

Ainda
a briga por alimentos
Antoir Mendes Santos
Ainda repercute nos principais jornais do país, a insistência
dos países ricos em culpar a produção dos biocombustíveis,
incluindo o nosso, como sendo a causa pela inflação
nos preços dos alimentos no mundo. Em seu artigo na Folha,
o jornalista Vinicius Torres, escreve: O Fundo Monetário
Internacional - FMI incompetente como zelador da finança
mundial agora diz que produzir biocombustíveis é um
problema moral, pois, fabricar álcool e biodisel
esfomeia ainda mais os famélicos da terra. Na verdade,
a produção do álcool e do biodiesel brasileiros
que alimentam, respectivamente, os automóveis com a tecnologia
Flex e a mistura com o diesel, não tem nada haver com a alta
nos preços dos alimentos, haja vista que esses produtos não
conflitam com as terras onde se plantam milho, arroz, soja, feijão,
trigo, ou seja, no Brasil não temos o conflito de interesse
entre a geração de energia e a produção
de alimentos. Pelo contrário !
As estimativas da Conab- Companhia Nacional de Abastecimento para
a área plantada com grãos sinalizam para um crescimento
ligeiramente superior em relação à safra passada;
a área com arroz deverá crescer 1,3%, possibilitando
atingir 11,9milhões/toneladas; o milho crescerá 3,0%,
atingindo 56,2 milhões/ton; a soja irá crescer 2,3%
elevando a produção para 59,9 milhões/ton.
e o feijão terá um crescimento de área estimado
em 6,3%, permitindo obter 3,4 milhões de toneladas. Os números
mostram que num país que dispõe de 850 milhões
de hectares de terra, dos quais a metade são áreas
agricultáveis, não há porque falar em substituição
de culturas para a produção de biocombustíveis.
Com relação à cana-de-açucar, matéria-prima
para o etanol, as expectativas da Única - União da
Indústria de Cana-de-Açucar são para um crescimento
da produção da ordem de 16%, em relação
à safra anterior, sinalizando para uma safra recorde de 498,1
milhões de toneladas. Do total da cana a ser moída,
58% deverão ir para a produção de álcool,
perfazendo 24,3 bilhões de litros (dos quais 3,9 bilhões
serão exportados) o equivalente a um crescimento de 19% em
comparação a 2007/08. Assim, nem o etanol colide com
os grãos e vice-versa.
Esse desempenho da indústria sucroalcooleira está
referido à forte atração exercida pelo combustível
ecologicamente correto, o que atraiu novos investidores para o setor.
Só este ano, 32 novas usinas entraram em operação
na região Centro-Sul, totalizando 84 nos últimos quatro
anos. Na opinião dos especialistas, a entrada dessas novas
unidades produtivas gera duas conseqüências: i) a safra
terá matéria-prima mais jovem, com a média
de vida da cana a ser cortada em torno de três anos; e ii)
um aumento na mecanização da cultura, cuja colheita
mecanizada deverá superar 50% da área a ser colhida.
Em que pese o excelente desempenho dos nossos combustíveis
oriundos do campo, dois aspectos merecem registro: a) a perda da
hegemonia da tradicional agroindústria canavieira nordestina
para o Centro-Sul, significando menos recursos investidos, empregos
gerados e impostos arrecadados na região: vale dizer, dentre
as 32 usinas instaladas no país neste ano, 13 foram em São
Paulo, 10 em Goiás, 4 em Minas e 1 no Paraná; e b)
cresce a perspectiva de desemprego para o trabalhador utilizado
na colheita manual, pela aumento da mecanização no
campo.
A realidade brasileira demonstra que não nos cabe a carapuça
que os ricos tentam impor aos países em desenvolvimento.
A fome e a atual elevação dos preços dos alimentos
é muito mais função da intransigência
dos ricos, do que da boa vontade dos emergentes.
Antoir
Mendes Santos
é Economista.
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