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MOSSORÓ (RN), QUINTA-FEIRA, 11/03/2010 (ATUALIZADO: 00:40hs)
 
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O dia da mulher e os exemplos
Ticiano Duarte

Dia 08, segunda-feira passada, comemorou-se o dia internacional da mulher. A data me traz lembranças das grandes mulheres que conheci. Uma delas marcou presença na minha juventude e mocidade, nos primeiros passos da vida – Sofia Arlinda Curcio de Andrade, minha avó que carinhosamente chamava de mãe Fia.
Filha de italiano, enviuvou aos vinte e poucos anos de idade. Até morrer, perto dos oitenta anos, usava luto. Vestia preto, a viuvez que nunca passou, vencendo os preconceitos do seu tempo ao assumir em plena mocidade os negócios que o marido deixara e na sua humildade, criando e educando seus 06 filhos, constituindo uma família unida e solidária que teve nela o exemplo maior de dignidade e luta pela sobrevivência. São os Andrade Duarte, Maciel de Andrade, Andrade Mesquita, Oliveira de Andrade, que se entrelaçaram com outras famílias e hoje formam uma descendência de sua liderança e comando que abriu caminhos aos que vieram depois, para honrar sua história de trabalho e amor.
Nestes últimos tempos tem um exemplo de uma outra mulher que desejo homenagear entre muitas outras que merecem menção especial. Trata-se de Maria da Penha Maia Fernandes, filha de um norte-riograndense que se radicou no Ceará, José da Penha Fernandes e neta do velho José do Patrocínio D´Araújo Fernandes, de Jardim do Seridó, uma das figuras mais ilustres da história daquela cidade, seu ex-prefeito e filho do não menos ilustre magistrado, Manuel José Fernandes. A luta de Maria da Penha é um libelo contra o crime e a impunidade. Sua vida uma saga, na qual, sobreviveu graças à sua fortaleza interior, o espírito forte e destemido, vencendo os mais desafiadores obstáculos, sempre em busca da justiça, para punir o ex-marido que a deixou paraplégica.
Ela narra o seu calvário, em “Sobrevivi... Posso contar”, editado em 1994, quando acordou de repente com um forte estampido dentro do quarto. Abrindo os olhos não viu ninguém. Tentou mexer-se, mas não conseguiu e imediatamente fechou os olhos e pensou somente numa coisa: “Meu Deus, o Marco me matou com um tiro”. Isso ocorreu no dia 29 de maio de 1983. Ao amanhecer Maria da Penha estava viva.
O criminoso que simulou um assalto à sua residência, que atirou no próprio braço para esconder o crime que premeditara, chama-se Marco A. H. Viveiro, hoje residindo definitivamente em Natal, exercendo o magistério superior, onde já atuara desde o período em que respondia ao processo criminal, diversificando suas atividades na promoção de cursos na Fundação José Augusto e assessorando a antiga FEBEM, desfrutando prestígio nos meios universitários e órgãos das administrações do Estado e do Município.
O processo que o levou à condenação, pena de reclusão de quinze anos, um terço da qual já foi cumprida, tramitou por muito tempo nas gavetas de alguns magistrados cearenses que aceitavam a procrastinação arquitetada pelos seus excelentes advogados, dois grandes criminalistas daquele estado.
Maria da Penha lutou sem desânimo e hoje dá nome a Lei que protege as mulheres vítimas da violência, como ela o foi, do comportamento machista e criminoso do marido, um colombiano naturalizado brasileiro, que planejou friamente o mais tortuoso e cruel caminho para a sua companheira indefesa. O Ministério Público, no seu pronunciamento nos autos, entre outras coisas afirma que a vítima pagou pelo “pecado que cometera de lhe ter estendido a mão amiga, quando necessitava e mitigando a fome e a sede”, relembrando que Herédia quando a conheceu passava por grandes dificuldades financeiras. E conclui nas suas razões que a vítima por sua vez permanece em sua cadeira de rodas, irreversivelmente paraplégica. “E só agradece a Deus o estímulo de reunir forças para continuar lutando e assistindo suas três filhas menores, de quem o indiciado sequer procura ter notícias”.
A história de Maria da Penha é de amor, coragem e muita resignação, lutando incessantemente em busca da justiça, que embora tardiamente chegou em parte, para trancafiar por algum tempo, o seu frio, cruel e insensível autor da violência que a mutilou, mas, não conseguiu destruir seu sonho de mulher e de mãe.


Ticiano Duarte
é jornalista.



       


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