

O carisma de Nova York
Ivan Maciel de Andrade
Sempre que vou a Nova York ouço o apelo de quem me acompanha,
sobretudo da mulher ou de uma filha: Precisamos ir à
Macys. Essa loja giganteca excita a imaginação
mesmo de quem não possui vocação consumista.
E absorve muito tempo e mais ainda dólares de quem visita
a imensa, original, apaixonante metrópole americana, que
apresenta raras e marcantes características cosmopolitas
(como me encanta a variedade novaiorquina de pessoas e de culturas),
sem comparação com nenhuma outra grande cidade do
mundo (Londres, Tóquio, São Paulo, Cidade do México
etc.). E a Macys é realmente tentadora, pela diversidade
do que lá pode ser comprado e pela novidade tecnológica
dos produtos vendidos. Mesmo que a altos custos.
Certa vez me encontrei com alguns casais brasileiros nesse centro
de objetos do desejo e de gastos incontroláveis. Confessaram
que, embora tendo chegado recentemente a Nova York, tinham passado
os primeiros três dias na Macys a partir da hora
em que a loja começava a funcionar, até quando fechava.
Alguém do grupo me disse: Ficamos aqui sem ir nem mesmo
à calçada para saber como está o tempo.
E se sentiam muito felizes. Parecia que, à proporção
que se viam livres do incômodo (?) peso dos dólares,
diminuíam suas preocupações e aumentavam suas
endorfinas, suas aptidões de gozar a vida. Diziam: Essa
é a Nova York que nos interessa. Tinham uma extensa
relação de outras lojas famosas como a Macys
, incluídas num itinerário de esbanjamento que
representava uma incrível e espantosa injeção
de dólares no mercado norte-americano. A justificativa dos
casais era a de que economizavam no Brasil para gastar nos Estados
Unidos. E, com isso, se divertiam muito e faziam bons negócios.
A vida que pediram a Deus.
O governo dos Estados Unidos já reconhece que vai ser obrigado,
por interesses econômicos, já que não o faz
pela significação sócio-política do
nosso país, a facilitar e simplificar a concessão
de visto de entrada aos brasileiros. Nossos turistas despejam no
país hoje de Obama e amanhã, talvez, dos republicanos
Newt Gingrich, Mitt Romney ou Santorum, suas humildes poupanças
ou os excedentes de suas privilegiadas fortunas. E, apesar disso,
sofrem os rigores abusivos da burocracia diplomática
que chegam aos extremos da humilhação para
agendar entrevistas e fazer jus ao supervalorizado visto. A diplomacia
do dólar demonstra que está sensibilizada para realizar,
de imediato, mudanças que facilitem o ingresso dos nossos
turistas. Mas ainda estamos longe da amistosidade que deveria existir
em relação aos brasileiros e com que são generosamente
tratados cidadãos de outros países aliados
ou amigos dos Estados Unidos. Na verdade, nunca os líderes
e governantes norte-americanos nos tributaram muito apreço.
Acho que é justo reconhecer que toda a via crucis
imposta para a obtenção do visto é compensada
pelo prazer que Nova York nos proporciona. Há de tudo para
todos os gostos nesta que é a mais importante cidade americana
e a menos americana pela influência estrangeira, proveniente
das mais distantes regiões do planeta das cidades
dos Estados Unidos. Afinal de contas, quem não se satisfaz
em ser mero consumidor de artigos de luxo ou de tecnologia de ponta,
dispõe das opções do melhor teatro, das excelentes
casas de espetáculo, dos museus, dos movimentos artísticos
de vanguarda que influenciam a cultura universal. O atentado de
setembro de 2001 atingiu, com toda certeza, o que existe de melhor
no sistema de vida norte-americano.
Apesar da admiração por Nova York, merece ser lembrado
o humor de Fernando Sabino no livro de crônicas A cidade
vazia (9.ª ed., Record). Observa Carlos Drummond de Andrade,
no prefácio ao livro de Sabino: Seu apartamento em
Nova York tinha a estranha faculdade de fazer feliz aos que lá
iam, talvez devido à certeza de não ficar. A
felicidade que nos causa Nova York talvez decorra também
de idêntica sensação: a certeza de que estamos
apenas visitando-a...
IVAN
MACIEL DE ANDRADE
é advogado.
|