

Passando
a limpo
Nei Leandro de Castro
Com muita freqüência, os jornais da cidade dão
notícias sobre a violência, a pobreza, o descaso que
rondam o Loteamento José Sarney. Um jeito de mudar esse astral,
que prejudica tantas pessoas de baixa renda, talvez seja mudar o
nome do loteamento. Sugestões: Loteamento das Andorinhas,
Loteamento Águas Claras, Loteamento Praieira dos Meus Amores,
Loteamento Nuvens Azuis, Loteamento Luís Carlos Guimarães.
O nome de José Sarney remete, de cara, ao seu mandato presidencial,
quando por pouco o maranhense não levou à falência
este país. Seu Plano Cruzado arruinou milhares de brasileiros.
A inflação, durante o seu desgoverno, chegou ao descalabro
de 84% ao mês. A geração de hoje, que vive sob
uma inflação abaixo de 1% ao mês, jamais poderá
imaginar um pesadelo daqueles. Observe-se: no governo Sarney, alguém
que ganhava 2.000 cruzados mensais teria, dentro de 30 dias, o valor
aquisitivo do seu salário reduzido para 320 cruzados. Os
preços dos supermercados eram corrigidos duas vezes por dia,
por esquadrões de funcionários utilizando maquininhas
de reajustar valores. José Sarney, que dá nome a um
triste e infeliz loteamento na região metropolitana de Natal,
nunca sofreu qualquer sanção pelo desastre que provocou
no Brasil. Pelo contrário, vem se elegendo Senador desde
aqueles tempos sombrios e cruéis e medíocres de sua
administração. Vamos lá, Fernando Mineiro.
Vamos usar os meios legais para tirar o nome desse incompetente
e desastrado ex-presidente das nossas terras, da nossa gente.
Leio na internet um artigo de um médico chinês, Chen
Yaoping, que informa: em seu país, a avareza é tratada
como distúrbio. Distúrbio, sim, como qualquer outro,
com um agravante: tem pouquíssimas possibilidades de cura.
O mão-de-vaca, segundo dr. Chen, não se considera
doente, acha-se a pessoa mais normal do mundo e suas atitudes mesquinhas
são para ele um sinal de sabedoria, comedimento, juízo
em perfeito estado. O médico diz que é muito fácil
distinguir quem sofre do distúrbio da avareza, que só
faz se agravar com o tempo. O sovina, por exemplo, pode passar a
vida inteira sem freqüentar um bom restaurante, mesmo tendo
dinheiro para freqüentá-lo todos os dias; jamais paga
um lanche ou um cafezinho para alguém; prefere as viagens
sem a companhia de quem quer que seja; sente-se agredido se alguém
faz comentários sobre seus modos de avarento. Conclui o médico
chinês: o sonho de qualquer avarento, seja na China ou em
qualquer lugar do mundo, é poder, depois da morte, entrar
no paraíso ou no inferno com os bolsos abarrotados de dinheiro
tão amorosamente acumulado.
Volonté está se especializando em Charles Baudelaire.
Um dia desses, no Beco da Lama, tomando uma cachacinha (que Baudelaire
aprovaria), o poeta peripatético me deu lições
de Flores do Mal. Ele se aprofundou, citou poemas, fez
apologia da vida desregrada do poeta que muitos chamam de maldito
e que ele enaltece como um santo, santo devasso e genial. O ambiente
do Bar de Nazaré era bom, a meladinha tomou conta dos meus
sentidos, o tira-gosto de picado de carneiro descia muito bem. Volonté
exibiu muito conhecimento sobre o poeta francês. De repente,
citou Baudelaire: Eu sou o rei de um país chuvoso,
e foi embora sob o sol de incendiar flores do mal.
Nei
Leandro de Castro
é escritor.
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