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MOSSORÓ (RN), QUARTA-FEIRA, 30/04/2008 (ATUALIZADO: 00:27hs)
 
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O Poeta da Morte I
Adalberto Targino

No último dia 20, Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos, nascido no longínquo 1884, na zona rural - Engenho "Pau D'arco" - da Vila de Cruz do Espírito Santo, atual município que na época pertencia a Sapé (PB), completaria, se vivo estivesse, exatos 124 anos, porém, como muitos vates de sua geração, morreu ainda muito jovem aos 30 anos, após uma atribulada existência.
Oriundo de berço esplêndido, com mãe descendente da burguesia rural e de pai abastado "Senhor de Engenho" e erudito bacharel em direito, tendo sido o seu preceptor e primeiro referencial das idéias libertárias de então, como do abolicionismo e republicanismo, com pitadas de Marx e Spenser.
Augusto dos Anjos é admirado e respeitado aqui e além das fronteiras brasileiras pela sua vasta cultura, originalidade, universalismo científico e pelo rigor sistemático dos seus versos, notadamente os sonetos.
Por alguns críticos mais severos foi cognominado de o "Poeta da Morte", "Doutor Tristeza", ante a sua explícita morbidez, desespero, timidez, instabilidade emocional, sensibilidade doentia, fobias, excentricidade. De fato, era sorumbático, taciturno, alma bizarra. Fez da poesia uma exteriorização de sua paranóia, um grito agonizante de sua triste trajetória terrena.
Na verdade, teve na vida um rosário de traumas e decepções fortes demais à sua extrema sensibilidade. Ainda no ventre materno, a dor da mãe que vira a morte prematura de um irmão estudante de medicina, refletira naturalmente no feto. O seu primeiro grande amor da adolescência por uma jovem plebéia fora decepado violentamente pelos seus pais. Enfrentou a decadência econômico-financeira de sua família (os engenhos tragados pelas usinas). Perdeu a única razão vocacional de sua vida ao ser demitido do emprego de professor de literatura do Liceu Paraibano por capricho e perseguição do governador do Estado, com quem se desentendera, fato ocorrido logo após seu casamento. Somaram-se a isso, a morte prematura do seu primeiro filho e , logo após, a tuberculose que lhe afligira durante anos seguidos.
Decepcionado com sua terra natal, vai lutar pela sua sobrevivência no Rio de Janeiro como professor de Português, Corografia, Cosmografia e Geografia do Brasil no Ginásio Nacional, considerado, na época, o mais importante educandário do país, que depois foi transformado no famoso e elitista Colégio Pedro II. No entanto, premido pela tuberculose e a insatisfação com a vida social do Rio de Janeiro, buscou e encontrou um ambiente acolhedor e saudável em Leopoldina (MG), em cuja cidade foi nomeado diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira. E nessa condição, meses depois, veio a falecer em 1º de julho de 1918.
Esse augusto poeta deixou a sua marca de originalidade do estilo, inteligência genial, inquietante personalidade, tensão meio sado-masoquista, introspecção contemplativa-revoltada, porém, sobretudo, um patrimônio nacional e espécime diferente das letras e da literatura brasileira.
Nasceu poeta, tendo escrito os primeiros versos com apenas sete anos e já aos 16, em plena adolescência, confessava-se magoado, atormentado e descrente. É tanto que com pouco mais de 15 anos publicou no Almanaque do Estado da Paraíba - seu primeiro acesso à imprensa - o soneto "Saudade", carregado de tristeza, sua característica personalíssima.
A sua poética, repito, é mórbida e ácida, entremeada por uma linguagem científica, com um rico vocabulário erudito e de raro uso. É ele, cada poema um pedaço de sua alma e de suas vísceras, ensimesmado, sonhador, sofrido, de espírito ferido , em frangalhos ...
Como a arte reflete o autor, as poesias anjinianas são expressões vivas do seu estado d'alma, razão porque transcrevo a seguir versos que são extratos do próprio poeta no seu extravasamento de angústia e dor:

"Bati nas pedras dum tormento rude / E a minha mágoa de hoje é tão intensa / Que eu penso que a alegria é uma doença / E a tristeza é minha única saúde."

"Eu , filho do carbono e do amoníaco, / Monstro de escuridão e rutilância, / Sofro desde a epigênesis da infância, / A influência má dos signos do zodíaco."

Adalberto Targino é presidente da Academia de Letras Jurídicas/RN e membro da Academia Brasileira de Ciências Morais e Políticas.



       




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