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MOSSORÓ (RN), QUARTA-FEIRA, 28/05/2008 (ATUALIZADO: 01:37hs)
 
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POR AMOR AOS ANIMAIS
Flávio Rezende

A caminhada que dá início há meus dias santifica os sentidos e diviniza a vida. Como moro num Rio Grande do Norte, abençoado por um vasto e belo litoral, algumas vezes tenho o prazer de estar inserido num contexto mais aberto e radicalmente natural. Neste ambiente, predomina um cenário que provoca um grande contentamento interior, quando estamos com os olhos abertos para o paradisíaco ver, com o coração livre para o maravilhoso sentir e, receptivos aos sinais que a quadratura planetária nos oferta, em doces e generosas porções de um banquete universal de sons e tons, sem iguais.
E hoje os passos enveredaram por caminhos de luz. Longe das mazelas e agruras da cidade com seus habitantes, carros, sons e estresses constantes, bailei meu corpo pela beira do mar, seguindo por um caminho repleto de lindinhas plantinhas, devidamente pintadas pela estação chuvosa, como pontos multicoloridos ao léu, balançando ao suave frescor da brisa matinal, anunciando para este escrevinhador apaixonado, um dia prazeroso e feliz.
E assim segui, até ter a visão desviada para um bezerrinho correndo no alto de uma duna. A simples captação do seu doce deslocar, provocou rapidamente uma descarga elétrica de benéficas endorfinas e de serotoninas, aureolando meus corpos físico e espiritual, do mais edificante bom humor, que alcançou picos de elevação, quando surgiram em seguida, dois outros seres, a saber, a mãe e um outro irmão, formando um trio fantástico, que suavemente deslizava pelas brancas areinhas, como num filme de final feliz, nas doces recordações mentais das sessões infantis do meu passado, onde os animais animados por inspirados roteiristas, sempre viviam alegres, contentes e satisfeitos.
A sessão de prazeres proporcionada pelo universo animal estava apenas começando. A divindade me apresentava, como numa película previamente editada, uma sequência impressionante de cânticos de pássaros de espécies variadas, sinfonizando com acordes de difícil explicitação escritural, os passos molhados por suave tocar da água do mar, com sua textura dócil e seu afagar materno.
E os urubus no céu coreografavam voos em torno de uma tartaruga desencarnada, num café da manhã farto para muitos deles que, felizes, agradeciam o domingo de carne e de mesa posta.
Por entre pedras que emolduram a beira mar, uma serelepe lagartixa balança o rosto, no que retribuo com animado vigor. Lindas e transparentes marias farinhas, primas dos caranguejos e dos siris, correm feito crianças em animadas brincadeiras, entrando e saindo, de buraquinhos lindinhos, ampliando minha satisfação e, provocando gargalhadas, minha contribuição para suas vidas e felicidades pessoais.
E assim fui indo, vendo, sentindo, me dividindo em cada sensação, me encontrando em cada visão, agradecendo sempre a Deus por ali estar, por sentir um puro amor, um lindo amor, pelos animais.
Por amor a eles, renunciei em determinado momento de minha vida o consumo de carne animal, de qualquer tipo. Somos milhões no planeta e vivemos felizes, saudáveis. Não existe nenhuma justificativa plausível para que se consuma carne animal, retirando do cotidiano infinitas formas de vida, lindas, que deveriam cumprir suas trajetórias espirituais pessoais, suas evoluções.
Quando nos aprofundamos na busca espiritual, passamos a perceber que somos todos UM. Cada morte mata um pouco de nós mesmos. Cada animal sacrificado é uma separação familiar, irmãos perdem irmãos, pais perdem filhos, avós se distanciam de netos.
Se vivemos muito bem na doce companhia de nossas amigas frutas, verduras, grãos, raízes, legumes e milhares de outras formas de vida, criadas para nos servir, por qual motivo matamos nossos companheiros de jornada, pelo simples fato de estar apenas um degrau a menos na escala evolutiva?
Sou feliz, saudável, não carrego dentro de mim o sabor amargo do sacrifício dos nossos amigos, antes pelo contrário, eles estão sempre comigo, em seus ambientes naturais, vivendo, voando, rastejando, caminhando, trotando, nadando, são lindos, são belos, são meus amados irmãos.

FLÁVIO REZENDE é escritor e jornalista em Natal/RN (escritorflaviorezende@gmail.com)



       




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