

O
dia da mulher e os exemplos
Ticiano Duarte
Dia 08, segunda-feira passada, comemorou-se o dia internacional
da mulher. A data me traz lembranças das grandes mulheres
que conheci. Uma delas marcou presença na minha juventude
e mocidade, nos primeiros passos da vida Sofia Arlinda Curcio
de Andrade, minha avó que carinhosamente chamava de mãe
Fia.
Filha de italiano, enviuvou aos vinte e poucos anos de idade. Até
morrer, perto dos oitenta anos, usava luto. Vestia preto, a viuvez
que nunca passou, vencendo os preconceitos do seu tempo ao assumir
em plena mocidade os negócios que o marido deixara e na sua
humildade, criando e educando seus 06 filhos, constituindo uma família
unida e solidária que teve nela o exemplo maior de dignidade
e luta pela sobrevivência. São os Andrade Duarte, Maciel
de Andrade, Andrade Mesquita, Oliveira de Andrade, que se entrelaçaram
com outras famílias e hoje formam uma descendência
de sua liderança e comando que abriu caminhos aos que vieram
depois, para honrar sua história de trabalho e amor.
Nestes últimos tempos tem um exemplo de uma outra mulher
que desejo homenagear entre muitas outras que merecem menção
especial. Trata-se de Maria da Penha Maia Fernandes, filha de um
norte-riograndense que se radicou no Ceará, José da
Penha Fernandes e neta do velho José do Patrocínio
D´Araújo Fernandes, de Jardim do Seridó, uma
das figuras mais ilustres da história daquela cidade, seu
ex-prefeito e filho do não menos ilustre magistrado, Manuel
José Fernandes. A luta de Maria da Penha é um libelo
contra o crime e a impunidade. Sua vida uma saga, na qual, sobreviveu
graças à sua fortaleza interior, o espírito
forte e destemido, vencendo os mais desafiadores obstáculos,
sempre em busca da justiça, para punir o ex-marido que a
deixou paraplégica.
Ela narra o seu calvário, em Sobrevivi... Posso contar,
editado em 1994, quando acordou de repente com um forte estampido
dentro do quarto. Abrindo os olhos não viu ninguém.
Tentou mexer-se, mas não conseguiu e imediatamente fechou
os olhos e pensou somente numa coisa: Meu Deus, o Marco me
matou com um tiro. Isso ocorreu no dia 29 de maio de 1983.
Ao amanhecer Maria da Penha estava viva.
O criminoso que simulou um assalto à sua residência,
que atirou no próprio braço para esconder o crime
que premeditara, chama-se Marco A. H. Viveiro, hoje residindo definitivamente
em Natal, exercendo o magistério superior, onde já
atuara desde o período em que respondia ao processo criminal,
diversificando suas atividades na promoção de cursos
na Fundação José Augusto e assessorando a antiga
FEBEM, desfrutando prestígio nos meios universitários
e órgãos das administrações do Estado
e do Município.
O processo que o levou à condenação, pena de
reclusão de quinze anos, um terço da qual já
foi cumprida, tramitou por muito tempo nas gavetas de alguns magistrados
cearenses que aceitavam a procrastinação arquitetada
pelos seus excelentes advogados, dois grandes criminalistas daquele
estado.
Maria da Penha lutou sem desânimo e hoje dá nome a
Lei que protege as mulheres vítimas da violência, como
ela o foi, do comportamento machista e criminoso do marido, um colombiano
naturalizado brasileiro, que planejou friamente o mais tortuoso
e cruel caminho para a sua companheira indefesa. O Ministério
Público, no seu pronunciamento nos autos, entre outras coisas
afirma que a vítima pagou pelo pecado que cometera
de lhe ter estendido a mão amiga, quando necessitava e mitigando
a fome e a sede, relembrando que Herédia quando a conheceu
passava por grandes dificuldades financeiras. E conclui nas suas
razões que a vítima por sua vez permanece em sua cadeira
de rodas, irreversivelmente paraplégica. E só
agradece a Deus o estímulo de reunir forças para continuar
lutando e assistindo suas três filhas menores, de quem o indiciado
sequer procura ter notícias.
A história de Maria da Penha é de amor, coragem e
muita resignação, lutando incessantemente em busca
da justiça, que embora tardiamente chegou em parte, para
trancafiar por algum tempo, o seu frio, cruel e insensível
autor da violência que a mutilou, mas, não conseguiu
destruir seu sonho de mulher e de mãe.
Ticiano Duarte
é jornalista.
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