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MOSSORÓ (RN), DOMINGO, 05/02/2012 (ATUALIZADO: 23:49hs)
 
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UMA LUZ NO CAMINHO
O caminhão não chegava mais em Natal. "Meu Deus, me dê paciência" - implorava a mulher, aflita, em silêncio. Ia de carona, sozinha com o motorista, amigo do marido, o filho pequeno dormindo ao colo.
Via a hora não ter mais modo de disfarçar as cantadas do motorista, a princípio disfarçadas, depois de forma direta. Mas era que precisava de chegar em Natal, o filho prometido a uma cirurgia difícil, na manhã do dia seguinte.
Era razão de mãe.
Maltrapilha, marcas físicas da vida difícil, era no entanto uma mulher bonita. De rosto e de corpo. Mesmo, aos vinte e dois anos, já aparentando bem mais idade, ali pelos trinta e tantos. Rugas ainda discretas, na testa e nos cantos da boca.
Moendo-se de ódio por dentro, vezes vinha-lhe aquele ímpeto de esgoelar o sujeito, não era mulher dessas coisas; outras a vontade, quase indomável, de ficar na estrada, ou tudo isso junto.
Lá que ele tivesse intenção nela, podia admitir, é coisa de homem ruim, mas não a ponto de faltar-lhe com o respeito, e ao marido ausente, seu amigo de tanto tempo. Não se podia ser mais safado.
Mas tinha de internar o menino no hospital, de tarde, conforme fora determinado pelo médico, que lhe queria muito bem. Moça, até casar-se, fora empregada na casa dele, quando médico na sua (dela) cidade, a oitenta quilômetros de Natal.
"Meu Deus, me dê paciência, eu tenho de salvar a vida do meu filho" - implorava, quase à beira do desespero, ou, já, isto mesmo. O caminhão não tinha fim de chegar. Um martírio.
Não seria capaz de contar aquilo ao marido, conhecia-lhe a natureza, matara de foice o rapaz que lhe desvirginara a irmã, e na mesma hora, o pai (dele, o rapaz) que lhe chegou em socorro, revólver em punho. Era desses homens que só temem os castigos de Deus, mas dependendo do tamanho da ira. Guardar desfeita, nunca, podia ser de Lampião.
Enfim, o caminhão na entrada de Natal, e o desgraçado do motorista foi mais longe, pondo-lhe a mão entre as coxas. A mulher, já sem controle de suas forças, de todo como fora de si, cuspiu-lhe na cara, ameaçando pular do caminhão com o filho, se não parasse. Aos gritos.
E foi deixada na estrada, o filho ao colo. De repente, uma crise de choro alto, feito louca. Carros passando, indiferentes. Era uma louca. Para alguns, também poderia ser uma cilada. Os tempos são de não se confiar em gente desconhecida. O crime se esconde em formas as mais diversas e inimagináveis.
As horas correndo. Já ali pelas duas da tarde. Vai senão quando, pára um carro preto, diante da pobre mulher, já desesperada de chegar em Natal, ainda em tempo de internar o filho, já chorando de fome.
Era o médico que lhe operaria o filho, vindo de sua chácara.




       


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