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MOSSORÓ (RN), TERÇA-FEIRA, 29/04/2008 (ATUALIZADO: 00:27hs)
 
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Ainda a briga por alimentos
Antoir Mendes Santos

Ainda repercute nos principais jornais do país, a insistência dos países ricos em culpar a produção dos biocombustíveis, incluindo o nosso, como sendo a causa pela inflação nos preços dos alimentos no mundo. Em seu artigo na Folha, o jornalista Vinicius Torres, escreve: “O Fundo Monetário Internacional - FMI incompetente como zelador da finança mundial agora diz que produzir biocombustíveis é um ‘problema moral’, pois, fabricar álcool e biodisel esfomeia ainda mais os famélicos da terra”. Na verdade, a produção do álcool e do biodiesel brasileiros que alimentam, respectivamente, os automóveis com a tecnologia Flex e a mistura com o diesel, não tem nada haver com a alta nos preços dos alimentos, haja vista que esses produtos não conflitam com as terras onde se plantam milho, arroz, soja, feijão, trigo, ou seja, no Brasil não temos o conflito de interesse entre a geração de energia e a produção de alimentos. Pelo contrário !
As estimativas da Conab- Companhia Nacional de Abastecimento para a área plantada com grãos sinalizam para um crescimento ligeiramente superior em relação à safra passada; a área com arroz deverá crescer 1,3%, possibilitando atingir 11,9milhões/toneladas; o milho crescerá 3,0%, atingindo 56,2 milhões/ton; a soja irá crescer 2,3% elevando a produção para 59,9 milhões/ton. e o feijão terá um crescimento de área estimado em 6,3%, permitindo obter 3,4 milhões de toneladas. Os números mostram que num país que dispõe de 850 milhões de hectares de terra, dos quais a metade são áreas agricultáveis, não há porque falar em substituição de culturas para a produção de biocombustíveis.
Com relação à cana-de-açucar, matéria-prima para o etanol, as expectativas da Única - União da Indústria de Cana-de-Açucar são para um crescimento da produção da ordem de 16%, em relação à safra anterior, sinalizando para uma safra recorde de 498,1 milhões de toneladas. Do total da cana a ser moída, 58% deverão ir para a produção de álcool, perfazendo 24,3 bilhões de litros (dos quais 3,9 bilhões serão exportados) o equivalente a um crescimento de 19% em comparação a 2007/08. Assim, nem o etanol colide com os grãos e vice-versa.
Esse desempenho da indústria sucroalcooleira está referido à forte atração exercida pelo combustível ecologicamente correto, o que atraiu novos investidores para o setor. Só este ano, 32 novas usinas entraram em operação na região Centro-Sul, totalizando 84 nos últimos quatro anos. Na opinião dos especialistas, a entrada dessas novas unidades produtivas gera duas conseqüências: i) a safra terá matéria-prima mais jovem, com a média de vida da cana a ser cortada em torno de três anos; e ii) um aumento na mecanização da cultura, cuja colheita mecanizada deverá superar 50% da área a ser colhida.
Em que pese o excelente desempenho dos nossos combustíveis oriundos do campo, dois aspectos merecem registro: a) a perda da hegemonia da tradicional agroindústria canavieira nordestina para o Centro-Sul, significando menos recursos investidos, empregos gerados e impostos arrecadados na região: vale dizer, dentre as 32 usinas instaladas no país neste ano, 13 foram em São Paulo, 10 em Goiás, 4 em Minas e 1 no Paraná; e b) cresce a perspectiva de desemprego para o trabalhador utilizado na colheita manual, pela aumento da mecanização no campo.
A realidade brasileira demonstra que não nos cabe a carapuça que os ricos tentam impor aos países em desenvolvimento. A fome e a atual elevação dos preços dos alimentos é muito mais função da intransigência dos ricos, do que da boa vontade dos emergentes.

Antoir Mendes Santos
é Economista.



       




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