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MOSSORÓ (RN), DOMINGO, 29/06/2008 (ATUALIZADO: 18:27hs)
 
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» Casas noturnas parecem não se preocupar com as autoridades


TRÁFICO
Mossoró na rota do tráfico internacional
Andrey Ricardo
Da Redação

O tráfico de seres humanos é atualmente uma das práticas ilícitas mais lucrativas em todo o mundo, ficando atrás apenas da compra e venda de armas e drogas, e Mossoró é uma das principais rotas do tráfico internacional na região Nordeste do Brasil. Segundo um relatório do Escritório de Prevenção e Combate ao Tráfico de Seres Humanos e Assistência às Vítimas do Ceará, a cidade possui duas casas noturnas ligadas às redes internacionais de exploração sexual feminina.
Para a delegada Cândida Brum, titular da Delegacia de Capturas de Fortaleza (CE) e que hoje é uma das principais autoridades que combatem o tráfico de pessoas naquele Estado, Mossoró está entre as principais cidades do NE que enviam e recebem mulheres dos outros países, como também participam do tráfico entre os Estados brasileiros. A conclusão surgiu após várias operações coordenadas pela delegada que resultaram no fechamento de casas noturnas no Ceará. "Nós ouvíamos as mulheres e elas citavam duas casas de Mossoró", esclarece a delegada de Polícia Civil.
As investigações chegaram ao nome de duas pessoas. Uma é conhecida como "Gabriel" e a outra como "Sineide". Ainda de acordo com o que a Polícia apurou, na primeira casa de prostituição, que fica na Rua Duodécimo Rosado, 1085, bairro Nova Betânia, não há local para a realização dos programas. Os clientes vão para o local, escolhem qual mulher querem "comprar" e vão para os motéis. Apesar do programa não ser realizado no local, o dono da casa fica com cerca de 30% do programa. É a tarifa média em Mossoró. "O cafetão leva uma parte do dinheiro", enfatiza Cândida.
A outra casa noturna, que é comandada por uma mulher, fica no bairro Aeroporto, atrás da Rodoviária Diran Amaral Ramos. Diferentemente do que ocorre na outra casa, lá as mulheres podem ficar com o cliente e fazer o programa. Há quartos específicos para isso. A porcentagem cobrada pela dona da casa também é cerca de 30%. "É dessa maneira que eles ganham dinheiro com as garotas e é justamente aí que está o crime. Ele não pode ganhar dinheiro com a exploração sexual dela. Se ela quiser vender o corpo, vá para a rua e se venda, sem ajuda de ninguém", esclarece Brum.
Segundo a coordenadora do Escritório de Prevenção no Ceará, Eline Marques, com o depoimento das garotas foi possível traçar o mapa dentro da região Nordeste e conhecer as principais cidades. Além de Mossoró, Natal, Juazeiro do Norte e Fortaleza, ambas no Ceará, e Recife, capital de Pernambuco, fazem parte da rota interestadual e alguns pontos destas cidades têm ligação com as grandes redes que atuam no exterior. "Isso é o que nossos levantamentos mostram", ressalta Eline, que está produzindo um relatório sobre o tráfico de pessoas no Nordeste desde 2005.

ROTATIVIDADE
Os cinco pontos detectados através do relatório sobre o tráfico de mulheres na região Nordeste revela que o tempo de permanência nas casas é pequeno. Elas passam cerca de quatro meses em casa local e migram para outras casas. É a lógica dos traficantes. Seus clientes querem novidades e é por isso que a "mercadoria" deve ser trocada depois de um período. "Elas vão para Natal, depois para Mossoró. De lá, vão para Juazeiro, para Recife e depois voltam a Mossoró. É assim que funciona", destaca Eline Marques, acrescentando que a mudança pode depender da movimentação na cidade.

PREÇOS NO NORDESTE
Existe uma média para o preço do programa em cada cidade. Há uma série de fatores que podem influenciar no valor que será exigido pela garota de programa ao cliente. Em Mossoró, por exemplo, a média é R$ 150. Esse valor é o mesmo em Natal, Juazeiro do Norte e Recife, segundo o levantamento do Escritório de Prevenção de Fortaleza, que tem o programa mais caro do Nordeste. Lá, uma garota custa cerca de R$ 300. "Elas chegam a fazer R$ 2 mil por semana", diz Eline Marques, revelando que tem preços menores. "Tem mulher que cobra até R$ 70", acrescenta.

Donos das casas noturnas parecem não se preocupar com as autoridades
Os dois proprietários das casas noturnas de Mossoró que figuram no relatório do Escritório de Prevenção do Ceará parecem não estarem muito preocupados com a fiscalização. A casa utilizada por Gabriel fica situada em uma rua de grande tráfego e a cerca de 50 metros está a sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Mossoró. A casa fica situada ainda entre duas delegacias: Segunda Distrital e a Especializada na Defesa e Amparo da Mulher (DEAM). A reportagem do DE FATO visitou o local na noite de sexta-feira passada e confirmou a localização.
No portão da frente, um senhor aparentando ter mais de 60 anos identificou-se como o vigia. O repórter se aproximou em um carro sem caracterização e perguntou se ali funcionava "Gabriel". Ele respondeu positivamente. Ao ser questionado se era o vigia do local, ele confirmou mais uma vez. "Sou sim, senhor", respondeu o idoso. Segundo apurou a reportagem, até bem pouco tempo atrás, um cabo da Polícia Militar, lotado na Delegacia Especializada em Furtos e Roubos (DEFUR) de Mossoró fazia a segurança do local. Não foi confirmado se ele continua "trabalhando".
Já a outra casa, fica em um local mais reservado, mas nem por isso deixa de ser um ambiente bastante conhecido na cidade, assim como outros tradicionais que funcionam há vários anos (estes não foram detectados pelo Escritório). A casa tem um portão grande e fica localizada por trás da Rodoviária Diran Ramos do Amaral, no bairro Aeroporto, próximo ao Motel Atenas. A entrada é livre. Quem quiser aquele tipo de serviço, basta chegar e entrar. Não existem pessoas na portaria, como ocorre em Gabriel. Em cima funcionam os apartamentos e na parte de baixo há um bar.

Vítimas não percebem que são exploradas pelo tráfico
Apesar de estarem de acordo com a venda dos seus corpos, as leis brasileiras consideram essas mulheres vítimas do tráfico de seres humanos. Elas são utilizadas na exploração sexual e outras pessoas são beneficiadas. "É onde existe o crime. Se elas querem vender os seus corpos, façam sem a ajuda de ninguém. As pessoas que lucram com essas garotas são criminosas", defende a coordenadora regional do Escritório de Proteção e Combate ao Tráfico de Seres Humanos e Assistência às Vítimas no Estado do Ceará, Eline Marques, que trabalha neste ramo há vários anos.
Como não percebem que estão sendo exploradas, as mulheres acabam dificultando o trabalho das autoridades. "Elas tratam a coisa de uma outra maneira. Elas não se sentem vítimas e nem acham que são prostitutas. Quando recebem uma proposta para ir pro exterior, elas se sentem privilegiadas", esclarece. Ela destaca que os agenciadores também não têm consciência de que estão prejudicando as garotas, quando as convidam para se prostituir. "Na cabeça deles, eles estão ajudando as meninas", explica Eline. "É um trabalho difícil que requer paciência", complementa.
No Rio Grande do Norte não existe ainda um Escritório de Prevenção em funcionamento. O mais perto do RN fica em Fortaleza, mas quem quiser ajudar no combate ao tráfico de seres humanos pode entrar em contato com Eline através dos telefones: (85)3454 - 2199 e 8768 - 8819. "Quem quiser ajudar, pode ligar para esses dois números e não precisa ter medo porque nós não vamos revelar seu nome", esclarece Eline Marques. Se preferir, a denunciante pode ligar para o *100, que é um número nacional que recebe denúncias sobre o tráfico de seres humanos no Brasil.



       




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