NOVAS
ENERGIAS
A
CAMINHO DA AUTOSUFICIÊNCIA
Esdras Marchezan
Demorou para o Rio Grande do Norte perceber que o aproveitamento de fontes
naturais, como o vento e o sol, poderiam gerar energia e reduzir a queima
de gases poluentes. Veio a mudança quando a Petrobras fez, em 2001,
os primeiros estudos para medir o potencial eólico da costa potiguar.
A inovação foi analisada de longe pelo Governo, mas com
a implantação de um parque eólico de pequeno porte
em Macau, na região salineira, o Estado viu que era chegada a hora
do novo e não havia tempo a perder. O caminho era o das novas energias.
"Durante muito tempo, o Estado viu a Petrobras como uma concorrente,
já que suas ações são autônomas e não
havia uma parceria. Depois o Governo sentiu a necessidade de estreitar
as relações com a estatal, já que ela é uma
empresa que desde que chegou aqui tem contribuído com o desenvolvimento
estadual e com a descoberta de novas tecnologias. Por isso, decidiu se
criar uma secretaria extraordinária de energia para acompanhar
os projetos ligados a energias alternativas dentro do Rio Grande do Norte",
comenta o secretário extraordinário de energia, Tibúrcio
Batista da Silva Filho. No uso das novas energias está a aposta
do Estado para se tornar auto-suficiente no setor energético e
passar a exportar essa fonte como mercadoria.
Dois parques eólicos já estão em funcionamento no
Estado, gerando 51,1 MW de potência. Mais dois parques devem ser
erguidos até o próximo ano, com capacidade de 151 MW de
potência e um outro, com capacidade para gerar até 370 MW
de energia elétrica, aguarda leilão do Ministério
das Minas e Energia (MME) para ser executado. "Temos ainda a termelétrica
Termoaçu, que vai gerar 310 MW e já deve iniciar o funcionamento
neste ano. Com isso teríamos uma capacidade bem maior que os 600
MW que o Estado consome internamente. Teríamos, então, a
auto-suficiência, e com um diferencial: boa parte seria de energia
totalmente limpa", comenta o secretário.
O caminho para concretização desse objetivo não é
longo. Os dois parques com capacidade de 151 MW já tiveram os projetos
aprovados pelo Proinfa, e estão aguardando apenas a decisão
de qual a empresa ficará responsável pelo empreendimento.
O outro projeto, com capacidade para 370 MW, é do grupo australiano
Pacific Hydro, e aguarda o próximo leilão para receber apoio
do Governo Federal.
A
TRANSFORMAÇÃO DOS VENTOS
Esdras Marchezan
Em Zumbi, distrito do município de Rio do Fogo, no litoral norte
potiguar, não há quem deixe de fazer um comentário
quando o assunto é energia eólica. "Rapaz, isso aí
não polui nadinha, porque não precisa queimar gás
ou petróleo para fazer energia", comenta o pescador Jorge.
"O vento é puxado pelas pás e depois transformado em
energia elétrica", conta outro morador ao se aproximar da
equipe de reportagem. O conhecimento de causa do povo da região
sobre o assunto se explica a partir de 2006, quando o grupo espanhol Iberdrola
instalou no local o Parque Eólico Rio do Fogo - o maior do Rio
Grande do Norte, com 62 aerogeradores e potência de 49,3 megawatts
(MW). A maioria dos 700 empregados diretos na obra eram trabalhadores
rurais e pescadores da região. Durante os dias de trabalho eles
recebiam orientações sobre a nova tecnologia e seus benefícios
ambientais e aprenderam que, num mundo ecoeficiente e sustentável,
vento também é sinônimo de energia.
No Rio Grande do Norte a tecnologia de transformar o vento em fonte geradora
de energia elétrica começou em 2001, quando a Petrobras
estudou o potencial dos ventos na costa de Macau e, três anos depois
instalou na cidade o primeiro parque eólico do Estado, num investimento
de R$ 6,8 milhões. O empreendimento serviu de modelo para empresas
interessadas em investir neste tipo de tecnologia no Brasil e foi o primeiro
projeto de Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) da estatal registrado
na Organização das Nações Unidas (ONU). Com
a potência de 1,8 MW, os geradores a diesel que alimentavam a elevação
e o bombeamento de petróleo em quatro campos da Petrobras em solo
potiguar foram substituídos pela energia dos três aerogeradores
do parque. Uma economia anual de R$ 1,4 milhão em energia elétrica
e diesel e 1.300 toneladas de dióxido de carbono (CO2) a menos
na atmosfera, todos os anos.
Aliás, a substituição de combustíveis fósseis,
como o diesel, e por conseqüência a redução nas
emissões de gases poluentes à atmosfera são duas
das principais vantagens do uso da energia eólica. "Embora
tenha um custo maior que os sistemas convencionais, a energia eólica
é limpa, ou seja, não polui o meio ambiente e, no mundo
de hoje a preservação ambiental é o objetivo de qualquer
empresa que assuma um compromisso social e ambiental. Se hoje projetamos
empreendimentos menos agressivos à natureza, haverá um futuro
melhor para as próximas gerações", explica o
chefe do Parque Eólico Rio do Fogo, Daladier Bernardino de Oliveira.
No parque Rio do Fogo, o uso do vento para a geração de
49,3 MW de potência, evita o consumo anual de 34 mil toneladas de
petróleo e derivados, o que representa menos de 26 mil toneladas
de dióxido de carbono na atmosfera. Para conseguir esse mesmo valor
na redução de gases poluentes à atmosfera, através
da fotossíntese, seriam necessárias 3 milhões de
árvores plantadas. Até chegar às residências
a energia gerada pelos ventos, é transformada em energia mecânica,
através de um rotor que fica dentro das torres que sustentam aos
aerogeradores, depois passa por um gerador - onde se transforma em energia
elétrica -, e é repassada à Eletrobras, através
da rede elétrica de distribuição.
Em Macau, a energia produzida no parque piloto serve apenas para o consumo
interno da Petrobras. "O parque é de pequeno porte, e por
isso não vende energia para distribuição, mas tem
um impacto muito positivo na redução de gases poluentes
emitidos na atmosfera através da produção e bombeamento
de petróleo", conta o coordenador do Núcleo de Energias
Renováveis da Petrobras, Henrique Landa.
SEU
SEVERINO E OS CATAVENTOS DOS ESPANHÓIS
No alto de seus 83 anos, seu Severino Rosendo, esbanja
vitalidade no caminho que faz todos os dias entre sua casa, no projeto
de assentamento Zumbi-Rio do Fogo e o roçado. São quase
dois quilômetros, mas ele não demonstra cansaço. No
roçado planta de tudo, mas conta que de uns tempos para cá,
a castanha do caju tem sido a coisa mais vantajosa. "Pra você
ter uma idéia, no ano passado, a gente (assentados) conseguiu tirar
41 toneladas de castanha para venda. Isso é uma coisa muito boa",
se orgulha. O assentamento onde ele mora, com mais 71 famílias,
foi o único na região a contar com apoio financeiro e estrutural
depois da instalação do Parque Eólico Rio do Fogo.
Como as terras onde foi erguido o parque são de propriedade da
União, e possui fins de desapropriação para reforma
agrária, a Iberdrola assinou um contrato com o Instituto Nacional
de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) estabelecendo
garantias aos trabalhadores rurais do projeto. Quem explica bem isso é
seu Severino: "Por causa disso (contrato) quem paga a energia e a
água do assentamento é o pessoal do parque (eólico).
Fora isso, eles também melhoraram um pouco a estrada que vai pro
assentamento e, no início, deram, a cada família, um dinheiro
para ser investido em projetos na área de agricultura, piscicultura,
bovinocultura e até apicultura. No final ficou uma média
de R$ 1.916 para cada família. Mas foi muito pouco", conta.
Na região entre Zumbi e Rio do Fogo é difícil passar
por um local de onde não se veja a imponência dos 'cata-vento
dos espanhóis', como são chamadas as torres do parque pelos
moradores do lugar. Além do apoio aos assentados, o parque trouxe
outro benefício: a consciência ambiental. "A gente recebeu
palestras e orientações sobre como melhorar a questão
ambiental aqui da região e evitar também a destruição
de plantas e animais que existem por aqui. Isso foi bom. Hoje, por exemplo,
a gente aprendeu a fazer coleta seletiva nas casas do assentamento, ajuda
na preservação dos rios, das espécies. Hoje eu sei
o que é consciência ambiental", comenta o presidente
da Associação do Projeto de Assentamento Rural Zumbi-Rio
do Fogo, Ronaldo Vicente de Santana.
BIODIESEL:
UM NOVO MOMENTO NO CAMPO
Esdras Marchezan
Com mais de 90 milhões de hectares de terras agricultáveis,
climas tropicais que favorecem à lavoura e regime de chuvas adequado
ao cultivo na maior parte do ano, o Brasil surge no cenário mundial
como uma das principais promessas, em um setor que já começa
a provocar polêmica: os biocombustíveis. Com a substituição
gradativa dos combustíveis fósseis, como petróleo
e diesel, por combustíveis renováveis, como o álcool
(cana de açúcar) e o biodiesel (mamona, girassol, algodão,
dendê, soja e outras oleaginosas) o país assume um compromisso
ambiental, já que o uso destas novas energias prevê uma queima
menor de gases poluentes à atmosfera.
No Rio Grande do Norte, a atuação da Petrobras, em parceria
com Governo Federal e do Estado, tem provocado uma mudança no campo
e elevado o Estado à lista dos mais importantes no desenvolvimento
do biodiesel. O combustível é feito com óleos de
vegetais ou gorduras animais (biomassa) e emite menos gases e fumaça
negra na atmosfera.
Depois de uma experiência sem muito sucesso com a cultura da mamona,
os agricultores do Estado estão empenhados agora com o plantio
de girassol. O amarelo do campo potiguar reflete a confiança que
o agricultor tem depositado na nova cultura. Para este ano, a Petrobras,
em parceria com o Governo do Estado, vai utilizar 13 mil hectares para
o plantio da semente, envolvendo 5,2 mil famílias vinculadas à
agricultura familiar. A expectativa de produtividade é de 1,4 mil
quilos de semente por hectare. "Fizemos um zoneamento para identificar
que áreas do Estado são adequadas para esta cultura, e registramos
84 municípios. Destes pontos, vai partir o projeto de agroenergia",
explica o coordenador do Programa de Agroenergia do Rio Grande do Norte
e pesquisador da Emater, Emmanuel Mateus Alves da Costa.
Os irmãos Gesaías Teófilo, 25 anos, e Francisco de
Assis Silva, 30 anos, já plantaram as primeiras sementes de girassol,
no assentamento Palheiros III, em Upanema, e estão ansiosos para
saber o resultado. "Ainda não acreditamos muito, porque tivemos
uma experiência ruim com a mamona. Muito do que a gente colheu ficou
perdido, porque não compraram", comenta Gesaías.
O coordenador do programa Biodiesel da Petrobras no Estado, Ulisses da
Costa Soares, explicou que a compra da safra de girassol deste ano está
garantida. Além de dar a semente para o agricultor plantar, a Petrobras
ainda vai pagar R$ 0,56 pelo quilo da semente, e o Governo do Estado entra
com uma contrapartida de R$ 0,21. "Ou seja, o agricultor vai receber
R$ 0,81 pelo quilo da semente de girassol, e ainda pode aproveitar o que
sobra para o pasto do gado", comenta. Para esta safra o investimento
da Petrobras será de R$ 30 milhões. Os agricultores que
não tiverem condições financeiras para iniciar o
trabalho podem conseguir empréstimos junto ao Banco do Nordeste
do Brasil (BNB) e Banco do Brasil (BB).
Sementes
do futuro
Em Guamaré, a Petrobras mantém, desde 2006,
duas usinas experimentais para a fabricação de biodiesel,
através do óleo extraído da mamona e girassol. Numa
delas, de forma inédita, o combustível verde é fabricado
diretamente da semente, usando como reagente o etanol da cana.
No Pólo Industrial de Guamaré, a Petrobras faz um trabalho
silencioso. Depois de consolidar a técnica convencional de converter
óleos vegetais em biodiesel, a estatal quer produzir o biocombustível
diretamente das sementes de mamona e girassol. Uma tecnologia inédita,
já patenteada pela Petrobras. Nos primeiros testes os pesquisadores
conseguiram produzir biodiesel, mas novos estudos são necessários
para verificar a viabilidade econômica da técnica. Outra
aposta da empresa é a produção do biocombustível
através da mistura dos óleos de mamona, girassol, algodão,
dendê e soja. A intenção é favorecer a agricultura
nacional, com o aproveitamento de todas as oleaginosas na cadeia produtiva
do combustível verde. "Nenhum país tem essa técnica
de fazer um mix dos óleos. Se conseguirmos isso daremos mais um
salto e aumentaremos o número de agricultores envolvidos no programa
biodiesel, já que cada região do país terá
uma cultura beneficiada", explica o coordenador do Núcleo
de Energias Renováveis da Petrobras, Henrique Landa.
Instaladas em 2006, as duas usinas experimentais para fabricação
de biodiesel iniciaram o funcionamento em formato piloto para a absorção,
desenvolvimento e confirmação das tecnologias possíveis
na fabricação do biodiesel. Com o desenvolvimento de duas
rotas de produção - a óleo e a de sementes - a empresa
quer saber qual a tecnologia mais apropriada para o cenário brasileiro.
Projetadas inicialmente para testes, as duas usinas vão verter
biodiesel em escala industrial, podendo somar 20,4 milhões de litros
por ano. Disposta a liderar esse novo mercado no país, a Petrobras
está investindo inicialmente R$ 227 milhões, com a construção
de usinas industriais em Candeias (BA), Montes Claros (MG) e Quixadá
(CE).
Neste ano, o uso de 3% de biodiesel (B3) no diesel vendido no país
passou a ser obrigatório. À medida que o percentual obrigatório
vai aumentando, a produção nas usinas também aumenta,
impulsionando um novo lado do setor energético. No Plano de Negócios
2008-2012, a Petrobras aponta o desejo de produzir 1,182 bilhão
de litros de biodiesel por ano em 2015, em usinas próprias e compartilhadas
com grupos empresariais e cooperativas de agricultores. O volume corresponde
à redução de 1,42 milhão de toneladas nas
emissões de CO2 na atmosfera anualmente. O biodiesel, além
de ser um combustível que emite menos gases poluentes, possui também
baixa viscosidade, e de acordo com os testes realizados, não causa
qualquer dano aos motores a diesel convencionais.
"Mas um dos benefícios mais importantes do biodiesel é
fixar o homem no campo, com o incentivo à produção
de oleaginosas que suprem toda a cadeia produtiva. No caso do girassol,
por exemplo, aproveita-se a semente, na venda para o biodiesel, há
a possibilidade de produzir mel, e ainda sobra a ração para
o gado", explica Henrique Landa.
Irradiando
energia
Em Guamaré, a Petrobras vai instalar o maior parque
de energia solar do Brasil, com 900 painéis fotovoltaicos que vão
gerar energia elétrica para substituição de combustíveis
fósseis nas operação da estatal no Estado
Em vários países a energia do sol já é transformada
em eletricidade, com grau zero de poluição, mas o alto custo
da tecnologia limita o desenvolvimento dessa fonte de energia nos países
em desenvolvimento. Na contramão dessa realidade, a Petrobras decidiu
aproveitar o potencial solar do Rio Grande do Norte e promete, para este
ano, implantar a maior quantidade de painéis fotovoltaicos do país,
em Guamaré. Os painéis vão captar energia solar,
que depois de transformada em eletricidade vai substituir combustíveis
fósseis no bombeamento de petróleo e aquecimento de fluidos
térmicos. O parque de energia solar vai beneficiar também
o funcionamento das usinas experimentais de biodiesel. As 900 placas solares
já foram compradas e deverão entrar em funcionamento no
segundo semestre deste ano, com potência de 80MW por ano.
A primeira experiência da energia fotovoltaica pela Petrobras no
Estado foi em Mossoró, onde uma unidade de bombeamento de petróleo
é alimentada pela eletricidade produzida em painéis solares.
A tecnologia para o processamento da luz do sol utiliza filmes finos,
que têm como matérias-primas silício amorfo, cádmio,
índio, gálio e selênio. É uma das duas técnicas
para a produção de energia solar, ao lado da tecnologia
com células de silício cristalino. Os módulos de
filme fino permitem, porém, maior integração em sistemas
arquitetônicos e vêm dando bons resultados em Mossoró.
No parque de energia solar de Guamaré, a estatal vai testar três
tecnologias de filme fino alternativas à do silício cristalino,
tradicional no mercado. Uma delas é a base de silício amorfo;
outra, de telureto de cádmio; e a terceira, de diselento de cobre,
índio e gálio. "Precisamos de mais tempo para amadurecer
essa fonte de energia, e por isso estamos investindo em estudos sobre
o aproveitamento da energia solar na geração de energia
elétrica. Uma das grandes parceiras nesse trabalho é a Petrobras,
que desde 2001 assumiu um grande papel no desenvolvimento de fontes renováveis
de energia aqui no Estado", explica o secretário estadual
Extraordinário de Energia, Tibúrcio Batista.
O coordenador do Núcleo de Energias Renováveis da Petrobras,
Henrique Landa, explica que um dos motivos que levaram a estatal a escolher
o Estado para sediar esse núcleo foi o sucesso no desenvolvimento
dos projetos de energias alternativas executados em solo potiguar e a
participação dos funcionários das unidades da empresa
no Estado. "Vemos que o Estado tem um grande potencial nesse mercado
e o núcleo de energias renováveis tem a função
de acompanhar o desenvolvimento dessas iniciativas e apoiar o desenvolvimento
dessas tecnologias", disse.
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