| Dorian Jorge Freire
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A despedida do mestre Dorian
JANAÍNA HOLANDA
Da Redação
O jornalista Dorian Jorge Freire, 71, morreu ontem à noite no Hospital Wilson Rosado, onde estava internado havia 29 dias. O anúncio do falecimento foi feito por volta das 21h30, pelo médico cardiologista Victor Manuel, que assinou o atestado de óbito.
Dorian, um dos principais nomes do jornalismo do Rio Grande do Norte, viveu suas últimas horas de vida com ajuda de aparelhos. Teve morte cerebral anunciada por volta das 19h, quando já estava com falência múltipla dos órgãos. Os rins, pulmões e intestino pararam de funcionar e a pressão arterial foi mantida com ajuda de drogas até acontecer a paralisação total dos órgãos.
Os últimos momentos de vida do jornalista foram acompanhado com muita comoção e sofrimento pela família, amigos e admiradores, que lotaram o hospital.
Os filhos Jorge Freire, Dorian Filho e Luiz Fausto se revezam entre visitas à Unidade de Terapia Intensiva (UTI), onde o pai permanecia ligado às máquinas.
Mesmo abalados com a situação terminal do pai, eles ainda encontravam forças para repassar informações a quem procurava, principalmente à imprensa.
Muitas pessoas apareceram para prestar solidariedade. O telefone também não parava de tocar. Os boletins médicos eram deixados na recepção para facilitar as informações.
A confirmação da morte foi um momento de profunda dor e consternação.
Dorian foi internado no Hospital Wilson Rosado no dia 28 de julho, com problemas nos intestinos. Ele foi submetido a uma intervenção cirúrgica e se recuperava bem. Saiu da UTI, respirava sem a ajuda de aparelhos, mas permaneceu internado para o período pós-operatório.
Há um mês, começou a apresentar sintomas de pneumonia e, por conta disso, voltou à UTI com problemas respiratórios. Na semana passada, uma infecção complicou ainda mais o estado de saúde do jornalista.
Devido à falência múltipla dos órgãos, o jornalista entrou em coma induzido. Ontem, devido à infecção generalizada, os rins, intestinos e pulmões pararam. Em seguida, vieram a morte cerebral e a falência múltipla dos órgãos.
Antes de ser internado, Dorian deixou seu último desejo expresso em uma carta, escrito em sua máquina de datilografia - companheira inseparável de trabalho.
"Ele pediu para ser velado em casa, onde sempre viveu. Esse pedido será respeitado", afirmou o filho Luiz Fausto, bastante emocionado. O horário do sepultamento não tinha sido divulgado até o fechamento desta edição (23h), mas o mais provável é que aconteça na tarde de hoje, no cemitério São Sebastião, Centro.
Jornalista tem saúde frágil
Dorian Jorge Freire tinha uma saúde frágil. Fumante compulsivo, o jornalista tinha problemas respiratórios e, por conseqüência, nos pulmões.
Aos 46 anos, ele sofreu um infarto, e isso desencadeou uma série de problemas de saúde, como as três isquemias (insuficiência localizada de irrigação sangüínea, devido à obstrução arterial) que o deixou sem andar, dependente de uma cadeira de rodas.
A perda dos movimentos também afetou a coordenação motora. Os dedos das mãos do jornalista ficaram em contração permanente, mas a limitação não o afastou do ofício. Usando apenas os dedos indicadores, ele continuava a escrever e produzir pensamentos - sua grande paixão.
Na década de 90, ele sofreu problemas nos intestinos e foi submetido a uma cirurgia. Nesse mesmo período, teve também dois acidentes vasculares cerebrais (AVCs). Averso a hospital, Dorian só ia ao médico quando realmente estava com problema.
"Os principais problemas dele sempre foram gástricos e também de respiração, por causa do cigarro. Ele não era diabético e também não tinha problemas de pressão", afirmou o filho Jorge Freire.
E foi por um problema gástrico que o jornalista se internou pela última vez no Hospital Wilson Rosado. Ele apresentou uma obstrução nos intestinos e por isso passou por uma intervenção cirúrgica. Durante o período pós-operatório veio a pneumonia e, em conseqüência, a infecção, que avançou pelo organismo, provocando a falência dos órgãos.
Jornalismo resiste há quatro gerações
Myrna Barreto
Da Redação
Dorian Jorge Freire nasceu no dia 14 de outubro de 1933, e estudou no Colégio Diocesano Santa Luzia, durante toda a infância e adolescência.
Filho e também neto de jornalista, Dorian seguiu os passos trilhados por outros membros da família Freire, que tinha no jornalismo uma relação quase de hereditariedade, já que o seu filho Luís Fausto representa hoje a quarta geração dos jornalistas na família.
Aos 14 anos, nos idos de 1948, Dorian era seduzido pelo jornalismo através de convite de Lauro da Escóssia, que não recusou, e iniciou no jornal O Mossoroense o trabalho como jornalista, usando o pseudônimo de "Fenelon Gray", que logo foi substituído pelo seu nome original.
Se Fausto tem em Dorian um guia, um norte no caminho trilhado no jornalismo, este por sua vez também teve em seu pai a busca pela referência. Outra vez afirmou: "Nunca comentou um artigo meu. Só vim conhecer sua opinião, ele morto. Por deferência dos amigos com os quais carteava. Se minha mãe era a minha crítica, loquaz, extrovertida, aplaudindo e condenando (ela que amava de preferência a literatura inglesa), era o silêncio de meu pai que me policiava", confessava.
Com intuição e inquietação na alma jornalística, Dorian deixava Mossoró em 1950, indo para a capital do Estado, convidado por Djalma Maranhão para trabalhar no jornal Diário de Natal. Em 1955, entrou no jornal Última Hora, em São Paulo (SP), onde, segundo a consideração do seu próprio filho, foi o local em que demonstrou todo o seu potencial e mostrou até onde poderia chegar, ao passar por praticamente todos os cargos nesse veículo.
O desempenho no Última Hora fez que, de súbito, em 1962 surgisse o seu jornal Brasil Urgente, que conseguiu ser publicado somente por dois anos, após a obrigatoriedade do silêncio imposta pelo golpe militar de 1964.
Quase dez anos depois, já em 1975, Dorian voltava a Mossoró, tendo a oportunidade de regar mais uma semente que estava sendo plantada no jornalismo oriunda da família Freire. Dessa vez era Luís Fausto, que assumia a editoria d'O Mossoroense, tendo como parceiro no trabalho o seu próprio pai, que assumia a diretoria do mesmo periódico.
Luís Fausto, que hoje atua em Brasília (DF) no jornal Correio Braziliense, conta a experiência dos anos quando trabalhou com o pai. "Ele era o diretor, e eu o editor, e para mim ele é referência para tudo", diz, lembrando que "não tem como me comparar com ele, pois não tenho um terço da sua competência".
Nos últimos anos, Dorian Jorge Freire mesmo com dificuldades em digitar as palavras, não se rendia à tecnologia do computador, e persistia na sua máquina de escrever, continuando nos seus dias de domingo a expressar sua opinião em notas na sua coluna, em que escrevia sempre sentado no seu escritório instalado na sua casa, localizada em frente à Praça da Redenção.
Amores eternos dorianinos
Em artigo, outra vez Dorian Jorge Freire escreveu: "Todos os meus amores são eternos, tanto os da infância, os da adolescência, os de qualquer época."
Um desses amores foi selado em 1954, quando, aos 21 anos, casava com Maria Cândida, com quem manteve os laços durante toda a vida e compartilhou a chegada de cada um dos cinco filhos: Luís Fausto, Dorian Filho, Jorge Freire Neto, Raíssa Freire e Saudade Freire. Destes já somam 13 netos e uma bisneta. "Como pai, como marido, como profissional, ele foi totalmente exemplo", considera Fausto.
Durante a ditadura, a família de Dorian enfrentou dificuldades. "Eu tinha cinco anos, sei que meu pai passou entre 1964 e 1966 sobrevivendo de bicos em São Paulo", relembra Fausto. Em 1968, Dorian se tornava proprietário de uma livraria em São Paulo, trazendo de volta uma atividade financeira mais estável, mesmo ainda vivendo em tempos de censura, o que lhe custou o afastamento de um dos seus amores mais sérios e fiéis, o jornalismo.
Em 1975, a volta para Mossoró, quando retomava o jornalismo havia tempo não exercido em terras mossoroenses, de onde não mais saiu, de onde não mais deixou de escrever.
Para ele, todos os amores foram "construídos e perpetuados na rapidez do tempo que passa e que não voltará nunca mais (?)".
Última Hora marcou encontro de Dorian com Samuel Wainer
Esdras Marchezan
Da Redação
Ainda na escola, o menino Dorian Jorge Freire impressionava professores e demais alunos com a qualidade dos textos que produzia nas tarefas escolares. Não demorou muito para ser aproveitado na redação do jornal 'O Mossoroense', em julho de 1948 escrevendo um espaço dedicado a crônicas sobre a realidade de Mossoró. O menino tinha 14 anos de idade.
Na metade dos anos cinqüenta, Dorian Jorge se destacava como um dos grandes nomes da imprensa mossoroense, mas queria ir mais além por um jornalismo mais combativo. Imaginava-se entre os grandes personagens da imprensa brasileira e mantinha admiração pelos textos de um jornalista ousado que fazia carreira no sul do país e mais tarde seria companheiro de redação do mossoroense. Samuel Wainer.
Sai de Mossoró com destino à capital do Estado para trabalhar no "Diário de Natal". Volta a Mossoró, mas é chamado, pelo jornalista Edmar Morel, do jornal Última Hora, para fazer parte da equipe chefiada pelo mesmo Samuel Wainer que Dorian Jorge acompanhava de longe.
Em 1955 Dorian Jorge chega à redação do "Última Hora" e se depara com os "mitos da minha adolescência em agonia", como ele próprio descreveu. Na redação estavam Samuel Wainer, Moacir Werneck de Castro, Sérgio Porto - já conhecido por Stanislaw Ponte Preta -, Ignácio de Loyola Brandão e o furioso Nelson Rodrigues. O trabalho cotidiano no jornal foi o bastante para a admiração por Samuel Wainer vir à tona.
Na imprensa paulista ocupou várias posições de destaque como chefe de reportagem, chefe de reportagem de política, secretário de redação e colunista. Seus comentários marcaram época, com o estilo combativo que ele mostrava.
Após a saída do "Última Hora", o jornalista mossoroense ainda passa pelos jornais "Correio Paulistano", "Revista Brasiliense", "Revista Escola" e "Realidade", antes de ajudar na fundação do "Brasil Urgente", em 1963 - órgão considerado subversivo pelo regime militar e fechado no ano seguinte.
Nos anos 70 vem trabalhar na Tribuna do Norte, em Natal, onde chegou a ocupar o cargo de editor-chefe, como lembra o jornalista Woden Madruga: "Fundamos juntos uma agência de publicidade - a Painel - e tive a oportunidade de trabalhar junto com ele aqui na Tribuna. Sem dúvida era um dos maiores da imprensa potiguar e teve uma brilhante passagem pela imprensa nacional", explica.
Após a saída da Tribuna do Norte, passa a escrever uma coluna aos domingos na Gazeta do Oeste, onde continuou até a sua morte.
Brasil Urgente marcou tempo
Os instintos esquerdistas do jornalista Dorian Jorge se mostraram mais intensos no jornal tablóide "Brasil Urgente", fundado em 1963, em São Paulo, por ele e uma equipe de nomes consagrados da imprensa brasileira. Em sua primeira edição o jornal alertava o leitor: "Eis o nosso jornal. O jornal do povo, a serviço da justiça social". Após a publicação de uma matéria anunciando o golpe militar, com a manchete "Gorilas preparam golpe", o jornal foi fechado pelos militares.
"Dorian era um esquerdista assumido e tinha um grande comprometimento com a verdade, além de ser um estilista literário", destacou o professor e ex-vice-prefeito de Mossoró, Antônio Capistrano. Ele considera que o jornalista foi sem dúvida um ícone da imprensa norte-rio-grandense.
O jornalista Woden Madruga destacou a qualidade das crônicas escritas pelo jornalista mossoroense, que demonstrava paixão pela cidade natal. "É uma perda grande para a gente. Suas crônicas são deliciosas de se ler. Um dos maiores cronistas dos últimos tempos no Rio Grande do Norte", frisa.
O amigo e escritor Ignácio Loyola de Brandão assumiu, em nota escrita sobre o livro "Dias de Domingo", a amizade profunda existente entre ambos. "Grande redator, olhava os meus textos antes deles serem publicados. Tinha nele o amigo que julgava criticamente o que eu escrevia, mas sem atrapalhar em nada a nossa amizade; o que era bom ele dizia que era bom e o que era ruim ele também dizia", destacou.
Crônica da Cidade
Fenelon Gray
Convidado pelo diretor desta folha, venho preencher uma falta que já se ressentia este órgão, como seja, uma Crônica da Cidade. Precisávamos de uma coluna em que se reportasse do que está acontecendo em Mossoró, dos seus problemas, seus assuntos em foco e suas necessidades, que infelizmente não são poucas.
Nesta seção, semanalmente aparecerá minha croniqueta, que falará um pouco de tudo que estiver acontecendo nesta boa terra.
Com a máxima isenção de ânimo, combaterei os erros, os crimes, porventura praticados contra o povo, pedindo a quem de direito, a solução para as nossas necessidades.
Procurarei traçar minhas palavras, dentro do direito e da variedade e isto farei, fira a quem ferir, pois sinceramente isto, para mim será de importância secundária. Aqui fica, portanto, uma pequena nota ou explicação do que virá a ser a nova seção do O Mossoroense.
Até Domingo.
*Esse foi o primeiro artigo de Dorian Jorge Freire publicado no O Mossoroense. Na época, em 18 de julho de 1948, o jornalista tinha apenas 14 anos de idade e assinava os textos com o pseudônimo de Fenelon Gray.
A imortalidade de um mossoroense
Clarissa Paiva
Da Redação
O jornalista de destaque, também professor da então Universidade Regional do Rio Grande do Norte (URRN), recebia em 1999 o título de imortal, ocupando uma cadeira na Academia Norte-rio-grandense de Letras (ANL). O jornalista tinha, na época, 65 anos, e já apresentava um vasto currículo, com passagem nos jornais "O Mossoroense", "Diário de Natal", "Tribuna do Norte", "A Última Hora" e "Brasil, Urgente" e Gazeta do Oeste, do qual foi um dos fundadores.
Dorian Jorge Freire tomou posse da cadeira número 20 da ANL no dia 12 de junho de 1999, que havia sido ocupada pelo acadêmico Mário Moacyr Porto e pela poetisa Palmira Wanderley. A solenidade foi presidida pelo presidente interino, também jornalista, Paulo Macedo.
A imortalidade veio para o jornalista no ano em que completava 51 anos de jornalismo, e já estava com a saúde debilitada. As limitações da saúde fizeram que o discurso do imortal fosse lido pelo poeta João Batista Cascudo.
"Juro que nunca a honra acadêmica esteve entre meus sonhos e propósitos (...) às vezes, quando a idéia surgia, vinha como anedota cordial de amigos daqui", disse o jornalista, em um trecho do discurso, falando da importância do título recebido.
Dorian Jorge Freire também falou em seu discurso da arte da oratória e sobre o jornalismo. No momento da posse, ele foi homenageado por muitas autoridades. O então governador, Garibaldi Filho, disse em seu discurso: "Dorian, com o seu estilo e sua presença no jornalismo, tanto no Sul do País quanto no Estado, tem uma contribuição importante a dar aos trabalhos desta academia."
Paulo Macedo, que presidiu a cerimônia de posse do imortal, disse que o jornalista merecia figurar tanto no Rio Grande do Norte como em qualquer Academia de Letras do País. "Sua cultura e sua inteligência, sua forma como relata e interpreta os fatos, só enriquecem a Casa de Luiz da Câmara Cascudo", afirmou.
Com humildade, o jornalista agradece a homenagem: "Por vezes, penso que esta Casa procurou, na escolha de um jornalista profissional, homenagear a categoria (...) e os senhores foram ao interior sertanejo buscar um jornalista matuto. Obrigado pela cadeira que me apontam."
Obras editadas reúnem artigos e crônicas de Dorian
A primeira obra de Dorian Jorge Freire foi lançada em 1989, com o título "Os Dias de Domingo". Os textos de Os Dias de Domingo foram publicados, em sua maioria, no jornal Tribuna Do Norte, em coluna dominical com o mesmo nome.
Os temas são os mais diversos: passagens cotidianas, histórias do jornalismo, memórias, reflexões cristãs e lembranças de amigos e parentes. O escritor, pesquisador da literatura norte-rio-grandense e professor do departamento de Letras da UFRN Tarcísio Gurgel foi quem propôs o lançamento do livro a Dorian. O livro foi reeditado por duas vezes; a última, no ano passado.
Em outubro de 2001, foi lançado um segundo livro: "Veredas do meu caminho", reunindo os artigos e crônicas publicadas nos jornais locais, do Estado, e do Sul do País.
A reunião dos artigos só foi possível porque o historiador Raimundo Soares de Brito havia feito o trabalho minucioso de recolher e catalogar cada artigo publicado pelo jornalista, incluindo os 76 principais artigos de Dorian, publicados durante dez anos de trabalho n'O Mossoroense.
O jornalista Cid Augusto e o colunista José Nicodemos foram os responsáveis pela idéia do livro. Ele, com simplicidade, assumia que a idéia veio dos amigos, afirmando: "Eu nasci foi para escrever jornal."
Mesmo com a saúde debilitada, o jornalista não perdia o vício da leitura e da redação, e acompanhava diariamente o noticiário local, participando como colunista da equipe do jornal Gazeta do Oeste, com a coluna "Espaço Dorian Jorge Freire"Além das duas obras citadas, um livro pouco conhecido também é de autoria dojornalista: Castro Alves, o tempo, a vida e a obra.
Sobre os livros de Dorian, o bibliófilo Carlos Meireles relata em sua coluna: "Quando comecei a ler os livros de crônica de Dorian Jorge Freire - Os Dias de Domingo e Veredas do meu caminho -, fui apresentado a vários autores que, direta ou indiretamente, influenciaram na formação literária desse nosso 'farol literário'. A lista é um verdadeiro cânone literário: Jacques Maritain, Giovani Papini, Aldous Huxley, Goethe, Sartre, Machado e... Alceu Amoroso Lima. Parei ensimesmado. 'Se o mestre Dorian chamava alguém de mestre, só podia ser um escritor muito especial', pensei."
Mestre Dorian
No dia 18 de julho de 1948, num dia de domingo, aparecia nas páginas de "O Mossoroense" uma nova coluna, na qual um adolescente de apenas 14 anos, usando o pseudônimo de "Fenelon Gray", ousava dizer que daquela data em diante iria preencher uma falta que o jornal se ressentia, que era a de uma Crônica da Cidade, uma coluna semanal falando do que estava acontecendo em Mossoró, "dos seus problemas, seus assuntos em foco e suas necessidades". Nesse seu primeiro artigo, que na verdade era uma nota explicativa do que seria a coluna, o autor traçava seus planos dizendo: "Com a máxima isenção de ânimo, combaterei os erros, os crimes porventura praticados contra o povo, pedindo a quem de direito a solução para as nossas necessidades. Procurarei traçar minhas palavras dentro do Direito e da verdade e isto farei, fira a quem ferir, pois sinceramente isto, para mim, será de importância secundária.". Esse adolescente se transformaria depois no mestre do jornalismo e imortal da Academia Mossoroense de Letras e da Academia Norte-rio-grandense de Letras Dorian Jorge Freire.
Nasceu em Mossoró, a 14 de outubro de 1933, na casa n.º 175 da Praça da Redenção, sendo filho do jornalista Jorge Freire de Andrade e da professora Maria Dolores Couto Freire de Andrade. Neto paterno do jornalista João Freire e de dona Olympia Caminha Freire de Andrade, materno de João Capistrano do Couto e de dona Irinéia dos Reis Couto.
Advogado pela Universidade de São Paulo, diretor dos jornais "Brasil, Urgente" (SP) e "O Mossoroense", sendo neste órgão o responsável pela introdução do sistema "off-set", diretor do Instituto de Letras e Artes da Universidade de Mossoró, professor universitário e jornalista; principalmente jornalista.
Escrever, sempre escreveu. "Desde cedo, destacou-se como redator de bons textos escolares, impressionando professores e colegas no velho Santa Luzia, onde estudou." Com habilidade, passou a escrever, ainda menino, para este jornal, tendo em pouco tempo dominado todas as etapas de editoração. "Cada doido com sua mania", escreve Dorian na crônica de abertura do seu livro "Os Dias de Domingo", onde confessa: "Eu escrevo. E me repito. Graças a Deus. Como não sei falar, escrevo."
Dos mais de cinqüenta anos dedicados ao jornalismo, vinte passou trabalhando na imprensa do Sul do País, basicamente em São Paulo. Atuando no jornal "Última Hora" e, posteriormente, no "Correio Paulistano", conseguiu conquistar seu espaço. Tarefa árdua para um nordestino franzino, cuja única riqueza que possuía era o seu talento. Ascendeu de repórter estagiário a repórter, repórter principal, chefe de reportagem e editor de política. A atitude assumida aos 14 anos nas páginas de "O Mossoroense", no qual disse que procuraria traçar suas palavras dentro do direito e da verdade, nortearia sua carreira. Conseguiu chamar a atenção através do seu modo ousado de escrever.
Em 1963, ainda em São Paulo, ajudou a fundar um jornal tablóide chamado "'Brasil, Urgente'. Era um informativo de características esquerdistas, impresso nas cores vermelha e preta. Em uma de suas edições, trazia como manchete principal uma previsão do golpe militar que estaria por vir: "Gorilas preparam o Golpe." Foi o suficiente para que o Exército tirasse os exemplares das bancas e fechasse o jornal.
Estive na casa de Dorian duas ou três vezes, não mais do que isso. Uma das vezes para entregar um exemplar de meu livro "Fatos e Vultos de Mossoró", que ele havia solicitado através de nota em sua coluna. Não chegamos a conversar; trocamos apenas algumas palavras, me despedi e não voltei mais. Reverenciava-o, colecionando tudo que encontrava sobre ele.
Hoje, o mestre já é saudade. Como legado, deixou o exemplo de luta, de persistência e de amor à terra de Santa Luzia de Mossoró.
Geraldo Maia do Nascimento
é historiador
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