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MOSSORÓ (RN), SÁBADO, 31/05/2008 (ATUALIZADO: 01:57hs)
 
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Passando a limpo
Nei Leandro de Castro

Com muita freqüência, os jornais da cidade dão notícias sobre a violência, a pobreza, o descaso que rondam o Loteamento José Sarney. Um jeito de mudar esse astral, que prejudica tantas pessoas de baixa renda, talvez seja mudar o nome do loteamento. Sugestões: Loteamento das Andorinhas, Loteamento Águas Claras, Loteamento Praieira dos Meus Amores, Loteamento Nuvens Azuis, Loteamento Luís Carlos Guimarães. O nome de José Sarney remete, de cara, ao seu mandato presidencial, quando por pouco o maranhense não levou à falência este país. Seu Plano Cruzado arruinou milhares de brasileiros.
A inflação, durante o seu desgoverno, chegou ao descalabro de 84% ao mês. A geração de hoje, que vive sob uma inflação abaixo de 1% ao mês, jamais poderá imaginar um pesadelo daqueles. Observe-se: no governo Sarney, alguém que ganhava 2.000 cruzados mensais teria, dentro de 30 dias, o valor aquisitivo do seu salário reduzido para 320 cruzados. Os preços dos supermercados eram corrigidos duas vezes por dia, por esquadrões de funcionários utilizando maquininhas de reajustar valores. José Sarney, que dá nome a um triste e infeliz loteamento na região metropolitana de Natal, nunca sofreu qualquer sanção pelo desastre que provocou no Brasil. Pelo contrário, vem se elegendo Senador desde aqueles tempos sombrios e cruéis e medíocres de sua administração. Vamos lá, Fernando Mineiro. Vamos usar os meios legais para tirar o nome desse incompetente e desastrado ex-presidente das nossas terras, da nossa gente.
Leio na internet um artigo de um médico chinês, Chen Yaoping, que informa: em seu país, a avareza é tratada como distúrbio. Distúrbio, sim, como qualquer outro, com um agravante: tem pouquíssimas possibilidades de cura. O mão-de-vaca, segundo dr. Chen, não se considera doente, acha-se a pessoa mais normal do mundo e suas atitudes mesquinhas são para ele um sinal de sabedoria, comedimento, juízo em perfeito estado. O médico diz que é muito fácil distinguir quem sofre do distúrbio da avareza, que só faz se agravar com o tempo. O sovina, por exemplo, pode passar a vida inteira sem freqüentar um bom restaurante, mesmo tendo dinheiro para freqüentá-lo todos os dias; jamais paga um lanche ou um cafezinho para alguém; prefere as viagens sem a companhia de quem quer que seja; sente-se agredido se alguém faz comentários sobre seus modos de avarento. Conclui o médico chinês: o sonho de qualquer avarento, seja na China ou em qualquer lugar do mundo, é poder, depois da morte, entrar no paraíso ou no inferno com os bolsos abarrotados de dinheiro tão amorosamente acumulado.
Volonté está se especializando em Charles Baudelaire. Um dia desses, no Beco da Lama, tomando uma cachacinha (que Baudelaire aprovaria), o poeta peripatético me deu lições de “Flores do Mal”. Ele se aprofundou, citou poemas, fez apologia da vida desregrada do poeta que muitos chamam de maldito e que ele enaltece como um santo, santo devasso e genial. O ambiente do Bar de Nazaré era bom, a meladinha tomou conta dos meus sentidos, o tira-gosto de picado de carneiro descia muito bem. Volonté exibiu muito conhecimento sobre o poeta francês. De repente, citou Baudelaire: “Eu sou o rei de um país chuvoso”, e foi embora sob o sol de incendiar flores do mal.

Nei Leandro de Castro
é escritor.



       




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