

Mesmos
erros, mesmas razões
Ticiano Duarte
Leio com amargura certos conceitos, certos julgamentos históricos,
da parte de quem não parece conhecer o Brasil, nem os seus
homens. Quando as decepções me tomam conta, recorro
aos livros e aos meus autores prediletos. Rememoro os fatos antigos,
comparando-os com os de hoje, de tanta mediocridade.
Em 1968, Carlos Lacerda desiludido com a revolução
que dizia pretender respeitar a democracia, livrando o povo da ameaça
da ditadura sindicalista dos pelegos, antes da sua cassação,
preso, enviou uma carta à mulher e seus filhos. É
um documento inesquecível de protesto contra a violência
que estava sofrendo. As novas gerações precisam conhecer
o teor da missiva que consta do livro, Minhas cartas e a dos
outros, 1º e 2º volumes, editora UNB, 2005.
Ele estava recolhido no quartel da PM, na Rua Frei Caneca, no Rio
e o escrito está datado de 22 de dezembro de 1968: Para
minha mulher e meus filhos. Uma coisa procurou enfatizar:
Terão de me ouvir, ou me matar. Preso há
seis dias, não se alimentava, apenas água para
aumentar a resistência à inação.
Lacerda acentua quanto era duro para ele submeter sua família
àquela tortura. Os exames já acusavam acidose, albumina
e os primeiros sinais de nefrite, mas, ele insistia que neste
país de farsas e imposturas, uma decisão séria
- que será levada até ao fim. E adiantou: Por
isto, vocês sabem quanto quero bem à vida, à
vida que vocês me dão, ainda mais grato me deixam pela
compreensão e pela resignação com que suportam
esta decisão.
A carta é escrita por um homem de talento e sensibilidade
(mesmo os que o odiavam tinham e têm consciência dessas
qualidades) e tem momentos de grandeza, num instante em que ele
justifica o gesto de revolta: Ela é tomada por vocês
e por todos; até mesmo pelos que não sabem de nada
e pelos que, sabendo fingem que não sabem.
O momento alto da missiva, está nesta afirmação:
Sempre disse aos militares: no dia em que vocês cometerem
contra o povo brasileiro o crime de levar mais uma vez este Brasil,
ao domínio de um grupo de ambiciosos, antidemocrático
e, como vocês sabem muito bem ainda por cima inepto e tão
corrupto quanto os que mais o sejam, terão de me ouvir ou
me matar.
Ele confessa que não pode lutar pelas armas. E se já
não posso defender este povo, mãe e filhos como vocês,
pela palavra, que é minha arma, pela ação que
é a minha vocação, defendo-o como posso, com
a única que me resta: a minha vida.
Ah! O heroísmo de antigamente, praticado às vezes
de forma quixotesca, mas, de acendrado amor ao país e às
instituições republicanas. Não o heroísmo
de fancaria, tão soletrado hoje, na defesa dos apetites pessoais
e dos interesses espúrios, de vaidades, de mandonismo.
Carlos Lacerda afirmou se morresse dessa aventura, que ele julgava
pelo bem do país, malditos sejam para sempre, os ladrões
do voto do povo, os assassinos da liberdade. Um exemplo que
ficou na história, dos tempos duros, de chumbo.
Carlos Lacerda combateu governos por mais de trinta anos, governou
cinco, atuando como parlamentar durante seis anos, escrevendo mais
de cinco mil artigos políticos. Descrente e ao mesmo tempo
apaixonado pelas suas lutas, afirmava que os erros no Brasil são
substancialmente (e a história se repete) e decorrem, fundamentalmente,
das mesmas e poucas razões.
Quando, na Frente Ampla aliou-se aos seus adversários Juscelino
e Jango, escreveu ao primeiro: Curioso é que neste
país, haja gente empenhada em não entender que os
homens públicos não guardem rancores nem os colocam
acima do interesse público, em cujo nome divergem e lutam
uns contra os outros.
Ticiano
Duarte é jornalista.
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