

UMA ESTRELA MORTA
Sentada
no meio-fio da rua, num vestido que nas medidas era de outro corpo,
o olhar perdido no mundo, a meninota era mais que certamente a imagem
do abandono. Devia ter seus treze anos, mas parecia ter mais, o
sofrimento tem o dom de falsificar a idade das pessoas que lhe caem
nas garras. Não sei no que estaria a pensar ali sozinha,
mas imagina-se.
A verdade é que não tinha jeito de quem ali estava
esperando algum homem, como é comum nas da sua idade pelas
condições de vida, hoje. A experiência que me
deu a vida das tragédias humanas, porém, de logo me
aguçou o faro do sofrimento que lhe empanava a fisionomia.
E fiquei por ali sem saber se ia ou não tomar uma cerveja
no bar da esquina, aquela hora ainda vazio.
Mas acabei entrando no bar com a intenção não
realizada de tomar minha cerveja e, como tinha algum conhecimento
com o dono, defendi logo uma cadeira à mesa do lado da porta
da rua. O dono do bar, muito agradável, veio logo ter comigo,
puxou a cadeira do outro lado da mesa, à minha frente, começou
a conversa, não sem antes perguntar por que eu não
tinha aparecido mais.
O diabo da labirintite, mais feito carrossel ultimamente, expliquei-lhe.
Entrara só para descansar as pernas das andanças do
dia, já ia no rumo de casa. Dando uma de médico, tendência
natural de todo mundo, ele o dono do bar foi logo me prescrevendo
um chá milagroso, nem me lembro mais de quê, e eu me
pus a fingir-me interessado na sua medicina alternativa.
Já não me lembrava mais daquela meninota como perdida
na cidade, ar de abandono, quando ele, apontando para ela, contou-me
sua (dela) história de vida. Nisto foram chegando os habitantes
noturnos do bar, meus conhecidos com certa intimidade, e aproveitei-me
para uma cota em favor dela. O dono do bar foi entregar-lhe a apurado,
em nome de todos, e ela se foi, noite afora, estrela morta de repente
acesa.
SONETO
Num país de nostálgicos nevoeiros, / de paisagens
em lenta mutação, / larguei de repente o meu bordão...
/ E hão de pasmar os outros caminheiros!
E andando como a lua nos outeiros / ao encontro da lenta procissão,
/ pousarias a mão na minha mão... / enamorados sempre...
e sempre companheiros!
E diante de tão doces aparências / quem diria que em
duas existências / nos separava o mundo - anos inteiros?
E, sentados à sombra de uns olmeiros, / trocaríamos
falsas confidências... / cheias de sentimentos verdadeiros!
(Soneto de Mário
Quintana)
LINGUAGEM
INCONTINENTE. INCONTINENTI.
Leitor do Jornal de Fato quer se existem no português os dois
vocábulos e, no caso oposto, qual deles é o correto.
Existem, sim. Só que se empregam em situações
diferentes. O primeiro significa "imoderado", "falto
de continência." O segundo quer dizer "imediatamente",
"sem demora." No cotidiano observamos que as pessoas "incontinentes"
são "incontinenti" prejudicadas por suas atitudes
precipitadas.
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