E U R I C O   M I R A N D A
‘Se eu fosse o presidente da
Câmara fazia a mesma coisa’



Por: Julierme Torres
Foto:
Carlos Costa

Eurico Miranda fala de política e defende as atitudes polêmicas de Severino Cavalcante

JORNAL DE FATO - Como o senhor viu a intervenção federal na saúde do Rio de Janeiro?
EURICO MIRANDA - Há crise na saúde do Brasil inteiro. Agora, ela se acentuou no Rio de Janeiro por um problema de natureza política. Não tem outra coisa. É político. O PFL lançou o César Maia candidato, aí teve a reação imediata. Vai ser na saúde e vai ser em outras situações. A crise na saúde é nacional, não é um problema do Rio de Janeiro. Agora, ela se acentuou no Rio porque aquilo que deveria ser feito pela União não está sendo feito. O que deveria estar sendo feito pelo Estado também não está sendo feito. O que deveria ser feito pelo Município, estava sendo feito em excesso. A Prefeitura estava indo além do que deveria, e decidiu segurar. E segurou demais. O Rio tem um negócio muito especial. É um município que une várias cidades em um município único. É o Grande Rio. Especificamente no caso da saúde, os grandes hospitais atendem Nova Iguaçu, Caxias, Queimados, Belford Roxo, São João de Meriti. Enfim, toda a baixada é atendida no Rio de Janeiro. Então há que se levar em consideração isso também.

SERÁ realizado um plebiscito para decidir se o Estado da Guanabara será recriado, voltando a cidade do Rio de Janeiro a ser uma unidade federativa autônoma. O senhor vê êxito nisso?
EU acho inviável. Não tem mais como fazer isso. Eu acabei de falar sobre o Grande Rio. Só se fizesse um Estado dividindo o Grande Rio e o chamado Interior Fluminense. Aí tudo bem. Mas na prática eu acho que não dá mais para fazer isso. O Rio de Janeiro inchou de tal maneira que não há mais como dividir. A divisão dos municípios do Grande Rio é absolutamente simbólica. Não tem mais como dividir aquelas cidades. Elas são parte integrante. O Estado da Guanabara nada mais é do que a separação do município do Rio de Janeiro.

A CANDIDATURA de César Maia é viável?
CÉSAR Maia foi o prefeito do Rio de Janeiro que conseguiu uma aprovação aí, na casa dos 90%. Foi visto aí como um paradigma de administração. Agora, a gente sabe como é que é. Quem está no Governo hoje é o PT. Uma candidatura do PFL é de oposição. É evidente que haverá reação. Uma candidatura exclusiva do César Maia pelo PFL, se for uma candidatura única de oposição, ou seja, se ele se agregar aos outros partidos de oposição, eu acho absolutamente viável. Como uma candidatura especificamente do PFL, dividida no meio de várias, eu não acho viável.

PELA força econômica e política do Rio de Janeiro, é necessário que o Estado tenha um candidato a presidente?
A GRANDE verdade é a seguinte: o Rio de Janeiro deixou de ter identidade. Identidade no sentido de ter o candidato do Rio de Janeiro. Pelo fato de ter sido a capital durante mais de 400 anos, as pessoas passaram a ter uma identificação com o Rio de Janeiro. Iam para o Rio para ter uma identificação nacional. É só ver o caso do Brizola. Ele é do Rio Grande do Sul e foi governar o Rio de Janeiro. Se a gente for buscar, vamos perceber que o Rio de Janeiro dava uma identificação nacional. Se tiver um candidato que incorpore essa questão da identidade nacional, que não puxe para o regionalismo (candidato do Nordeste, ou de Minas, ou do Rio ou de São Paulo) eu acho que tem chance.

GAROTINHO está trabalhando uma nova candidatura a presidente. Podemos ter aí dois candidatos do Rio?
SE ele se colocar como o candidato do Rio de Janeiro eu não vejo nenhuma chance para ele.

QUAL a avaliação da chamada "Era Garotinho", que começou com ele e agora continua com a Rosinha? Muitos dizem que é positiva, outros, acham que está afundando o Rio de Janeiro...
O GAROTINHO não é bobo. A verdade é essa. Eles fazem governos que, como dizem, é voltado para o povo. É um governo popular. Porque? Criam coisas voltadas para o povão. É o caso da farmácia popular e, agora, com o futebol. Futebol por R$ 1,00. Se ele conseguir colocar isso em nível nacional, vai ser alguém que incomoda. Mas eu vejo o Garotinho planejando muito bem as coisas para ele. Ele fica jogando que pode ser candidato, mas talvez ele seja candidato efetivamente, um candidato forte, não é nessa e nem na próxima. Com mais dois mandatos, quando ele conseguir estabelecer suas bases a nível nacional. Eu acho que ele traçou o seguinte caminho: 1º - Foi para o Rio, se elegeu governador, mostrando o que tinha feito em Campos. Ele fez uma boa administração na prefeitura de Campos. Agora quer mostrar para o Brasil o que tem feito no Rio de Janeiro. Mas sem pressa.

A VITÓRIA do baixo clero da Câmara, com a eleição de Severino Cavalcante ... (interrompeu)
FOI a vitória do Brasil. Não foi só a vitória do baixo clero. A vitória do Severino foi a vitória da verdade.

MAS até que nível essa vitória representa uma mudança na política do Brasil?
NO final representa pouco. Essa é que é a verdade. Mas isso tem toda uma simbologia. Uma coisa é o que o deputado tem vontade de fazer, e outra coisa é o que o deputado faz. Pela primeira vez os deputados fizeram aquilo que tinham vontade de fazer. Se há que se criticar alguma coisa, não é o Severino. Tem que se criticar os deputados como um todo. Pela primeira vez tiveram a coragem de fazer o que sempre tiveram vontade. O que é Brasília? Brasília é o seguinte: Você tem 513 deputados e 81 senadores. Ou seja, 594 parlamentares. O ano tem 365 dias. O Congresso funciona, assim forçando a barra, a metade desse tempo. São 180 dias. Se você fosse dar um dia para cada parlamentar, tinha que dar para três. Os parlamentares, para poderem fazer alguma coisa, ou para aparecer de alguma maneira, tem que se engalfinhar. Além disso, eles estão presos ao sistema. O que um deputado isoladamente pode fazer? Absolutamente nada. O que pode fazer em conjunto? Digamos que tenha um ministro onde consegue mais uma verba aqui, outra acolá. O deputado é absolutamente dependente. O deputado é dependente. Se ele não fizer isso, ele não consegue aquilo. Não é conseguir pra ele, pessoal. É conseguir mesmo para os eleitores, para seu Estado. O deputado independente só serve para ficar fazendo blá, blá, blá, blá, blá. Isso não interessa nada. Fica só falando. Ele falou, certo. Mas e daí?

ESSA não seria a oportunidade de mudar isso?
EU disse como é que funciona. Agora eu pergunto o que é o presidente da Câmara. O presidente da Câmara é um cara que precisa estar absolutamente atrelado ao Governo. Se não for assim, nem o Governo anda e nem a Câmara anda. Então aquilo lá é uma troca. Não pense que é outra coisa. É uma troca. É como se dissesse: ta bom, eu vou fazer isso. Mas o que é que vou ter em troca? Tem que funcionar assim, se não nenhum dos dois anda. Essa é que é a grande verdade. Só que de uns tempos para cá, a Câmara tem sido muito subserviente. Eu passei oito anos lá e constatava claramente que não tem jeito. O rolo compressor passava e adeus. Era aquilo mesmo e pronto. A vitória do Severino foi o grito. Não é o grito de independência, porque não vai haver independência mesmo. É como se os caras estivessem lá com a rolha na cabeça, não saia nada, e de repente bum. Disseram: toma cuidado comigo, porque eu posso ficar maluco. Foi bom, para sentir que não podia ser como estava.

MAS o Severino tem assumido posições muito polêmicas.
ISSO aí é outra coisa. Vocês queriam que ele não tivesse posição? Eu to falando da independência dessa candidatura dele. Ele não estava atrelado a nada. Foi uma candidatura dos deputados. Agora, o fato de ele ser eleito presidente da Câmara não o obriga a ter um comportamento diferente do que ele é. Ele estaria deixando de ser o Severino. Ele não gosta de gay. Pronto. Ele é contra o casamento gay. Não adianta começar a pressionar por causa disso. Eu também sou contra. Se eu fosse presidente da Câmara eu ia fazer a mesma coisa. Em relação ao chamado nepotismo. Eu faria a mesma coisa. Esse negócio de nepotismo é a coisa mais falsa do mundo. Vamos deixar a Câmara de lado e vamos colocar o Jornal de Fato. Se o irmão do dono for um belo repórter ele não pode contratar? Por que não poderia contratar o irmão do dono, se ele escreve bem? Agora vamos para o gabinete dos deputados, que tem uma verba de gabinete. Se o meu filho é competente, por que eu não vou botar meu filho? Se a minha mulher me secretaria melhor que uma secretária qualquer, porque eu não poderia contratar ela? Se eu tenho o direito de indicar uma pessoa para uma determinada autarquia, porque eu não posso indicar o meu filho, que é uma pessoa que eu conheço, é da minha confiança e eu sei que é competente? Muito pior é quem diz que não bota ninguém da família, que diz que não faz nada, e fica com a "verbazinha" pra ele.

PORQUE o senhor perdeu o mandato de deputado federa? Foi a Rede Globo?
EU PERDI o mandato por razões simples. Primeiro por que eu sou um político diferente. Eu nunca prometi nada. Eu não prometo casa própria, não prometo saneamento. Eu passei oito anos como deputado e não dei emprego pra ninguém. Eu já dou emprego natural. Eu fui candidato, em primeiro lugar, para defender os interesses do Vasco. Ponto. Cansei de dizer que quem torce pelo Flamengo, Botafogo ou Fluminense que não votasse em mim. Votaram porque quiseram. Votaram e eu me elegi. Tive pouco. Tive 110 mil votos. No terceiro mandato eu fiz aquele negocio do SBT com a Globo. Aí, eles fizeram uma campanha terrível em cima de mim. Além do time do Vasco não estar bem, foi uma campanha danada. Eu ainda tive 30 mil votos.

VAMOS sair um pouco da política. Quais as causas dessa crise interminável do futebol carioca?
NÃO TEM isso. O Vasco não tem crise. Vocês são meus convidados para irem a São Januário, para o outro jogo contra o Baraúnas. Vão lá e vão ver.

OS resultados mostram uma crise nos grandes clubes do Rio.
O VASCO foi campeão brasileiro em 2000, rapaz. Faz só quatro anos. Eu estou a 20 anos no futebol do Vasco. Nesse período o Vasco foi três vezes campeão brasileiro. Que porra de crise é essa? Crise é de jornal, porra. Nem tudo que a grande imprensa publica é verdade. A grande imprensa não entende que nem todos fazem tudo que ela quer. Esse é o grande problema. O Vasco é um clube histórico, com 107 anos, que não faz o que a grande imprensa quer. O Vasco é totalmente diferente. O Vasco tem seu patrimônio, nunca recebeu um centímetro de doação de terra de ninguém. Comprou tudo. O Vasco nunca aceitou nada imposto. Lá não tem essa história de tem que fazer assim. Tem que fazer assim porra nenhuma.

O SENHOR está querendo convencer que o Vasco é uma exceção?
É A exceção sim. A crise dos outros não passa, sempre existiu. O Flamengo nunca teve coisa nenhuma. O Flamengo não tem patrimônio, o Fluminense também não tem e o Botafogo também não tem. Nunca tiveram. O Flamengo tem ali na Gávea um negócio que o Dutra deu pra ele. Acabou com uma favela e deu aquilo pra eles. Aquilo não é deles. Tem uma finalidade específica. O Vasco se quiser pega seu patrimônio e faz o que quiser. Mas se você quer falar dos outros, essa crise deles se acentuou porque eles não tinham base. Outra diferença do Vasco pros outros. Com o Maracanã, os caras acharam que todo mundo podia jogar no Maracanã. Como é que todos vão jogar ao mesmo tempo no Maracanã? O Brasil é o único país do mundo onde o grande clube não tem estádio. O Flamengo tem estádio? O Corinthians tem estádio? Como é que você quer jogar futebol se você não tem um estádio pra jogar? Como você não tem base, tem que se sujeitar a jogar nos estádios dos outros, se sujeitando a taxas.Não tem esse negócio que o dirigente mete a mão, tem nada disso. Existem más gestões, mas não é geral.

O FUTEBOL carioca está em decadência?
O FUTEBOL do Rio de Janeiro vai continuar sendo o principal do Brasil. Não adianta. O Rio deixou de ser a capital federal, mas é a capital cultural e do futebol. Não adianta. Tem o ícone lá, que se chama Maracanã. Olhe aqui pra Mossoró. Vamos dizer que Mossoró tenha 100 anos de existência. Desde que surgiu futebol que todo mundo aqui em Mossoró sempre estava voltado para o futebol do Rio de Janeiro. Tire por aqui. Isso não vai acabar de uma hora pra outra. Claro que diminuiu. A televisão deu uma puxada também pra São Paulo, mas o Rio de Janeiro vai continuar sendo o principal. Pode trazer o Corinthians ou qualquer outro de São Paulo que eu duvido que tenha uma festa como essa do Vasco aqui.

 



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