

É
hora de agir
Alcyr Veras
São medidas necessárias para o momento, mas devem
ser acompanhadas de outras, como por exemplo, incentivo aos investimentos
privados, por serem mais reprodutivos e darem respostas a curto
prazo.
O que nos assusta com essa rápida elevação
de preços acima dos índices esperados? Duas coisas
fundamentais que estamos cansados de saber, inclusive por serem
naturalmente óbvias, são as seguintes: o aumento da
oferta faz os preços baixarem e o aumento da produção
gera novos empregos. Visto dessa maneira, parece tratar-se de coisas
muito simples. E são realmente simples. Mas, para algumas
pessoas, as coisas claras e evidentes parecem ofuscar-lhes a visão,
impedindo de vê-las com lucidez.
A ameaça da inflação exceder ao controle, constitui
hoje a principal fonte de preocupação do governo,
razão pela qual o Banco Central elevou recentemente a taxa
SELIC em 0.5 pontos percentuais, fixando-a em 12.25% ao ano. De
imediato, isso causa a redução da oferta monetária,
o que teoricamente reduziria a pressão inflacionária
sobre os preços. Por outro lado,porém, a redução
da oferta monetária, aliada à elevação
da taxa de juros, faz aumentar o custo do dinheiro, o que, conseqüentemente,
provoca a diminuição da demanda. A queda do consumo,
por sua vez, diminui o ritmo da atividade econômica fazendo
aumentar a taxa de desemprego, ou, na melhor das hipóteses
não cria novos empregos. Essa complicada teia lembra o caso
típico do chamado lençol curto.
O efeito dominó que se inicia com uma tímida variação
de preços, vai, aos poucos, provocando uma reação
em cadeia, sempre crescente, que se espalha nas mais variadas direções
e acaba, assim, contagiando todos os segmentos econômicos.
É lamentável saber que determinados setores da economia
(infelizmente são poucos), ainda preferem trabalhar com expectativas
inflacionárias, apoiados na falsa tese dos ganhos fáceis
e do acúmulo lotérico de fortunas. Parte da elite
econômica brasileira de hoje, oriunda da classe média
alta, chegou ao topo da pirâmide social graças a um
passado promissor, franqueado por ações
políticas paternalistas, por concessões e facilidades
chanceladas pelo poder público e, em alguns casos, com a
complacência do regime militar de então. Elite essa
que construiu um patrimônio exuberante na esteira da gorda
generosidade da inflação, cunhou uma imagem
de sucesso ocupando espaços vitais na política e na
atividade econômica. O surgimento do Real, no entanto, fez
ruir, para aquela sociedade do over night, a festa inflacionária
que a divertira por mais de duas décadas.
O atual governo tem razão em manter uma política vigilante
sobre o controle da inflação. Inicialmente, a elevação
de preços estava concentrada apenas nos alimentos, mas agora
a inflação já começa a atingir também
outros produtos e serviços. É hora de agir.
Na reunião do Presidente Lula com sua equipe econômica
foram propostas medidas, tais como: a elevação do
superávit primário de 3.8% para 4.8% do PIB; mais
cortes nos gastos públicos; conter a expansão do crédito;
e conceder reajustes mínimos para programas sociais como
o bolsa-família e outros.
São medidas necessárias para o momento, mas devem
ser acompanhadas de outras, como por exemplo, incentivo aos investimentos
privados, por serem mais reprodutivos e darem respostas a curto
prazo. Somente não posso concordar com a idéia dos
seguidores do modelo anti-expansionista, que acham que a inflação
só pode ser controlada através da repressão
ao consumo.
Alcyr
Veras
é Economista.
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