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MOSSORÓ (RN), QUARTA-FEIRA, 30/04/2008 (ATUALIZADO: 00:27hs)
 
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SOL DE PAPEL
Notável estilista, Sérgio Augusto fala da incontinência verbal que ainda aí, à solta, tanto na linguagem de jornal quanto em papéis oficiais. Incontinência, aqui, quer dizer o despreparo lingüístico dos pedantes que se fecundam dos modismos metidos a besta. E desce o pau, por exemplo, no “a nível de”, que se emprega a torto e a direito, se fosse jóia rara.
Na verdade, nunca jamais, julgo eu, se viu tanto aleijão sintático, tanta enormidade vocabular ou semântica, como queiram, quanto nos dias que correm. Faz-se a frase à feição de um idioma parecido com o português, e escolhendo-se a palavra, pura e simplesmente inventada, pela sedução da sonoridade, se não mais pela (falsa) aparência erudita, que não pelo valor semântico consagrado pela ciência da linguagem e pela tradição do idioma. Brilho que não passa de brilhareco.
O negócio é impressionar orelhas e mentes, ou vamos dizer logo a palavra, arrebitar a admiração das massas ignaras. No caso, se delicia, ajeitando o colarinho branco, a erudição de fachada de edifício, vá o lugar-comum, como exemplo tendo os chamados burocratas, estes para todos os gostos e desgostos. O negócio, vê-se logo, é colocarem-se acima do vulgo, se é que se colocam mesmo, pelo menos a olhos que vêem.
Cá entre nós, também não consigo tolerar, o palavreado que anda por aí fazendo escola, até nos mesmos da inteligência e do saber. Seja, “evento”. Não há mais seminários, reuniões, xous (grafo assim mesmo, e por que não?), que agora tudo é evento, e fico pasmado pelo assalto à mão armada, ou mais civilizado, ainda não ter entrado no rol. Que é isso, companheiros?
Com o mestre Ascendino Leite, que é mestre dos que o são, não tenho dúvida, acho que evento é acontecimento histórico, basta ir à etimologia da palavra. E ainda também, como o mestre paraibano, de ouvido tão encharcado com esse vocábulo, que virou modismo, criei-lhe verdadeira ojeriza. Arrepia-me os nervos. Mas é isto mesmo: já não se escreve o idioma português como antigamente. Isto: impressionar os bocós.

FRASE
Derrubado por uma virose, sei lá, faz cinco dias, se escrevo truncando frases, agora é que a coisa se complica. Desculpem.

EPIDEMIA
Se já não temos um Oswaldo Cruz, no que não creio, é mandar trazer um da Europa ou dos Estados Unidos. O que não é aceitável é um país, e um país com evidentes sinais de crescimento econômico, se deixe vencer por um mosquito. Numa palavra: Epidemia é coisa de país de governo em condições primitivas.

SAÚDE
Falta dinheiro para a saúde? É só utilizar honestamente o dinheiro da contribuição social.

LINGUAGEM
Acento diferencial. Imprescindível no português. Tomemos a título de exemplo este verso se não me engano de Lago Burnet: “Gosto de barro na manhã molhada.” Fica a dúvida: “gosto” é substantivo ou verbo? Sem dúvida nenhuma, o circunflexo diferencial faria a percepção imediata da diferença semântica. Da classe gramatical. Os acentos gráficos não existem para enfeitar a língua, senão para efeito de clareza. Trata-se de fatos fonéticos estudados, há séculos, pelo filólogo português Duarte Nunes Leão.



       




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