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MOSSORÓ (RN), QUINTA-FEIRA, 26/06/2008 (ATUALIZADO: 01:27hs)
 
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O fraudulento processo eleitoral
Ticiano Duarte

Não aprecio, nem estimo os que se julgam “donos da verdade”. Ninguém está acima do julgamento da história, que não é historiografia oficial e encomendada. Um dia há de se contar, neste país e em particular, no Rio Grande do Norte, o que de podre sobrou do promíscuo e viciado processo eleitoral. Dando nomes aos bois.
Eleições sujas aos longos dos anos. O período das “brejeiras”, dos mapas e atas falsas, do alistamento fraudulento, da troca dos votos nulos e brancos para votos válidos; deputados, prefeitos, vereadores eleitos da forma mais escandalosa de desrespeito à vontade popular; o cinismo da compra de votos (hoje mais forte do que no passado); o uso da máquina estatal, da coação direta e indireta; as reformas eleitorais que ficaram no papel e até agora não alcançaram objetivos práticos para evitar a repetição dos vícios de antigamente; a “armação” de hoje dos marqueteiros e das campanhas milionárias.
Agora, magistrados e promotores públicos estão unidos na campanha nacional em prol de eleições limpas. Uma cartilha foi elaborada para tentar conscientizar o eleitorado da necessidade de colaborar com a justiça eleitoral, denunciando abusos e apontando candidatos com fichas sujas, envolvidos em crimes contra o patrimônio público e outros mais.
Faço questão de aplaudir o objetivo patriótico de muitos magistrados e membros do ministério público, de sepultar um abuso que tem raízes profundas na cultura da política brasileira. Compra-se votos abertamente. Estão aí presentes ainda os políticos que se beneficiaram e se beneficiam dessa “proeza” que para muitos é sabedoria e argúcia. E andam por aí querendo falar em ética e dignidade políticas.
É preciso não contemporizar com engodo eleitoral. Temos dever de dizer ao povo que a batalha eleitoral continua a ser uma farsa até que o poder econômico não tenha a força que ainda dispõe para subornar e aliciar, influir na decisão que deveria ser soberana do povo.
Antes mesmo da reforma eleitoral é necessária a reforma política. Com este atual quadro, com esta atual legislação partidária, creio, impossível, realizar a desejada e sonhada eleição livre e democrática.
Outra coisa negativa na nossa realidade político-eleitoral - os falsos eleitos. E são esses falsos eleitos em grande número que compõe as casas legislativas, o Congresso Nacional, o cenário sem méritos de nossa vida republicana, de uma insuportável oligarquia, que desfigura o regime.
Em meio a tantos escândalos que nos deixam perplexos, eis que a imprensa noticia nestes últimos dias a escolha de um parlamentar para presidir o Conselho de Ética da Câmara dos Deputados. Ele é acusado de lenocínio, receptação de jóias e até e agressão. Para presidir um órgão que julga os crimes praticados pelos seus pares, os que têm sua reputação atingida pelos desvios de conduta, por práticas que ferem a dignidade da vida parlamentar. Uma função que exige do seu titular conduta exemplar, acima de quaisquer suspeitas.
Lembro Carlos Lacerda, em 1956, no auge de uma crise política e institucional, no exílio voluntário, nos Estados Unidos, escrevendo a um amigo, relatando sua decepção com os vícios da política brasileira e dos seus homens. Prometendo voltar, dizia: “Mas não voltarei para bracejar no vazio, vendo o povo em grande parte animar-se com o que se lhe diz, mas decompor-se, desalentar-se, desacreditar de tudo e de todos, e se dispor para ação e dá os nomes aos bois, característica da falência de uma democracia que nunca chegou, ainda a abrir verdadeiramente as suas portas”.
Cenário parecido com os dias presentes. A hora é de reformular tudo que está aí viciado e decadente. E aos partidos cabe a primeira arrancada, de limpar seus quadros, para somar no esforço de realizar eleições que não venham novamente envergonhar os nossos supostos brios de cultura e civilização.

Ticiano Duarte
é jornalista.



       




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