

O
fraudulento processo eleitoral
Ticiano Duarte
Não aprecio, nem estimo os que se julgam donos da verdade.
Ninguém está acima do julgamento da história,
que não é historiografia oficial e encomendada. Um
dia há de se contar, neste país e em particular, no
Rio Grande do Norte, o que de podre sobrou do promíscuo e
viciado processo eleitoral. Dando nomes aos bois.
Eleições sujas aos longos dos anos. O período
das brejeiras, dos mapas e atas falsas, do alistamento
fraudulento, da troca dos votos nulos e brancos para votos válidos;
deputados, prefeitos, vereadores eleitos da forma mais escandalosa
de desrespeito à vontade popular; o cinismo da compra de
votos (hoje mais forte do que no passado); o uso da máquina
estatal, da coação direta e indireta; as reformas
eleitorais que ficaram no papel e até agora não alcançaram
objetivos práticos para evitar a repetição
dos vícios de antigamente; a armação
de hoje dos marqueteiros e das campanhas milionárias.
Agora, magistrados e promotores públicos estão unidos
na campanha nacional em prol de eleições limpas. Uma
cartilha foi elaborada para tentar conscientizar o eleitorado da
necessidade de colaborar com a justiça eleitoral, denunciando
abusos e apontando candidatos com fichas sujas, envolvidos em crimes
contra o patrimônio público e outros mais.
Faço questão de aplaudir o objetivo patriótico
de muitos magistrados e membros do ministério público,
de sepultar um abuso que tem raízes profundas na cultura
da política brasileira. Compra-se votos abertamente. Estão
aí presentes ainda os políticos que se beneficiaram
e se beneficiam dessa proeza que para muitos é
sabedoria e argúcia. E andam por aí querendo falar
em ética e dignidade políticas.
É preciso não contemporizar com engodo eleitoral.
Temos dever de dizer ao povo que a batalha eleitoral continua a
ser uma farsa até que o poder econômico não
tenha a força que ainda dispõe para subornar e aliciar,
influir na decisão que deveria ser soberana do povo.
Antes mesmo da reforma eleitoral é necessária a reforma
política. Com este atual quadro, com esta atual legislação
partidária, creio, impossível, realizar a desejada
e sonhada eleição livre e democrática.
Outra coisa negativa na nossa realidade político-eleitoral
- os falsos eleitos. E são esses falsos eleitos em grande
número que compõe as casas legislativas, o Congresso
Nacional, o cenário sem méritos de nossa vida republicana,
de uma insuportável oligarquia, que desfigura o regime.
Em meio a tantos escândalos que nos deixam perplexos, eis
que a imprensa noticia nestes últimos dias a escolha de um
parlamentar para presidir o Conselho de Ética da Câmara
dos Deputados. Ele é acusado de lenocínio, receptação
de jóias e até e agressão. Para presidir um
órgão que julga os crimes praticados pelos seus pares,
os que têm sua reputação atingida pelos desvios
de conduta, por práticas que ferem a dignidade da vida parlamentar.
Uma função que exige do seu titular conduta exemplar,
acima de quaisquer suspeitas.
Lembro Carlos Lacerda, em 1956, no auge de uma crise política
e institucional, no exílio voluntário, nos Estados
Unidos, escrevendo a um amigo, relatando sua decepção
com os vícios da política brasileira e dos seus homens.
Prometendo voltar, dizia: Mas não voltarei para bracejar
no vazio, vendo o povo em grande parte animar-se com o que se lhe
diz, mas decompor-se, desalentar-se, desacreditar de tudo e de todos,
e se dispor para ação e dá os nomes aos bois,
característica da falência de uma democracia que nunca
chegou, ainda a abrir verdadeiramente as suas portas.
Cenário parecido com os dias presentes. A hora é de
reformular tudo que está aí viciado e decadente. E
aos partidos cabe a primeira arrancada, de limpar seus quadros,
para somar no esforço de realizar eleições
que não venham novamente envergonhar os nossos supostos brios
de cultura e civilização.
Ticiano
Duarte
é jornalista.
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