

O
Poeta da Morte I
Adalberto Targino
No último dia 20, Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos,
nascido no longínquo 1884, na zona rural - Engenho "Pau
D'arco" - da Vila de Cruz do Espírito Santo, atual município
que na época pertencia a Sapé (PB), completaria, se
vivo estivesse, exatos 124 anos, porém, como muitos vates
de sua geração, morreu ainda muito jovem aos 30 anos,
após uma atribulada existência.
Oriundo de berço esplêndido, com mãe descendente
da burguesia rural e de pai abastado "Senhor de Engenho"
e erudito bacharel em direito, tendo sido o seu preceptor e primeiro
referencial das idéias libertárias de então,
como do abolicionismo e republicanismo, com pitadas de Marx e Spenser.
Augusto dos Anjos é admirado e respeitado aqui e além
das fronteiras brasileiras pela sua vasta cultura, originalidade,
universalismo científico e pelo rigor sistemático
dos seus versos, notadamente os sonetos.
Por alguns críticos mais severos foi cognominado de o "Poeta
da Morte", "Doutor Tristeza", ante a sua explícita
morbidez, desespero, timidez, instabilidade emocional, sensibilidade
doentia, fobias, excentricidade. De fato, era sorumbático,
taciturno, alma bizarra. Fez da poesia uma exteriorização
de sua paranóia, um grito agonizante de sua triste trajetória
terrena.
Na verdade, teve na vida um rosário de traumas e decepções
fortes demais à sua extrema sensibilidade. Ainda no ventre
materno, a dor da mãe que vira a morte prematura de um irmão
estudante de medicina, refletira naturalmente no feto. O seu primeiro
grande amor da adolescência por uma jovem plebéia fora
decepado violentamente pelos seus pais. Enfrentou a decadência
econômico-financeira de sua família (os engenhos tragados
pelas usinas). Perdeu a única razão vocacional de
sua vida ao ser demitido do emprego de professor de literatura do
Liceu Paraibano por capricho e perseguição do governador
do Estado, com quem se desentendera, fato ocorrido logo após
seu casamento. Somaram-se a isso, a morte prematura do seu primeiro
filho e , logo após, a tuberculose que lhe afligira durante
anos seguidos.
Decepcionado com sua terra natal, vai lutar pela sua sobrevivência
no Rio de Janeiro como professor de Português, Corografia,
Cosmografia e Geografia do Brasil no Ginásio Nacional, considerado,
na época, o mais importante educandário do país,
que depois foi transformado no famoso e elitista Colégio
Pedro II. No entanto, premido pela tuberculose e a insatisfação
com a vida social do Rio de Janeiro, buscou e encontrou um ambiente
acolhedor e saudável em Leopoldina (MG), em cuja cidade foi
nomeado diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira. E nessa condição,
meses depois, veio a falecer em 1º de julho de 1918.
Esse augusto poeta deixou a sua marca de originalidade do estilo,
inteligência genial, inquietante personalidade, tensão
meio sado-masoquista, introspecção contemplativa-revoltada,
porém, sobretudo, um patrimônio nacional e espécime
diferente das letras e da literatura brasileira.
Nasceu poeta, tendo escrito os primeiros versos com apenas sete
anos e já aos 16, em plena adolescência, confessava-se
magoado, atormentado e descrente. É tanto que com pouco mais
de 15 anos publicou no Almanaque do Estado da Paraíba - seu
primeiro acesso à imprensa - o soneto "Saudade",
carregado de tristeza, sua característica personalíssima.
A sua poética, repito, é mórbida e ácida,
entremeada por uma linguagem científica, com um rico vocabulário
erudito e de raro uso. É ele, cada poema um pedaço
de sua alma e de suas vísceras, ensimesmado, sonhador, sofrido,
de espírito ferido , em frangalhos ...
Como a arte reflete o autor, as poesias anjinianas são expressões
vivas do seu estado d'alma, razão porque transcrevo a seguir
versos que são extratos do próprio poeta no seu extravasamento
de angústia e dor:
"Bati nas pedras dum tormento rude / E a minha mágoa
de hoje é tão intensa / Que eu penso que a alegria
é uma doença / E a tristeza é minha única
saúde."
"Eu , filho do carbono e do amoníaco, / Monstro de escuridão
e rutilância, / Sofro desde a epigênesis da infância,
/ A influência má dos signos do zodíaco."
Adalberto
Targino é presidente da Academia de Letras Jurídicas/RN
e membro da Academia Brasileira de Ciências Morais e Políticas.
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