

Barco
furado
O maruim
mordendo-lhe os cambitos, Gaíba fazia as palhas de caranguejo.
Tempo ruim de caranguejo, o apurado só dera duas palhas.
O sol já subia o mangue, era tempo de já ter chagado
à cidade pra vender no pátio do mercado. Era domingo
de eleição, recebera uma roupa nova, não tinha
como ir votar, do líder comunitário do seu bairro
pobre, que em todo ano de eleição vendia a boiada,
como se diz. E não via a hora de enfiar-se na roupa nova,
comprada no vendedor de Caruaru que quase todo domingo vinha vender
confecções na feira, arrumadas sobre uma lona estirada
no chão. Coitado, não passava de uma bermuda velha
rasgada na bunda, uma camiseta se rasgando nas costas. Porca vida.
No encerramento dos comícios ficara de boca aberta, babando,
com a fala do seu candidato a deputado, que era o candidato do líder
comunitário, Seu Gouveia, o homem mais sabido do bairro.
O deputado, esbaforido de indignação com a pobreza
a descoberto das primeiras necessidades da vida, prometia dias melhores,
dos altos dos seus três mandatos seguidos. Mais de vinte anos
de eleitor, Gaíba seguia os candidatos de Seu Gouveia, que
lhe tirara o título de eleitor.
Vendidas numa só mão as duas palhas de caranguejo,
Gaíba saiu direto no rumo de casa, que nem casa é,
mas um arranjo de pau a pique, paredes duvidosas, coberta de palha
de coqueiro, retirada da rua, lá no fim, um bom pedaço
de chão. Doido pra se enfatiotar na roupa nova, meter nos
pés o sapato velho mas ainda bem aprumado, também
paga de Seu Gouveia pelo seu voto. Raspou a água do pote,
tomou um banho, que tinha de ser mesmo dentro de casa, encadernou-se
com a roupa nova, camisa listrada de algodão e calça
de brim. Um luxo.
Nem trocou de roupa, Seu Gouveia chegou num jeep velho que possuía
pra carregar seus eleitores, o pessoal do bairro. Uma aposentadoria
mais ou menos. Casa boa mandada construir por políticos,
Seu Gouveia vivia disso. Cabo eleitoral de profissão. Tinha
na ponta da língua a linguagem dos políticos e era
jeitoso. O homem sabido do bairro.
Gaíba aboletou-se no banco traseiro, todo satisfeito de si
pela roupa nova, e os seus olhos eram como se o mundo lhe voltasse
os olhos admirados. De resto, queria logo votar no deputado de Seu
Gouveia, prometera melhores dias pela oportunidade de emprego para
todos, direito à medicina, à escola enfim a vida a
coberto das primeiras necessidades da vida, dos altos vigilantes
dos seus três mandatos de deputado. Nos seus vinte anos de
eleitor, Gaíba nunca jamais saíra de casa pra votar
com tanta esperança.
Gaíba, com os outros, foi despejado na porta da secção
eleitoral. A rua regurgitava de gente, indo e vindo. Vou primeiro
andar um pouco pelo meio do povo, tem muito tempo pra votar. Deu
com os olhos numa rodinha de gente, ao centro um homem de óculos
escuros, bem vestido, dizia o diabo dos políticos, não
sem lamentar a cegueira das massas ignorantes que se deixam vender,
um traste qualquer sem valor nenhum, e era por isso que o Brasil
não ia pra frente. O povão era tão cego que
não divisava, pela cerca de vara da política, a maldade
contra o povo, e tão sem memória que tomava como coisa
nova as velhas promessas do costume. E foi indo.
Gaíba ali no meio, a boca aberta, os olhos vidrados no homem,
que falava bonito como o deputado, só que em rumos diferentes.
Olhou-se na roupa nova, como quis ver o rosto no bico do sapato
engraxado na véspera, seguiu com eles em redor, como se lhe
soubessem tudo dado a troco do seu voto, baixou os olhos, como envergonhado,
aquilo no seu juízo, mas... foi votar.
|