

UMA
LUZ NO CAMINHO
O caminhão não chegava mais em Natal. "Meu Deus,
me dê paciência" - implorava a mulher, aflita,
em silêncio. Ia de carona, sozinha com o motorista, amigo
do marido, o filho pequeno dormindo ao colo.
Via a hora não ter mais modo de disfarçar as cantadas
do motorista, a princípio disfarçadas, depois de forma
direta. Mas era que precisava de chegar em Natal, o filho prometido
a uma cirurgia difícil, na manhã do dia seguinte.
Era razão de mãe.
Maltrapilha, marcas físicas da vida difícil, era no
entanto uma mulher bonita. De rosto e de corpo. Mesmo, aos vinte
e dois anos, já aparentando bem mais idade, ali pelos trinta
e tantos. Rugas ainda discretas, na testa e nos cantos da boca.
Moendo-se de ódio por dentro, vezes vinha-lhe aquele ímpeto
de esgoelar o sujeito, não era mulher dessas coisas; outras
a vontade, quase indomável, de ficar na estrada, ou tudo
isso junto.
Lá que ele tivesse intenção nela, podia admitir,
é coisa de homem ruim, mas não a ponto de faltar-lhe
com o respeito, e ao marido ausente, seu amigo de tanto tempo. Não
se podia ser mais safado.
Mas tinha de internar o menino no hospital, de tarde, conforme fora
determinado pelo médico, que lhe queria muito bem. Moça,
até casar-se, fora empregada na casa dele, quando médico
na sua (dela) cidade, a oitenta quilômetros de Natal.
"Meu Deus, me dê paciência, eu tenho de salvar
a vida do meu filho" - implorava, quase à beira do desespero,
ou, já, isto mesmo. O caminhão não tinha fim
de chegar. Um martírio.
Não seria capaz de contar aquilo ao marido, conhecia-lhe
a natureza, matara de foice o rapaz que lhe desvirginara a irmã,
e na mesma hora, o pai (dele, o rapaz) que lhe chegou em socorro,
revólver em punho. Era desses homens que só temem
os castigos de Deus, mas dependendo do tamanho da ira. Guardar desfeita,
nunca, podia ser de Lampião.
Enfim, o caminhão na entrada de Natal, e o desgraçado
do motorista foi mais longe, pondo-lhe a mão entre as coxas.
A mulher, já sem controle de suas forças, de todo
como fora de si, cuspiu-lhe na cara, ameaçando pular do caminhão
com o filho, se não parasse. Aos gritos.
E foi deixada na estrada, o filho ao colo. De repente, uma crise
de choro alto, feito louca. Carros passando, indiferentes. Era uma
louca. Para alguns, também poderia ser uma cilada. Os tempos
são de não se confiar em gente desconhecida. O crime
se esconde em formas as mais diversas e inimagináveis.
As horas correndo. Já ali pelas duas da tarde. Vai senão
quando, pára um carro preto, diante da pobre mulher, já
desesperada de chegar em Natal, ainda em tempo de internar o filho,
já chorando de fome.
Era o médico que lhe operaria o filho, vindo de sua chácara.
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