

Considerações sobre junho
Ainda
bem que junho vai no fim. Tenho visceral antipatia pelos festejos
juninos, e é desde que me entendo por gente. Coisa mais sem
sentido. E esse são-joão de agora, entre carnaval
e não sei mais o que seja, então, me enche definitivamente
o saco. Não sei se nos lugares com tradição
de festa junina, como é o caso de Campina Grande e Caruaru,
o são-joão mudou de como era.
Mas não será um são-joão de todo improvisado
como o da cidade daqui, que, a bem da verdade, nunca teve tradição
de festa junina oficial. Pelo menos que eu saiba. Quero dizer, nas
cidades com essa tradição, velha e revelha, sem esquecer
o Assu, aqui bem pertinho de nós, mesmo que o são-joão
se tenha desfigurado da feição antiga, há de
restar sempre, em boa dose, alguma coisa do passado mais passado.
Evidente que essa minha antipatia pelos festejos ditos juninos,
confesso, não é mesmo tão radical assim como
se possa pensar pelo que ficou dito. Não. Quando o são-joão
era tipicamente uma festa sertaneja, ou então, uma festa
da religiosidade sertaneja, se achar melhor assim, até que
eu o apreciava, mas sempre a distância. As lanternas de papel
colorido, à feição de estrelas, na frente das
casas, logo à boquinha da noite, uma beleza!
As meninas brincando de roda em redor das fogueiras, os balões
de Pedro Abílio e Miraboa (que era Mirabeaux Dantas) soltados
da cantaria da calçada de casa e ganhando as alturas até
desaparecerem suas cores acesas (isto lá na minha terra),
ah! tudo aquilo me comunicava ao espírito um enlevo poético
em forma de visão das plagas sertanejas. E havia em tudo,
por falar assim, um cheiro de primitiva inocência.
Mas esse carnaval junino, muito vistoso porém sem graça
nenhuma, pelo menos para mim, não, essa idiotice não
dá mesmo para matar no peito, usando a linguagem do futebol.
Pois é isso mesmo. Ainda bem que junho vai se findando, com
essas fogueiras de fumaça, até de molambos e trastes
velhos, que se espalham pela minha rua, de uma ponta à outra,
e ardendo a noite toda - para desgraça dos meus olhos glaucomatosos.
Alcides
Morre em Fortaleza, aos 83 anos, o escritor e poeta José
Alcides, vítima de acidente no trânsito. Perda numerosa
para a literatura cearense. José Alcides nos deixou, entre
outras obras, o romance Os Verdes Abutres da Colina. O real fantástico.
Jornal
Já na oficina a nona edição do Poranduba, jornal
do ICOP, editado pelo seu presidente, Rubens Coelho.
Espírito
A graça dos festejos juninos está da parte do espírito
de tradição.
LINGUAGEM
ANTES DA
FESTA COMEÇAR... Que tal? A gramática normativa vê
aí erro de regência. Entende que a preposição
"de" está regendo o sujeito "festa".
Nada mais falso. Trata-se, em verdade, de um caso de eufonia. Tanto
se pode construir "ante da festa começar" como
"antes de a festa começar". É a lição
dos mestres João Ribeiro, Silveira Bueno e, atualmente, Evanildo
Bechara, o maior gramático vivo do Brasil. Uma e outra construção
encontramos na tradição clássica da língua.
|