
• Ninguém sabe quantos morreram
• Cidade retoma seu ritmo, mas os nova-iorquinos mudaram

• Abalado pelos EUA, terror resiste • Novo Afeganistão tem velhas crises • Cresce fosso entre islã e Ocidente • Brasileiro narra perda do filho no WTC
O dia que não acabou
Um ano depois do maior ataque já sofrido pelos EUA, o mundo segue ainda digerindo suas consequências e sendo remodelado por elas. Ainda se discute a dimensão histórica dos atentados, mas seus ecos reverberam em várias partes do planeta. A guerra ao terrorismo lançada por Bush expôs o enorme poderio bélico americano, cerceou liberdades individuais, redesenhou o quadro geopolítico mundial e abalou as relações entre o islã e os não-muçulmanos. E a guerra deve prosseguir, agora com os canhões de Washington apontados para o Iraque. Outros capítulos virão de uma história iniciada há um ano e sem prazo para terminar.
SÉRGIO DÁVILA
Da Folha de S. Paulo, em Nova York
Na França, um esportista anunciou que vai nadar de Washington a Nova York (800 quilômetros, 25 dias). Na Alemanha, um casal turco briga na Justiça pelo direito de batizar seu recém-nascido de Osama bin Laden.
Nos EUA, adolescentes incorporaram a seu vocabulário gírias como Ponto Zero (para quartos bagunçados), Isso é tão 10 de Setembro (para preocupações frívolas) e jihadizado (quando um estudante é disciplinado).
A três dias do primeiro aniversário do maior ataque terrorista da história dos Estados Unidos, que matou mais de 3.000 pessoas, o mundo ainda digere suas consequências e se pergunta se e como o trágico 11 de setembro de 2001 afetou o curso da história.
Ninguém que estava vivo naquele dia vai se esquecer do choque, do ultraje e da dor insuportável por que passaram tantos, disse à Folha o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg. Também ficamos com a dolorosa percepção de que agora vivemos permanentemente nas trincheiras de uma guerra.
Guerra é o termo mais adequado. A operação militar, de segurança interna e de inteligência deflagrada pelos EUA foi bem-sucedida ao destruir campos de treinamento e derrubar o governo do Taleban no Afeganistão, que dava guarida à organização terrorista Al Qaeda, de Osama bin Laden. Mas falhou em outros setores. O paradeiro de Bin Laden, o saudita que liderava a Al Qaeda e assumiu a autoria dos ataques, continua desconhecido. Seus principais assessores também têm paradeiro incerto, assim como o mulá Mohamad Omar, líder do Taleban.
Desde 11 de setembro, o governo prendeu mais de 10 mil pessoas nos EUA, a maioria de origem árabe, dos quais menos de mil continuam sob custódia.
Foi o maior retrocesso nas liberdades individuais do país desde a Segunda Guerra. O Congresso aprovou uma legislação mais dura contra o terrorismo. Países da Europa fizeram o mesmo, sob protestos de grupos de defesa dos direitos humanos.
Os atentados causaram também realinhamentos geopolíticos em várias partes do mundo, pressionados por Bush, para quem ou se está com os EUA na guerra ao terror ou contra eles.
O presidente russo, Vladimir Putin, por exemplo, percebeu que era o momento de oferecer ajuda na campanha de Bush em troca de maior integração com o Ocidente, inclusive na Otan (aliança militar ocidental). O ditador paquistanês, Pervez Musharraf, teve seu governo legitimado por Washington ao prestar apoio essencial no conflito no vizinho Afeganistão. No Oriente Médio, a histórica aliança EUA-Arábia Saudita está ameaçada.
Um ano depois dos ataques, os ecos do 11 de setembro seguem afetando o mundo.
Ninguém sabe quantos morreram
DE NOVA YORK
Um ano depois, o repórter sai com a missão de descobrir quantas pessoas exatamente morreram no dia 11 de setembro de 2001 em Nova York. Da última vez que chequei, eram dois mil, oitocentos e tantos, aproximou o prefeito Michael Bloomberg em encontro com a imprensa estrangeira na última quarta-feira.
Quase 3.000 pessoas, não é?, responde à Folha Peter L. Rinaldi, funcionário da Autoridade Portuária de Nova York e Nova Jersey, cujo cargo oficial é o de gerente-geral da área onde ficava o World Trade Center, mas que funciona como prefeito do chamado Ponto Zero.
Mais do que poderemos suportar, disse na primeira entrevista coletiva depois do ataque terrorista o então prefeito Rudolph Giuliani -uma frase profética, que respondia à mesma pergunta e que nunca foi corrigida por um número final.
A verdade é que, até agora, ninguém sabe ao certo quantas vítimas teve o World Trade Center. No próprio dia falava-se em 20 mil a 50 mil pessoas (de fato, 25 mil conseguiram ser retiradas com vida dos dois prédios naquele dia), número que caiu para 6.500 nas semanas seguintes e que passou meses estacionado perto de metade disso.
Como a cerimônia se aproxima e na manhã do dia 11 o ex-prefeito Giuliani lerá os nomes do que a prefeitura considera que sejam todos os mortos e desaparecidos naquele dia, o governo divulgou na noite de sexta-feira o que chamará de número provisoriamente oficial: 2.801 pessoas.
Destes, 1.389 tiveram os restos mortais identificados, sendo que 600 deles por DNA, e pouco menos do que isso recebeu atestado de óbito emitido por tribunais especiais com base apenas em evidências circunstanciais apresentadas pelas famílias, sem que os corpos tenham sido encontrados. Restam 70 casos, que estão na categoria desaparecidos.
Só que isso não é inteiramente verdade, pois, desde que a prefeitura colocou uma força-tarefa para investigar a lista, no fim do mês passado, pelo menos oito pessoas foram achadas vivas, e muitos estrangeiros dados como mortos pelos consulados acabaram aparecendo com vida em seus países de origem.
Ainda, duas pessoas que morreram dias depois de 11 de setembro em hospitais fora de Nova York, mas de ferimentos causados pelo ataque, serão incluídas, ao mesmo tempo que se excluirá o nome de uma mulher que aparecia duas vezes, com o sobrenome de solteira e de casada.
Outras listas Enquanto isso, o departamento de polícia trabalha com uma lista interna em que soma 2.823 desaparecidos e mortos; já as relações mantidas por organizações de mídia norte-americana variam entre 2.786 a 2.814, sendo o último o número da agência de notícias Associated Press, considerado por muitos o mais fiel.
De certo mesmo e incontestável só o número de mortos no choque do vôo contra o Pentágono e na queda do avião na Pensilvânia: 184 e 40 pessoas, respectivamente. Mas também aí reside uma polêmica: há listas que incluem os sequestradores nos números, que passam então para 189 e 44.
Outras optam por deixá-los de fora. Afinal, eles não são exatamente vítimas, dizem. (SÉRGIO DÁVILA)
Sem o WTC, cidade retoma seu ritmo,
mas os nova-iorquinos mudaram
DE NOVA YORK
Nova York parece a mesma, mas é claro que algo está faltando, principalmente na paisagem sul da ilha. E não só esteticamente. Segundo a Autoridade Portuária de Nova York e Nova Jersey, dona do terreno onde ficavam as Torres Gêmeas, Manhattan está mais vulnerável a raios.
É que os dois prédios atraíam os raios e os descarregavam em segurança no solo. No dia 2, durante uma tempestade, um morador foi morto por uma descarga na cobertura de um prédio de seis andares nas imediações de Chinatown, vizinha ao Ponto Zero.
Isso não teria acontecido se o World Trade Center ainda estivesse ali, disse Jack Buchsbaum, da Autoridade Portuária. Mas não está mais. No lugar, um clarão de 64 mil metros quadrados entre as ruas Liberty, Church e Vesey e a West Side Highway.
Com 20 metros de profundidade, o buraco terá seu destino definido somente no final do ano. Enquanto isso, ficará quase parado no tempo. Ao seu redor, no entanto, a cidade mais rica do país mais rico do mundo continua a acontecer. Uma volta a pé por Nova York comprova isso.
Os motoristas de táxi continuam de mau humor e falando mau inglês, os quarteirões continuam cheios de delicadezas e grosserias (delicatessens e grosseries, vendas e armazéns), como cantava Tom Jobim, e ainda há sete ratos por habitante.
Mas as pessoas mudaram. Estão mais temerosas. Pelo menos é o que afirma pesquisa divulgada na última semana, segundo a qual 72% dos nova-iorquinos acreditam na possibilidade de um novo ataque na cidade. Destes, 28% esperam um carro-bomba ou um homem-bomba, 20% prevêem um ataque biológico e 16% esperam um com arma química.
O levantamento foi feito pelo instituto Blum & Weprin a pedido do jornal New York Daily News e ouviu nos dias 20 e 21 de agosto 503 adultos residentes.
Apesar disso, outro estudo divulgado no começo da semana pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças atesta que poucas pessoas da região (Nova York, Nova Jersey e Connecticut) procuraram alguma ajuda psicológica ou psiquiátrica pós-ataque.
Dos que afirmaram ter sofrido excepcionalmente desde então (75%), menos de 12% disseram ter ido ao médico em busca de solução. Dos 3.512 ouvidos, 4% dos homens recorreram ao álcool e 2% das mulheres, ao cigarro.
Abalado pelos EUA, terror resiste
MARCELO STAROBINAS
Da Folha de São Paulo
Doze meses de ação militar e diplomática não deram aos EUA a vitória que desejavam na guerra ao terrorismo. O país ainda tem um longo caminho a percorrer para garantir a segurança contra novos ataques, sobretudo em seu território. Apesar disso, analistas consultados pela Folha dizem que o governo de George Walker Bush promoveu mudanças importantes na forma como o mundo lida com grupos como a Al Qaeda.
Em primeiro lugar, destaca John Reppert, general da reserva dos EUA e professor da Universidade Harvard, a maioria dos Estados passou da defensiva para uma postura ofensiva. Eles não aguardam mais os ataques terroristas para responder. Pelo contrário, procuram-nos agressivamente antes de agirem. Isso diminuirá as chances de atentados.
Contudo a ofensiva liderada por Washington no Afeganistão abalou a Al Qaeda, mas ficou longe de derrotá-la. A campanha não desmantelou a rede de pessoas já treinadas, que se dispersou pelo mundo. Essa rede segue intacta, opina Alex Standish, editor da publicação Janes Intelligence Digest, com sede em Londres.
Não sabemos muito sobre a Al Qaeda desde o 11 de setembro porque ela ficou sob a superfície, diz Alan Dershowitz, professor da Harvard Law School. Saberemos quando emergirem. Não tenho dúvidas de que vão ressurgir.
Em seu novo livro, Why Terrorism Works: Understanding the Threat, Responding to the Challenge (Por que o terrorismo funciona: entendendo a ameaça, respondendo ao desafio), Dershowitz descarta a diplomacia como ferramenta para lidar com a ameaça terrorista. Tentar construir pontes [com o mundo islâmico e entender os terroristas fará com que o terrorismo se espalhe a outros grupos que gostariam de ser entendidos, argumenta.
Diferentemente de Estados inimigos, entretanto, os terroristas não têm um endereço residencial, afirma Dershowitz. Assim, os últimos meses foram marcados pelo reconhecimento da necessidade de reformulação e cooperação dos serviços de inteligência.
Standish explica que agências como a americana CIA perceberam que não tinham pessoas qualificadas para interpretar mensagens nos idiomas usados pelo inimigo, como o árabe e o pashtu.
No momento dos ataques de 11 de setembro, não havia um agente de campo da CIA fluente em pashtu, conta o jornalista britânico. Eles ainda não têm especialistas suficientes. Tentam se recuperar, o que vai levar anos.
Após os atentados, os serviços europeus e americanos estão mais interconectados. Uma informação que pode não parecer relevante na Europa pode ser muito importante em Washington, diz Standish.
Novo Afeganistão tem velhas crises
IGOR GIELOW
Coordenador da Agência Folha
O Afeganistão, único país a sofrer até agora o efeito direto da chamada guerra ao terror, chega ao primeiro aniversário do 11 de setembro vivendo contradições decorrentes da ação militar retaliatória dos Estados Unidos.
Se, por um lado, o país está livre do regime do Taleban, um dos mais cruéis do fim do século 20, é igualmente verdade que a miséria predomina e a lei voltou a ser ditada pelos senhores da guerra.
Na oportunidade mais recente que tiveram de governar, em 1992, esses líderes locais que comandam seus feudos à força levaram o país à guerra civil que abriu caminho para o Taleban.
Na versão vendida por boa parte da mídia americana, a guerra iniciada em 7 de outubro e encerrada dois meses depois com a derrota do Taleban estabeleceu um embrião de democracia liberal.
Engano. Como os atentados da semana passada mostraram, quem manda no Afeganistão ainda são os chefes locais, algo que havia sido reprimido pela paz imposta a sangue pelos anos do Taleban (1996-2001).
O problema está na estrutura política. O governo é chefiado pelo líder pashtu Hamid Karzai, que deverá convocar eleições em 2004 e foi ratificado presidente pela Loya Jirga -assembléia que reuniu líderes tribais em junho.
Os pashtus são a maioria étnica do país, cerca de 40% dos 27 milhões de afegãos, e desconfiam do grande poder dos tadjiques (25% da população) na gestão Karzai.
Essa disputa é apimentada pela influência dos senhores da guerra, que dão as cartas fora de Cabul e Candahar. Lá, quem manda é gente como o uzbeque étnico Abdul Rashid Dostum, acusado de diversos crimes de guerra no seu bastião de Mazar-e-Sharif. Karzai teve de compor com eles para garantir sua presidência.
Enquanto isso, já caiu assassinado o vice-presidente Hadji Abdul Qaddir. Karzai, por precaução, só usa seguranças americanos. Como ficou claro nas declarações após os atentados recentes, quando Karzai quase morreu, a rede Al Qaeda e o que sobrou do Taleban são os suspeitos usuais.
De fato, é incerto o paradeiro de boa parte dos 50 mil combatentes liderados pelo mulá Mohammad Omar e que protegiam Osama bin Laden. Por avaliações informais, entre 5.000 e 10 mil podem ter morrido. A maioria segue solta.
Por fim, há os senhores da guerra que não fizeram acordo com Karzai, como Gulbuddin Hekmatiar e Padshah Zadran.
Cresce fosso entre islã e Ocidente
PAULO DANIEL FARAH
Da Folha de São Paulo
Osama bin Laden, considerado o autor intelectual dos atentados de 11 de setembro, disse que queria ampliar o fosso entre muçulmanos e não-muçulmanos. Um ano depois, o progresso que obteve é inconteste, segundo especialistas.
Cresceram a islamofobia e o antiamericanismo. Líderes religiosos norte-americanos, como o reverendo Franklin Graham, condenaram o islamismo como diabólico. Segundo o Conselho para Relações Americano-Islâmicas, com sede em Washington, os ataques afetaram profundamente a vida dos muçulmanos nos EUA. A maioria deles (57%) afirma ter passado por algum tipo de discriminação desde então. Foram registrados mais de 2.000 atos de violência contra muçulmanos norte-americanos no último ano.
A cruzada anunciada pelo presidente George W. Bush e a opção exclusiva entre o bem e o mal não contribuíram muito para um diálogo, afirma o teólogo saudita Ahmad ibn Sayfuddin. A guerra contra o terror, para muitos muçulmanos, tem o islã como alvo, basta ver as detenções com base apenas na aparência. O amálgama de islã e terror ressurgiu para justificar ações militares, diz.
Embora os EUA tenham elogiado a cooperação de seus aliados árabes na campanha contra o terrorismo, aumentam os protestos contra a política norte-americana.
A relação dos países do Oriente Médio com os EUA, à exceção de Israel, decaiu muito, afirma Rosemary Hollis, chefe do Departamento de Oriente Médio no Instituto Real de Relações Internacional de Londres. A frustração com a ausência de um diálogo deu lugar ao antiamericanismo.
Em abril, depois de proibida uma de suas manifestações, estudantes egípcios atacaram um restaurante da rede Kentucky Fried Chicken em protesto contra o que consideram um alinhamento americano a Israel.
Em uma ação incomum, manifestantes romperam a proibição saudita contra protestos e organizaram um ato diante do consulado dos EUA em Dhahran (leste).
O apoio americano a Israel e os preparativos para uma operação militar contra o Iraque aumentaram a animosidade. O projeto norte-americano de atacar o Iraque, embora o ditador Saddam Hussein seja acusado de desenvolver armas de destruição em massa, é condenado pelos dirigentes árabes. Para Mohammed Sid Ahmed, editorialista do diário egípcio Al Ahram, os atentados foram uma humilhação pessoal [para Bush, que deve ser vingada. Foi um Pearl Habour e é necessário um Hiroshima/Nagasaki, embora não haja ligação do Iraque aos atentados.
Brasileiro narra perda do filho no WTC
LUIZ CAVERSAN
Da Folha de São Paulo
Ivan Kyrillos Fairbanks Barbosa gostava de situações perigosas. Segundo seu pai, Ivan Fairbanks Barbosa, 61, diretor da clínica de otorrinolaringologia do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo, sempre foi assim: Ele montou em boi, pulou de pára-quedas, correu de automóvel...
Ivan Barbosa mantém, ao falar do assunto, a atitude que se imagina em um cientista: raciocínio claro e domínio das emoções.
Afinal, ele está acostumado a lidar com a lógica e as relações de causa e efeito. Mas nem a lógica nem essas relações permitem que entenda que o lugar mais seguro do mundo -ele chegou a achar isso- tenha desabado diante de seus olhos com o filho dentro. Não dá para explicar, disse.
Seu filho teve apoio da família quando foi para os EUA?
Ivan Kyrillos Fairbanks Barbosa Por incrível que pareça, ninguém apoiou porque faltou tempo para isso. Ele era um rapaz muito agressivo no trabalho, cutucava aqui e ali para subir. Ele desapareceu um fim de semana, reapareceu aqui na quarta-feira, me trouxe este presente [segura uma miniatura das Torres Gêmeas] e me disse: Vou trabalhar aqui. Eu achei ótimo. Se viesse hoje outra vez eu o aconselharia a ir mesmo.
Em qual das duas torres ele trabalhava?
Barbosa - Naquela que foi atingida primeiro. Eu estive lá, fomos tomar aquele aperitivo de fim de tarde no alto. Lá, eu pensei: este deve ter lugar mais seguro no mundo...
Pensou isso lá no alto?
Claro!
O que o sr. estava fazendo no momento do atentado?
Eu estava atendendo aqui no consultório e passei a ver desde o começo nesta TV [mostra um monitor de 14 polegadas normalmente utilizado para realização de exames]. Primeiro eu tive um choque, mas liguei para a mãe dele, e ela me disse para eu me acalmar, porque alguém tinha encontrado com ele em baixo. Eu fiquei vendo horrorizado, mas achando que o menino estivesse fora daquilo. Fiquei muito preocupado quando o prédio caiu, porque, como ele tinha espírito aventureiro, gostava de perigo, pensei: o metido está lá e pode ser atingido por destroços. Depois disso ficamos ligando para a casa dele. No dia seguinte, ainda sem notícia, pensei: alguma coisa realmente séria aconteceu.
O que o sr. fez então?
Parei de trabalhar e fiquei como um louco vendo qualquer coisa que aparecesse na televisão para tentar encontrar um rosto ou alguma outra coisa.
Como foi esse momento?
Desesperador. Eu não conseguia sair da frente da televisão o dia inteirinho.
Quando o sr. teve a certeza de que havia ocorrido o pior?
Não sei exatamente quantos dias depois veio a seguinte informação: ele estava no telefone negociando ações e falou que tinha acontecido alguma coisa no prédio e que teria de descer. Ele estava no andar 105. O avião entrou abaixo. Se você pensar friamente, não há hipótese. O andar inteiro foi cortado, e a temperatura foi calculada em 800, 900 graus. Ninguém desceu. Não existe possibilidade de corpo, de pó, de pedaço, de nada disso. Demorou para essa ficha cair...
Quantos dias?
Foi preciso tempo para raciocinar com a cabeça. Além disso, tem as pessoas que não são legais. Aí começa: Olha, eu vi ontem seu filho na televisão, eu soube que tem um brasileiro andando desmemoriado no Central Park.... É igual a bruxa, você não acredita, mas se preocupa.
Isso tornou o processo mais difícil?
Isso deixa a gente incomodado, porque, por um absurdo qualquer, ele poderia mesmo estar mesmo por lá.
O sr. recebeu algum tipo de apoio não material do governo norte-americano?
A mãe dele foi para lá e recebeu tratamento excepcional. Acho que, por causa dessa história de viver em guerra, o americano cultua essas homenagens.
E no aspecto material, está sendo cumprido aquilo que foi acordado?
Não existe nenhum acordo com as famílias. Ele trabalhava numa firma grande e muito idônea, a corretora Cantor Fitzgerald, que tem um advogado acompanhando esses processos.
O processo está andando?
Deve andar, porque é um processo legal. Recentemente, veio da Prefeitura de Nova York um pedido de material meu para exame de DNA.
Quando o sr. falou com o seu filho pela última vez?
Não lembro se ele ligou na sexta ou na segunda [7 ou 10 de setembro] preocupado com uma proposta que recebeu que ia ser boa para a carreira dele. Ligou muito animado.
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