O adeus do Papa da paz

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• Depois de longa agonia, morre João Paulo II• Na Praça de São Pedro, silêncio
Missão cumprida

O grande disciplinador• A fé absolve a ciência• Três visitas ao Brasil

Depois de longa agonia, morre João Paulo II
Cidade de Vaticano, 02 (AE-AP) - O papa João Paulo Segundo, o pontífice polaco que conduziu a Igreja católica por mais de um quarto de século e foi de longe o que mais viajou na história, morreu ontem aos 84 anos de idade, anunciou o Vaticano.
"O Santo Padre faleceu esta noite às 21h37 (16h37, horário de Brasília) em seu apartamento. Foram colocados em marcha todos os procedimentos estabelecidos na constituição apostólica 'Universi Dominici Gregis', escrita por João Paulo Segundo em 22 de fevereiro de 1996'", segundo anúncio escrito pelo porta-voz Joaquín Navarro-Valls e distribuído aos jornalistas por e-mail.
O pontífice faleceu depois de sofrer insuficiência cardíaca e renal. João Paulo esteve internado num hospital por duas vezes nos dois últimos meses. Poucas horas antes, o Vaticano havia emitido um comunicado afirmando que o estado do papa era "gravíssimo", mas que ainda respondia a seus assessores.
O cardenal Angelo Sodano, o segundo na hierarquia da Santa Sé, imediatamente conduziu orações na Praça de São Pedro, ante cerca de 70.000 pessoas que não conseguiam conter as lágrimas e que haviam começado uma vigília.
Alguns fiéis colocavam as mãos na cabeça, incrédulos. Outros choravam copiosamente. As venezianas do quarto do papa continuavam abertas depois do anúncio.
Desde sua surpreendente eleição em 1978, João Paulo Segundo viajou com frequência por todo o mundo, opondo-se energicamente ao comunismo tanto em sua Polônia natal como em todo o antigo bloco soviético, ao mesmo tempo que criticava o consumismo, os métodos anticoncepcionais não-naturais e o aborto.
João Paulo era um homem robusto de 58 anos quando os cardeais surpreenderam o mundo e elegeram o cardeal de Cracóvia como o primeiro papa não italiano em 455 anos.
Mas nos últimos anos, João Paulo era a imagem da fragilidade, acossado por doenças, principalmente o mal de Parkinson. Ainda realizava viagens pelo mundo, mas estava cada vez mais débil e sem mobilidade.
Determinado adversário do comunismo, provocou a faísca que ajudou a derrubá-lo na Polônia, de onde uma revolução incontrolável se espalhou pelo resto do bloco soviético. Até mesmo o último presidente soviético, Mikhail Gorbatchev, reconheceu sua grande importância na revolução.
Por outro lado, João Paulo não era admirador do estilo de vida ocidental, ao qual criticava por seu consumismo exagerado e a promiscuidade.
Na noite de quinta-feira, o Vaticano anunciou que ele estava com uma febre alta, atribuída a uma infecção urinária que resultou numa parada cardíaca e renal.
Neste sábado, Navarro-Valls havia dito que João Paulo não estava em coma e que abria os olhos, mas admitiu que desde a madrugada "apareceram os primeiros sinais de que sua consciência foi afetada".
"Está consciente de que o Senhor está por acolhê-lo", adiantou na tarde deste sábado o cardeal Joseph Ratzinger, um dos mais próximos colaboradores do papa.

Na Praça de São Pedro, silêncio
JAMIL CHADE
Enviado especial da AE

CIDADE DO VATICANO, 02 (AE) - Um profundo silêncio, lágrimas e um sentimento de alívio. Foi desta forma que a multidão que fazia a vigília na Praça de São Pedro recebeu a notícia da morte do papa João Paulo II. Apesar das mais de 60 mil pessoas presentes no momento do anúncio, o silêncio só era quebrado pelo barulho das águas das fontes da praça e aplausos ocasionais. Nas horas que se seguiram ao anúncio da morte, muitos outros fiéis que não estavam nas proximidades do Vaticano começaram a se dirigir ao local, todos em um silenzio fúnebre.
Os primeiros sinais da morte do papa foram dados à multidão quando mais uma janela de seus aposentos teve suas luzes acesas. As janelas, no segundo andar do Palácio Apostólico, foram alvo de atencão de muitos durante os últimos dias já que enquanto estivessem acesas significavam que o papa estaria vivo. Enquanto os fiéis temiam por um apagar das luzes, o Vaticano deu o primeiro sinal ao acender as luzes de um terceiro aposento. Nesse momento, muitos já entenderam que o papa havia morrido. Bastou o anuncio alguns segundos depois por um bispo para que a multidão tivesse a confirmação.
"As janelas acessas eram um dos contatos que tínhamos com o papa", afirmou Eliano, um pernambucano que estuda teologia em Roma e que levava a bandeira do Brasil. "Acho que foi um alívio para ele", disse.
Eliano já havia deixado a Praça de São Pedro depois do fim de leituras de passagens sagradas da Bíblia quando recebeu um telefonema e resolveu voltar. Assim como os brasileiros, milhares também caminharam em direção à praça. Todas as ruas da região próxima ao Vaticano foram repletas por fiéis, carregando velas e bandeiras de seus países. Famílias inteiras se dirigiram ao local, com crianças de colo.
Ao ser divulgada a notícia da morte do Papa, a primeira reação da multidão, tomada pelo choque, foi o silêncio, enquanto muitos se ajoelhavam com as maos sobre os rostos. "Hoje, estamos todos um pouco órfãos", afirmou um bispo que comandava a vigília. "Doeu muito. Ele foi um papa que mostrou uma nova cara de Cristo aos jovens", afirmou Hernan Gonzáles do Equador.
Giovana, mesmo em sua cadeira de rodas, fez questão de ir até a Praca de São Pedro. "Pedi aos meus irmãos que me trouxessem. É um momento único", afirmou. Para Paola, romana de 23 anos, a morte do papa "tem um significado histórico especial. "Não sou religiosa e nem católica, mas estou aqui porque ele era uma peça central em nossas mentes", disse.
Para um policial que fazia a seguranca da Praça, a emoção foi mais forte que seu próprio trabalho. Com os olhos repletos de água, Pietro não escondia sua emoção. "Trabalho aqui ha 24 anos e João Paulo II foi o único papa durante todo esse tempo. Ele era o pai de todos nós. Ele reconheceu os erros passados da Igreja e ainda nos mostrou como devemos resistir ao sofrimento, com sua próprio corpo", afirmou. Os italianos também parecem ter adotado João Paulo II como um cidadão local. Para jovens italianos que estavam na praça, o fato de o papa ser polonês não mudava seus sentimentos em relação ao pontífice. "Sabemos que em 455 anos ele foi o primeiro papa de fora da Italia, mas ele era o rei desta cidade", afirmou Cecilia, estudante de turismo. "Vou ficar triste porque ele se vai, mas acho que foi o melhor para ele nesse momento", afirmou.

Como é eleito um Papa
Pedro Fávaro Jr.
Da Agência Estado

São Paulo, 02 (AE) - A escolha do papa era feita pelo povo de Roma e depois ratificada pelo clero romano - bispos, padres e diáconos. A instituição porém sofreu abalos e, no século IX, Oto o Grande, da Alemanha, decidiu submeter a escolha do Papa à sua própria vontade.
Em 1059, Nicolau II resolve a situação e publica um decreto que reservava aos cardeais a exclusividade do direito da eleição do Papa. Em 1112, a Concordata de Worms resolve novamente a respeito da escolha do Papa, determinando que os bispos seriam eleitos pelo clero e pelo povo e que o rei renunciaria à investidura pelo báculo e pelo anel.
A história da sucessão papal – De acordo com os Evangelhos, a história do Papado começa quando Cristo, diante dos apóstolos, diz a Pedro: "Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei minha igreja..." (Mt, 15,18). Tornava-se assim Pedro o primeiro Papa da Igreja. De 189 a 199, período em que o Papa foi São Vítor I, o latim foi adotado como língua oficial da Igreja, ao lado do grego. E houve o estabelecimento de uma relação mais íntima entre as ações do bispo de Roma e o restante da cristandade.
O período medieval do Papado inaugura-se com Gregório I, Papa entre 590 e 604, o qual promove a "romanização" da Europa, no sentido religioso. No século VII, após um declínio do prestígio papal, o Papa Leão III coroa a Carlos Magno como "imperador dos romanos", estabilizando novamente a situação.
Também neste período da Idade Média, outras crises em relação à forma de eleição do Papa abalam o Papado. Porém em 1059, a situação é corrigida por um decreto de Nicolau II, reservando aos cardeais o direito de eleição do Papa. Também o rompimento do primado da Igreja de Roma sobre o Império do Oriente acontece neste período, como conseqüência do Cisma do Oriente. Porém, já no século XII, o Papado surge como autêntica potência religiosa, moral e política.

 

 

Missão cumprida
Roldão Arruda
Da Agência Estado

Em 1967, o papa Paulo VI, que havia recorrido a ele mais de uma vez para consultas sobre temas políticos e de doutrina moral, recompensou seu trabalho com a púrpura cardinalícia. Aos 47 anos, Wojtyla tornou-se um dos mais jovens cardeais do mundo e um dos símbolos da resistência católica ao comunismo.
Passados pouco mais de dez anos foi eleito papa. Naquele dia, quando o cardeal Jean Villot, o chefe da burocracia do Vaticano, aproximou-se e perguntou ao polonês se aceitava a missão de conduzir a Igreja, a resposta foi piedosa, mas inequívoca: "Em obediência à fé em Cristo, meu Senhor, confiando na Mãe de Cristo e na Igreja, não obstante as graves dificuldades, aceito."
A seguir, Villot indagou qual seria seu nome como pontífice. "João Paulo II", respondeu. Era uma homenagem ao papa a João Paulo I, seu antecessor imediato, que ficara apenas 33 dias no cargo e que já homenageava os dois pontífices anteriores - João XXIII e Paulo VI.

Vigoroso - Wojtyla iniciou o pontificado com 58 anos - uma idade baixa para os padrões da Igreja. Desde 1846 não se escolhia um papa tão jovem. Na época exibia boa saúde e um físico vigoroso, obtido com a ajuda de constantes caminhadas pelas montanhas da Europa - hábito que manteria mesmo depois de papa, nos períodos de férias. Era capaz de submeter-se a um ritmo pesado de trabalho, característica comum entre padres da Polônia, que conviviam com o comunismo.
Quem? A resposta à pergunta dos peregrinos da Praça de São Pedro veio como um furacão. João Paulo II começou a viajar e a mostrar-se para o mundo em 1979, quando foi a Puebla, no México, participar de uma reunião do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam). Fez questão de desfilar em carro aberto entre os milhares de mexicanos que foram às ruas saudá-lo. O veículo, especialmente preparado para aquela ocasião foi antecessor do papamóvel, que seria uma das marcas registradas de suas missões pelo mundo.
Ele chegou a visitar seis países numa única viagem apostólica. A TV nunca se cansou de mostrá-lo, com gestos teatrais e à vontade diante das multidões e das câmeras - o que fazia lembrar os tempos do ator.
Wojtyla quis ser ouvido no mundo inteiro, não só pelos católicos. Foi o primeiro papa a visitar uma sinagoga em Roma. Estimulou o diálogo com outros igrejas, cristãs e não-cristãs. Quando os editores da revista Time o escolheram como Homem do Ano, em 1994, disseram que o faziam por causa de sua força moral. Numa época em que tantas pessoas lamentavam o declínio dos valores, segundo a revista, era notável o esforço que o papa fazia para propagar sua visão de uma vida reta, convidando o mundo a fazer o mesmo.
Terror - As tragédias pessoais continuaram a perseguir o pontífice. No final da tarde do dia 13 de maio de 1981, foi vítima de um atentado terrorista. Na Praça de São Pedro encarou a morte pela segunda vez.
Com uma pistola Browning Parabellum, 9mm, o turco Mehmet Ali Agca, que se encontrava no meio de uma multidão de 20 mil peregrinos e turistas, fez dois disparos. Um deles acertou o alvo.
A bala desviou-se por milímetros da aorta central. Mas o papa teve o cólon e o intestino perfurados e perdeu 60% do seu sangue com a hemorragia interna. O caso era tão grave que lhe deram a extrema-unção, a caminho do hospital, onde seria submetido a uma complicada cirurgia, com quase seis horas de duração.
Em junho do mesmo ano voltou ao hospital, para tratar de uma infecção causada por cytomegalovirus, freqüentemente transmitido em transfusões de sangue, e submeter-se a uma nova cirurgia, destinada a reverter a colostomia feita em maio.
O atentado tornou mais visível a devoção mariana de Wojtyla. Atingido pelo tiro, a primeira coisa que disse foi "Maria, minha mãe". Mais tarde afirmaria que só não morreu por um verdadeiro milagre, intercedido pela Virgem de Fátima, cuja data litúrgica era comemorada exatamente no dia 13 de maio.
Um ano depois foi ao Santuário de Fátima, em Portugal, agradecer à Virgem. Ao sair, deixou sobre o altar a bala retirada de seu corpo. O cinto perfurado e manchado de sangue que usava por ocasião do tiro teve outro destino: o santuário da Madona Negra de Czestochowa, na sua querida Polônia.
Durante a visita a Fátima, a vida de Wojtyla foi mais uma vez ameaçada. Juan Fernández Khron, um padre de 33 anos e com distúrbios psicológicos, avançou contra ele armado com um faca, mas foi detido a tempo pelos seguranças. O papa o perdoou, assim como havia perdoado Ali Agca, a quem abençoou pessoalmente na prisão onde se encontrava em Roma.
Desde a infância - João Paulo II cultivou uma intensa devoção mariana desde a infância. Logo após a morte da mãe, o pequeno Wojtyla passava todos os dias por uma igreja próxima a sua casa e orava diante do altar da Virgem. Aos 15 anos ingressou na Associação de Maria, uma irmandade nacional altamente espiritualizada, da qual seria presidente. Quando tornou-se bispo e, de acordo com a tradição, teve de eleger um lema para sua vida, ficou com a expressão mariana Totus tuus (Todo teu). No Vaticano, escreveu uma encíclica inteiramente dedicada à questão mariana, a Redemptoris Mater (A Mãe do Redentor).
Graças ao seu bom estado físico, o papa recuperou-se bem das seqüelas do atentado e não teve problemas graves de saúde até 1992, quando enfrentou outra longa cirurgia, de quatro horas. Dessa vez para remover um tumor pré-cancerígeno, do tamanho de uma laranja, instalado no cólon. Nos anos seguintes ele sofreria distúrbios digestivos recorrentes, acompanhado de rumores, sempre desmentidos, de que teria câncer.
Em 1994 viria mais um problema. Ele escorregou, caiu no banheiro de seu apartamento no Vaticano e quebrou o quadril . Foram mais duas horas sob anestesia geral, para a implantação de uma prótese na área atingida.

 

O grande disciplinador
José Maria Mayrink
Da Agência Estado

São Paulo - O eixo da Igreja deslocou-se do Norte para o Sul nos últimos 30 anos. A Europa, que concentrava metade dos católicos no fim do Concílio Vaticano II, viu essa participação cair para 25,8% na virada do século, enquanto a América Latina saltava de 30% para cerca de 45%. Na África, a porcentagem de católicos mais do que dobrou, passando de 5% para 13,2%. De acordo com dados estatísticos da Santa Sé, os países do Terceiro Mundo abrigam atualmente cerca de 70% do total de 1,086 bilhão de cristãos que vivem sob a autoridade de Roma.
Foi em meio a essa reviravolta que João Paulo II assumiu o trono de Pedro em outubro de 1978. Vindo de uma Polônia monoliticamente católica, apesar de ser governada por um regime comunista, o ex-arcebispo de Cracóvia, então com 58 anos, logo descobriu que não seria fácil pastorear o rebanho. Não era só a geografia que mudava com a expansão do catolicismo. Na esteira da revolução iniciada por João XXIII e continuada por Paulo VI, novos ventos sopravam nas regiões mais pobres do planeta, onde teólogos de vanguarda acreditavam que a Igreja devia colocar-se a serviço dos desprotegidos.
Ao desembarcar no México para abrir a 3.ª Conferência do Episcopado Latino-Americano, realizada em Puebla, em janeiro de 1979, João Paulo II deparou com uma realidade bem diferente daquela do continente europeu. Os participantes da reunião aplaudiram o papa com entusiasmo, mas não se curvaram, já nesse primeiro encontro, poucos meses após sua eleição, às diretrizes que ele trazia para orientação dos debates. Em vez de vocações religiosas e família, como queria o Vaticano, os bispos discutiram a opção preferencial pelos pobres e os desafios da nova sociedade no mundo moderno. Apenas o terceiro item proposto a questão dos jovens, foi mantido em pauta.

Advertência - De estilo centralizador e cioso de sua autoridade, João Paulo II interveio nos debates para impor sua orientação, mas não tanto a ponto de mudar os rumos de Puebla. Sem condenar a Teologia da Libertação, advertiu que ela não podia inspirar-se no materialismo nem utilizar instrumentos marxistas para a defesa dos excluídos. A opção pelos pobres, insistiu ele, não deveria ser discriminatória nem excludente, como sugeria o adjetivo "preferencial", herdado da conferência de Medellín, que se reuniu em 1968 com a bênção de Paulo VI. Apesar da advertência, João Paulo II foi mais complacente que a Congregação para a Doutrina da Fé, que defendia uma posição mais dura.
Na conferência seguinte, realizada em outubro de 1992 em Santo Domingo, República Dominicana, os burocratas da Cúria Romana anteciparam-se aos debates. Uma comissão de cinco membros escolhidos pelo Vaticano, à revelia dos episcopados nacionais, chegou com uma versão pronta para a redação do documento a ser aprovado pela reunião. Não adiantou. Os bispos elegeram um sexto nome, o do arcebispo brasileiro d. Luciano Mendes de Almeida, então presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), como seu representante. Na última hora, d. Luciano alterou o texto de Roma, acrescentando a ele as linhas gerais de Medellín e Puebla.
"Menos mal", conformaram-se os bispos que resistiam à imposição de diretrizes das quais discordavam. "Santo Domingo foi marcada pelo cuidado, pelo medo, por interferências fortes vindas da Cúria Romana, sobretudo por causa da Teologia da Libertação e, por isso, não esteve à altura do momento em que foi convocada", afirma d. Angélico Sândalo Bernardino, bispo de Blumenau (SC). A interferência, conforme revela o teólogo paulista Oscar Beozzo, partiu do secretário de Estado da Santa Sé, cardeal Angelo Sodano, para quem as conferências episcopais latino-americanas atuavam, ousadia inadmissível, como uma espécie de concílio autônomo. Roma, aconselhava Sodano, precisava retomar o controle da situação.
A Congregação dos Bispos, presidida pelo cardeal africano Bernardin Gantin, depois substituído pelo cardeal brasileiro Lucas Moreira Neves, passou a filtrar, com mais cuidado, os nomes enviados pelas nunciaturas apostólicas para o preenchimento das dioceses vacantes. Em menos de 20 anos, o papa renovou o episcopado, nomeando mais de dois terços dos 4.500 bispos em atividade no fim do século 20. "É inegável que o perfil do episcopado brasileiro e mundial mudou, com a escolha de bispos que são mais pastores e menos políticos", observa d. Amaury Castanho, bispo emérito de Jundiaí (SP), um dos representantes da linha mais moderada da Igreja.
"Como nem sempre os escolhidos correspondiam às expectativas, Roma preferiu dar maior atenção aos arcebispos", diz padre Beozzo, citando como exemplos a nomeação de d. Cláudio Hummes para a sucessão do cardeal d. Paulo Evaristo Arns em São Paulo e a de d. Geraldo Majella Agnelo para o lugar do cardeal primaz de Salvador. D. Paulo, que até então dirigia a maior arquidiocese do mundo, viu seu poder reduzido em 1989, quando o Vaticano desmembrou o território sob sua jurisdição para criar novas dioceses na capital paulista. O cardeal não disfarçou sua mágoa com a Cúria Romana, mas evitou criticar João Paulo II.
"Mediocrização" - Na avaliação de frei Clodovis Boff, teólogo como seu irmão Leonardo Boff (o ex-frade franciscano que deixou a vida religiosa após sofrer uma punição do cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé ), houve uma "mediocrização" do episcopado no mundo e não só no Brasil. "Temos hoje um papa grande e bispos pequenos", escreveu frei Clodovis. Ele não gosta do estilo "autoritário" adotado na disciplina interna, mas prevê que João Paulo II ficará na história como um "grande papa, por uma estatura pública e ética que reforça o poder da Igreja".
Avançado no campo social, Wojtyla adotou uma atitude conservadora em questões morais. "João Paulo II tem a mesma posição de Paulo VI em questões como aborto, sexo e homossexualismo", lembra d. Cândido Padin, que, como bispo de Lorena e de Bauru, foi um dos mais atuantes dirigentes da CNBB durante a ditadura militar. "O papa polonês, que sofreu a opressão do nazismo na carne, quis impedir a influência do marxismo na Igreja, mas teve visão suficiente para enxergar as necessidades dos desvalidos", explica d. Cândido.
Esse dualismo, aparentemente ambíguo, embora não contraditório, fez de João Paulo II um líder mundial, mas custou caro no âmbito interno da Igreja. "Foi um desastre, porque o papa aboliu o diálogo e o pluralismo, impondo ordem unida para bispos e teólogos", afirma padre Beozzo. "A grande insatisfação em relação a seu pontificado vem da falta de participação", reforça frei Clodovis, observando que essa foi uma reação de dimensão mundial. Apesar da proibição de Roma, acrescenta ele, 67% dos católicos tomam pílulas ou usam camisinhas, o que demonstra a existência de uma moral paralela à palavra oficial.
"Creio ser grande o número de católicos que, em matéria de limitação de filhos, não segue as normas da Igreja, mas não acho que aconteça a mesma coisa a respeito do aborto", diz d. Angélico, o bispo de Blumenau que trabalhou durante 25 anos na periferia de São Paulo. Para o ex-arcebispo de Belém, d. Vicente Zico, "existe uma tendência visível de rejeitar a orientação da Igreja, quando ela vê motivo para algum alerta de ordem pessoal ou doutrinal".
D. Vicente cita como exemplo o documento Dominus Iesus (O Senhor Jesus), da Congregação para a Doutrina da Fé, que sofreu um bombardeio generalizado por haver declarado que só o catolicismo é a verdadeira religião. "Foi uma pá de cal no ecumenismo", lamenta padre Beozzo, ao avaliar a repercussão do texto lançado em setembro de 2000. Imaginou-se, de início, que se tratasse de mais uma intervenção do cardeal Ratzinger, mas João Paulo II encampou a tese, semanas depois. O documento, acredita o teólogo acabou com o grande sonho do papa, que era unir os cristãos - católicos, evangélicos e ortodoxos - no início do Terceiro Milênio.

Alerta - O jesuíta João Batista Libânio, professor do Instituto Santo Inácio em Belo Horizonte, não acha que o estrago tenha sido tão grande. "O documento Dominus Iesus foi um alerta para algumas posições de teólogos, mas não afetará o processo ecumênico", afirma padre Libânio, com o argumento de que os gestos do papa favoreceram o diálogo, "mesmo que a parte teórico-teológica não os tenha acompanhado".
As restrições à Teologia da Libertação e a censura de seus principais defensores, entre os quais o brasileiro Leonardo Boff e o peruano Gustavo Gutierrez, tentaram refrear o avanço do movimento na América Latina, mas não anularam sua influência. Além de continuar inspirando as Cebs (comunidades eclesiais de base), os herdeiros do espírito de Medellín e Puebla estenderam sua ação a outras áreas, em aliança com movimentos negros, povos indígenas, grupos de mulheres e minorias marginalizadas, conforme observa padre Libânio.

 

A fé absolve a ciência
Gilles Lapouge
Da Associated Press

Paris - João Paulo II foi um um grande papa e isso é óbvio. Seus próprios inimigos o reconhecem e a simples enumeração das realizações de seu pontificado o testemunham. Mas ele não foi apenas um grande papa. Foi também um dos mais misteriosos.
Obstinado e mesmo cabeçudo como uma mula, foi ao mesmo tempo capaz de evolução, de revisão e até mesmo de contradições. Muitos o consideravam arcaico, obscurantista e medieval. Não sem motivo, se atentarmos para os interditos e as imprecações lançadas contra a contracepção e o aborto ou sua intransigente imposição do celibato dos padres. Ora, estranhamente, este mesmo homem se revelou furiosamente moderno, para não dizer modernista em outros campos. Como por exemplo o da ciência.
Em 26 anos de encíclicas e de discursos, ele reverteu totalmente a posição da Igreja nos campos fundamentais da ciência. Os dois casos de "revisionismo" papal mais impressionantes, os mais necessários e os mais perigosos são os de Copérnico e Galileu, por uma parte, e o de Darwin, por outra.
Cumpre analisar em conjunto os "arrependimentos" manifestados por João Paulo II em relação a Copérnico e Galileu. Nicolau Copérnico (1473-1543), polonês como João Paulo II, lançou por terra a teoria universalmente aceita do grego Ptolomeu, que colocava a Terra no centro do cosmos e fazia do Sol um astro a girar em torno da Terra. A Igreja naturalmente acomodou-se à teoria de Ptolomeu, que garantia que a Terra, criada por Deus e habitada pelo homem, era o centro e o motor dos mundos. Mas o cônego Copérnico fez cálculos, observações e obteve conclusões devastadoras: o centro é o Sol. A Terra, como os outros planetas, gira em torno dele. A condição da Terra (e conseqüentemente a do homem) é vertiginosamente rebaixada por Copérnico e o heliocentrismo.
A Igreja ficou insatisfeita porque sua teoria não era compatível com a Bíblia. Esse Copérnico era um tipo "politicamente incorreto" (ou "teologicamente incorreto"): como, por exemplo, Josué teria se arranjado para deter o curso do Sol, segundo diz a Bíblia, se Copérnico estivesse certo? O papado refletiu enormemente. Finalmente, depois de 70 anos, o golpe de cutelo: a obra de Copérnico é colocada no índex dos livros proibidos. Para o Vaticano, é o Sol que se obstina em girar em torno da Terra, e não o contrário. Mas, a bem da verdade, a atitude do Vaticano daquela época não era inteiramente estranha. O papa não era o único cristão a ficar indignado com o cônego polonês: Lutero, o pai do Protestantismo, foi ainda mais furibundo. Tratou Copérnico como louco.

Heresia - Não era essa, porém, a opinião de outro cientista grandioso, Galileu Galilei, nascido em Pisa em 1564 e que se tornara partidário de Copérnico aos 30 anos. De maneira intrépida e corajosa, Galileu publicou em 1633 sua obra: Diálogo sobre os Dois Grandes Sistemas do Mundo, no qual defende Copérnico em tom vivo, sério e impertinente. Pela segunda vez, o Santo Ofício se encoleriza. Em 1633, a obra desse sábio pisano foi colocada no Índex.
Galileu, acusado de heresia, foi encarcerado no Quirinal. Pobre velho sábio! Ele bem sabe que a próxima etapa podia ser uma fogueira. Por isso, nesse mesmo ano de 1633, abjura seus escritos, muito embora o papa Urbano VIII tenha tido a gentileza de comutar sua pena de prisão pelo exílio.
Os séculos passam (no caso da Igreja, não se deve dizer "as horas passam", mas sim "os séculos passam"). O Vaticano é impassível e, tanto pior, pois todos os sábios e todos os homens seguem Galileu e não Ptolomeu. Entretanto, em 1965, o documento do Concílio Vaticano II Gaudium et Spes (sobre a Igreja no Mundo) dá a entender que talvez as coisas tenham mudado...
Mas é João Paulo que comete o gesto heróico e sacrílego: no dia 31 de outubro de 1992, na sala real do Palácio do Vaticano, reabilita oficialmente Galileu. Melhor ainda: reconhece que Galileu foi um bom cristão e que sua teoria era justa. Arrependimento. Foram precisos 359 anos.

Evolução - Este é o primeiro golpe espetacular de João Paulo II: de agora em diante, a cosmologia dos cientistas não se opõe à dos padres. Mas continua havendo um segundo campo onde a tarefa de retirar as minas talvez seja ainda mais delicada: a biologia e, em primeiro lugar, a teoria da evolução de Charles Darwin.
Em 1859, o biólogo inglês publicou Sobre a Origem das Espécies por Via da Seleção Natural. Darwin explica que toda a natureza, inclusive o "ser vivo", e, portanto, o homem, é fruto de uma evolução da matéria que se estende por milhões de anos. O homem não foi criado por Deus instantaneamente, foi lentamente secretado pela natureza, passando da ameba ao rato e ao macaco, depois ao ser humano. A teoria darwiniana, hoje confirmada pela genética, constitui, desde o século 19, um desafio terrível para a filosofia, a ciência e a religião.
Também neste ponto a Igreja caminha a marcha à ré... Detesta a novidade. Ao longo do século, ignora ou despreza as duas teorias evolucionistas, a de Lamarck e, sobretudo, a de Darwin. É preciso ouvir Pio XII para notar um princípio de reabilitação, em sua encíclica Humani Generis (1950), mas é João Paulo II, uma vez mais, que se atreve a dar o passo à frente e reconhecer, diante da Pontifícia Academia de Ciências, em 1996, que os princípios de Charles Darwin são "mais do que uma hipótese". João Paulo II libertou, portanto, a teologia de duas atitudes estúpidas que, com o tempo e o avanço da ciência, raiavam ao grotesco (como são grotescos esses texanos, que ensinam sempre em suas escolas que o homem não descende do macaco!).

 

Três visitas ao Brasil
São Paulo - Das 104 viagens fora da Itália que João Paulo II fez em 26 anos de pontificado, três tiveram como destino o Brasil. Nas duas primeiras, em 1980 e 1991, o papa percorreu o País de Norte a Sul, para visitar 23 cidades, todas capitais de Estados, com exceção apenas de Aparecida (SP), onde consagrou o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, dando-lhe o título e os privilégios de basílica. A terceira viagem, em outubro de 1997, restringiu-se ao Rio, sede do 2.º Encontro Mundial do Papa com as Famílias. Rio, Brasília e Salvador foram as três únicas cidades brasileiras que entraram duas vezes no roteiro.
Karol Wojtyla, que havia assumido o governo da Igreja em outubro de 1978, era um homem de porte atlético e jovial quando se ajoelhou para beijar a terra no aeroporto de Brasília, em 30 de junho de 1980. Era um polonês de 60 anos que falava português com bastante desembaraço, capaz de interromper seus discursos com improvisos jocosos que levavam as multidões ao delírio. Recebido pelo general João Batista Figueiredo, o último general-presidente do regime militar, passou por cima do protocolo diplomático para dar o seu recado aos governantes e fiéis do maior país católico do mundo.
Celebrou uma missa campal na Esplanada dos Ministérios e saudou a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) como "o corpo episcopal mais numeroso do mundo". A CNBB, então sob a presidência de d. Ivo Lorscheiter, de Santa Maria (RS), recebeu apoio e solidariedade do papa, mas também ouviu reprimendas. Na reunião de Brasília, João Paulo II recomendou cautela contra excessos da Teologia da Libertação e advertiu para os riscos de manipulação política do evangelho.

A grande novidade - Era só o começo de uma peregrinação que, nos 12 dias seguintes, lotaria praças e estádios, de Porto Alegre a Manaus, onde quer que João Paulo II aparecesse. O papa era uma grande novidade, pois estava fazendo ainda a sua sétima viagem apostólica ou visita pastoral fora da Itália.
De Brasília, ele voou para Belo Horizonte e Rio, dois pontos altos da programação. "Oh, que belo horizonte!", exclamou o polonês poliglota no alto das Mangabeiras, interrompendo a homilia para contemplar o pôr-do-sol na capital de Minas.
"A bênção, João de Deus", cantaram mais de 400 mil cariocas no Aterro do Flamengo, no Rio, lançando um comovente refrão que ecoaria País afora. No Morro do Vidigal, o papa tirou seu anel de ouro do dedo e o deu de presente aos moradores da favela, no primeiro contato com a população mais pobre do Brasil. Mostrado ao vivo pela televisão, o gesto comoveu.
São Paulo, a etapa seguinte, marcou a programação com imagens contrastantes. Após a apoteose do Campo de Marte, que atraiu 1 milhão de pessoas para uma alegre celebração oficial, o cardeal d. Paulo Evaristo Arns apresentou a João Paulo II um de seus amigos e colaboradores, o jurista Dalmo Dallari, professor da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco e presidente da Comissão Justiça e Paz, que havia sido seqüestrado e espancado, na véspera, por agressores não identificados. Dallari que chegou de maca numa ambulância, responsabilizou o governo estadual por cumplicidade no atentado. Uma reunião com operários no Morumbi aumentou o constrangimento. Ao receber um grupo de trabalhadores no estádio, entre os quais se destacava Luiz Inácio Lula da Silva, então líder sindical do ABC, o papa abraçou um metalúrgico que havia sido torturado pela ditadura. Nesse clima de denúncias, ele defendeu a liberdade sindical no discurso que fez no Morumbi e insistiu no respeito aos direitos humanos, encampando a luta do episcopado contra o autoritarismo.
João Paulo II voou depois para Porto Alegre e, na volta, parou em Curitiba, onde cantou em polonês com uma delegação de imigrantes de seu país natal. Em Salvador, conheceu a miséria da Favela de Alagados e abençoou uma mãe-de-santo, apresentada pelo cardeal d. Avelar Brandão Vilela, arcebispo-primaz do Brasil e um dos mais expressivos representantes da ala "progressista" da CNBB. No Recife, d. Helder Câmara recebeu Karol Wojtyla como "irmão dos pobres" e lhe mostrou um mapa da cidade com 63 favelas ameaçadas de remoção.
Flagelados - No vôo para Belém, onde visitou uma colônia de hansenianos, João Paulo II fez uma escala em Teresina para um encontro com flagelados da seca. "Meu Deus, o povo passa fome. Gostaria de espalhar a chuva", comoveu-se. Antes de despedir-se dos brasileiros em Manaus, com uma procissão no Rio Negro, o papa foi a Fortaleza, cidade que registrou o único incidente grave da viagem - a morte de três mulheres, quando uma multidão de 30 mil pessoas tentou invadir o estádio Castelão para assistir a uma celebração.
"A primeira visita do papa ao Brasil reforçou a posição profética da Igreja na sociedade", escreveu frei Clodovis Boff (irmão do teólogo Leonardo Boff, o ex-frade franciscano que deixou o sacerdócio e a vida religiosa após ter sido condenado ao silêncio pelo Vaticano), num artigo publicado em 1997, poucos meses antes de João Paulo II voltar ao Rio para o Encontro Mundial do Papa com as Famílias. A segunda viagem, que incluiu dez cidades, de 12 a 21 de outubro de 1991, ocorreu num "contexto restaurador", conforme frei Clodovis observou no mesmo trabalho.
"Posição profética", porque o papa denunciou injustiças sociais gritantes na realidade do País, e "contexto restaurador" porque ele voltou a insistir na defesa de valores tradicionais, como o celibato dos padres e a autoridade de Roma. O vigoroso e brincalhão Karol Wojtyla da primeira visita não era mais o mesmo. Estava 11 anos mais velho e carregava seqüelas do atentado sofrido em maio de 1981, quando levou um tiro na Praça de São Pedro. Apesar disso, enfrentou uma árdua programação entre o desembarque em Natal e a despedida em Salvador, com escalas em outras oito capitais.
A imprensa estranhou que João Paulo II não atraísse multidões tão grandes quanto as da primeira viagem, mas admitiu que ele ainda era capaz de encher praças e estádios. Se Brasília não levou 800 mil, mas "apenas" 300 mil pessoas, à Esplanada dos Ministérios, os números não eram desprezíveis. O papa continuava tendo audiência para sua pregação, com ampla cobertura internacional. Decidido a aproveitar esse público em sua 53.ª viagem apostólica, ele levantou questões morais de alcance mundial e voltou a temas urgentes no campo social.

Famílias - Seis anos depois dessa segunda viagem, João Paulo II veio ao Rio, em outubro de 1997, para o 2.º Encontro Mundial do Papa com as Famílias. "Esta não é uma visita ao Brasil, mas no Brasil", disse d. Luciano Mendes de Almeida, ex-presidente da CNBB, para esclarecer que, ao contrário de 1980 e 1991, o papa não fazia uma visita oficial ao País, mas chegava para presidir uma reunião que se realizava no Rio.
"Jamais o papa havia ficado tanto tempo numa mesma cidade", observou frei Clodovis Boff, interpretando essa terceira viagem, de quatro dias, como uma deferência especial ao arcebispo d. Eugenio de Araújo Sales, cardeal de grande prestígio e influência no Vaticano. Embora viesse para presidir um encontro sobre um tema definido, a família, João Paulo II não deixou de alertar para problemas do País.
Ao falar para 190 delegações de 76 países durante um congresso internacional de teologia no Riocentro, o papa condenou o aborto, o divórcio e a infidelidade conjugal como três males da sociedade moderna. João Paulo II voltou ao tema no Maracanã, onde 115 mil pessoas participaram da Festa do Testemunho, no encerramento do Encontro Mundial do Papa com as Famílias.
Na missa da catedral, a emoção ficou por conta do encontro de João Paulo II com d. Hélder Câmara, arcebispo emérito de Olinda e Recife. "Irmão dos pobres, meu irmão", disse o papa, desviando-se da caminhada em direção ao altar para abraçar o amigo. Muito debilitado em seus 88 anos, d. Hélder beijou a mão do papa e recebeu dele um beijo na testa.
Domingo, último dia da visita, a missa foi no Aterro do Flamengo, onde cerca de 2 milhões de pessoas rezaram e cantaram no mesmo cenário de 1980. Roberto Carlos subiu ao altar, para cantar seu maior sucesso, Nossa Senhora, e reprisou Jesus Cristo a canção que de que o papa tanto gostara em sua primeira viagem ao Brasil. Foi a apoteose da segunda passagem de João Paulo II pelo Rio.

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