

SOL DE PAPEL
Notável
estilista, Sérgio Augusto fala da incontinência verbal
que ainda aí, à solta, tanto na linguagem de jornal
quanto em papéis oficiais. Incontinência, aqui, quer
dizer o despreparo lingüístico dos pedantes que se fecundam
dos modismos metidos a besta. E desce o pau, por exemplo, no a
nível de, que se emprega a torto e a direito, se fosse
jóia rara.
Na verdade, nunca jamais, julgo eu, se viu tanto aleijão
sintático, tanta enormidade vocabular ou semântica,
como queiram, quanto nos dias que correm. Faz-se a frase à
feição de um idioma parecido com o português,
e escolhendo-se a palavra, pura e simplesmente inventada, pela sedução
da sonoridade, se não mais pela (falsa) aparência erudita,
que não pelo valor semântico consagrado pela ciência
da linguagem e pela tradição do idioma. Brilho que
não passa de brilhareco.
O negócio é impressionar orelhas e mentes, ou vamos
dizer logo a palavra, arrebitar a admiração das massas
ignaras. No caso, se delicia, ajeitando o colarinho branco, a erudição
de fachada de edifício, vá o lugar-comum, como exemplo
tendo os chamados burocratas, estes para todos os gostos e desgostos.
O negócio, vê-se logo, é colocarem-se acima
do vulgo, se é que se colocam mesmo, pelo menos a olhos que
vêem.
Cá entre nós, também não consigo tolerar,
o palavreado que anda por aí fazendo escola, até nos
mesmos da inteligência e do saber. Seja, evento.
Não há mais seminários, reuniões, xous
(grafo assim mesmo, e por que não?), que agora tudo é
evento, e fico pasmado pelo assalto à mão armada,
ou mais civilizado, ainda não ter entrado no rol. Que é
isso, companheiros?
Com o mestre Ascendino Leite, que é mestre dos que o são,
não tenho dúvida, acho que evento é acontecimento
histórico, basta ir à etimologia da palavra. E ainda
também, como o mestre paraibano, de ouvido tão encharcado
com esse vocábulo, que virou modismo, criei-lhe verdadeira
ojeriza. Arrepia-me os nervos. Mas é isto mesmo: já
não se escreve o idioma português como antigamente.
Isto: impressionar os bocós.
FRASE
Derrubado por uma virose, sei lá, faz cinco dias, se escrevo
truncando frases, agora é que a coisa se complica. Desculpem.
EPIDEMIA
Se já não temos um Oswaldo Cruz, no que não
creio, é mandar trazer um da Europa ou dos Estados Unidos.
O que não é aceitável é um país,
e um país com evidentes sinais de crescimento econômico,
se deixe vencer por um mosquito. Numa palavra: Epidemia é
coisa de país de governo em condições primitivas.
SAÚDE
Falta dinheiro para a saúde? É só utilizar
honestamente o dinheiro da contribuição social.
LINGUAGEM
Acento diferencial.
Imprescindível no português. Tomemos a título
de exemplo este verso se não me engano de Lago Burnet: Gosto
de barro na manhã molhada. Fica a dúvida: gosto
é substantivo ou verbo? Sem dúvida nenhuma, o circunflexo
diferencial faria a percepção imediata da diferença
semântica. Da classe gramatical. Os acentos gráficos
não existem para enfeitar a língua, senão para
efeito de clareza. Trata-se de fatos fonéticos estudados,
há séculos, pelo filólogo português Duarte
Nunes Leão.
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