário também era temido no Estado do Piauí, onde, segundo a polícia daquele estado, liderou o assalto ao Banco do Brasil do município de Pedro Segundo e, na fuga, trocou tiros com a polícia. Na ocasião, foi preso Aguinaldo Benevides Carneiro, “o Branquinho”, e morto Manoel Haroldo, membros da quadrilha. Ainda no Piauí, Valdetário também é apontado pela polícia como autor de uma chacina no município de José de Freitas.
Diante de tantos crimes violentos, Valdetário Carneiro tornou-se conhecido em todo o Brasil quando o Programa Linha Direta, da Rede Globo de Televisão, o tachou de o novo “lampião do Nordeste”. Diante de tamanha repercussão dos crimes atribuídos a Valdetário Benevides e a sua quadrilha, a polícias Civil, Militar e Federal de todos os estados do Nordeste se mobilizaram para prendê-lo. Havia um risco muito grande de confronto.
Há cerca de quinze dias, segundo o delegado Ridágno Pequeno de Lima, duas ligações anônimas para a Delegacia Regional de Patu indicaram o local onde ficava o “refúgio do guerreiro”, no município de Lucrécia. “Primeiro juntamos uma equipe de policiais de confiança e depois fizemos o levantamento do local. Diante das condições de difícil acesso, achamos por bem fechar o cerco durante a noite”, explica.
Valdetário estava dormindo com a mulher Silvana Maria da Silva, 23, e o filho de dez meses. Três equipes de policiais cercaram a casa. Um cachorro que estava amarrado no quintal o alertou da presença da polícia. O suspeito tentou sair pela porta dos fundos. Os policiais atiraram. Ele retornou por dentro de casa e saiu atirando pela porta da frente com um fuzil AR-15 e pistolas. “Houve uma reação enérgica e o suspeito tombou gravemente ferido há poucos metros da casa”, conta como foi o fim do “Guerreiro” o delegado Ridágno Pequeno de Lima.

Esconderijo não despertava suspeitas
Fabiano Souza
De Lucrécia

Lucrécia – O Sítio Serrote de Baixo, onde foi morto na última terça-feira, por volta das 23h50, o bandido José Valdetário Benevides, está situado a 15km da sede do município de Lucrécia e a 399km de Natal. A propriedade pertence ao produtor rural identificado na cidade por “Dedé de Brancal”, residente no município de Umarizal, que não foi encontrado.
O local de difícil acesso vinha servindo de esconderijo para o bandido havia pelo menos 20 dias, tendo em vista que existem inscrições na parede da cozinha da casa datada de 24 de novembro último. No entanto, só a partir da prisão de José Maria Roque da Silva, “Piaba”, realizada na última segunda-feira, 8, é que a Polícia chegou ao local.
O sítio está situado numa encosta de serra e possui um pequeno açude. Além disso, dispõe apenas de um acesso que permite o tráfego de veículos, o que impediu a fuga de Valdetário, facilitando dessa forma a ação da Polícia. A casa, em modelo rústico com quatro cômodos e poucos móveis, não oferecia muito conforto ao bandido, a sua amásia, Maria Silvana da Silva, 23, e ao filho do casal, de apenas 10 meses de idade.
Mesmo sem muito conforto, Valdetário podia contar com geladeira, uma quantidade razoável de suprimentos alimentares e farta munição. Além disso, foi encontrado na casa um rádio transmissor do tipo Ericsson, que provavelmente era usado para monitorar a movimentação da Polícia na região e dois aparelhos de telefone celular. Mesmo assim, a Polícia acredita que o local vinha sendo usado como rota de fuga.
Pelas circunstâncias em que as malas estavam arrumadas, a Polícia acredita que ele deveria deixar o esconderijo de ontem para hoje. O local mais parece com uma típica casa de fazenda para criação de diversos tipos de animais domésticos, o que não despertava a desconfiança dos vizinhos. Mesmo se negando a falar abertamente sobre o assunto, um morador da área disse que o local era pouco visitado e dificilmente alguém se hospedava no sítio.
“Pessoas ligadas ao dono da propriedade sempre vinham alimentar os animais, que são muitos”, disse uma idosa, que preferiu ter seu nome resguardado. Para chegar até o esconderijo de Valdetário, o grupo formado por cerca de 50 policiais militares e civis investigou a região por dois dias.
Somente na noite de quarta-feira o comando geral da Polícia ordenou a entrada dos policiais na propriedade onde se encontrava um dos bandidos mais procurados na região Nordeste, e mais procurado pelas Polícias do Rio Grande do Norte. Valdetário era procurado pela Polícia desde 2000, quando foi resgatado da Penitenciária de Alcaçuz.

Valdetário pode ter sido executado pela Polícia
José Valdetário Benevides pode não ter sido morto na frente do esconderijo, como vem sendo divulgado pela Polícia. Apesar das marcas de bala existentes nas paredes externas e em todos os cômodos da casa em que o fugitivo de justiça Valdetário Benevides foi morto pela Polícia, nenhuma marca de sangue que identificasse o local em que o bandido teria sido atingido foi encontrada dentro da residência ou nas proximidades, o que levanta a hipótese de que o bandido não teria sido morto no local em frente ao esconderijo, como foi dito na primeira versão oferecida pela Polícia.
Outro fator a ser levado em conta é o fato de, apesar de estar portando um fuzil AR-15, quando enfrentava a Polícia, Valdetário não ter conseguido disparar mais do que dois tiros contra o local que serviu de refúgio para parte dos policiais que participaram da operação na noite da última quarta-feira. Todas essas hipóteses estão sendo levantadas pela família de Valdetário, que já aguardava um desfecho nessas proporções para sua vida de crimes.

Assaltante estava de jeans e camiseta branca
Após o tiroteio com a polícia em Lucrécia, o corpo de José Valdetário Benevides foi levado ao Hospital daquele município. Já estava morto. Em seguida, o corpo foi levado para exames no Instituto Técnico-científico de Policia (ITEP), em Mossoró.
O diretor do ITEP, Galba Silveira, informou que a equipe de peritos foi acionada por volta das 2h. O corpo de Valdetário Benevides chegou no Itep às 5h. O médico-legista Manoel Ferreira encontrou 13 perfurações de bala, sendo que duas na cabeça e as outras espalhadas em outras partes do corpo.
Quando foi fuzilado pela polícia em Lucrécia, Valdetário vestia uma calça jeans e uma camisa clara. Portava uma cédula de identidade falsa, com o nome de José Saraiva da Fonseca. O corpo foi identificado pelo vereador Gilvandro Fernandes Jácome e Onesimar Fernandes Carneiro, primos da vítima.
Enquanto o corpo era examinado no interior do ITEP, mais de duzentas pessoas, entre familiares e profissionais de imprensa, se aglomeraram na porta do instituto querendo ver o cadáver. Para evitar tumulto, o diretor do órgão, Galba Silveira, solicitou ao comandante do II Batalhão de Polícia Militar uma guarnição de cinco policiais para controlar a multidão.
Depois de liberado pela polícia técnica, o corpo foi levado para a igreja Nossa Senhora do Perpétuo do Socorro, no Centro da cidade, onde centenas de pessoas já o aguardavam. Houve princípio de tumulto. Algumas horas depois, o corpo seguiu numa Kombi para Caraúbas, onde foi velado na casa dos pais. O sepultamento está previsto para acontecer por volta das 16h de hoje no Cemitério São Sebastião, Centro.

 

Pedro Rocha lamenta morte de ‘Val’
João Ricardo Correia
Editor Assistente (Jornal de Hoje)

Natal – A notícia da morte de José Valdetário Benevides levou às lágrimas um dos seus maiores amigos, o assaltante Pedro Rocha Filho, 46, preso na Penitenciária Estadual de Alcaçuz, em Nísia Floresta.
O fim da carreira criminosa do líder de uma das quadrilhas de assaltantes mais perigosas da região Nordeste foi comunicado a Pedro Rocha pela reportagem, às 10h de ontem. Quando soube do ocorrido, o preso ficou sem falar por uns dois minutos, não teve como conter as lágrimas e balançou a cabeça negativamente.
Depois, disse, em tom baixo: “Isso aconteceu com Val? É isso mesmo. Ele vivia numa vida muito perigosa e esse tipo de coisa pode acontecer com qualquer um. Eu quero agora que Deus coloque Val num bom lugar.”
Pedro Rocha e Valdetário eram velhos amigos.
Por diversas vezes praticaram crimes juntos e a Polícia nunca teve dúvida da estreita relação entre ambos. Muitos policiais, inclusive, creditam a ele o planejamento de muitos assaltos feitos pelo bando dos Carneiro. Rocha seria um dos principais articuladores da quadrilha e conhecia como poucos o interior do Rio Grande do Norte e dos Estados vizinhos.
A lembrança mais remota que Pedro Rocha tem de Valdetário é quando ele trabalhava como mecânico de automóveis, na cidade de Caraúbas, há cerca de 20 anos. Rocha foi preso dia 5 de julho do ano passado, pela Polícia Federal, em Maceió (AL). Ele usava documentos falsos, em nome de Francisco Eliédio Pereira de Souza.
Pedro Rocha estava morando com a mulher e a filha e os policiais o encontraram aparentemente bem de saúde, andando normalmente, ao contrário dos comentários que davam conta que ele estaria em uma cadeira de rodas, por causa de acidente automobilístico.
Atualmente, Pedro Rocha disse que sofre constantemente de dor de cabeça, por causa do acidente e de tiros que recebeu durante sua trajetória criminosa, alegando que sua memória está comprometida. “Não lembro quanto tempo faz que vi Val (é assim que os amigos mais íntimos do assaltante o chamavam). O povo fica dizendo que a gente vivia fazendo assaltos, mas não é bem assim. Sei que fui condenado a 21 anos por um homicídio em Assu e parece que também me culpam por três assaltos”.
Primeiro desmonte da quadrilha foi no Piauí Para a Polícia, as primeiras baixas na quadrilha de José Valdetário Benevides aconteceram durante um tiroteio em 2001, no município de Pedro Segundo (PI).
Na ocasião, foi fuzilado pela Polícia Manoel Haroldo, um dos principais membros da quadrilha. Também no mesmo tiroteio foi preso e baleado Aguinaldo Benevides Carneiro, o “Galeguinho”.
Depois do assalto às três agências bancárias em Macau, a Polícia prendeu vários envolvidos com a quadrilha, entre eles Francisco Sales, o “Negão da Serra”, Wilson Gomes, o “Couxinha”, e Francisco Macedo.
A Polícia também localizou e prendeu Pedro Rocha, que por vários anos era considerado o bandido mais temido do Estado. Também foi preso Francisco Francimar Fernandes Carneiro, considerado o braço-direito de José Valdetário.

 

Valdetário: de mecânico a criminoso
Antes de entrar no mundo do crime, José Valdetário Benevides Carneiro era um mecânico de automóveis, na cidade de Caraúbas (distante 77 quilômetros de Mossoró). Seus problemas com a Justiça começaram quando foi acusado e condenado pelo roubo de um carro, tipo Pampa, que não tinha feito.
Valdetário ficou preso durante quatro anos. Depois de solto, entrou para a criminalidade. Matou o homem que o havia acusado, um agricultor do município de Brejo do Cruz (PB).
Depois disso, Valdetário Carneiro passou a liderar uma quadrilha que se tornou uma das mais audaciosas e procuradas do Norte e do Nordeste do Brasil. Responsável por assaltos a Bancos e a carros-fortes em vários municípios, principalmente do Rio Grande do Norte.
Entre os assaltos praticados pelo bando de Valdetário, um dos que mais se destacou foi o do município de Macau (RN), em junho do ano passado. Nessa operação, o grupo isolou a cidade (que ficou sem acesso e sem comunicação) e assaltou as três agências bancárias do município (Banco do Brasil, Banco do Nordeste e Caixa Econômica Federal). A operação rendeu R$ 450 mil para o bando.
Além dos assaltos, o bando de Valdetário Carneiro também é acusado de ter praticado vários assassinatos. Um deles é o do médico João Pereira, que levou 49 tiros, em Caraúbas. A enfermeira Walkíria Dantas Batista da Cunha, 31, que estava com ele, também foi assassinada.
O crime mais recente, também atribuído ao bando liderado por Valdetário, foi a chacina que matou o prefeito de Caraúbas, Agnaldo Pereira (irmão de João Pereira) e de sua mulher, Niêta Gurgel. Eles foram executados numa emboscada, quando vinham de Caraúbas para Mossoró. Na chacina também morreram um caseiro e um segurança que viajavam com o casal.

RESGATE – O bando também mostrou audácia na operação que resgatou Valdetário do presídio de segurança máxima de Alcaçuz, em Nísia Floresta (RN), em dezembro do ano de 2000.

 

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