

Pimenta
jogada por policial é caso de cassação
A denúncia
de que um oficial da polícia militar vinculado à guarda
da Governadoria e da residência da governadora Wilma de Faria
teria sido quem jogou uma bomba de pimenta rumo a novos adversários
da chefe do Executivo estadual, lançada pelo deputado federal
Rogério Marinho (PSB), precisa com urgência ser investigada
pelas autoridades competentes e se chegar à comprovação
deverá ser encarada como acontecimento capaz de levar até
à cassação de mandato. Dói constatar
a miopia que reinou no episódio, aquela reunião em
que integrantes do diretório municipal do PSB emitiriam uma
declaração juridicamente inócua para dizer
que a agremiação respalda a candidatura da deputada
federal Fátima Bezerra a prefeito de Natal pelo PT, realizada
na última terça-feira. Fazia muito tempo que uma reunião
política não atraía tantos repórteres
e principalmente blogueiros, que lhe emprestaram uma cobertura minuciosa
em termos da crônica social dos políticos. De minuto
a minuto os blogs, protagonizando uma rivalidade à margem
do desencontro de partidários, lançavam novas informações
na internet, e os jornalões da manhã da quarta-feira,
fugindo ao hábito de não mais incorporar a suas páginas
acontecimentos registrados depois das 20h, serviram ao leitor um
prato cheio de coisinhas. Nenhum noticiário, porém,
focalizou o grande crime perpetrado naquele lançamento de
pimenta nos olhos e narinas dos outros: ali estava a Polícia
Militar, o estamento que a rigor deveria proteger a população,
agredindo-a através de um oficial de alto coturno, desses
que todo dia têm acesso ao chefe do Governo Estadual. Nenhum
veículo enxergou a violência, que só veio a
público quase um dia depois, quando Rogério Marinho,
quase en passant, numa nota que encaminhou à
imprensa para se defender da acusação, levantada pelos
familiares e pela própria Wilma, de acirrar os ânimos
naquele evento, apontou o autor da façanha, melhor dizendo,
do crime. Quando tomei conhecimento da identificação
do autor da agressão, fiquei estarrecido. O episódio
trouxe à minha memória dois dos momentos mais negros
que a frágil democracia brasileira enfrentou nas últimas
décadas. Vi no fato de um oficial da polícia militar
lotado na residência do governador, ou da governadora, no
caso, sair de seu espaço normal de trabalho, sem farda, fazendo-se
confundir com civis, e levando adredemente preparada uma arma a
ser usada contra cidadãos que se propunham a um embate político,
e não criminoso, a reprodução dos famosos atentados
da Rua Toneleros, em 1954, e do Riocentro, em 1981. No oficial agressor
vi a triste figura de um assecla de Gregório Fortunato, o
chefe da guarda pessoal do presidente Getúlio Vargas, que
foi se postar nas proximidades da residência do jornalista
Carlos Lacerda para alvejá-lo na calada da noite a fim de
silenciá-lo em benefício dos criadores do mar de lama
que seria diagnosticado horas depois pelo chefe do executivo brasileiro.
E também vi o capitão Wilson Luís Alves Machado
e o sargento Guilherme Pereira do Rosário, escolados pela
escola de tortura e terrorismo de Estado em que se havia transformado
o DOI-CODI do Rio de Janeiro, como, de resto, os tentáculos
dessa sigla maldita espalhados por todo o país, entrando
no automóvel Puma que os levaria ao pavilhão do Riocentro
e levando consigo as bombas com que pretendiam matar muitos dos
participantes das festividades alusivas àquele Dia do Trabalho,
1º de maio de 1.981, porque a tragédia, quantas vidas
implicasse, reforçaria a retórica de chumbo da linha
dura encastelada acima dos quartéis. Não vi à
minha frente nenhum acólito de Rogério Marinho. Vi
a mesma população que foi atingida pelo tiro que feriu
Lacerda e pela bomba que explodiu precocemente no pátio de
estacionamento do Riocentro. Até porque não havia
por que enxergá-los, pois as vítimas do crime perpetrado
pelo policial não é um ou outro político ou
xirimbaba de político. O atingido foi a população.
Alguém dirá que se trata apenas de pimenta, e nem
quero abrir espaço para a famosa piada, pois quem sentiu
o ardor nos olhos aprendeu que não é refresco. Foi
pimenta porque bastou naquele momento. Do que mais teria lançado
mão a polícia militar, por intermédio daquele
oficial que protege a governadora quando melhor deveria proteger
a sociedade? Balas de revólver? Rifles daqueles modernos
que transitam entre mãos fardadas e de marginais à
paisana aqui como nas favelas do Rio de Janeiro? Metralhadoras?
Armas ainda mais letais? Sem ter imaginação que chegar
a algum ponto nessa direção, fico pensando no fato
concreto de que um oficial foi flagrado, fotografado e filmado ao
cometer a agressão, ao ser dirigido como candidato à
prisão a uma viatura policial estrategicamente posicionada
em frente à sede do diretório e ali mesmo, diante
de testemunhas, ser liberado, para voltar ao recinto da reunião
política, porque estava ali a serviço. Não
são os meus os olhos que a isto viram. A evolução
do fato está na internet, assim como já foi mostrada
em rede nacional, salvo engano através de um desses programas
policiais de grande audiência, parece-me que apresentado por
um paulista de sobrenome Datena. O simples fato de Rogério
citar como detalhe de pouca significância a atuação
criminosa do policial como detalhe da balbúrdia registrada
por seus acólitos e seus novos desafetos se soma ao encaminhamento
que sua assessoria de comunicação social emprestou
ao caso. Em lugar de uma grande denúncia na tribuna da Câmara
Federal, alertando o país para a restauração
de condutas análogas às da Rua Toneleros e do estacionamento
do Riocentro, como provavelmente faria o saudoso deputado federal
Djalma Marinho, o avô de Rogério, este optou por transformar
o crime político cometido pelo Estado numa ocorrência
de mera delegacia de polícia. Assim, apequenou e contribuiu
para o que os autores do crime mais gostariam que ocorresse: que
ninguém notasse a implantação, no Rio Grande
do Norte, do estado de terror pelas mãos do Estado, pelo
estamento policial desta unidade federativa. Custa mesmo crer que
o parlamentar conta com o assessoramento jurídico de seu
pai, o advogado Valério Marinho, mas talvez se tenha desviado
exatamente devido à influência deste: diferentemente
de Djalma, seu filho Valério, enquanto jurista, terminou
se especializando em acontecências policialescas. A referência
sociológica que lhe apensam noticiaristas, quando a ele se
referem, é exatamente esta: advogado criminalista. Versado
no Código Penal, no Código de Processo Penal e nos
diplomas que a eles se vinculam por vários caminhos. Não,
conterrâneos! A ser verdade a denúncia de Rogério,
mostrada fartamente lá fora e omitida pela imprensa do Rio
Grande do Norte, o crime que a polícia militar cometeu nesta
terça-feira de trevas no Rio Grande do Norte supera em muito
todas as acusações que associações de
cabos, sargentos e soldados vivem levantando de que a corporação
se deixou consumir pelo aparelhamento partidário. Ela teria
voltado ao tempo do ronca, quando soldado era chamado de macaco
e não passava de caçador de sertanejos que os paninguados
nominavam como cangaceiros a partir do momento em que se irresignavam
contra seu mando absoluto. Aí temos uma polícia de
cócoras que se deixa conduzir à pior das servidões.
O crime clama por uma aplicação altamente exemplar
de Justiça. Se ficar provado que o oficial acusado pelo deputado
se desviou de sua função primordial para violentar
o povo, ele deve ser alcançado pelo maior rigor das sanções
preconizadas pelo direito positivo, pelos princípios gerais
do direito e pelo que há de consuetudinário em termos
da proteção que o Estado precisa assegurar ao povo
sem nunca voltar-se contra este. E se se observar que o oficial
em questão não agiu por conta própria, o que
sugere a impunibilidade manifestava na hora, quando colegas puderam
imobilizá-lo e evitar que voltasse na mesma hora a ser um
inimigo potencial da sociedade, a punição deve se
impor sobre quantos o ajudaram neste descaminho, dando-lhe a ordem
ou deixando de exercer o munus vigilandi de que Wilma
gosta de falar em relação a outros. E se a culpa também
se alojar em detentor de mandato, não há como tergiversar:
o caso é de cassação de mandato e condução
à prisão dos agentes políticos e de todas as
autoridades que tingiram seus nomes e suas reputações
nesta página estúpida que algum desordeiro a soldo
do povo resolveu escrever e, pior, colocar em prática no
Rio Grande do Norte, todo este vítima dessa sanha imperdoável.
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