

TRÁFICO
Mossoró
na rota do tráfico internacional
Andrey Ricardo
Da Redação
O tráfico de seres humanos é atualmente uma das práticas
ilícitas mais lucrativas em todo o mundo, ficando atrás
apenas da compra e venda de armas e drogas, e Mossoró é
uma das principais rotas do tráfico internacional na região
Nordeste do Brasil. Segundo um relatório do Escritório
de Prevenção e Combate ao Tráfico de Seres
Humanos e Assistência às Vítimas do Ceará,
a cidade possui duas casas noturnas ligadas às redes internacionais
de exploração sexual feminina.
Para a delegada Cândida Brum, titular da Delegacia de Capturas
de Fortaleza (CE) e que hoje é uma das principais autoridades
que combatem o tráfico de pessoas naquele Estado, Mossoró
está entre as principais cidades do NE que enviam e recebem
mulheres dos outros países, como também participam
do tráfico entre os Estados brasileiros. A conclusão
surgiu após várias operações coordenadas
pela delegada que resultaram no fechamento de casas noturnas no
Ceará. "Nós ouvíamos as mulheres e elas
citavam duas casas de Mossoró", esclarece a delegada
de Polícia Civil.
As investigações chegaram ao nome de duas pessoas.
Uma é conhecida como "Gabriel" e a outra como "Sineide".
Ainda de acordo com o que a Polícia apurou, na primeira casa
de prostituição, que fica na Rua Duodécimo
Rosado, 1085, bairro Nova Betânia, não há local
para a realização dos programas. Os clientes vão
para o local, escolhem qual mulher querem "comprar" e
vão para os motéis. Apesar do programa não
ser realizado no local, o dono da casa fica com cerca de 30% do
programa. É a tarifa média em Mossoró. "O
cafetão leva uma parte do dinheiro", enfatiza Cândida.
A outra casa noturna, que é comandada por uma mulher, fica
no bairro Aeroporto, atrás da Rodoviária Diran Amaral
Ramos. Diferentemente do que ocorre na outra casa, lá as
mulheres podem ficar com o cliente e fazer o programa. Há
quartos específicos para isso. A porcentagem cobrada pela
dona da casa também é cerca de 30%. "É
dessa maneira que eles ganham dinheiro com as garotas e é
justamente aí que está o crime. Ele não pode
ganhar dinheiro com a exploração sexual dela. Se ela
quiser vender o corpo, vá para a rua e se venda, sem ajuda
de ninguém", esclarece Brum.
Segundo a coordenadora do Escritório de Prevenção
no Ceará, Eline Marques, com o depoimento das garotas foi
possível traçar o mapa dentro da região Nordeste
e conhecer as principais cidades. Além de Mossoró,
Natal, Juazeiro do Norte e Fortaleza, ambas no Ceará, e Recife,
capital de Pernambuco, fazem parte da rota interestadual e alguns
pontos destas cidades têm ligação com as grandes
redes que atuam no exterior. "Isso é o que nossos levantamentos
mostram", ressalta Eline, que está produzindo um relatório
sobre o tráfico de pessoas no Nordeste desde 2005.
ROTATIVIDADE
Os cinco pontos detectados através do relatório sobre
o tráfico de mulheres na região Nordeste revela que
o tempo de permanência nas casas é pequeno. Elas passam
cerca de quatro meses em casa local e migram para outras casas.
É a lógica dos traficantes. Seus clientes querem novidades
e é por isso que a "mercadoria" deve ser trocada
depois de um período. "Elas vão para Natal, depois
para Mossoró. De lá, vão para Juazeiro, para
Recife e depois voltam a Mossoró. É assim que funciona",
destaca Eline Marques, acrescentando que a mudança pode depender
da movimentação na cidade.
PREÇOS NO NORDESTE
Existe uma média para o preço do programa em cada
cidade. Há uma série de fatores que podem influenciar
no valor que será exigido pela garota de programa ao cliente.
Em Mossoró, por exemplo, a média é R$ 150.
Esse valor é o mesmo em Natal, Juazeiro do Norte e Recife,
segundo o levantamento do Escritório de Prevenção
de Fortaleza, que tem o programa mais caro do Nordeste. Lá,
uma garota custa cerca de R$ 300. "Elas chegam a fazer R$ 2
mil por semana", diz Eline Marques, revelando que tem preços
menores. "Tem mulher que cobra até R$ 70", acrescenta.
Donos
das casas noturnas parecem não se preocupar com as autoridades
Os
dois proprietários das casas noturnas de Mossoró que
figuram no relatório do Escritório de Prevenção
do Ceará parecem não estarem muito preocupados com
a fiscalização. A casa utilizada por Gabriel fica
situada em uma rua de grande tráfego e a cerca de 50 metros
está a sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Mossoró.
A casa fica situada ainda entre duas delegacias: Segunda Distrital
e a Especializada na Defesa e Amparo da Mulher (DEAM). A reportagem
do DE FATO visitou o local na noite de sexta-feira passada e confirmou
a localização.
No portão da frente, um senhor aparentando ter mais de 60
anos identificou-se como o vigia. O repórter se aproximou
em um carro sem caracterização e perguntou se ali
funcionava "Gabriel". Ele respondeu positivamente. Ao
ser questionado se era o vigia do local, ele confirmou mais uma
vez. "Sou sim, senhor", respondeu o idoso. Segundo apurou
a reportagem, até bem pouco tempo atrás, um cabo da
Polícia Militar, lotado na Delegacia Especializada em Furtos
e Roubos (DEFUR) de Mossoró fazia a segurança do local.
Não foi confirmado se ele continua "trabalhando".
Já a outra casa, fica em um local mais reservado, mas nem
por isso deixa de ser um ambiente bastante conhecido na cidade,
assim como outros tradicionais que funcionam há vários
anos (estes não foram detectados pelo Escritório).
A casa tem um portão grande e fica localizada por trás
da Rodoviária Diran Ramos do Amaral, no bairro Aeroporto,
próximo ao Motel Atenas. A entrada é livre. Quem quiser
aquele tipo de serviço, basta chegar e entrar. Não
existem pessoas na portaria, como ocorre em Gabriel. Em cima funcionam
os apartamentos e na parte de baixo há um bar.
Vítimas
não percebem que são exploradas pelo tráfico
Apesar de estarem de acordo com a venda dos seus corpos, as leis
brasileiras consideram essas mulheres vítimas do tráfico
de seres humanos. Elas são utilizadas na exploração
sexual e outras pessoas são beneficiadas. "É
onde existe o crime. Se elas querem vender os seus corpos, façam
sem a ajuda de ninguém. As pessoas que lucram com essas garotas
são criminosas", defende a coordenadora regional do
Escritório de Proteção e Combate ao Tráfico
de Seres Humanos e Assistência às Vítimas no
Estado do Ceará, Eline Marques, que trabalha neste ramo há
vários anos.
Como não percebem que estão sendo exploradas, as mulheres
acabam dificultando o trabalho das autoridades. "Elas tratam
a coisa de uma outra maneira. Elas não se sentem vítimas
e nem acham que são prostitutas. Quando recebem uma proposta
para ir pro exterior, elas se sentem privilegiadas", esclarece.
Ela destaca que os agenciadores também não têm
consciência de que estão prejudicando as garotas, quando
as convidam para se prostituir. "Na cabeça deles, eles
estão ajudando as meninas", explica Eline. "É
um trabalho difícil que requer paciência", complementa.
No Rio Grande do Norte não existe ainda um Escritório
de Prevenção em funcionamento. O mais perto do RN
fica em Fortaleza, mas quem quiser ajudar no combate ao tráfico
de seres humanos pode entrar em contato com Eline através
dos telefones: (85)3454 - 2199 e 8768 - 8819. "Quem quiser
ajudar, pode ligar para esses dois números e não precisa
ter medo porque nós não vamos revelar seu nome",
esclarece Eline Marques. Se preferir, a denunciante pode ligar para
o *100, que é um número nacional que recebe denúncias
sobre o tráfico de seres humanos no Brasil.
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