EXPLOSÃO NA ORTAL

Clique e veja as fotos

• Acidente leva terror ao Bom Jardim• Crianças e adolescentes são atingidos

Provável causa: falta de prevenção• Acidentes marcam a Ortal desde 1994• Corpo de Bombeiros é desestruturado

Acidente leva terror
ao Bom Jardim

Julierme Torres
Da Redação

A explosão de um dos extratores das caldeiras da empresa Organização Tabajara Ltda. (ORTAL), única do Rio Grande do Norte a beneficiar a cera de carnaúba, causou aflição a moradores de bairro Bom Jardim (zona norte). Um cenário de guerra.
O acidente ocorreu por volta das 9h20 de ontem. A explosão foi tão forte que atingiu casas e danificou veículos que estavam distantes 500 metros da fábrica. Pelo menos 18 pessoas foram conduzidas com queimaduras para o Hospital Regional Tarcísio Maia (leia mais na página 2).
Uma das vítimas foi o auxiliar de serviços gerais Edson Barbosa da Silva, 27. Ele estava no telhado de casa consertando a antena de TV, quando ocorreu a explosão. Edson mora na Rua Epitácio Pessoa, que fica a mais de 500 metros da fábrica. Mesmo assim, teve queimaduras nas costas e caiu, quando o telhado desabou.
Moradores de áreas mais próximas da fábrica entraram em desespero. A dona-de-casa Maria Valdirene Gomes, por exemplo, só pensou em fugir. A casa dela fica vizinha à Ortal, na Rua Arthur Bernardes (parte de trás da fábrica). Ela começou a colocar toda a mobília na calçada, no desespero de tentar se mudar com os dois filhos.
“Eu pensei que era o fim do mundo. Foi tão quente que eu pensei que o sol estava caindo”, disse Valdirene, depois de ser confortada por outros moradores que, temendo novas explosões, saíram das casas e lotaram as ruas.
Outros moradores ouvidos pelo Jornal de Fato relataram o momento da explosão. Disseram que o estrondo foi tão forte que chegaram a imaginar um terremoto. Simultaneamente, veio um vapor muito quente. Foi justamente esse vapor que causou as queimaduras nas pessoas.
Se a explosão causou alvoroço nos moradores, entre os funcionários da fábrica o desespero foi ainda maior. José Antônio de Freitas, 27, é o mais perfeito exemplo disso. Ele trabalha na extração da cera. “Quando houve a explosão eu me tranquei no banheiro. Depois não conseguia mais abrir a porta”, confessou.
A EMPRESA – A Organização Tabajara Ltda. ocupa uma área de 7.500 metros quadrados, entre a Avenida Alberto Maranhão e a Rua Arthur Bernardes, no bairro Bom Jardim (zona norte de Mossoró).
Na empresa trabalham 40 funcionários, que se revezam para manter o funcionamento 24 horas, todos os dias da semana. A Ortal tem uma produção de 250 toneladas de cera de carnaúba por mês. 80% dessa produção é exportada para Estados Unidos, México, Alemanha, França, Itália, Inglaterra, Japão e Austrália.

 

Crianças e adolescentes são atingidos
REGY CARTE
Da Redação

O Hospital Regional Tarcísio Maia (HRTM) registrou atendimento de 18 feridos na explosão na Organização Tabajara Ltda. (ORTAL), até as 14h de ontem, entre eles dois adolescentes e três crianças. Dois deles, Manoel Nogueira de Oliveira, 55, e Antônio Soares da Silva, 54, foram transferidos para o Hospital Walfredo Gurgel, em Natal, por volta das 13h30 de ontem, com queimaduras de 1o e 2o graus em várias partes do corpo. São soldadores da Ortal e estavam dentro da empresa no momento da explosão.
Antônio Soares conta que estava trabalhando quando ouviu a explosão. “Não deu tempo para reagir. O fogo se alastrou em seguida e o desespero tomou conta de todos”. Ele sofreu queimaduras nas costas, rosto, pescoço e braços.
O atendimento de urgência mobilizou 15 profissionais, que de imediato cuidaram do resfriamento da pele e da imobilização da área atingida. Os dois pacientes em estado mais grave foram transferidos para Natal porque o HRTM não dispõe de unidade especializada para o tratamento de queimaduras graves.
Alguns foram liberados em seguida e outros ficaram em observação. Com queimaduras de 1o e 2o graus, o garoto Jhonatan Bruno Pereira, 6, foi operado ontem de tarde no HRTM. As outras duas crianças feridas, Francisco Dimas Pereira Segundo, 3, Ana Luzia de Melo, 3, ficaram em observação.
A maioria dos feridos estava na rua ou em casa na hora da explosão. Maria Francisca de Lima, 28, mora por trás da Ortal e, embora no interior da casa, sofreu queimaduras nos braços, nas pernas e no rosto. Abalada psicologicamente e com bolhas espalhadas pelo corpo, quase não conseguia falar. “Houve um desespero muito grande. A explosão e o fogo. Foi horrível”, contou.
O atendimento de urgência no Tarcísio Maia começou depois das 11h e durou cerca de duas horas. Além dos ferimentos, a equipe médica cuidava da parte psicológica dos pacientes, sobretudo das crianças, em pânico com as cenas de horror a que assistiram.

Número de feridos supera o divulgado pelo HRTM
O acidente na Ortal não resultou em morte, segundo o Instituto Técnico-Científico de Polícia (ITEP). Saíram gravemente feridas dezenas de pessoas, a maioria com queimaduras de 1o e 2o graus. O Hospital Regional Tarcísio Maia atendeu 18 pessoas, mas o número de feridos é maior.
Muita gente que sofreu queimaduras leves não procurou o hospital. Os pacientes em estado mais grave chegavam ao HRTM em estado de choque. Os dois transferidos para Natal serão submetidos a cirurgia no Hospital Walfredo Gurgel.
Das 18 pessoas atendidas no Tarcísio Maia, duas foram transferidas para Natal, três estão em tratamento em Mossoró, uma no centro cirúrgico e outra no setor de pediatria do HRTM, e a terceira na Casa de Saúde de Dix-sept Rosado. Muitos foram liberados após os primeiros socorros.

 

Provável causa:
falta de prevenção

As causas da explosão na fábrica de cera de carnaúba da Organização Tabajara Ltda. (ORTAL) não estão elucidadas. Mas, numa primeira análise, os indícios apontam para a inexistência de uma política de prevenção de acidentes dentro da empresa.
O Jornal de Fato consultou o especialista em prevenção de acidentes Alderi Nunes para buscar subsídios para explicar o acidente. Ele, de imediato, levantou a possibilidade de não estar havendo manutenção, ou de a empresa não ter profissionais treinados para lidar com caldeiras.
Essa suspeita vem de dois pontos. O primeiro é que as caldeiras da Ortal já são antigas. Funcionam com combustível sólido (madeira) queimada. Esse tipo de equipamento requer um cuidado maior. Uma equipe preparada para lidar com ele e atenta para perceber o menor sinal de problema.
“É preciso fazer manutenção constantemente e ter um sistema de treinamento assistido para os funcionários que trabalham com a caldeira”, explicou Alderi Nunes, lembrando que os órgãos de fiscalização precisam fazer a inspeção periódica no equipamento.
Sobre o extrator, que foi justamente a parte que explodiu na caldeira da Ortal, Alderi disse que ele funciona como se fosse um exaustor. É preciso ter o controle sobre a quantidade de vapor. Se esse controle não for bem-feito existe o risco de haver a explosão.
Outro ponto que Alderi questionou diz respeito à quantidade de gente operando as caldeiras. O especialista lembrou que a norma número 13 (NR-13) do Ministério do Trabalho, que trata do trabalho com caldeiras, fixa números variáveis de operadores de acordo com a potência do equipamento.
Funcionários da Ortal que foram ouvidos pelo Jornal de Fato deixaram dúvidas sobre o cumprimento dessas normas. Jesus José Luiz trabalhou na fábrica com extrator da cera. Ele disse que no interior da empresa existe um reservatório com 60 mil litros de solvente. O produto, altamente inflamável, é usado na separação da cera.
Além do solvente, Jesus disse que existem muitos outros produtos químicos na fábrica que são usados no processo de produção. O armazenamento irregular só aumentava o risco de acidentes.
Outro agravante é que a Ortal não estava preparada para enfrentar uma situação de emergência, como foi a de ontem. Homens do Corpo de Bombeiros que foram ouvidos pelo Jornal de Fato disseram que na fábrica não existe um sistema eficiente de proteção a incêndio. A maior prova é que no local havia poucos extintores e nenhum hidrante.

Funcionário disse que acidentes eram rotina
Os funcionários da Ortal já estavam acostumados aos acidentes. Trabalhando sem equipamentos de proteção e lidando diretamente com produtos químicos e temperaturas elevadas, muitos trazem no corpo a marca desses acidentes.
Cícero Elias da Silva, 38, é um desses funcionários. Ele trabalha na Ortal fazendo o preparo da cera. Ontem, em meio ao nervosismo do acidente, ele revelou que é comum ocorrerem acidentes de trabalho na empresa.
Em um desses acidentes, no último mês de fevereiro, Cícero teve parte do corpo queimada. Ele, que estava trabalhando na hora da explosão de ontem, levantou a camisa e mostrou as cicatrizes deixadas pela queimadura. A marca está em todo o lado direito do corpo.
Cícero contou que sobreviveu à explosão de ontem por um acaso. Ele tinha sido chamado no escritório da firma. Quando entrou na sala ouviu a explosão. “Graças a Deus não foi a caldeira toda, se não todo mundo teria morrido”, disse.
A maior preocupação de Cícero foi com um companheiro de trabalho, que ele chama de “Borrachinha”. Era o borracheiro da Ortal, que trabalhava muito perto do local da explosão. “Ele saiu com o corpo todo queimado”, contou.

 

Acidentes marcam
a Ortal desde 1994

A explosão na fábrica da Organização Tabajara Ltda. (ORTAL) não foi por acaso. Os perigos de se ter uma empresa desse porte, que trabalha com caldeiras e produtos químicos, em área residencial já haviam sido alertados pela imprensa e pelos próprios moradores, que sempre foram ignorados pelo poder público.
O primeiro aviso do risco que a Ortal representa para os moradores do bairro Bom Jardim veio em 1993. Na ocasião, houve um acidente em uma das caldeiras da empresa. Apesar das proporções bem menores, o fato assustou a população.
Nesses dez anos, os moradores fizeram seguidas mobilizações. Foram abaixo-assinados, protestos, ofícios e denúncias. Tudo sempre esbarrou na inoperância do Ministério Público e na vista grossa dos órgãos ambientais (Idema e Ibama) e também da Prefeitura de Mossoró.
A convivência entre população e Ortal sempre foi arranhada. As chaminés da empresa soltavam resquícios de produtos que se temiam ser químicos. A presença da fábrica também desvalorizou os imóveis e obrigou muita gente a se mudar. Esse transtorno foi, diversas vezes, denunciado na imprensa. O Jornal de Fato mostrou o problema pela última vez no dia 14 de novembro do ano passado, quando um pó escuro estava saindo das chaminés da Ortal e caindo nas casas vizinhas.
“Eu sabia que isso ia terminar acontecendo. Já teve uma explosão dessas em 1994. Eu já morava aqui”, disse o morador Ednor Nunes da Silva, 23. Ele estava revoltado, ontem, porque a explosão causou um susto em sua mulher, que está grávida.
Outra moradora é dona Terezinha Medeiros. Ela mora exatamente por trás da Ortal e disse que já estava cansada de falar, sem ser ouvida por ninguém. “Nós já fizemos de tudo aqui. Foi abaixo-assinado, foi ofício, foi tudo. Nunca ninguém ligou para nada”, disse.

EXPECTATIVA – Agora, por causa das proporções do acidente de ontem, os moradores estão mais confiantes na retirada da Ortal. Eles já estão se mobilizando para organizar um novo abaixo-assinado. O documento será, novamente, entregue ao Ministério Público e também à Prefeitura de Mossoró.
Moradores também estão se organizando para acionar os proprietários da Ortal na Justiça. Eles vão pedir indenização pelos prejuízos materiais que o acidente de ontem causou e também pelos danos físicos que várias pessoas tiveram.

 

Corpo de Bombeiros é desestruturado
O incêndio, depois da explosão na fábrica de cera de carnaúba da Organização Tabajara Ltda. (ORTAL), comprovou a fragilidade do sistema público para emergência na cidade de Mossoró. O Corpo de Bombeiros da cidade está totalmente desestruturado para situações de maior gravidade.
Ontem, por exemplo, o caminhão do Corpo de Bombeiros chegou com mais de uma hora e meia depois que o incêndio começou. Mesmo assim, o único caminhão da corporação não tinha água suficiente para apagar o fogo. Por volta das 11h, o trabalho foi interrompido por falta d’água.
Para suprir essa carência, o jeito foi apelar para os carros-pipa. Três caminhões vieram trazendo água para que os bombeiros pudessem trabalhar e controlar o fogo. Um exemplo que serve de alerta para situações futuras.
Mas a fragilidade do Corpo de Bombeiros de Mossoró já havia sido mostrada na semana. Durante um incêndio à mata, na extensão da rodovia BR-110, a corporação também teve que interromper o trabalho várias vezes, por causa da falta d’água.
Apesar de ainda ter deficiências, o Corpo de Bombeiros de Mossoró esteve em situação pior. A corporação, há cerca de cinco anos, foi ridicularizada durante um incêndio no casarão histórico da dona-de-casa Odete Rosado, também chamado de “Catetinho”.
Na ocasião, a corporação sequer tinha carro e mangueira para combater o fogo. Os soldados tiveram que carregar água em baldes, com a ajuda de moradores, para conseguir apagar o fogo.
Hoje, a única viatura do Corpo de Bombeiros de Mossoró é de médio porte, já reaproveitada do Corpo de Bombeiros de Natal. O carro já não atende à necessidade do município.
FUNCIONAMENTO – O Corpo de Bombeiros de Mossoró está instalado no Aeroporto Dix-sept Rosado. A corporação tem equipe de plantão, que pode ser acionada pelo telefone 193. Além do combate a incêndio, os bombeiros também têm a atribuição de inspecionar instalações contra o risco de incêndio.

 



Todos os direitos reservados à Santos Editora de Jornais Ltda.
É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo deste site para fins comerciais sem prévia autorização.