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MOSSORÓ (RN), DOMINGO, 05/02/2012 (ATUALIZADO: 23:49hs)
 
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O carisma de Nova York
Ivan Maciel de Andrade

Sempre que vou a Nova York ouço o apelo de quem me acompanha, sobretudo da mulher ou de uma filha: “Precisamos ir à Macy’s”. Essa loja giganteca excita a imaginação mesmo de quem não possui vocação consumista. E absorve muito tempo e mais ainda dólares de quem visita a imensa, original, apaixonante metrópole americana, que apresenta raras e marcantes características cosmopolitas (como me encanta a variedade novaiorquina de pessoas e de culturas), sem comparação com nenhuma outra grande cidade do mundo (Londres, Tóquio, São Paulo, Cidade do México etc.). E a Macy’s é realmente tentadora, pela diversidade do que lá pode ser comprado e pela novidade tecnológica dos produtos vendidos. Mesmo que a altos custos.
Certa vez me encontrei com alguns casais brasileiros nesse centro de objetos do desejo e de gastos incontroláveis. Confessaram que, embora tendo chegado recentemente a Nova York, tinham passado os primeiros três dias na Macy’s – a partir da hora em que a loja começava a funcionar, até quando fechava. Alguém do grupo me disse: “Ficamos aqui sem ir nem mesmo à calçada para saber como está o tempo”. E se sentiam muito felizes. Parecia que, à proporção que se viam livres do incômodo (?) peso dos dólares, diminuíam suas preocupações e aumentavam suas endorfinas, suas aptidões de gozar a vida. Diziam: “Essa é a Nova York que nos interessa”. Tinham uma extensa relação de outras lojas famosas – como a Macy’s –, incluídas num itinerário de esbanjamento que representava uma incrível e espantosa injeção de dólares no mercado norte-americano. A justificativa dos casais era a de que economizavam no Brasil para gastar nos Estados Unidos. E, com isso, se divertiam muito e faziam bons negócios. A vida que pediram a Deus.
O governo dos Estados Unidos já reconhece que vai ser obrigado, por interesses econômicos, já que não o faz pela significação sócio-política do nosso país, a facilitar e simplificar a concessão de visto de entrada aos brasileiros. Nossos turistas despejam no país hoje de Obama e amanhã, talvez, dos republicanos Newt Gingrich, Mitt Romney ou Santorum, suas humildes poupanças ou os excedentes de suas privilegiadas fortunas. E, apesar disso, sofrem os rigores abusivos da burocracia diplomática – que chegam aos extremos da humilhação – para agendar entrevistas e fazer jus ao supervalorizado visto. A diplomacia do dólar demonstra que está sensibilizada para realizar, de imediato, mudanças que facilitem o ingresso dos nossos turistas. Mas ainda estamos longe da amistosidade que deveria existir em relação aos brasileiros e com que são generosamente tratados cidadãos de outros países “aliados” ou “amigos” dos Estados Unidos. Na verdade, nunca os líderes e governantes norte-americanos nos tributaram muito apreço.
Acho que é justo reconhecer que toda a “via crucis” imposta para a obtenção do visto é compensada pelo prazer que Nova York nos proporciona. Há de tudo para todos os gostos nesta que é a mais importante cidade americana e a menos americana – pela influência estrangeira, proveniente das mais distantes regiões do planeta – das cidades dos Estados Unidos. Afinal de contas, quem não se satisfaz em ser mero consumidor de artigos de luxo ou de tecnologia de ponta, dispõe das opções do melhor teatro, das excelentes casas de espetáculo, dos museus, dos movimentos artísticos de vanguarda que influenciam a cultura universal. O atentado de setembro de 2001 atingiu, com toda certeza, o que existe de melhor no sistema de vida norte-americano.
Apesar da admiração por Nova York, merece ser lembrado o humor de Fernando Sabino no livro de crônicas “A cidade vazia” (9.ª ed., Record). Observa Carlos Drummond de Andrade, no prefácio ao livro de Sabino: “Seu apartamento em Nova York tinha a estranha faculdade de fazer feliz aos que lá iam, talvez devido à certeza de não ficar.” A felicidade que nos causa Nova York talvez decorra também de idêntica sensação: a certeza de que estamos apenas visitando-a...

IVAN MACIEL DE ANDRADE
é advogado.



       


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