..:: JORNAL DE FATO ::.. JORNALISMO DE VERDADE
MOSSORÓ (RN), QUINTA-FEIRA, 29/05/2008 (ATUALIZADO: 01:37hs)
 
Untitled Document



Mesmos erros, mesmas razões
Ticiano Duarte

Leio com amargura certos conceitos, certos julgamentos históricos, da parte de quem não parece conhecer o Brasil, nem os seus homens. Quando as decepções me tomam conta, recorro aos livros e aos meus autores prediletos. Rememoro os fatos antigos, comparando-os com os de hoje, de tanta mediocridade.
Em 1968, Carlos Lacerda desiludido com a “revolução” que dizia pretender respeitar a democracia, livrando o povo da ameaça da ditadura sindicalista dos pelegos, antes da sua cassação, preso, enviou uma carta à mulher e seus filhos. É um documento inesquecível de protesto contra a violência que estava sofrendo. As novas gerações precisam conhecer o teor da missiva que consta do livro, “Minhas cartas e a dos outros”, 1º e 2º volumes, editora UNB, 2005.
Ele estava recolhido no quartel da PM, na Rua Frei Caneca, no Rio e o escrito está datado de 22 de dezembro de 1968: “Para minha mulher e meus filhos”. Uma coisa procurou enfatizar: “Terão de me ouvir, ou me matar”. Preso há seis dias, não se alimentava, “apenas água para aumentar a resistência à inação”. Lacerda acentua quanto era duro para ele submeter sua família àquela tortura. Os exames já acusavam acidose, albumina e os primeiros sinais de nefrite, mas, ele insistia que “neste país de farsas e imposturas, uma decisão séria - que será levada até ao fim”. E adiantou: “Por isto, vocês sabem quanto quero bem à vida, à vida que vocês me dão, ainda mais grato me deixam pela compreensão e pela resignação com que suportam esta decisão”.
A carta é escrita por um homem de talento e sensibilidade (mesmo os que o odiavam tinham e têm consciência dessas qualidades) e tem momentos de grandeza, num instante em que ele justifica o gesto de revolta: “Ela é tomada por vocês e por todos; até mesmo pelos que não sabem de nada e pelos que, sabendo fingem que não sabem”.
O momento alto da missiva, está nesta afirmação: “Sempre disse aos militares: no dia em que vocês cometerem contra o povo brasileiro o crime de levar mais uma vez este Brasil, ao domínio de um grupo de ambiciosos, antidemocrático e, como vocês sabem muito bem ainda por cima inepto e tão corrupto quanto os que mais o sejam, terão de me ouvir ou me matar”.
Ele confessa que não pode lutar pelas armas. “E se já não posso defender este povo, mãe e filhos como vocês, pela palavra, que é minha arma, pela ação que é a minha vocação, defendo-o como posso, com a única que me resta: a minha vida”.
Ah! O heroísmo de antigamente, praticado às vezes de forma quixotesca, mas, de acendrado amor ao país e às instituições republicanas. Não o “heroísmo” de fancaria, tão soletrado hoje, na defesa dos apetites pessoais e dos interesses espúrios, de vaidades, de mandonismo.
Carlos Lacerda afirmou se morresse dessa aventura, que ele julgava pelo bem do país, malditos “sejam para sempre, os ladrões do voto do povo, os assassinos da liberdade”. Um exemplo que ficou na história, dos tempos duros, de chumbo.
Carlos Lacerda combateu governos por mais de trinta anos, governou cinco, atuando como parlamentar durante seis anos, escrevendo mais de cinco mil artigos políticos. Descrente e ao mesmo tempo apaixonado pelas suas lutas, afirmava que os erros no Brasil são substancialmente (e a história se repete) e decorrem, fundamentalmente, das mesmas e poucas razões.
Quando, na Frente Ampla aliou-se aos seus adversários Juscelino e Jango, escreveu ao primeiro: “Curioso é que neste país, haja gente empenhada em não entender que os homens públicos não guardem rancores nem os colocam acima do interesse público, em cujo nome divergem e lutam uns contra os outros”.

Ticiano Duarte é jornalista.



       




Todos os direitos reservados à Santos Editora de Jornais Ltda.
É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo deste site para fins comerciais sem prévia autorização.